Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As fugas do gato


O meu gato Fuscas faz o encanto  dos meus quatro netos. É o 4º gato que temos. Após a morte do 3º, decidimos não ter mais nenhum. Mas há 7 anos não conseguimos resistir ao apelo da minha neta Rita. Assim surgiu o Fuscas. Foi ela a madrinha, por isso lhe escolheu o nome. Quando ao longo do ano fazemos pequenas saídas do Porto o gato fica entregue aos cuidados da Rita e dos pais. Mas no Verão, porque todos partem de férias, o gato acompanha-nos para a aldeia.. No primeiro ano em que isso aconteceu, ao entrar na nova casa assustou-se imenso. Escondeu-se tão bem escondido num dos vários compartimentos que nos custou a encontrar. Chegámos a admitir que, nalgum momento de descuido, o portão tivesse ficado aberto e ele tivesse fugido. Depois foi-se habituando e a sua estadia é já preenchida com alguns rituais. Sempre que saímos ele vai para o muro do terraço e ali fica à nossa espera. Quando vê o carro assomar na rua sai do seu posto e vai esperar-nos para o pátio, junto ao portão, na fachada oposta da casa.

 


Há dois anos resolveu ensaiar a primeira fuga. Era já ao lusco-fusco. Tínhamos acabado de jantar quando um vizinho e ainda familiar, a passar férias na aldeia, nos bateu ao portão dizendo que tinha avistado na rua um gato parecido com o nosso. Na casa, numa porta exterior que dá para um dos pátios, existia uma pequena abertura para permitir a livre circulação de gatos que se encarregavam de comer os ratos que eventualmente aparecessem na adega. Esta era uma prática habitual em muitas casas da aldeia. O meu marido tinha tido o cuidado de colocar uma pedra a obstruir a abertura mas o gato conseguiu desviá-la  e passar. Saímos a procurá-lo coma  ajuda do vizinho e familiar. Nem sinais do gato. Ficámos desolados por nós e pelas crianças. Iriam ficar muito tristes quando soubessem do sucedido.

Era já 1 h quando decidimos deitar-nos. Antes fiz uma última tentativa. Chamei-o do terraço e ouvi o seu miado no terreno em frente. O meu marido foi buscá-lo. No dia seguinte a abertura da porta foi eliminada.

 Este ano resolveu empreender nova fuga. O portão de ferro da casa é pesado e por vezes fecha mal. Numa das minhas saídas deve ter acontecido isso pelo que a dada altura e uma  vez mais ao lusco-fusco, nos apercebemos de que o gato não estava em casa. Saímos a procurá-lo e várias pessoas nos confirmaram que tinham visto um gato com as características descritas. Alguém nos disse que o vira a fugir dum cão que o perseguia. Quando  nos deitámos, por volta das 3 h não havia sinais do gato. No dia seguinte várias pessoas bateram ao portão dizendo que estava algures um gato desconhecido. Lá íamos mas não era o Fuscas. Durante dois dias não acompanhei o meu marido nas suas idas para a Adeganha (aldeia de que falei em mensagens anteriores) para poder abrir o portão ao gato, caso ele chegasse. No 2º dia, estava preparar o almoço para mim e para a minha amiga Lourdes Sendas que me comunicara a sua chegada. Tinha um assado no forno, quando me pareceu ouvir o gato. Desci as escadas mas no preciso momento em que abri o portão passou o camião do lixo. O Fuscas é muito assustadiço pelo que deve ter fugido a sete pés. Fui chamá-lo pelas imediações mas não obtive resposta. Quando cheguei a casa ainda consegui salvar o assado embora um pouco esturricado…

À noite, quando o meu marido chegou da Adeganha, contei-lhe o sucedido. Admitiu que o gato estaria escondido por perto. Foi chamá-lo e a dada altura ouviu-o miar em cima dum telhado. Tínhamos gato, novamente…
 
E, a propósito de gatos, deixo dois poemas e uma obra de Júlio Resende

Poema do gato
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,

do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

Gedeã,A. in Novos Poemas Póstumos

   

Sonho

 
Decidi ir agarrar um sonho.

um sonho distante e desmedido.

Imaginei partir com companhia.

Talvez o  meu gato (eu tenho um gato, 

o que não acontecia a Gedeão) mas logo pensei: Não.

Quando  visse o sonho a esvoaçar 

havia de cuidar que era uma  ave.

Gatos e aves nunca se deram bem

à exceção do gato malhado

e da andorinha Sinhá  de Jorge Amado.

Pensei então levar alguém,  mas quem?

Os nossos sonhos

raramente coincidem com os sonhos de outrem.

Parti sem mais ninguém.  Fui de balão.

Não o enchi com hidrogénio, com hélio,

nem ar quente.

Enchi-o simplesmente de ilusão 

e assim me aventurei.

Aproveitei as correntes ascendentes, 

ao sabor do vento rodopiei no ar,

tempestades e tormentas  tive que enfrentar

mas continuei,  por vezes sem sentido,

em busca do sonho  distante, desmedido.

Quanto mais subia, mais distante o sonho parecia,

até me aperceber  que não subia

e que, vertiginosamente, descia  em direção ao chão.

Talvez tivesse havido uma fuga de ilusão.

Pensei em frei Gusmão, em Charles, em Zeppelin 

e assim tentei uma outra vez, 

outra,  e ainda mais uma.

Tudo se repetiu como da vez primeira.

Quero ainda tentar mais uma vez, a derradeira.

Mas como hei de eu encher o meu balão

se é já tão pouca a ilusão,  quase nenhuma?

 

 

3 comentários:

  1. Eu não tenho animais mas a Susana tem uma gata e uma cadela. Já nos(eu digo nos,porque eu gostava muito dela e ela de mim) morreu uma labrador preta e tivemos um grande desgosto. Agora a Susana tem uma arraçada de labrador, também preta, que ajuda um pouco em relação à saudade que a outra deixou. Eu gosto muito de cães, até mais do que de gatos, mas não poso tê-los em casa. Quanto aos poemas e à pintura só posso repetir-me. Gostei muito.O segundo poema, que a Regina não assinou, é um pouquinho pessimista. Eu também ando desanimada,mas há de chegar o dia em que os nossos sonhos se concretizem. Já não é para mim, mas acredito que chegue porque a História não anda para trás.

    Um beijo.

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  2. Adorei as histórias do Fuscas....:)

    Uma vez traduzi um livro que me pediram para uma Amiga que trabalhava para a Civilização. Chamava-se: Como tratar do seu gato. O inglês era muito engraçado e em português tornava-se difícil adoptar o tom irónico, mas lá o traduzi. Depois de editado resolvi oferece-lo à nossa amiga comum Maria do Céu, pois ela tinha um gatinho delicioso e eu fiquei rendida aos gatos depois de ter lido algo sobre a sua personalidade.

    E já agora deixo-te aqui um poema de T.S. Eliot do qual foi adaptado o musical Cats, que é fantástico.

    THE AD-DRESSING OF CATS

    You’ve read of several kinds of Cat,
    And my opinion now is that
    You should need no interpreter
    To understand their character.
    You now have learned enough to see
    That Cats are much like you and me
    And other people whom we find
    Possessed of various types of mind.
    For some are sane and some are mad
    And some are good and some are bad
    And some are better, some are worse –
    But all may be described in verse.
    You’ve seen them both at work and games,
    And learnt about their proper names,
    Their habits and their habitat:
    But

    How would you ad-dress a Cat?

    So first, your memory I’ll jog,
    And say: A CAT IS NOT A DOG.

    Now Dogs pretend they like to fight;
    They often bark, more seldom bite;
    But yet a Dog is, on the whole,
    What you would call a simple soul.
    Of course I’m not including Pekes,
    And such fantastic canine freaks.
    The usual Dog about the Town
    Now Dogs pretend they like to fight;
    They often bark, more seldom bite;
    But yet a Dog is, on the whole,
    What you would call a simple soul.
    Of course I’m not including Pekes,
    And such fantastic canine freaks.
    The usual Dog about the Town
    Is much inclined to play the clown,
    And far from showing too much pride
    Is frequently undignified.
    He’s very easily taken in –
    Just chuck him underneath the chin
    Or slap his back or shake his paw,
    And he will gambol and guffaw.
    He’s such an easy-going lout,
    He’ll answer any hail or shout.

    Again I must remind you that
    A Dog’s a Dog — A CAT’S A CAT.

    Tive de cortar um pouco...é muito longo!

    bjinho

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  3. Um cão é um cão, um gato é um gato, um sonho é um sonho....Mas nestes últimos tempos já tenho alguma dificuldade em sonhar...
    Esperemos por melhores dias.
    Um grande beijinho às duas
    Regina

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