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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Amoras


O meu neto Ju tem dois amiguinhos lá na aldeia que mal pressentem a sua presença se apresentam junto ao portão para brincarem com ele. Todos têm oito anos ( o meu neto, o Mais novo dos três, fê-los há dias). O mais velho, mais pequenito em tamanho, frequenta o 2 º ano de escolaridade, o Ju e o outro frequentam o 3º.

Tinha que estar sempre a moderar as suas brincadeiras pois quer o meu neto quer o mais pequenito são muito irrequietos. Propunha competições (corridas de carrinhos, tiro ao alvo, etc) e depois subiam ao pódio para receber taças (copos plásticos com guloseimas). Quando começavam a ficar menos “controláveis” saíamos, geralmente a colher amoras.

Vivendo ambos sempre na aldeia, é estranho que o mais velhito só há um ano se tenha apercebido da existência das amoras, quando uns familiares que vivem fora foram passar férias à aldeia e decidiram ir colhê-las.
Vejo estes episódios com tristeza. Quando eu era pequena ia com outras crianças colher amoras. Os caminhos eram belíssimos, frondosos e as amoras emergiam tentadoras, por entre os silvedos.

Os caminhos hoje estão completamente abandonados, salvo aqueles que permitem a passagem de viaturas motorizadas . Quando comentava isto com um familiar que ali estava de férias, disse-me. É natural, já não têm serventia.

Não terem serventia significa apenas que transitá-los já não proporciona qualquer lucro em termos monetários.,

Faz-me pena esta sociedade que valoriza acima de tudo o dinheiro.

Mas voltemos às amoras.


Tal como acima referi, uma das crianças vai frequentar o 3ºano. O livro adotado para Português foi precisamente o que referi na mensagem anterior e que contém dois textos meus. Num dia em que andávamos a apanhar amoras, comentou. Quando eu disser na escola que andei às amoras com a escritora que escreveu aqueles textos, ninguém vai acreditar...


A terminar, alguns poemas com referência às amoras

As amoras

O meu país sabe a amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade, O outro nome da Terra

Xisto


Muros de xisto, tal como outrora

cobertos de silvas, ostentando amoras.

Caminhos.

Este já foi ribeiro, o ribeiro dos linhos.

Já não existe ribeiro, tão pouco o linho.

O pó esvoaça lento

por sobre o chão incerto e poeirento.

Caminho com dificuldade,

o sol poente ofusca-me a visão.

Percorro outro caminho, o da memória

que, como o xisto, se esboroa com o tempo.

Firme, a mão do meu pai segura a minha mão.


Gouveia, R. In Entre margens

Teia


Com as recordações da minha infância fui tecendo, dia a dia, enredada teia.

O cheiro do azeite no lagar e no Outono a fermentar o mosto,

o céu estrelado, o luar de Agosto, as cores da Primavera e as do Outono,

o vermelho das papoilas, dos medronhos, o branco das flores de amendoeira,

o sabor das amoras de silva ou de amoreira, as histórias contadas à lareira o som da chuva , da neve, do granizo, na escacha da amêndoa, o som do riso,

o rumorejar do rio no fundo da ladeira, o piar da coruja, o bramir do vento,

são imagens que preenchem os meus sonhos

e assim invadem o meu pensamento, enredando-o na emaranhada teia

que até hoje a minha vida prende

por um fio, que tanto se contrai como distende.


Gouveia, R. In Magnetismo Terrestre

 

4 comentários:

  1. Fiquei mesmo com vontade de ir às amoras pois além de adorar o furto também me lembro de o fazer em Sintra onde tínhamos uma quintarola em Albarraque. Dizim-nos sempre qie tivéssemos cuidado para não nos picarmos todas, mas andávamos sempre arranhadas e a cheirar a terra!

    Os teus poemas têm um sabor telúrico que me atrai sempre....

    Bjo

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  2. Eu ainda estou com marcas das arranhadelas nos braços e nas pernas...
    Achei interessante essa referência ao sabor telúrico dos poemas
    BJs
    Regina

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  3. Não tenho mais palavras para exprimir o que sinto quando leio os seus post. São tão belos que apenas me posso repetir.Também achei muito interessante a referência da Virgínia ao sabor telúrico dos seus poemas.
    Acho muito feliz e real essa expressão.
    Quanto às amoras, apesar de eu ser100% urbana porque nasci e sempre vivi no Porto, comi muitas amoras, arranhei-me muito nas silvas porque morava em Paranhos, freguesia rural, sem as caraterísticas de hoje, e passeava muito pelos campos com o meu Pai que era um amante da Natureza. Outra coisa de que não me esqueço é do ribeiro dos pirilampos.

    Um beijo, Regina.

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  4. Obrigada Graciete pela generosidade das suas palavras. Nunca tinha ouvido falar no ribeiro dos pirilampos (onde era ?)mas uma das imagens mais remotas que guardo na memória são os pirilampos no jardim da casa de um tio meu que vivia em Sintra
    Bjs
    Regina

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