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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Apesar de você

Se tivesse que selecionar  uma  música,  de entre a muitas vezes designada música clássica, teria muita dificuldade em me decidir primeiro pelo compositor e  depois pela obra musical, mas se tivesse que selecionar  uma  música  de entre a música dita ligeira,  escolheria sem dúvida Chico Buarque. A dificuldade seria depois em selecionar qual a obra.
Hoje não tive dificuldade na escolha da obra. Ontem alguém me diizia que  se estivermos atentos quando andamos na rua, vemos que os portugueses andam tristes cabisbaixos e mais agressivos.

Isso lembrou-me de imediato  Chico Buarque em Apesar de você


Álbum que traz canções polémicas como “Cálice” e “Apesar de Você”
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão,

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
La, laiá, la laiá, la laiá


Quanto à agressividade, hoje na minha actividade de voluntariado no Hospital de Santo António, onde ajudo os utentes na deslocação para as consultas externas (algumas são difíceis de localizar sem ajuda) encontrei algumas pessoas que reagiam com alguma agressividade a situações exteriores a nós (a demora do elevador, a distância a percorrer atá à consulta, etc, etc,etc.
Referi  isso a um colega voluntário e ele comentou
É natural e são genericamente as pessoas mais idosas pois sentem -se espoliadas com as medidas que têm vindo a ser aplicadas e as que se anunciam.

E tudo o que acima referi  me fez lembrar uma mensagem colocada no dia 22 /10 in De Rerum Natura que publicou os versos  que seguem ( versos  extremamente oportunos no momento que vivemos), com a seguinte introdução

Do académico Eugénio Lisboa, ensaísta e crítica literário, autor de inúmeros posts aqui publicados, em envio que muito nos honra, foram recebidos estes versos, escritos, segundo ele próprio, “relendo Gomes Leal, num Domingo melancólico, meditando neste horror que se abateu sobre o nosso país”:

"Morre o povo aí pelas esquinas,
com a fome que também matou Camões.
Abrigam-se os pobres nas ruínas,
com gestos e ademanes de ladrões.

Com fome e frio, o povo abandonado,
sacode o mundo, tenebrosamente:
dá-me tu, ó Musa, um furor sagrado,
que nos levante, poderosamente!

Uma lira feita só de vinganças,
uma lira cuspindo ameaças!
Uma lira que abale as seguranças
dos que vivem de rapina e trapaças!

Dá-me um canto canoro e eloquente,
que seja para os pobres como um sol,
pai dos párias e astro transcendente,
que faz do pobre grato girassol!

Ó Musa, quero a gana do Poeta,
que me ajude a castigar este horror,
a varrer, com vigor, esta sarjeta,
onde copulam gula e impudor!"

Eugénio Lisboa( depois de reler “A Fome de Camões”, de Gomes Leal).

Este vulto, portanto, que caminha
Altas horas, ao frio das nortadas,
É Camões que se definha
Nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões que a sorte vil, mesquinha,
Faz em noites de fome torturadas,
Ele o velho cantor de heróis guerreiros!...
Vagar errante como os vis rafeiros.
Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
O seu amparo e seu bordão no mundo,
Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
No seu vácuo deixando um vácuo fundo.
Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo,
Faminto, abandonado e vagabundo,
Tenta esmolar também pelas esquinas.
Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas

Gomes Leal in A fome de Camões

3 comentários:

  1. Olá Regina
    Outro excelente post, onde está bem explícito que as palavras são armas, através dos poemas que apresenta.
    Só uma pequena nota em relação à canção de Chico Buarque de que eu também gosto muito.. Eu interpretaria assim "apesar da tristeza de você, é por e com você que amanhã será um novo dia".

    Um beijo.

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  2. Esta canção foi proibida pela ditadura. "Você" referia-se implicitamente ao ditador da altura
    Bjs
    Regina

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  3. É verdade Regina. Li à pressa e interpretei mal.Obrigada pela correção.. Eu interpretei como sendo a tristeza e o desalento de" você" que hoje é muito comum entre as pessoas.
    Um beijo.

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