Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O direito à indignação

Anabela Bragança, uma professora de Coimbra, indignada, responde a Miguel de Sousa Tavares, tendo em conta um  artigo publicado no expresso





A resposta que li aqui é um  um texto fabuloso que trancrevo,
Caro Miguel


Desde já peço desculpa pela familiaridade do trato, mas como nos conhecemos tão bem sinto-me no direito de ser mais tu-cá-tu-lá consigo. Li o seu artigo sem adulteração, aquele do Expresso do último sábado, do dia 15 de Junho de 2013. Escrevo a data completa porque a quantidade de textos que debita poderiam criar na sua cabeça alguma confusão sobre o espaço temporal a que me refiro. Devo dizer que é um texto bem escrito, daqueles que se aprendem a escrever quando se tem uma professora à moda antiga, das que nos ensinam a amar o saber e fazer da vida uma busca continua desse mesmo saber, das que nos ensinam a ter espírito critico, das que nos ensinam a pensar e a usar com racionalidade essa fundamental característica que é uma das que nos distinguem das restantes espécies da Classe Mammalia. Como se deu ao trabalho de fazer uma breve introdução romanceada do seu percurso pelo primeiro ciclo, então escola primária, vou, também eu, essa breve introdução, sem as figuras de estilo que o Miguel usa, porque em mim a escritora não pode florescer por falta não de vocação que essa até tenho, mas de tempo, e a seu tempo entenderá o porquê. Então vejamos, em 1976 entrei na escola primária. A escola que me acolheu, uma das obras positivas do tempo assumidamente autocrático, era linda, branca, com casas de banho que por acaso não funcionavam mas estavam lá, com as paredes preenchidas pelos trabalhos de desenho dos meus colegas mais velhos que a minha arte ainda não se tinha manifestado. Sabe porque é que a minha escola era linda? Porque eu não sou filha de nenhuma escritora, nem nenhum deputado, nunca os meus olhos tinham visto tanto livro junto, e refiro-me a meia dúzia que havia lá pela minha escola de aldeia, longe de Lisboa e do Porto. Sabe Miguel, acredito que pense efectivamente que sabe, ou não tivesse sido aluno da D. Constança, as vivências da realidade são diferentes de ser humano para ser humano, e por isso o quadro feio e negro da escola do Miguel pode ser belo e muito colorido para alguns dos seus colegas de carteira. Mas deixemos isto e continuemos na saga do meu percurso escolar. Tal como o Miguel também na minha escola éramos muitos, tanto que nem me lembro do número, será porque isso nunca foi relevante? É que das pessoas ainda me lembro bem, das brincadeiras também, das aulas também… As duas salas estavam sempre cheias, como um ovo, havia dois turnos de aulas com 4 professoras, duas de manhã e duas de tarde. A mim calhou a D. Maria Isabel, uma mulher linda, com o seu cabelo cinzento e os lábios pintados de uma cor fabulosa, um tom de laranja doce. A D. Maria Isabel acabou de me ensinar a ler, que alguma coisa a minha teimosia já me havia feito aprender. Sabe Miguel, em algumas situações a teimosia é uma característica boa, de tal forma que no final do primeiro período já eu substituía a minha avó na leitura de “O amigo do Povo” às suas comadres analfabetas. Vou agora refrescar-lhe a memória em relação ao que era o primeiro período: - período de tempo que mediava entre Outubro e meados de Dezembro, suponho que entende o que lhe estou a dizer, mas se não informe-se junto de alguns psicólogos e pedagogos credíveis. Abreviando um pouco, e quase para terminar este parágrafo, devo dizer-lhe que a minha professora foi tão boa que em 3 anos resolveu comigo as questões que para muitos se resolviam em 4, e para outros muitos em mais de 4. Tal como a sua, também a minha deixou em mim um apetite voraz para as letras, chamava-me “papa livros” tal era a minha voracidade, e todas as semanas, levava de Coimbra para mim muitos livros. A minha professora Maria Isabel era uma mulher completa com marido, 3 filhos, sendo um surdo-mudo, pais e sogros. Vivia do seu trabalho e como tal faltou algumas vezes, pois não tinha possibilidades económicas para delegar responsabilidades. Mas sabe o que lhe digo, foram muitos os alunos que mandou para a universidade, que hoje até lêem o que o Miguel escreve com espírito crítico. Neste momento poderia considerá-lo um mentecapto e situar este comentário no seu texto brilhante, mas não o vou fazer, porque o Miguel também teve uma boa professora na escola primária.


Mudando de parágrafo e de assunto, tal como o Miguel, sei que o país está à beira da bancarrota, mas na minha família só o direito ao voto responsabiliza por essa situação, sabe porquê? Nunca nenhum dos meus progenitores ocupou lugar em nenhuma das cadeiras da Assembleia da Republica, por partido nenhum quanto mais por dois e ainda mais relevante, nunca nenhum dos meus progenitores foi ministro. Sinto muito Miguel por ter que lhe lembrar que algumas das responsabilidades da miséria que crassa por esse Portugal fora tem genes que lhe foram a si entregues. Mais ainda, na minha família toda a gente produz, desde tenra idade. Sobre trabalho o Miguel, por certo, teria muito a prender comigo e com os meus.


Voltemos agora ao ainda cerne desta questão, a greve dos professores. Sabe Miguel, depois de ler o seu texto, volto a dizer, sem adulterações, fiquei a pensar se o seu sistema digestivo seria igual ao dos restantes mamíferos. E confesso que esta dúvida já me assaltou algumas vezes frente aos seus escritos. Em relação aos professores o Miguel não sabe nada do que pretende dizer, seria bom e revelador de algumas sinapses activas, que se calasse até conseguir saber sobre o que se pronuncia. Eu sou professora, há já muitos anos, executo a profissão que sempre quis ter, lá por causa da minha rica professora Maria Isabel, e trabalho que me desunho, e não falto, e estou disponível para os meus alunos até para ser mãe. O meu horário semanal (e o da maioria) tem sempre muito mais do que as 40 horas agora na moda, tenho que me preparar, nem sequer para cada ano é mesmo para cada turma, pois são sempre diferentes os alunos e as suas interacções; tenho que os avaliar, e isso exige muito pois sou acérrima defensora da avaliação formativa; tenho que tentar manter-me actualizada pois lecciono uma disciplina das ciências mais vanguardista, e isso requer muito tempo (percebe agora porque não me dedico mais à escrita?). Eles, os meus alunos, que são quem me importa, sabem disso! Acho de uma arrogância tola o Miguel vir pronunciar-se sem saber do que fala. Eu também sou leitora e agora vou aqui falar de um escritor medíocre que já li. Vou tecer comentários sobre obras e escrita que conheço, não sobre números de origem duvidosa! O Miguel escreve com a qualidade necessária para ser comercial, isto é para ganhar dinheiro, muito por sinal. Quer assumir-se como um Eça? Sabe que está a anos luz, sobra-lhe a capacidade descritiva, mas falha nos pormenores, vou dar-lhe um exemplo concreto: descreve cenas de sexo/amor com minúcia, mas impraticáveis por imposição das leis da física. Tenta ser um critico social, mas o seu azedume natural tira-lhe a graça e a leveza que tornam Eça sempre actual. Poderia continuar mas acho que já consegue perceber onde quero chegar. O Miguel é um escritor medíocre, mas isso não faz com que todos os escritores de Portugal o sejam, repare a sua mãe até ganhou um prémio Camões. Até sei que vai pensar que estou a ser ressabiada, será um argumento de defesa legítima uma vez que o estou a atacar, mas totalmente desprovido de verdade. Entenda o que lhe quero dizer de forma clara, há professores medíocres mas a maioria é bastante boa, empenhada e esforçada. Esta greve serviu apenas para mostrar ao governo que o caminho da mentira e do enxovalhamento público tem que acabar. Os direitos dos alunos estão a ser salvaguardados, é certo que temos menos alunos, mas também é certo que cada ano as turmas são maiores e os problemas sociais, que entram sempre pela sala de aula dentro, são cada vez mais. Sabe Miguel, seria mais proveitoso para os alunos trabalhar em salas com menos crianças/jovens e consequentemente menos problemas do que em salas cheias até à porta. Sabe que assim poderíamos desenvolver o espírito critico desses jovens e aí as coisas mudavam um pouco… Já imaginou um país em que a maioria dos cidadãos tivesse espírito crítico? Imagina o destino que seria dado aos medíocres? Acha que haveria lugar a tantas PPP’s? Acha que o dinheiro do Estado Social (faço aqui um parêntesis para lhe dizer o que é o estado social, que eu sustento: EDUCAÇÃO, SAÚDE e SEGURANÇA SOCIAL) seria desbaratinado em manobras bizarras sem que fossem pedidas contas? Acha que os gestores das empresas públicas que acumulam prejuízos continuariam a ser premiados? Acha que se assistiria a uma classe política corrupta, incompetente e desavergonhada de braços cruzados? Acha que haveria prémio para a mediocridade de textos que vendem como cerejas à beira do caminho? Ai Miguel depois destas questões até o estou a achar inocente… acabei de ficar com aquele sorriso que dou aos meus alunos travessos, mas simples, só que para eles é para os conduzir ao bom caminho, para si é mesmo com condescendência.


Falou no seu texto no estado calamitoso em que se encontram as contas públicas, e sou forçada a concordar consigo, só tenho pena que apenas consiga ver o erro, e lhe falte a coragem para imputar responsabilidades. O país está neste estado por causa dos decisores políticos e dos fazedores de opinião, entre os quais o incluo. A má gestão é que nos levou a este marasmo, não fui eu, nem os meus pais. Desde muito jovem que justifico o que como, foi assim que fui educada, é assim que educo os meus filhos e até os meus alunos, dentro do possível. Da má gestão posso ser responsabilizada por votar, mas sempre o fiz em plena consciência, acreditando que dava o meu voto a um ser humano digno. E continuo a fazê-lo! Quanto aos fazedores de opinião é um problema acrescido, porque esses nascem do nome que carregam, tal como o Miguel bem sabe. Por isso lhe digo em jeito de conclusão, este texto só será lido em blogues, porque o apelido Bragança não me abre as portas dos jornais. Fique bem Miguel e quando não conseguir mais dormir, por ter tomado consciência da sua responsabilidade pessoal no estado em que se encontra o país, não pense logo em suicídio, tome primeiro Valeriana e se não resolver tome Xanax.


Anabela Bragança, professora de Biologia, ainda com alegria e orgulho!


Coimbra, 19 de Junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Entre margens"

No próximo dia 27 vou estar em Coimbra a apresentar o meu novo livro de poesia (desta vez para adultos) Realmente são dois livros em um, como explico em nota introdutória

Em 2012 fui contemplada com o 1º prémio no XVII concurso Poesia em ti, promovido pela APPACDM de Setúbal. Do prémio fazia parte a edição, pela Editora Lua de Marfim, de um livro de poesia. Assim surge este livro.

 Entre margens, os rios, entre margens os textos nas páginas. Uns e outros galgam-nas por vezes. Os textos desta coletânea, agora entre margens, já as galgaram ao longo das suas vidas, por vezes com alguns anos. Aqui se incluem não só textos atuais mas também outros que não foram incluídos nos livros anteriormente publicados. Todos foram sendo organizados em projetos, entre eles Poemas no espaço-tempo e Entre margens. O primeiro chegou a ter edição agendada pela editora Campo das Letras, que infelizmente já não existe. Em 2007 foi prefaciado pelo escritor Carlos Vaz, mas de então para cá foi engrossado com mais poemas, nomeadamente o que foi premiado no concurso de poesia que deu lugar à edição desta obra, um conjunto de poemas selecionados a partir dos projetos acima mencionados.
 

 
 
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Ainda a greve dos professores


As minhas raízes alfandeguenses vibraram hoje com a mensagem que  que li aqui

Só um professor compareceu na escola

Apenas um dos 62 professores convocados compareceu no Agrupamento de Escolas de Alfândega da Fé (Bragança) esta manhã, inviabilizando a realização do exame de Português, adiantou ao Mensageiro de Bragança José Lopes, o diretor do agrupamento. “Também os educadores fizeram greve, pelo que não há nenhuma creche a funcionar”, disse.

Ao todo, foram afetados cerca de 30 alunos. “Como ainda não saíram as notas da avaliação contínua, todos os nossos alunos internos estavam propostos a exame”, explicou.


Força, professores...
O texto que segue, extraído daqui, não deixa dúvidas quanto à justeza da luta.

Para que serve a greve dos professores?

(...)Os professores têm de saber muito bem aquilo que ensinam, mas têm também de saber comunicar o que sabem. E precisam de saber motivar os alunos, nomeadamente aqueles para quem o próprio conhecimento não é motivação suficiente. Contudo, isso não basta. Os professores têm ainda de saber manter a disciplina de modo a que nas aulas exista um ambiente favorável à aprendizagem. Atualmente espera-se também que os professores saibam detetar os problemas pessoais e familiares dos alunos e sejam uma espécie de psicólogos e assistentes sociais. Assim, a um professor é exigido: conhecimento, clareza e rigor, autoridade, calma e ponderação, capacidade de reação, criatividade, iniciativa e dinamismo, imparcialidade, etc.

Mesmo que retirássemos da lista algumas expectativas exageradas e inadequadas, continuaria a ser muita coisa. Por isso, mas não só, os professores precisam de tempo para preparar as aulas, elaborar e corrigir testes e as muitas outras tarefas que têm a seu cargo. Precisam de tempo para ler e pensar. Precisam de tempo para aprender. E precisam de tempo para a vida pessoal e familiar: sim, para serem bons professores precisam de dedicar tempo à vida pessoal e familiar.

Contudo, o que se tem passado nos últimos anos vai no sentido contrário: mais horas de aulas, mais disciplinas ou níveis, mais turmas e mais alunos, mais horas de atividades não letivas, mais relatórios e outras burocracias que consomem cada vez mais tempo. Atualmente, a maior parte dos professores trabalha muito mais do que as 35 horas semanais que têm no horário e mais até que as 40 horas que o governo quer implementar. Enquanto muitos professores estão no desemprego, os outros trabalham demais e com cada vez menos condições para fazer um trabalho de qualidade.

Os professores trabalham mais mas recebem menos dinheiro, devido aos cortes salariais e de subsídios e ao facto de as progressões na carreira estarem congeladas há anos. Este último aspeto é particularmente absurdo, pois os professores continuam a fazer as ações de formação exigidas pela lei e a cumprir os trabalhosos e burocráticos procedimentos da avaliação do desempenho docente, mas depois isso não tem qualquer consequência nem no salário nem na progressão na carreira.

Não admira por isso que nas escolas cresça o desalento. Os professores, senão todos pelo menos a grande maioria, sentem-se pressionados, perseguidos e desrespeitados. Tentam não se sentir encurralados e não baixar os braços, mas isso é cada vez mais difícil.

Ora, as medidas que este governo pretende adotar vão piorar ainda mais essa situação. No próximo ano as direções de turma deixarão de fazer parte da componente letiva e por isso muitos professores darão mais uma hora de aulas do que davam. O ministro da Educação prometeu que o aumento da carga horária para 40 horas semanais não implicaria um aumento das horas letivas, mas existe o receio – infelizmente plausível, dados os antecedentes - de que a promessa não seja cumprida ou seja apenas cumprida formalmente e não na prática (por exemplo através da transferência dos 100 minutos de apoio para as horas não letivas, à semelhança do que vai acontecer com a direção de turma). Se a isso acrescentarmos a mobilidade especial e a possibilidade de ser obrigado a trabalhar muito longe de casa ou ir para o desemprego, ao desalento provocado pela falta de condições de trabalho juntam-se a insegurança e o medo.

Mas como é que professores que se sentem desalentados e com medo podem ser rigorosos e criativos nas aulas? Como é que conseguem ter autoridade diante dos alunos se são publicamente desrespeitados pelo governo? Um escravo pode ser obrigado a trabalhar se o trabalho implicar apenas força física, mas não se implicar inteligência e criatividade. Por isso, mesmo que, por hipótese, o governo tenha razão quanto à necessidade de austeridade, não tem razão relativamente ao modo como está a tratar os professores.

O dinheiro que o governo poupará com as medidas que quer adotar não compensará a despesa implicada pela diminuição da qualidade do ensino e com o insucesso escolar dela decorrente.

É por isso, e não por estarem a ser manipulados pelos sindicatos, que tantos professores fizeram greve às reuniões de avaliação e hoje não foram vigiar o exame de Português. E é também por isso que a greve não é contra mas sim a favor dos alunos.


Termino com um comentário publicado no Público on-line
Não sou aluna de 12.º ano, mas sim de 11.º, com exames nacionais a realizarem-se amanhã (dia 18, Biologia e Geologia) e sexta-feira (dia 21, Física e Química A). Contudo, penso que tenho o direito e o dever de me manifestar.
Tenho familiares professores e conheço bem a vida precária que têm tido nestes últimos tempos, quer com a antiga ministra da Educação (no Governo de Sócrates), quer com o actual ministro, Nuno Crato. E é completamente justificável, sobretudo por um lado, a greve aos Exames e às reuniões de Conselho de Turma, pois só uma greve nesta altura é que traria o impacto necessário… Os professores não são máquinas, são acima de tudo pessoas que merecem ser valorizadas e recompensadas pelo seu trabalho, pois nenhuma profissão seria conseguida sem ter por base um professor. Um médico para ser médico precisou de vários professores.
Se por um lado esta greve poderá trazer benefícios aos professores (e assim o espero), esta também é feita a pensar nos estudantes: como é possível uma turma funcionar com 30 alunos (ou mais)? Como é possível conseguir dar um bom acompanhamento aos alunos se há 30 dentro de uma sala? Já para não falar em aulas de turno, nomeadamente, em Física e Química, nas aulas laboratoriais. É muito difícil gerir um turno de 15 pessoas, cada grupo a desenvolver a sua actividade prática, ainda para mais se a turma for “complicada”… O Governo trata mal os funcionários públicos, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, e eu concordo com ele. O Governo, teimoso e manhoso, devia ceder, neste cíclico e vicioso.
Esta greve, que em princípio não se prolongará, não irá afectar os meus exames… Mas afecta os alunos de 12.º ano, cuja média final depende da nota de exame a Português e, também, necessitam dessa prova para ingresso na universidade. E agora questiono-me: será justo uns alunos fazerem exame e outros não, na mesma escola??? Até que ponto esta medida será ética? O que irá garantir aos alunos uma prova com o mesmo grau de dificuldade? Não seria melhor paralisar tudo? Ou seja, todos os alunos fazerem a 2.ª fase do exame, contando como 1.ª fase? Onde está a igualdade de direitos e a igualdade de oportunidades? Isto só gera mais stress aos alunos e sentimento de frustração, o que não é bom nesta época fulcral!
Espero que esta greve tenha feito a mudança… É urgente! É urgente que se tome alguma medida, é urgente qualidade na Educação, é urgente que o País crie oportunidade de emprego aos licenciados – é triste ver pessoas a formarem-se para ajudar o país e, no final de contas, são obrigados a emigrar. Os licenciados portugueses, veja-se os enfermeiros, são altamente qualificados e formam uma carreira de sucesso, lá fora. Cá dentro, é vergonhoso o que ganham por dia… De Portugal, saem excelentes profissionais, é pena que o pais não aproveite o que é dele, por direito…
Fico decepcionada com este Governo, em que coloquei a minha confiança…

 

Força professores, não desistam de lutar ....


Como cidadã, como  professora aposentada aos 60 anos com 39 de serviço, como comendadora da ordem da instrução pública ( não vejam nisto imodéstia mas apenas uma prova de que foi reconhecido o meu trabalho como professora), senti um imenso orgulho por pertencer a uma classe que ainda consegue, apesar de tão maltratada, arranjar coragem para dizer não. E esse não lembrou-me  outros que aqui deixo

O Operário em Construção de Vinícius de Moraes na voz de Mário Viegas

Cântico negro de José Régio na voz de João Villaret
 

Força professores, não desistam de lutar pela dignificação da nossa tão bela profissão.

sábado, 15 de junho de 2013

Natureza dual da luz e da matéria


A experiência da dupla fenda  de Young  (...)mostrou que o comportamento da luz é ondulatório e não corpuscular, como Newton supunha. Hoje sabemos que a luz é uma onda electromagnética, a oscilação de campos eléctrico e magnético que se propaga num meio, ainda que não material.

O triunfo da teoria ondulatória da luz foi-se acentuando ao longo do século XIX. No entanto, no início do século XX. verificou-se noutro tipo de experiências que a luz era emitida e absorvida em pequenas quantidades (quanta, plural de quantum), nas experiências do corpo negro, e que essas pequenas quantidades se portavam como partículas em colisões com electrões, na experiência do efeito fotoeléctrico. Foram, respectivamente, Planck e Einstein que, ao introduzir a teoria quântica, ressuscitaram a teoria corpuscular da luz.

Passou-se então a falar de dualidade onda-corpúsculo para a luz. Em certas experiências a luz comportava-se como onda e noutras como uma partícula. Claro que existe aqui um problema conceptual pois uma onda clássica se estende no espaço e uma partícula clássica está concentrada num sítio. De facto, a luz não é uma onda nem uma partícula, é onda em certas experiências e partícula noutras. Em geral, encontra-se a luz como uma onda e noutras vezes encontra-se como partícula. Os dois aspectos não aparecem na mesma experiência: aparece um ou outro, conforme as condições da experiência. Bohr chamou "complementaridade" a este comportamento da Natureza.

Percebeu-se também a certa altura que as partículas elementares de electricidade, os electrões, que tinham sido identificados como semelhantes a partículas clássicas, se portavam em certas experiências como ondas. Por exemplo, eram difractadas num cristal de um modo semelhante ao dos raios X, que são uma forma de luz.
(excertos de um texto colocado em De Rerum Natura

Os vídeos anexos ajudam a perceber o que acima ficou referido

 
E termino com poesia...

 

Poema de ser ou não ser

 
São ondas ou corpúsculos?

Sim ou não?

São uma ou outra coisa, ou serão ambas?

São “ou” ou serão “e”?

Ou um tudo se passa como se?

Percorrem velozmente órbitas certas

as quais existem só quando percorrem.

Velozmente. Será?

Ou talvez não se movam, o que depende

do estado em que se encontre quem observa.

Assim prosseguem rotineira marcha

na paz podre do tempo.

Oh! O tempo!

Até que, de repente,

por exigências igualmente certas,

num sobressalto histérico,

saltam de certa órbita

e vão fazer o mesmo noutra certa

tão certa como a outra.

E assim prosseguem

na paz podre do tempo.

Eis senão quando,

como pedra num charco ou estrela que deflagra,

irrompem no vazio,

e o vazio perturbado afunda-se e alteia-se,

e em esferas sucessivas, pressurosas,

vão alagando o espaço,

primeiro o espaço próximo,

depois o mais distante,

e seguem sempre, sempre, avante, sempre avante,

em quantas direcções se lhe apresentam.

Sim, ou não?

Estou à janela

e vejo muito longe a linha do horizonte.

 
Gedeão, A in Novos poemas póstumos

 

Bohr

 
Os corpúsculos e as ondas

são a mesma realidade

Assim sendo, tu já sondas

o começo de uma idade.

(Perscrutar certos segredos

que a natureza escondera

é fundamento dos medos

do frio que nos espera)..

 
Lisboa, E. In O Ilimitável oceano

 

Um novo Graal


 /
Uma onda de desassossego 

varreu a mente de Peter Higgs

quando, placidamente,  caminhava nas “Highlands”…

Placidamente, sim ou não?

E a onda (ou seria o bosão?)

continuou em progressão no espaço-tempo..

A partícula de Deus, peça fundamental

que ao modelo padrão convém, existirá ou não?

Subtil, da mente humana 

parece não querer ficar refém.

Embora pesada, à nossa escala é leve

e o seu tempo, esse  é muito breve.

E o desassossego?

Esse, nem leve, nem breve…

São outros os cavaleiros, outro o Santo Graal.

Porventura igual, o desassossego da mente.

Assim a condição humana.

 
Gouveia, R. In Entre margens

 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Breves

Amanhã....
vou estar no espaço Vivacidade


No dia 8...
estive na feira do livro em Mirandela



No dia 9 ...
assisti, em Alfândega da Fé,  à dramatização da lenda dos cavaleiros das esporas douradas;  deixo algumas imagens






No dia 11...
foi a inauguração, no Museu  Armindo Teixeira Lopes, Mirandela, da exposição Evocações de que deixo também algumas imagens








 

Professores em greve


A  minha amiga Virgínia Barros que diz
Nem sempre fiz greve porque achava que os professores não ganhavam nada com isso, não prejudicavam senão os alunos e até certo ponto o Estado ganhava com a greve.
Mas desta vez acho que é demais.....e oxalá consigam alguma vitória, tudo tem sido demasiado mau,

colocou no seu blogue uma mensagem que transcrevo

Nunca quis falar de políticas aqui neste blogue.
Nem sei bem porque o estou a fazer. Mas tenho de dizer o que penso em prol da justiça.

Ontem ouvi a entrevista com Mário Nogueira na TVI 24 e confesso que perante os factos não há argumentos. Haveria, talvez, outras formas de tratar cada caso e o sistema em geral. Mas não, infelizmente, e por culpa do Ministério, vão pagar justos por pecadores nesta grande embrulhada que é a Educação em Portugal.

Ontem ouvi que há professores de Informática, por exemplo, que após 30 anos de serviço, sem terem pedido a reforma, vão ser conduzidos para a tal mobilidade especial = menos salário= despedimento ao fim dum ano. É ultrajante.
As escolas estão todas apetrechadas com belos pavilhões, foruns, bibliotecas, ginásios, etc, gastaram-se balúrdios neste refurbishment de construções antigas e a cair de podres. Mas nelas não há lugar para professores com 30 anos de ensino regular, efectivos, parte do quadro, competentes nas suas áreas.
Será que esses professores não são essenciais para manter os equipamentos a funcionar, apoiar os alunos que não sabem usar os materiais, vigiar as turmas que estão a fazer investigação, reparar os pcs quando se avariam ( sabemos como é complicado!)? Como é que o Ministério pode "dar um pontapé" a pessoas que se dedicaram toda uma vida e que agora nem sequer reforma vão ter?

Concordo com a greve às avaliações. É a única possível. A única que poderá ter algum eco nas famílias habituadas a ter os profs na mão quando lhes convém entregar os meninos aos babysitters durante todo o dia, a única que poderá lesar o governo já tão fragilizado e obrigar Nuno Crato de uma vez por todas a escolher se quer ficar marcado com o rótulo de " agarrado ao tacho" ou " professor a sério". Nenhum ministro com ........... deveria colaborar neste sistema que se desfaz aleatoriamente dos descartáveis, desculpando-se com a baixa da natalidade e esquecendo-se da escolaridade obrigatória que impôs até aos 18 anos.
Imaginem, professores aposentados que me lêem, que isto se passava connosco! Não iriam para a greve? EU IA!!

 

Repondo:
Eu ia, como tantas vezes fui.  Ultrapassaram-se os limites da decência.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Era uma vez...um ecoponto


Foi  por mero acaso, mas com muito agrado, que vi anunciado, no site da  Biblioteca Raul Brandão em Guimarães, a apresentação de Era uma vez ...um ecoponto, pelo teatro de fantoches. O texto, um dos que integram   “Era uma vez...ciência e poesia no reino da fantasia” (agora em 3ª edição como referi em mensagem recente),
tem sido representado em vários locais do país. Tenho assistido a algumas das representações, uma delas no Faial .


 

Deixo aqui o texto com algumas ilustrações ( do meu filho Nuno, obviamente...)

Era uma vez …um ecoponto

Esta é a história de  um ecoponto

ali na esquina da  rua que com o largo confina.

Ao sol, à chuva, às geadas, respirando ar poluído,

fustigado pelo vento, lá vai passando o seu tempo.

À noite, mais sossegado, gosta de olhar a lua

e o céu todo estrelado.
 
 
 
 É um ecoponto engraçado,

direi mesmo divertido. Ao todo três contentores

mais um outro pequenito, conjunto de  quatro cores.

O pequeno é vermelhito, há quem lhe chame  encarnado,

e é para  pilhas estragadas. O  verde é  o vidrão,

o azul  é o papelão  e falta o amarelado para plástico, metal,

mas não todo, por sinal. Convém ler as instruções

para não haver confusões. 

Numa certa sexta-feira uma gaivota pousou

no referido ecoponto. Disse-lhe este  num lamento:

Ecoponto

Estou muito preocupado, muito triste, descontente

com a falta de cuidado que se tem com o ambiente.

São escapes de automóveis a lançar poluição,

são óleos, são detergentes,  são indústrias poluentes,

é lixo amontoado, ou espalhado no chão.

Pois não queres tu lá saber… Imagina só gaivota

que,  na passada terça feira, um senhor todo janota 

quis fazer do chão lixeira.

Lixo todo misturado, pelo chão ficou espalhado

e aqui mesmo ao meu  lado.

Mas que falta de cuidado…

Levantou-se um vento forte e vê tu a minha sorte,

fustigado pelo vento e com o lixo à mistura.

Valeu-me ter  pele dura….
 
 

Gaivota

Oh que grande novidade, bem se vê que estás parado

não conheces a cidade. Eu que estou sempre a voar

posso bem avaliar. Há lixo por todo o lado:

são pausinhos de gelados,  plásticos amarfanhados

quanta boneca sem braços, quanta vassoura  em pedaços,

quanta garrafa partida, quanta embalagem perdida, 

pilhas  já danificadas…

Ecoponto

Mas isso é um grande perigo…

Gaivota

Pois é, eu sei meu amigo mas que se há-de fazer?

Ecoponto

Isso assim não pode ser. Acabo de ter uma ideia

que penso ser genial. Os meninos, em geral,

salvo uma ou outra excepção gostam de mim, por sinal.

Vamos ter que  lhes pedir uma colaboração.

Pedem ao pai e à mãe que tenham mais atenção.

Gaivota

E podem fazer uns cartazes para toda a população.

Lixo nos contentores, sim e fora dos contentores, não….

Com o lixo separado, muito será reciclado…

Proteger  o ambiente  é bom para toda a gente…

Ecoponto

Que boa ideia menina,  mas deixa vir ao de cima

toda a sua inspiração.

Tu não sabes que os meninos têm muita imaginação?

Gaivota

É verdade, tens razão.

Ecoponto

Que mais podemos fazer?

Gaivota

Tu vais ter que te arranjar com um ar muito cuidado.

Assim qualquer um que passe fica bem impressionado

talvez deite em ti o lixo, em vez de o deixar ao lado.

Ecoponto

E tu não vais fazer nada?

Gaivota

Acabo de ter uma ideia, uma grande solução.

Quando alguém mais descuidado  deitar o lixo no chão

ou o trouxer misturado,  sem qualquer separação,

leva logo uma bicada  para ter mais atenção.

Ecoponto

Que boa ideia gaivota! Olha ali vem o janota…

Gaivota

Não queres ver o figurão… Deitou o lixo no chão

mas levou uma bicada,  não vai esquecer a lição.
 

Ecoponto
Lá vêm  muitos meninos, é a saída da escola,

trazem papel reciclado dentro da sua sacola.

Gaivota

Repara neste, que amor….

A lata de coca-cola  deitou-a no contentor.

Fê- lo com todo o cuidado, usou o amarelado.

E o pedaço de papel que segurava na mão,

deitou-o no papelão.

Ecoponto

Vê tu aquela menina…Ainda tão pequenina,

viu a garrafa no chão e foi pô-la no vidrão.

Gaivota

Repara,  que maravilha….Aquele, mais crescidito,

tirou do bolso uma pilha, deitou-a no vermelhito

Ecoponto

Sabes, já estou mais contente

só de ver tanto menino que respeita o ambiente.

Gaivota

Eu até estou comovida… Bem, tenho que ir à minha vida.

Ecoponto

Vejo que estás de partida. Já vais embora gaivota?

Gaivota

Estou mesmo na despedida mas amanhã estou de volta.

O que é formatado (não) é bom.


O que é formatado (não) é bom.

 Em tempos ouvia-se muito o slogan  O que é nacional é bom e foi aí que eu me fui inspirar para o título desta mensagem.

Ontem fui à escola buscar um dos meus netos. Tem 7 anos e  está a completar o 2º ano. Após o lanche foi fazer os trabalhos de casa. O de matemática fê-lo muito rapidamente, sem qualquer problema.

De seguida havia que fazer uma composição  tendo em conta um texto que era mais ou menos o que segue

“Imagina,  no final do ano letivo,  uma visita ao jardim zoológico com os colegas de turma, e um episódio divertido durante a visita”.

O miúdo pegou numa folha de papel e começou a escrever, a espaços relativamente grandes e regulares:

 
Quando

Onde

Personagens

Início da história

O que aconteceu

O que aconteceu

Final da história

 

De seguida começou a responder ao quando, ao onde e parou nas personagens.

Por princípio nunca ajudo os netos, tal como nunca ajudei os filhos, a não ser em questões muito concretas que me sejam colocadas. Como  não avançava perguntei o que estava a acontecer.

Não sei se nas personagens devo colocar “os animais do jardim zoológico”.

Nessa altura perguntei-lhe.

Já tens alguma ideia de qual vai ser a tua história?

Não, não pode ser assim, primeiro temos que responder ao que está no plano.

Reparei então que no mesmo estava repetido “O que aconteceu”. Pensei que tinha sido uma distração mas não. Segundo ele, teria que ser mesmo assim.

Tentei explicar-lhe que um escritor não pode estar assim tão preso a um guião mas ele, já com lágrimas nos olhos, dizia-me.

Tem que ser assim e eu não posso pensar primeiro na história.

Achei melhor terminar ali e sugeri que, mais tarde, fizesse a composição junto do pai. Mas ele continuava a chorar.

Para descontrair fomos a uma loja de brinquedos e ele escolheu um carrinho (de 1,5 euros...) que eu já lhe havia prometido em tempos.

Levei-o a casa, discretamente contei o episódio ao pai, que também considera que esta formatação em nada ajuda a desenvolver a criatividade das crianças.

Até admito que seja uma interpretação um pouco deformada por parte da criança mas, consultando o caderno, verifiquei que esta formatação está sempre presente.

Pensei em entrevistas feitas a escritores em que cada um revela uma forma diferente de criar os seus textos. Por exemplo, para uns o título vem logo à cabeça, para outros surge no fim, para outros vai variando ao longo da história (eu, modestíssima escritora, incluo-me nestes últimos...).

E recordei Torrance  com demasiada frequência a escolamata” a criatividade

Esta ideia de tudo formatar emerge hoje com demasiada frequência. Nas minhas idas a escolas, encontro algumas em que os professores têm que preencher uma série de papéis, altamente formatados,  para justificar a minha visita e outra série para descrever o que aconteceu durante a mesma. Por vezes comentam:

É por isso que muitas vezes hesitamos antes de convidar alguém.

Em face desta formatação obsessiva  presumo que, muitos dos que  têm  poderes de decisão, terão escolhido para lema o slogan “ o que é formatado é bom”...