Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Aqui há gato

Desde há 8 anos, nas férias de Verão passadas na aldeia, anualmente pomos em cena uma pequena peça em que os actores são os netos e eventualmente um ou outro amigo dos mesmos. Nos últimos anos o tematem sido sugerido pelas crianças. Este ano, influenciados por duas séries televisivas policiais (em que intervêm os cães Rex e Max), pediram-me para criar um policial.
Eis o que se pôde arranjar …

Personagens
D.Odete- a minha neta Rita com 11 anos
Comissário Furtado- o meu neto José com 7 anos
Agente Silva-o meu neto Bernardo com 4 anos
Agente Gomes- Tomás, um colega do meu neto José que foi passar uns dias connosco
Senhora da mercearia- de novo a minha neta Rita
Menina- Martinha, a minha neta com 2 anos
Farmacêutica- Marta Parada, uma amiga da Rita com 10 anos, que habitualmente também se encontra de férias e que, desde há 8 anos, sempre  tem participado
Major Pereira- de novo o Tomás

Esquadra de polícia. Na secretária estão sentados o Comissário Furtado e os agentes Gomes e Silva. Entra a D. Odete muito aflita
D.ODETE:
Senhores agentes.
Venho participar um crime. Alguém envenenou o meu gato.
Ontem à noite quando lhe dei o remédio das bichas que tinha ido comprar à farmácia, estava bem; hoje fui dar com ele, estirado no jardim, completamente morto.
COMISSÁRIO FURTADO:
Sente-se por favor. Antes de mais identifique-se. Agente Silva[1] vá anotando
D.ODETE;
Maria Odete Martins, 58 anos, doméstica, moradora na R. dos Cravos, nº 20
COMISSÁRIO  FURTADO:
O que quis dizer com completamente morto?
D.ODETE:
Não reage a nada, o corpo estirado está sem ação, os olhos cerrados.
COMISSÁRIO FURTADO
Tem algum suspeito?
D.ODETE:
Pelo menos a senhora da mercearia queixa-se muito quando em ele anda a namorar as gatas e mia toda a noite não deixando dormir ninguém.
Sei também que alguém já enviou uma carta anónima reclamando.
COMISSÁRIO FURTADO
Tem por acaso aí algum dado sobre o remédio que o gato tomou?
D.ODETE.
Tenho aqui este papel que a Dra. Luísa escreveu com a indicação da forma de o tomar
agwnte Gomes pega no papel e entrega-o ao Comissário
 
COMISSÁRIO  FURTADO
Vamos ficar aqui com este documento para as investigações. Vamos também chamar os suspeitos para averiguações. Logo que tenhamos novidades avisamos
Agente Gomes trate de arranjar uma cópia da carta anónima e notifique a senhora da mercearia e a farmacêutica para serem ouvidas
D.ODETE
Obrigada. Boa tarde

Boa tarde- respondem os agentes em uníssono
 
O agente Gomes sai e passado algum tempo entra com a cópia da carta anónima e acompanhado da D. Alice da mercearia, com a filha pela mão
 
D.ALICE
Boa tarde
COMISSÁRIO FURTADO
Boa tarde. Sente-se por favor Antes de mais identifique-se. Agente Silva vá anotando
D.ALICE
Maria Alice  Andrade, 36 anos, comerciante, R. dos cravos, nº 26
COMISSÁRIO FURTADO
Conhece a D. Odete Martins?
D.ALICE
Conheço sim desde há 15 anos, altura em que abri ali a mercearia
AGENTE SILVA
Sabia que tinha um gato?
D.ALICE
Tinha e tem, penso eu. Ainda ontem à tarde a minha menina lhe deu uma sardinha, o que faz muitas vezes. Não foi Martinha?
MENINA
Não fui eu
D.ALICE
Já não se lembra, é pequenina
COMISSÁRIO FURTADO
Então não sabia que o gato morreu?
D.ALICE
Não sabia e fico triste pela D. Odete e também por mim pois o senhor Major Pereira vai deixar de comprar os biscoitos para o gato
COMISSÁRIO FURTADO
Quem é o Major Pereira?
D.ALICE
Era colega e amigo do marido da D. Odete e vem visitá-la com frequência
COMISSÁRIO FURTADO;
Pode ir-se embora Se precisarmos de mais alguma informação voltaremos a contactá-la
Agente Gomes trate de localizar o tal major Pereira e traga-o para interrogatório
 
D.ALICE saindo com a filha
Boa tarde
 
Boa tarde- respondem os agentes em uníssono
 
AGENTE Gomes sai e entra a Dra. Luísa
 
Dra. LUISA
Boa tarde
COMISSÁRIO FURTADO
Boa tarde. Sente-se por favor. Antes de mais identifique-se. Agente Silva vá anotando
Dra. LUISA
Luísa Isabel Santos, 36 anos, farmacêutica,   R. dos Cravos, nº 31
COMISSÁRIO FURTADO
 Conhece a D. Odete Martins?
Dra. LUISA
Conheço sim, é minha cliente na farmácia
COMISSÁRIO FURTADO
 Sabia que tinha um gato?
Dra. LUISA
Não fazia a menor ideia
COMISSÁRIO FURTADO:
Mas ainda há dias lhe vendeu um medicamento para o gato?
Dra. LUISA
É provável. Passa tanta gente pela farmácia e vendemos tanta coisa. Como deve compreender não vamos fixar o que vendemos e a quem
COMISSÁRIO  FURTADO;
Então se não sabia que tinha um gato também não sabia que o gato morreu?
Dra. LUISA
Como disse, desconhecia a existência do gato
COMISSÁRIO FURTADO
Pode ir-se embora Se precisarmos de mais alguma informação voltaremos a contactá-la
 
Dra. LUISA saindo
Boa tarde
 
Boa tarde- respondem os agentes em uníssono

Entra o  major Pereira
 
MPEREIRA
Boa tarde
COMISSÁRIO FURTADO
Boa tarde. Sente-se por favor Antes de mais identifique-se. Agente Silva vá anotando
MPEREIRA
Augusto Manuel Pereira, 62 anos, Major na reserva,  R. direita, nº 41, 3º Dto
COMISSÁRIO FURTADO
Conhece a D. Odete Martins?
MPEREIRA
Sim, há vários anos. Era colega e grande amigo do falecido marido
COMISSÁRIO FURTADO
Visita-a com frequência?
MPEREIRA
Sim, geralmente ao domingo como já fazia em vida do marido
COMISSÁRIO FURTADO
Sabia que tinha um gato?
MPEREIRA
Tinha e tem, penso eu. Sempre que a visito levo uns biscoitos para o mesmo. Ela tem uma verdadeira adoração pelo gato. O falecido chegava a ter ciúmes ...
COMISSÁRIO FURTADO
Vejo que não sabia que o gato morreu.
MPEREIRA
Não sabia não, e fico triste. Vou daqui já visitá-la, tentar consolá-la pela perda.
COMISSÁRIO FURTADO
Pode ir-se embora Se precisarmos de mais alguma informação voltaremos a contactá-lo
MPEREIRA saindo
Boa tarde
Boa tarde- respondem os agentes em uníssono
Comissário Furtado e agente Silva conversam entre si . Entretanto o Agente Gomes regressa
COMISSÁRIO  FURTADO
Agente Silva e Agente Gomes que lhes parece isto tudo?
A D. Alice reclamava do gato. A menina deu-lhe uma sardinha ( ou melhor a mãe diz que foi a menina, a menina diz que não foi ela) e pouco depois o gato morreu
O Major fala dos ciúmes do marido. Provavelmente também ele teria ciúmes do gato mas ia-lhe dando os biscoitos para agradar a dona...
Finalmente a Dra desconhecia a existência do gato mas escreveu a indicação da toma do medicamento....
AGENTE GOMES
E há a carta anónima.
COMISSÁRIO  FURTADO
É verdade já me estava a esquecer. Agora reparo(usa uma lupa), a letra da carta é a letra da farmacêutica.
AGENTE GOMES
Concluindo. Todos tinham uma razão para matar o animal
Não deixa dormir a merceeira,
COMISSÁRIO  FURTADO
causa ciúmes ao major,
AGENTE GOMES
incomoda a farmacêutica a ponto de escrever uma carta anónima, embora diga que não sabia do gato...
 
Entra a D. Odete histérica
 
Senhores agentes.
O meu gato ressuscitou … O meu gato ressuscitou  ...
Já percebi o que aconteceu. Quando fui buscar o remédio do gato levei também umas gotas para mim que são para dormir (às vezes tenho insónias) Em vez de dar ao gato as 30 gotas do seu medicamento dele dei-lhe 30 do meu (e para mim a dose é 5 gotas...)
Ai que eu ia matando o meu gatinho... Ai que eu ia matando o meu gatinho...
Sai sempre a repetir
Ai que eu ia matando o meu gatinho... Ai que eu ia matando o meu gatinho...

Um rap a terminar...
 
Parecia um caso deveras complicado para os agentes Silva, Gomes e Furtado.
Um gato morreu. Foi envenenado? Pela merceeira farta do miado?
Foi com a sardinha que a menina disse que não tinha dado?
Pela farmacêutica que tão estranhamente não sabia do gato de que se havia queixado?
Pelo major Pereira talvez enciumado que nos biscoitos, veneno teria misturado?
Mas eis que de repente surge a solução Ressuscitou o gato, que admiração...
A dona confundiu-se por alguns momentos e fez uma troca de medicamentos.
Com uma dose forte de Lexotan o gato dormiu, em sono profundo,
a noite completa e toda a manhã.
E foi por pouquinho que o pobre gatinho não foi viajar para o outro mundo
 
Os ensaios começaram com a Rita e o José, passados uns dias  juntou-se-lhes a Marta. A partir do dia 27 o Bernardo também participou nos mesmos e no dia 31 chegaram os dois últimos actores: a Martinha e o Tomás.
Como acontece por sistema, todos se envolveram com muito entusiasmo e o Tomás, uma criança muito calma e ponderada, perguntou-me no fim: No próximo ano posso voltar e participar de novo no teatro?
Aqui deixo duas imagens

 






[1] Em frente a um computador, simula o lançamento de dados

4 comentários:

  1. Adoro os teatrinhos com crianças....e eles levam tudo muito a peito. A minha nora desde sempre que faz fantoches e peças no Natal, agora já são crescidos e começam a apreciar mais danças, tocar música em conjunto ou a solo e cantar a plenos pulmões com o pai ao piano, à flauta ou o tio Zé à guitarra...
    Na Luz até fiz um video da família alargada a dançar o Balancé, que pôs todos a rir à gargalhada, dada a desincronização dos passos....são momentos únicos e que ficam para o resto da vida....

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  2. Mais um talento, Regina. Escritora de policiais para os netos!!!! Sempre a surpreender!!!
    Eu lia muitos policiais. Li a coleção Vampiro quase toda e muitos outros livros policiais. Agora leio pouco, de tudo. Ando cansada!!!

    Um grande beijo.

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    1. Estou com um problema com os comentários. Quando tento publicá-los desaparecem. No blogue da Graciete acontece-me sempre isso
      Bjs

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  3. Decerto é o meu blog que não está bem estruturado. Eu sou pouco experiente e frequentemente me acontece que muitas coisas que soube fazer, agora já não consigo, talvez porque, entretanto, as ferramentas mudaram e eu não sei adaptar.
    Mas, Regina, o importante é a possibilidade de contacto.
    Um beijo.

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