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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Não podemos esquecer que a sociedade é feita de pessoas

Publicado já em 5/12, mais um texto que merece ser lido


Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres
humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos
ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.
Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um
mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.
Pedro Afonso
Médico psiquiatra

3 comentários:

  1. A saúde mental em Portugal praticamente não existe, ou seja, quem não pode pagar a um médico privado, não tem que dele trate com regularidade, quem se preocupe com o seu estado, com o risco e com as condições em que é tratado nas instituições próprias para esse efeito. Tendo tido que privar com a saúde mental em Inglaterra, mais propriamente em Leeds, cidade a norte que não é das mais conhecidas, mas tem uma universidade excelente, verifiquei que lá tudo é diferente. felizmente a minha filha teve crises em Inglaterra e não no Porto. A suas estadias no hospital psiquiátrico foram um modelo que não me canso de elogiar. NUNCA pagou uma conta, medicamentos, quarto individual, actividades, comida, tratamentos, NADA! Tudo lhe foi oferecido pelo NHS, apesar de ser estrangeira. Só porque vivia em Inglaterra e pertencia ao NHS, como qualquer outro habitante. Isto aconteceu em 2005 e em 2012 e em ambas as situações, estive sempre em contacto com os medicos, enfermeiros e com a minha filha, através do telefone, cartas e visitas. Nunca senti que ela fosse forçada a tratamentos inúteis ou repressivos, apneas aos cuidados próprios da doença que a aflige.

    Quem me dera que todos os pacientes mentais tivessem a sorte que a minha Luisa teve. Com a medicação a horas, conegue ter uma vida normal, é feliz e não receia o futuro.

    Bjo

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  2. Concordo plenamente com tudo mas acrescento algo mais. Para o sucesso da tua filha existiu, e continua a existir, um fator essencial que não mencionaste: Uma mãe excecional.
    Bjs para ambas
    Regina

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  3. Obrigada Regina pelo post. Subscrevo inteiramente as palavra do médico Pedro Afonso.

    Um beijo.

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