Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 31 de março de 2012

Dia Nacional dos Centros Históricos.


Comemorou-se hoje o Dia Nacional dos Centros Históricos.

No que respeita ao Porto o programa das comemorações pode ser lido aqui


Em face do programa decidimos  ir almoçar à Ribeira. Pelo caminho vimos alguns espaços recuperados que ainda não conhecia. Deixo duas imagens de um deles.


No programa impresso, anunciava-se uma série de “promoções” na área da gastronomia mas entrámos em  vários locais e em todos nos disseram que não tinham aderido. Acabámos por almoçar num deles, desfrutando da vista fabulosa sobre o rio.
Como o meu marido é muito mais lento que eu a almoçar, após o meu almoço fui visitar as várias tendinhas de artesanato. Se algum é pouco interessante, outro há que revela imensa criatividade dos artesãos.
Regressando ao programa…De entre as várias propostas tínhamos decidido ir à casa do Infante ver uma exposição de clarabóias e lanternins  e O Porto Desconhecido - Histórias ao Vivo um projecto da ANILUPA
 A exposição é muito interessante. Apenas consegui tirar uma foto pois fiquei sem bateria…

Quanto ao segundo evento, trata-se de apresentação de histórias de vida contadas ao vivo pela população afeta a centros sociais e coletividades da zona histórica do Porto, no âmbito do projeto "Porto Desconhecido".
O projeto já tem alguns anos e podem conhecer mais sobre o mesmo aqui

Entre as várias histórias de vida protagonizadas essencialmente por pessoas da Ribeira,  a que mais me tocou foi contada por uma senhora que explicou que nessa altura, grande parte das famílias viviam num quarto alugado onde dormiam os pais e os filhos(geralmente muitos). Dizia a “contadora”: Quando os pais queriam fazer amor, mandavam os filhos sair do quarto. Tudo era alugado dos lençóis à mobília. Havia várias senhoras que alugavam estes quartos. Eram solidárias porque sem elas nós não poderíamos viver mas eram solidárias à sua maneira, dizia a contadora.
Contou como as crianças tentavam angariar algum dinheiro para ajudar os pais. Uma das formas era pedir aos turistas para deitarem  moedas ao rio. As crianças exibiam as suas habilidades mergulhando e ficavam com as moedas. Outra forma era deixarem-se fotografar em troca de moedas…

Várias outras senhoras deram os seus testemunhos. Ajudavam na venda do peixe, cuidavam dos irmãos, lavavam a roupa no rio e enquanto a roupa corava iam catando os piolhos umas às outras. Não tinham brinquedos mas divertiam-se muito. Um dos divertimentos era untar tábuas com sebo e sobre elas “deslizarem” ao longo das várias escadas que existem na zona.
No fim foi passado um filme de animação com estas histórias e em cuja realização  as pessoas colaboraram
Gostei muito deste evento até porque me fez recuar muito no tempo. Quando o meu marido(então namorado) era aluno do 1º ano de Arquitectura na ESBAP teve que fazer, juntamente com os colegas,  um trabalho de levantamento de habitações do Barredo. Acompanhei-os várias vezes e constatei situações como as que ali foram descritas. Recordo-me de um quarto onde viviam os pais e  vários filhos (creio que oito). Havia uma mesa e encostados à parede dois colchões;  à noite a mesa era encostada à porta e dormiam todos espalhados pelos  referidos colchões

Após este evento fomos visitar, na Misericórdia,a Exposição "A Procissão dos Fogaréus da Quinta-feira de Endoenças"
Concebida a partir de registos documentais, nomeadamente do primeiro Compromisso impresso, datado de 1646, e do património existente, como as treze bandeiras processionais, pintadas por Francisco Correia e Domingos Lourenço Pardo, em 1613, esta exposição dá a conhecer, numa perspectiva histórica e artística, a devoção aos Passos da Paixão pela Misericórdia do Porto.

Durante quantas décadas se organizou no Porto «a procissão dos fogaréus»? Ao certo não
sabemos! Mas pelo menos ao longo dos séculos XVI, XVII e grande parte do XVIII era assim
que a Misericórdia e muito do povo da cidade viviam o final da tarde e a noite de quinta-feira
santa.
Recordar essas tradições, resgatá-las da Memória do tempo e tentar percebê-las parece um
bom e imediato objectivo desta Exposição. Não há, à partida, qualquer intuito saudosista dum
passado que não volta, ainda que a vertente penitencial e o arrependimento pelo pecado
continuem a ser parte essencial da vivência cristã da Paixão. Quem sabe se algum dia volta a
fazer sentido que as insígnias agora recuperadas e oferecidas à comunidade em Exposição
voltem a percorrer os antigos caminhos em cenário penitencial, adaptado à nossa época?
De qualquer modo, entenda-se esta Exposição segundo aquilo que ela é: um evento cultural e
um recuperar da Memória. Mas parece-me importante sublinhar que é também uma forma
curiosa, talvez pedagógica, de a Santa Casa celebrar a Paixão.

 Não há qualquer explicação sobre a exposição(a que aqui deixo procurei-a depois) pelo que fiquei decepcionada

Após esta visita decidi ir ao Clube Literário, no último dia do seu funcionamento. 


A caminho passei pelo Palácio das Artes, no Largo de S. Domingos onde, a par da exposição Variações de temperatura,  decorria uma Feira Franca à semelhança do que ocorre  todos os meses no último Sábado de cada mês . Havia também animação com uma tuna e um outro grupo de música.

Finalmente fui ao Clube Literário e fiquei logo muito triste à entrada. Um ambiente de desolação a contrastar com o espaço cuidado onde tantas vezes estive. Tudo desmontado, sem quadros nas paredes, livros amontoados e distribuídos por caixotes.

Pensei no Dr. Augusto Morais. Fundou este espaço com tanto entusiasmo e carinho …
E recordo o que alguém disse quando da sua morte inesperada
  
Morreu Fernando Augusto Morais. “Vai fazer muita falta ao Porto”



quarta-feira, 28 de março de 2012

Morreu Millôr Fernandes

Millôr Fernandes fez de tudo: foi jornalista, escritor, dramaturgo, tradutor, cartoonista. Mas era, antes de mais, um humorista, que marcou a Cultura brasileira do último século. Morreu de falência multiorgânica, nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, após quatro meses de internamento. A família não divulgou a causa da doença. Millôr tinha 88 anos
   



Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
 Millor Fernandes in Tempo e Contratempo"

 .

quinta-feira, 22 de março de 2012

Das Beiras a Trás - os -Montes e não só...

Há épocas no ano em que, como autora,  sou muito solicitada por escolas: a semana da ciência, em novembro e as da leitura e da poesia em março. Em mensagens anteriores fui dando conta das minhas andanças por várias escolas. Vou terminar o relato
No dia 12 fui de manhã a Oliveira do Hospital
Dado o elevado número de alunos, as sessões decorreram no auditório da Casa da Cultura. Saí de lá um pouco desencantada pois não notei nos alunos aquele entusiasmo que me enche a alma…
Quando regressava ao Porto, o editor tomou conhecimento que uma autora cuja presença estava prevista nessa tarde em Ermesinde não iria estar presente e os alunos tinham preparado uma representação para o evento. Quer a editora quer a escola sentiram que para os alunos iria ser uma grande decepção. Era óbvio que eu não poderia substituir a autora mas poderia estar presente, assistir à representação e conversar com os alunos. Fui. A representação foi muito interessante e senti que a minha presença lhes agradou. No final quiseram tirar fotos comigo, etc 
No dia 13 de manhã fui à Tocha. Professores e alunos muito empenhados. Estes fizeram uma apresentação muito interessante da Breve História da Química 
À tarde fui para Bragança. Como cheguei às 19 h ainda pude passear um pouco pelas ruas da minha infância e adolescência. A cidade cresceu muito desde então e eu só identifico as ruas de outrora
Em Bragança sou recebida sempre com um carinho inexcedível. No dia 14 de manhã estive em duas sessões na Escola Miguel Torga . Os alunos de 8º ano “presentearam-me” com  leitura de excertos  dos livros Magnetismo Terrestre e Breve História da Química, os de 7º ano encenaram de forma interessante uma adaptação do texto “Pelo sistema solar vamos todos viajar”

No fim da sessão esperava-ma uma surpresa. Um jovem que entrou na peça O Musical da Química (baseada na Breve História da Química) e que foi levada à cena em Junho de 2011, no Rivoli do Porto, é agora aluno da escola. Contou-nos alguns episódios interessantes relacionados com a apresentação da peça

Almoçámos muitíssimo bem na cantina da escola onde, segundo me informaram, as refeições têm sempre muita qualidade.

À tarde fui para duas escolas do 1º ciclo (Paulo Quintela e Campo). Na primeira as crianças representaram, com muita graça, o texto “era uma vez um ecoponto” de Era uma vez ciência e poesia no reino da fantasia e na segunda leram alguns poemas de Ciência para meninos em poemas pequeninos. Nesta escola estava desenhado na chão um jogo da glória que tinha por base o mesmo livro.

Quando acabei as sessões fui até à Praça da Sé. Fui cumprimentar o Sr. Ricardo que,   já com uma idade bastante avançada, continua a usar a sua máquina fotográfica.
Mostrei-lhe uma fotografia de entre as muitas que me tirou e na qual  estou com os meus pais. 

Conversámos, conversámos. Também entrei na livraria RosaD´ouro, onde no meu tempo era a livraria Silva,  e conversei com o dono que me dizia muito triste que Bragança está a morrer. Fecharam as salas de cinema, fecharam várias lojas, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais é pouco visitado…
Saí dali e fui mais uma vez ao referido Centro de Arte Contemporânea, onde estão duas exposições. A de Graça Morais já a tinha visto na Árvore. 



À noite fui jantar a casa de uns afilhados, cuja filha de 9 anos tinha feito a minha apresentação na última escola que visitei.

No dia 15 fui visitar a Escola Emídio Garcia. Muito acarinhada por alunos e professores de entre os quais uma ex-aluna de Mestrado e duas ex-estagiárias. Uma convidou-me  de imediato para jantar em sua casa. Mas regressando à Escola. Esta é a escola que há muito substituiu o meu Liceu que ao tempo era na Praça da Sé.  Pois agora a escola foi intervencionada e, embora ainda não estejam concluídas as obras,  de todas as escolas que tenho vista nestas minhas visitas, não conheço nenhuma tão “requintada”. Quer exterior quer interiormente é muito agradável.
Também aqui houve duas sessões . Na primeira estavam cerca de 140 alunos essencialmente de 7º ano. Os alunos mais atrás ouviam com dificuldade pois não tinha sido  previsto um micro para mim. Isso gerou algum barulho de fundo pelo que a sessão não correu como eu gostaria.
A segunda  sessão, já com micro e menos alunos, correu muito bem. Os alunos representaram um acto da peça e houve muitas intervenções durante o debate.
Almoço na escola (também se comeu bem) e à tarde fui para a escola Abade de Baçal, também ela intervencionada mas um pouco mais “modesta” se bem que tenha uma Biblioteca muito bonita com muita luz , embora sem qualquer sistema de cortinas ou equivalente.
O livro explorado pelos alunos foi Ciência para meninos em poemas pequeninos. Os alunos leram excertos ao som da viola tocada por um aluno.
Face aos problemas de excesso de luz da Biblioteca a sessão decorreu num corredor largo, para onde foram deslocadas cadeiras para todos os alunos (salvo erro três turmas). Mas apesar desse pequeno contratempo a  sessão correu muito bem e os alunos fizeram várias intervenções
No fim das sessões fui explorar algumas das novas artérias da cidade e regressei ao Hotel onde a minha ex-estagiária e o marido me foram buscar para jantar. Foi um jantar muito agradável e informal. No final do mesmo apareceu a outra ex-estagiária e ali ficámos todos à conversa até quase à meia-noite
No dia 16, fui à Escola Augusto Moreno.
A primeira sessão decorreu com os meninos das Escolas do 1º ciclo do Agrupamento: Augusto Moreno, Toural e Artur Mirandela
Também aqui me mimaram com várias surpresas. Foram encenados, de forma muito criativa, vários do meus textos. De Ciência para meninos em poemas pequeninos foram: Poesia, Trovoada, Rio, Diversidade, Primavera. De Era uma vez…ciência e poesia no reino da fantasia foram Era uma vez o mar, Era uma vez…o vento, Era uma vez..um ecoponto
Na segunda sessão houve três intervenções com alunos correspondentes a três turmas do 3º ciclo. Uma apresentou muito bem o 1º acto de Breve História da Química, uma outra o 2º acto embora não tão bem como a primeira e uma outra apresentou um jogo com questões a responder pelos presentes que  enchiam o auditório.

Entusiasmados, todos queriam responder ao mesmo tempo o que gerou muita confusão.
No fim da sessão almocei na escola e à tarde fiz, em autocarro, a viagem de Bragança até à minha aldeia.
Para além do carinho de professores, alunos e funcionários, não poderia deixar de destacar a representante da Biblioteca Municipal que, tal como já acontecera antes, me acompanhou sempre com uma disponibilidade ímpar.
Deixo imagens de alguns dos trabalhos feitos por alunos. Um deles pertence a um conjunto de vários trabalhos de uma turma sobre o texto Era uma vez um planeta . Era impossível colocá-los todos pelo que seleccionei o que considerei mais criativo. Foi uma escolha difícil pois são todos muito interessantes


Passei o fim de semana na aldeia e domingo regressei.
Segunda feira de manhã fui ao Colégio Luso Internacional do Porto (CLIP) e estive em duas sessões, uma com alunos de 7º ano e outra com alunos de 9º ano. A obra explorada foi a Breve História da Química. Os alunos, particularmente os de 7º ano, mostraram-se muito interessados.
À tarde, acompanhada pelo Grupo de Teatro da Editora, fui para Alvaiázere (perto de Tomar). Senti uma certa frustração pois os alunos, pouco empenhados,  não tinham lido nem ouvido falar da obra (Breve História da Química), não sabiam quem eu era, etc…
Tive a estranha sensação de que era a escola que nos estava a fazer um favor e não o contrário…
Finalmente na terça feira fui a Alvarelhos, perto da Trofa. Na primeira sessão estive com alunos do 1º ciclo das várias escolas do Agrupamento. Eram muitos alunos mas muito participativos, estiveram muito atentos.
Na segunda sessão,  para alunos do 3º ciclo, a exploração obra Breve História da Química contou com a participação do Grupo de Teatro. Mais uma vez os alunos estiveram muito bem.
De toda este “relatório” decorre que na generalidade das escolas que visito ressalta  um trabalho muito empenhado dos professores com os seus alunos,  de forma inter e transdisciplinar (Português, Física e Química, História, Educação Visual e Tecnológica, ...)   
Sabendo que me repito, não posso deixar de referir o quanto admiro toda esta dedicação, face ao desrespeito por parta da tutela.
E a este propósito deixo-vos com  uma carta aberta que provavelmente já conhecem e que podem ler aqui

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia mundial da poesia

Já aqui disse que não sou muito apologista dos dias disto, daquilo, etc.E o Dia da Poesia não é exceção. Partilho com Gedeão a ideia que todo o tempo é de poesia
 
Tempo de Poesia
Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão

domingo, 11 de março de 2012

De poesia e de poetas



 A Poesia Vai Acabar
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?


Este é um poema de Manuel António Pina, autor
que podemos ouvir aqui a propósito do seu último livro, Como se desenha uma casa .

Deixo também um poema de um autor que conheci pessoalmente há dias, num almoço extremamente agradável em casa do editor Manuel Reis.
Trata-se do poeta Ivo Machado 

Na madrugada do dia 2 de Dezembro de 1967
começou a grande tristeza de minha mãe. Ainda
Neil Amstrong não pisara a lua, nem meu pai
gozava salário de gente, tão pouco conhecia
o rosto à liberdade
[no meu país – diziam estrangeiros – os utópicos
viviam sob silêncio, masmorra e nó]
Enfim, marcou-me a data
por ser esse o dia da morte de minha avó.
Ao contrário de meus filhos nasci em escuridão,
como meus pais, como o meu país, mas apesar
da tristeza de minha mãe e do salário de meu pai,
de minha avó herdei uma lição: nenhum tirano
mata a poesia ou proíbe um aperto de mão.
In, Os Limos do Verbo, 2005

Quase a terminar,  um poema do autor brasileiro Carlos Vogt. e um outro, muito modesto, de minha autoria 


PRAGMATISMO ESTÉTICO

A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
    
o poema é quase nada
mais a inspiração 

na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
Carlos Vogt



Poesia

Gosto do narciso poeta aquela flor cuja  corola,
por  dentro amarela,é  branca por fora.
Colhi duas. 
Uma decidi comê-la 
cuidando assim engravidar de poesia
Mas a poesia, tão arredia, riu-se de mim.
Cheia de mágoa, à  beira da água
lancei ao mar a outra flor, daquelas duas.
E fiquei a olhar,  a flor  boiar
na onda  que vai  e que logo vem,
que se reflecte e se refracta,
que interfere e se difracta.
A luz do sol bateu no mar fê-lo de  prata,
reflexão também.
Por entre os meus dedos,
a areia fluía suavemente.
A flor boiava dolentemente
e a onda,  sempre a ir e voltar,
e o som do mar com seus segredos
e o gosto a sal a pairar no ar
deixando  um cheiro a  maresia.
Então, por magia,
luz , céu e  ar, onda do mar, no ir e voltar,
areia,  sal , flor  a boiar, tudo em redor foi poesia



E, para fechar com chave de ouro, O poeta é um fingidor na voz de João Villaret


Autopsicografia

   O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração. 
Fernando Pessoa 



sexta-feira, 9 de março de 2012

Ainda a semana da leitura


Na 3º feira  de manhã fui a uma escola na Afurada, estar com meninos do 2º ano (primeira sessão) e do 3ºano (segunda sessão). Os primeiros eram um pouco mais irrequietos talvez pela idade. Os segundos comportaram-se de uma forma excepcional  Para mim foi uma surpresa pois não sabiam quem eu era nem tinham trabalhado nenhum livro meu. Projetei  uns poemas com as respectivas ilustrações e fui fazendo algumas experiências (por exemplo, a propósito do poema arco-íris,  projetei uma grande arco-íris no teto, usando um retroprojetor e um copo de água). Os miúdos acompanhavam tudo com enorme atenção. Quando acabei de projetar os poemas que tinha selecionado perguntaram-me se o livro não tinha mais poemas. Então quiseram que eu lesse mais um e mais outro e mais outro …  Estava na  hora de irem almoçar mas não se dispunham a abandonar a sala de aula. Foi fantástico…

No intervalo  fui a uma mini sala de professores onde os mesmos se reúnem nos intervalos para partilhar um chá, umas bolachas, e supostamente conversarem e trocarem impressões. Enquanto ali permaneci estiveram todo o tempo ocupados a preencher formulários, a acabar relatórios, etc,etc etc...Quanto pude perceber é assim quase todos os dias. E não pude deixar de pensar com tristeza,  no quão supérfluo é hoje muito do trabalho dos professores

À hora de almoço o editor e a mulher foram buscar-me à escola e aconteceu a segunda boa surpresa do dia. Reuniram para almoçar em sua casa  três dos “seus escritores”, Vanda Marques, Ivo machado e eu. Foi um almoço extraordinariamente agradável, numa  marquise envidraçada, a dar para um pátio onde brincava o pequeno Lucas, com quase três anos.

Depois de almoço esperavam-nos mais sessões em escolas. As minhas decorreram em Ermesinde. A primeira para três turmas de 8º ano e a segunda para duas turmas de 8º e uma de 9º ano. Os alunos estavam um pouco inquietos até porque alguns iam ter testes.
Se dos alunos não tive aquele acolhimento muito caloroso que “enche as medidas” da vida de um professor, por parte dos professores fui acolhida com muito carinho.

Na 5ª feira fui à escola Óscar Lopes em Matosinhos, uma escola bastante problemática. O grupo de teatro acompanhou-me mas no fim da apresentação teve que se deslocar para outra escola. Eu fiz uma intervenção sobre a peça e, de seguida, fui brindada com várias intervenções dos alunos.

Um grupo de alunos com dificuldades educativas fez uma apresentação muito interessante do poema caleidoscópio

Caleidoscópio
Deram um dia ao José
um tubo bem divertido
Por ele espreitou
e viu um desenho colorido.
Sempre que o tubo rodava,
logo o desenho mudava
como se fosse magia.
Mas afinal era a luz
que a brincar se divertia
com vidrinhos coloridos,
dentro do tubo escondidos
no meio de três espelhos

Tinham construído caleidoscópios e no fim ofereceram-me um 


Um outro grupo de alunos encenou o poema Era uma vez um ecoponto

Uma das turmas constitui um grupo de metalofones e flautas e tocaram uma peça.

Mais alguns alunos leram poemas e um dos alunos, com uma belíssima voz, leu o poema trovoada tendo feito  questão de criar um ambiente próprio: simulação de trovões e raios, um cenário com uma imagem de trovoada, que representou também no rosto, etc 

Trovoada
Que estrondo medonho atravessa o ar?
Que luz é aquela a correr no céu, longe
lá ao fundo?
É o fim do mundo?
Não. É apenas um forte trovão e a luz, o
clarão.
É a trovoada, que no mundo antigo
se tinha por castigo de um deus
zangado.
E o que é afinal?
É uma das formas com que a natureza
mostra o seu poder e a sua beleza.

Acabadas as apresentações, partilhei com todos um chá com uns pasteis de leite servidos e preparados por alunos de um curso profissional que é uma das ofertas da escola.
E por falar em ofertas fui presenteada com um prato pintado, contendo um poema meu, feito pelos alunos de cerâmica e anda com uma tela com desenhos alusivos aos meus livros.


Fiquei muito sensibilizada pelo carinho com que todos me trataram.

E mais uma vez senti uma enorme tristeza ao ver que tudo isto só é possível pelo empenho inexcedível de muitos professores a quem a tutela tão mal tem tratado

Hoje, 6ª feira, acompanhada pelo grupo de teatro, estive na casa da Cultura de Oliveira do Hospital. Fizemos duas sessões para alunos de várias turmas: a primeira com alunos de 7º ano e a segunda com alunos de 8º ano. Deu para perceber que também aqui se tratava de alunos problemáticos, o que foi confirmado  pelos professores. Mas apesar de serem muitos, lá foram participando,  pior na primeira sessão, razoavelmente na segunda.

Quando regressávamos, uma autora que deveria estar presente à tarde em Ermesinde, comunicou  ao editor que tal seria impossível. Os alunos tinham preparado uma peça relativa a um livro da referida autora para apresentar na sua presença e adivinhava-se uma imensa decepção. Decepção era também o sentimento do editor pelo que  lhe sugeri  ir eu, não para substituir a autora obviamente, mas para que os alunos não se sentissem tão frustrados.
Vi e gostei muito da representação dos alunos, muito empenhados no seu papel.
De seguida li alguns poemas meus que acompanhei com algumas experiências. Estavam satisfeitos e no fim quiseram tirar umas fotografias comigo.

Também aqui se notou o grande envolvimento dos professores no acompanhamento destes alunos.

Quero expressar o meu apreço por todos os professores que, de Norte a Sul do país, dão o seu melhor. Em particular queria realçar o papel fundamental de muitos professores bibliotecários, muitas vezes os grandes dinamizadores destes eventos.

E termino com um texto que podem encontrar aqui
…. apesar de os professores terem sido quase considerados inimigos e criminosos por parte dos dois últimos (des)governos, foi divulgado agora o relatório PISA - que o actual governo e a comunicação social se preocuparam rapidamente a esconder - onde mais de 90% dos alunos portugueses afirmam ter uma imagem positiva dos seus professores, ocupando os professores portugueses a 1ª posição entre os docentes dos 33 países da OCDE.
O mesmo relatório conclui ainda que os "professores portugueses estão sempre disponíveis para as ajudas extras aos alunos e que mantêm com eles um excelente relacionamento". E acrescenta que "Portugal é o 6º país da OCDE cujo sistema educativo melhor compensa as assimetrias sócio/económicas".

segunda-feira, 5 de março de 2012

Semana da leitura


A Semana da Leitura 2012, que se centra na Cooperação/ Solidariedade, convida TODOS a lerem com TODA A GENTE em TODO O LADO!

Semana da Leitura 2012

Entre 5 e 9 de Março de 2012, propõe-se, a partir de leituras diversas, a abordagem de questões transversais que preocupam o mundo atual e que, estando relacionadas com a temática proposta para esta edição, abordem áreas que podem ir da cooperação entre etnias e culturas ou entre meios rurais e meios urbanos, até preocupações relacionadas com a educação, a saúde, o lazer, os recursos naturais ou as fontes de energia.

Sob esta ou outra designação as escolas  vão incentivando a leitura, dinamizando actividades com os alunos e não apenas na semana referida
 Assim, de 28 Fevereiro a 2 de Março, decorreu no Colégio de Nossa Senhora da Bonança o FantasLíngua V
No dia 1, e a propósito da Breve História da Química estive no Colégio juntamente com o grupo de teatro 3 pancadas. A sessão destinou-se a alunos e 3º ciclo que genericamente foram muito participativos

Hoje,  dia 5, durante o turno da manhã estive na Escola  Secundária de Águas Santas, e tendo por base o livro “Pelo sistema escolar vamos todos viajar” dinamizei três sessões para 7 turmas de 7º ano de escolaridade, cada uma delas com vinte e muitos alunos.
As sessões correram muito bem. Na primeira sessão estava prevista uma intervenção a propósito de um dos textos do livro mas, por razões de saúde, a professora não pôde trabalhar essa intervenção com os alunos. Mesmo assim, no final da sessão, um grupo fez questão de me brindar com uma apresentação. Mas ao longo da manhã fui surpreendida ainda por outras intervenções: trabalhos feitos em articulação com EVT, 



 uma entrevista, poemas feitos por grupos de alunos. 



A terminar a manhã, alguns alunos do grupo de flautas da escola, tocou, sob a orientação da professora de música, excertos de vários temas, nomeadamente “Loca” de Shakira

Foi muito interessante ver esta articulação entre várias áreas: física e química, português, artes visuais, música

À tarde estive no Agrupamento de Escolas de S Mamede onde já tinha estado no ano lectivo anterior

Uma primeira sessão decorreu na Escola da Ermida, com duas  turmas de alunos de 4ºano dessa escola e ainda uma turma da escola da Asprela

Logo de início os alunos fizeram uma leitura representada do poema Era uma vez a lua. Depois da minha intervenção, com experiências à mistura como é habitual, colocaram inúmeras questões. Leram também o poema que anexo



A seguir deslocámo-nos para a Escola PE Manuel Castro onde trabalhei com duas turmas de 4º ano da Escola  e mais uma turma da Escola da Igreja

Logo de início os alunos fizeram uma leitura representada do poema Era uma vez o vento. A leitura iniciou-se dentro da escola mas terminou no pátio com o lançamento de um papagaio de papel (que por falta de vento apenas ensaiou um arremedo de voo), vários balões e cataventos. De regresso ao interior fiz a apresentação mas os alunos estavam um pouco agitados quer pelo entusiasmo no exterior quer pelo adiantado da hora. Mesmo assim terminaram com uma entrevista que conduziram muito bem

Em todas estas escolas senti-me muito acarinhada por professores e alunos. Alguns deles no fim das sessões abeiravam-se de mim e diziam-me. Gostei mesmo muito do seu livro..

A terminar dou conta de uma iniciativa deste agrupamento de S. Mamede, onde amanhã é esperada a escritora Isabel Alçada

Durante a semana de 5 a 9 mais de 15 cafés e pastelarias de S.Mamede, vão oferecer com o café, uma surpresa enrolada; um poema, uma palavra doce, uma palavra voadora, uma rima para completar ou um provérbio incompleto.
Pedimos retorno, queremos que leiam mas que também escrevam. O objetivo primeiro é levar as crianças a escrever, numa aprendizagem significativa, o segundo é promover a leitura, o terceiro motivar para a escrita e por último e transversal e abrangente é promover a interação Escola/Comunidade. Todas as 5 escolas aderiram e cada aluno produzirá um rolinho por dia, com um tema diferente. Um dia produzem palavras doces, outro, palavras voadoras, outro, poema, outro, uma rima e por fim um provérbio.
Como temos 31 turmas no agrupamento a uma média de 20 alunos por turma, num total aproximado de 620 alunos (número por defeito), cada aluno produz 5 trabalhos, vamos ter três mil e cem (3.100) leitores em ação. No final aferiremos o retorno.  



Daqui até ao fim de semana irei a mais quatro escolas. E para a semana há mais…