Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Noé Sendas no Museu do Chiado


No Museu do Chiado inaugurou ontem  a instalação Long Distance Relationships {German Diaries), concebida por Noé Sendas para a Sala Polivalente do MNAC


Noé Sendas, Long Distance Relationships {German Diaries}, 2012
“What I want to know about is the artist, who is never comfortable by definition”
Sammuel Beckett, German Diaries, 1937

A 28 de Setembro de 1936, Sammuel Beckett (1906-1989) parte de Dublin para uma viagem de seis meses pela Alemanha. Num momento de crise existencial e criativa, a viagem assume a condição ambígua de “moving pause”, uma pausa em trânsito, movente e inspiradora, através de um percurso pelo centro de uma Europa também em crise, entre duas guerras mundiais. Nos diários que manteve durante toda a viagem, Beckett regista o quotidiano perturbador de um país sob a ameaça nazi, cruzando as suas reflexões sobre a cultura alemã com descrições de centenas de obras de arte que viu em galerias e museus. Encontrados pouco tempo depois da sua morte, os seis diários alemães permanecem, ainda hoje, como documentos inéditos, nos arquivos da Universidade de Reading.
O sentido privado, íntimo, destes diários constitui precisamente o ponto de partida para o projecto de Noé Sendas. A sua viagem começa, assim, em Inglaterra, com a leitura dos manuscritos de Beckett que lhe fornecem as coordenadas para traçar um itinerário pela Alemanha contemporânea, em que as referências históricas, literárias e cinematográficas se associam a fragmentos - imagens, sons, objectos - que recolhe antes, durante e depois desse trajecto.
Na instalação Long Distance Relationships {German Diaries}, concebida especificamente para a Sala Polivalente do MNAC – Museu do Chiado, encontram-se algumas características fundamentais na obra de Noé Sendas: para além da leitura de Beckett, patente em muitos dos seus trabalhos, evidencia-se a presença de diversos meios de expressão (escultura, fotografia, vídeo), num sistema conceptual e espacial que sugere relações entre materiais de proveniências distintas. Mais do que relatar um percurso ou evocar memórias, Noé Sendas explora uma outra ideia de “pausa movente”, fixando o instante em que o tempo parece suspenso na subjectividade do viajante, entre a experiência real e o sonho ou a ficção da viagem, num silêncio que confronta o espectador com a estranheza da sua percepção e, simultaneamente, com a inquietação e o desconforto do próprio artista. Porque, afinal, essa inquietação é o ponto de partida para ambas, ou talvez todas, as viagens.
Helena Barranha

Quem é Noé Sendas? 
Para esta pergunta poderemos encontrar  resposta (ou respostas?) em vários websites e não só...


NOÉ SENDAS ou a agonia de um ventríloquo 
[fragmento de um texto inédito de David Barro]

Entendo toda a obra de Noé Sendas como uma espécie de auto-retrato agónico, retorcido, a partir de um primeiro plano incómodo. Tal como em Faces de Cassavetes, a proximidade crua, mais do que revelar-nos um mundo táctil dificulta-nos a visão, derrete-a ou asfixia-a. Tudo vai dar a uma obscenidade próxima da cegueira, como no erotismo de Bataille. Como na loucura de Lady Macbeth. Tal é o fôlego nu de Noé Sendas na obra que tira o seu título dessa ambivalente personagem shakespeariana, esse desejo compenetrado, arrefecido ao ponto de solicitar a calma no olhar.

“Nada se ganha, tudo se perde, ao obter o que desejamos sem contentamento. É melhor ser aquilo que destruímos, do que pela destruição viver uma felicidade dúbia” [*], declara Lady Macbeth. É o paradoxo de uma vitória virtual em forma de destruição, encarnada numa Lady Macbeth metamórfica, primeiro criminosa, depois demente ou suicida. Essa violência transformadora, esse delírio capaz de desintegrar qualquer ambição, faz-nos pensar que o horror não está no crime mas na metamorfose, nessa viagem a si mesmo que desemboca no suicídio. É isso que atrai um Noé Sendas, que trabalha a aparência e inverte os valores, ou melhor, desdobra o seu sentido, como o Shakespeare mais obscuro. Daí o seu interesse em deformar as formas, como a linguagem impotente de uma personagem ferida, agonizante. Mas sobretudo nu, como a morte erótica de Bataille. “A acção decisiva é despir-se. A nudez opõe-se ao estado fechado, quer dizer, ao estado de existência descontínua. É um estado de comunicação, que revela a procura de uma continuidade possível do ser para lá do retraimento sobre si próprio. Os corpos abrem-se à continuidade por esses canais secretos que nos dão o sentimento da obscenidade. A obscenidade significa a perturbação que destabiliza um estado dos corpos conforme ao autodomínio, ao domínio da individualidade duradoura e afirmada” [1].

E no meio, um espelho. Capaz de deformar a imagem, de a esticar, de fazer uma espécie de respiração assistida ao retrato mais apagado. (…)

David Barro

Noé Sendas nasceu em 1972, em Bruxelas, estudou na Escola de Arte e Comunicação AR.Co em Lisboa e a sua educação artística envolveu períodos em escolas artísticas em Londres e Chicago, assim como residências em Madrid e Berlim. Em meados dos anos 90 iniciou a sua carreira de exposições. A exposição individual na Culturgest, (Porto em 2002/03) veio dar um maior conhecimento e solidificar a sua trajectória artística que poderemos conhecer melhor visitando, entre outros,   o website do artista


A obra de Noé Sendas já esteve por mais que uma vez no Porto. Para além da Culturgest já expôs   no Palacete Pinto Leite e na Galeria Fernando Santos , exposição “Reserved”, Pintura e Escultura de Noé Sendas.
RESERVED (Esculturas e Pinturas) de Noé Sendas, não se refere a esculturas em três dimensões nem a uma série de pinturas mas sim a uma série de imagens digitais “preparadas”. O seu novo corpo de trabalho toma a forma de um arquivo - colecção de mais de 9000 imagens risqué dos anos 50. Imagens anónimas e de domínio publico “sacadas” da internet.

Esta exposição revela uma fracção desta colecção e apresenta-nos fragmentos e imagens surreais de 100 mulheres captadas em cenários idênticos, realizando “performances” que tem como pano de fundo um conjunto muito restrito de elementos cénicos e em que os aspectos de composição formal são menorizados uma vez que é privilegiada a captação de determinados instantes de corpos em movimento, para uma maximização do efeito risqué.


As imagens apresentadas em RESERVED mesclam definições de corpo e objecto. Figuras femininas surgem sem forma (pelo modo como parte dos seus corpos são transformados em moldes ou em manequins) e em actos risqué ou sexualmente explícitos imediatamente reconhecíveis, mas que estão no entanto velados ao nosso olhar. Por outro lado alguns objectos adquirem um significante masculino; uma cadeira, um par de sapatos e umas calças compõem e evocam um corpo em dissolução. Uma escultura de um homem sentado ocupa o centro da sala de exposição. Este surreal “Chairman” tem como pano de fundo as imagens das pin-ups, a sua face que não nos é dada a ver, está escondida por um espelho, revela o nosso protagonista principal, o homem risqué ou um narrador silencioso, que colecciona e consome o que o rodeia. Os espectadores podem eles próprios reconhecer-se nessa situação.

RESERVED é uma exposição sedutora e desconfortável. As estranhas imagens de corpos desmembrados, velados, fragmentados remetem para uma estética que se situa entre o belo e o grotesco. As imagens são simultaneamente familiares e estranhas, apelativas e perturbadoras. Determinante é o facto de resistirem a uma leitura fácil ou linear devido às suas múltiplas alusões.


Bem vindos ao vosso peep show. O que estão a ver?


(Fragmento do texto “Watch the Birdie wait for the Flash”, escrito por Eliza Tan, por ocasião da Exposição RESERVED, Abril 2009)

                           
Pelo lado materno, Noé Sendas tem origens em Alfândega da Fé pelo que os alfandeguenses já tiveram o privilégio de ver uma exposição sua, na casa da Cultura Mestre José Rodrigues                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Alfândega da Fé, terra de amêndoa


 
Durante muitos anos, ao falar em amendoeiras em flor era vulgar associá-las ao Algarve. Hoje já se associam à terra quente transmontana. O curioso é que a maior produção de amêndoa se situa há muito, muito tempo, nesta região, nomeadamente em Alfândega da Fé.

A amendoeira é uma das tradicionais culturas de Portugal continental (…),As principais zonas de produção de amêndoa localizam-se nas regiões de Trás-os-Montes e Algarve, com pesos na área total do Continente (média do quinquénio 2001-05) de 60% e 35%, respectivamente

Em 1925 o meu pai foi para o Brasil trabalhar na empresa de um tio (era primo direito da minha avó mas, naquela época e em Trás-os-Montes, era habitual tratar por tios os primos direitos dos pais). Tratava-se de uma grande empresa de exportação e importação. A amêndoa estava  entre os  produtos comercializados e a mais bem cotada era precisamente a de Alfândega da Fé, o que deixava o meu pai muito orgulhoso

O meu pai ao volante do seu Chevrolet, em 1925 pouco tempo depois de ter chegado ao Brasil

Mas a que propósito me lembrei de falar das amendoeiras em Alfândega da Fé?

Por causa do Mercadinho Flor da Amêndoa - Alfândega da Fé


blogue  acima sugerido é um óptimo divulgador do concelho no que respeita ao seu património  e às  suas iniciativas (como o fez muito recentemente com os festejos do  Carnaval

Mas voltando às amendoeiras, em breve se cobrirão de flor. O espectáculo ainda hoje é digno de se ver, embora  haja muito menos amendoais do que aqueles que existiam na minha infância e adolescência

A propósito das amendoeiras e das suas flores, deixo uma lenda que por certo conhecem,  dois poemas meus publicados em Magnetismo Terrestre e uma foto.
Começo pela lenda que encontrei aqui

Há muitos e muitos séculos, antes de Portugal existir e quando o Al-Gharb pertencia aos árabes, reinava em Chelb, a futura Silves, o famoso e jovem rei Ibn-Almundim que nunca tinha conhecido uma derrota. Um dia, entre os prisioneiros de uma batalha, viu a linda Gilda, uma princesa loira de olhos azuis e porte altivo. Impressionado, o rei mouro deu-lhe a liberdade, conquistou-lhe progressivamente a confiança e um dia confessou-lhe o seu amor e pediu-lhe para ser sua mulher. Foram felizes durante algum tempo, mas um dia a bela princesa do Norte caiu doente sem razão aparente. Um velho cativo das terras do Norte pediu para ser recebido pelo desesperado rei e revelou-lhe que a princesa sofria de nostalgia da neve do seu país distante. A solução estava ao alcance do rei mouro, pois bastaria mandar plantar por todo o seu reino muitas amendoeiras que quando florissem as suas brancas flores dariam à princesa a ilusão da neve e ela ficaria curada da sua saudade. Na Primavera seguinte, o rei levou Gilda à janela do terraço do castelo e a princesa sentiu que as suas forças regressavam ao ver aquela visão indiscritível das flores brancas que se estendiam sob o seu olhar. O rei mouro e a princesa viveram longos anos de um intenso amor esperando ansiosos, ano após ano, a Primavera que trazia o maravilhoso espectáculo das amendoeiras em flor.

Flores de amendoeira

As flores de amendoeira, antes da Primavera, 
cobrem a ladeira como um branco véu
ou como vestes de anjo  que se esfumou no céu.
Impressa no código genético a química magia
da ebúrnea cor  que recende a  nostalgia


Nostalgia

Quando passo num amendoal, após o verão,
sinto um misto de nostalgia e emoção
ao ver a amêndoa abandonada nas árvores e no chão.
Outrora significou   prosperidade  e eram guardados  os amendoais
para garantir que  os rebusqueiros não rebuscavam demais,
que rebuscavam só no chão, à claridade,  só de dia e não ao lusco-fusco.
Hoje, já ninguém anda ao rebusco.
No Verão,  sob um sol abrasador, era a apanha.
Hoje fica nas árvores e cai na terra que a arrebanha  e com ela se funde; confundem-se os seus tons.  Da escacha já há muito não se  ouvem sons.
Os escachadores ora em uníssono, ora desfasados, habilmente manejados 
com gestos secos, certeiros e breves por mulheres, crianças,  raparigas,
que enchiam o ar de risos e cantigas,  iam partindo a amêndoa, 
sempre cadenciados, deixando o grão intacto ou com mazelas leves, 
enquanto das cascas, o monte  crescia no chão.
Mais tarde, a par da lenha,   na  lareira,  iriam servir para combustão.
O grão ia para sacos de serapilheira. Mais tarde era vendido 
e o seu destino era assim perdido. Aquele que ficava imperfeito,  esbotenado, iria ser, mais tarde,  laminado, misturado com ovos  e açúcar,  nos rochedos cujas receitas eram envoltas em segredos e cuja doçura ocultava a  agrura
de tanta fadiga e de tanto suor. 
Eram a lavra, a limpa, a enxertia, ano após ano um ritual que se cumpria
e quando floriam as amendoeiras, o lavrador contemplava
do cimo das ladeiras  aqueles véus de noiva a perder de vista,
não com o olhar breve de um turista, 
mas com um profundo olhar, cheio de amor.


 Na foto pode ver-se como as novas flores coexistem com as amêndoas da produção anterior, que não foram colhidas .

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

23 de Fevereiro - Relembrar Zeca Afonso


Esta semana tem sido um pouco complicada para mim, com muito pouco tempo disponível.

Mas não podia deixar de  lembrar Zé Afonso.

No site da Associação José Afonso podemos  sempre redescobri-lo…

Tenho uma amiga que foi sua aluna em Setúbal. No referido site encontrei o testemunho de alguém que também o foi

 Vejam também aqui

 

Por fim, uma das inúmeras belíssimas canções de  José Afonso

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Em Louvor das Crianças


Em Louvor das Crianças  
Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.

O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.


Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'
  
A ideia de colocar este texto surgiu após ter visto, por acaso,  na NET  um vídeo, de cujo texto deixo alguns excertos (transcrevendo-os conforme estão escritos)

Olá, sou Severn Suzuki.
Represento a ECO, a organização das crianças em defesa do meio ambiente (…)
(…)Estou aqui para falar em nome das gerações que estão por vir. Estou aqui para defender as crianças com fome, cujos apelos não são ouvidos.
Estou aqui para falar em nome dos incontáveis animais morrendo em todo o planeta, porque já não têm mais para onde ir.

Não podemos mais permanecer ignorados!
(…)Sou apenas uma criança e não tenho soluções, mas quero que saibam que voces também não têm.
Voces não sabem como reparar os buracos da camada de ozônio!
Voces não sabem como salvar os salmões das águas poluídas!
Voces não podem ressuscitar os animais extintos!
Voces não podem recuperar as florestas que um dia existiram, onde hoje é deserto.
Se voces não podem recuperar nada disso, então por favor: parem de destruir!

(…) Sou apenas uma criança, mas sei que esse problema atinge a todos nós e deveríamos agir como se fossemos um único mundo, rumo a um único objetivo.
Apesar da minha raiva, não estou cega. Apesar do meu medo, não sinto medo de dizer ao mundo como me sinto.
No meu país, geramos tanto desperdício, … compramos e jogamos fora,… compramos e jogamos fora,… e os países do Norte não compartilham com os que precisam. Mesmo quando temos mais do que o suficiente!!! Temos medo de perder nossas riquezas, medo de compartilhá-las.
(…)  Há dois dias aqui no Brasil ficamos chocados! Quando estivemos com crianças que moram nas ruas,.. ouçam o que uma delas nos contou:
“Eu gostaria de ser rica e se fosse, daria a todas as crianças de rua, alimentos, roupas, remédios, moradia, amor e carinho.”
E se uma criança de rua que não tem nada, ainda deseja compartilhar, porque nós que temos tudo somos ainda tão mesquinhos???

Não posso deixar de pensar que essas crianças têm a minha idade e que o lugar onde nascemos, faz uma grande diferença.
Eu poderia ser uma daquelas crianças que vivem nas favelas do Rio (Rio de Janeiro –BR). Eu poderia ser uma criança faminta da Somália. Uma vítima da Guerra do Oriente Médio ou uma mendiga da Índia.

Sou apenas uma criança, mas ainda assim sei que se todo o dinheiro gasto nas guerras fosse utilizado para acabar com a pobreza, para achar soluções para os problemas ambientais,… que lugar maravilhoso a Terra seria!!!
Voces adultos, nos dizem que voces nos amam. Eu desafio voces!
Por favor: façam as suas ações refletirem as suas palavras!

Obrigada.

Ao ler este depoimento lembrei-me dos desenhos das crianças campo de Concentração de Terezín, durante a 2ª guerra mundial, e que constam de um acervo  no primeiro andar da Sinagoga Pinkas em Praga.. Os desenhos impressionam muito por retratarem através da subtileza e inocência das crianças uma época de horror absoluto.


A exposição tem sido exibida em vários países, nomeadamente no Brasil

Enquanto  escrevia esta mensagem lembrei-me de alguns poemas meus publicados em Reflexões e Interferências
Aqui ficam dois.

Mina

Mina faz lembrar minério,
e também algum mistério,
naquelas muito profundas,
e muitas vezes imundas,
onde espreita frio e cru
o perigo do grisu.
Mina, lembra ouro, diamantes,
e as condições degradantes
em que se extraem da terra.
Mina também lembra guerra
com todo o horror que  encerra.
Gimbi, menino de Angola,
não vai mais jogar à bola
pois ficou estropiado,
sem as pernas, mutilado,
ao pisar em chão minado.

Hipocrisia

Lactarius deliciosus.
Não sei se foi Lineu
quem o nome lhes deu.
Eu,
no meio do pinhal,
com gestos suaves, subtis, 
vou-as colhendo uma a uma.
São as sanchas, frágeis, delicadas,
como que envergonhadas, 
por baixo da caruma.
Chapéu e pé em tom alaranjado,
já em pequenina,
a medo, eu  as colhia
pois sabia
que mesmo ali ao lado,
outros cogumelos,
alguns muito mais belos,
teciam seus ardis.
Insidiosos, perigosos,
escondem em si a muscarina,
a psilocibina,
tanta, tanta  toxina,
tantas vezes fatal.
Tal qual a hipocrisia
nos humanos,
desumanos,
antes eu diria,
que enchem a boca com a democracia
e a globalização, 
visando um  mundo novo,
enquanto vendem armas para matar o povo
que subjugam pela exploração.

Júlio Resende e o Diário de Paris


Ontem fui ao Lugar do Desenho, à inauguração da exposição Diário de Paris.

 
 Eis um pequeno excerto do "Diário"

 A dada altura dá-nos conta de uma vista feita por dois outros grandes mestres, o seu primo Lanhas  e  Nadir Afonso.   
Tudo é escrito com simplicidade, por vezes integrando episódios interessantes, mas o que mais ressalta é a imensa sensibilidade poética do artista.

Habituei-me à presença física do Mestre nas inaugurações em que estivera anteriormente.  Por isso senti uma certa tristeza por não o ver, embora o sentisse presente em cada um dos textos, dos desenhos, das obras.

Comprei alguns postais com imagens de trabalhos seus
Aqui deixo alguns


sábado, 18 de fevereiro de 2012

Obrigada Albert Einstein



O sistema de posicionamento global, popularmente conhecido por GPS (acrónimo do original inglês Global Positioning System, ou do português "geo-posicionamento por satélite") é um sistema de navegação por satélite que fornece a um aparelho receptor móvel a posição do mesmo, assim como informação horária, sob todas quaisquer condições atmosféricas, a qualquer momento e em qualquer lugar na Terra, desde que o receptor se encontre no campo de visão de quatro satélites GPS (…).Cada um circunda a Terra duas vezes por dia a uma altitude de 20200 quilómetros (12600 milhas) e a uma velocidade de 11265 quilómetros por hora (7000 milhas por hora), de modo que, a qualquer momento, pelo menos 4 deles estejam “visíveis” de qualquer ponto da Terra. Os satélites têm a bordo relógios atómicos e constantemente difundem o tempo preciso de acordo com o seu próprio relógio, junto com informação adicional como os elementos orbitais de movimento, tal como determinado por um conjunto de estações de observação terrestres (…)O receptor não necessita de ter um relógio de tão grande precisão, mas sim de um suficientemente estável. O receptor capta os sinais de quatro satélites para determinar as suas próprias coordenadas, e ainda o tempo. Então, o receptor calcula a distância a cada um dos quatro satélites pelo intervalo de tempo entre o instante local e o instante em que os sinais foram enviados.(…)
 
É possível identificar a posição do receptor, tendo em conta  a velocidade de propagação do sinal de microondas emitido, a descodificação as localizações dos satélites a partir desses sinais e  uma base de dados interna, Atualmente o sistema está sendo muito difundido em automóveis com sistema de navegação de mapas, que possibilita uma visão geral da área que se está a percorrer
Até os  Simpsons o usam
O funcionamento  do GPS tem por base a da teoria da relatividade

Obrigada  Albert Einstein

Arma poderosa

A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo
(Nelson Mandela)

Li esta frase num marcador para livro que trouxe do Agrupamento de Escolas D. Pedro I em Canidelo onde, a propósito da Breve História da Química, estive nos passados dia 13 e 14. Foram duas sessões, cada uma com 75 alunos (7ºano no dia 13 e 8º no dia 14), e com a duração de cerca de 1 h e 30 min.
O espaço da Biblioteca era reduzido para tantos alunos mas, apesar disso, estiveram muito interessados. Os de 8º ano eram um pouco mais barulhentos e intervinham de forma mais anárquica, mas os de 7º ano, muito curiosos, fizeram intervenções muito interessantes.




E mais uma vez eu admiro os professores que se empenham,  mal grado a forma como a profissão tem vindo a ser tão pouco acarinhada  pelo sistem.
Infelizmente não só em Portugal




A terminar e já que comecei a falar da ida a Canidelo com o livro Breve História da Química,  não resisto a contar um episódio  que me aconteceu hoje.
Inscrevi-me há dias no Holmes Place, aproveitando uma campanha recentemente lançada. Hoje fui ter uma avaliação com uma “ monitora” para me ser aconselhado um programa de treino, em função das minhas capacidades físicas. Logo que  nos encontrámos perguntou-me “Desculpe a minha pergunta,  é escritora?  Embora nas escolas seja sempre apresentada como escritora ainda não me habituei (acho que sou, e serei sempre, essencialmente professora) e por isso estranhei a pergunta.
Uma irmã de dez anos gosta dos meus livros pelo que o meu nome não lhe era estranho.
Estas “coisas” fazem bem ao ego…


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lutadoras



“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;

Porém, há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”

                                                                                              BERTOLT BRECHT

A minha amiga Ana Maria, é um exemplo de coragem. Conheci-a na escola Utopia, onde ambas frequentamos aulas de pintura.  Há anos foi-lhe diagnosticado um mieloma múltiplo. Tal como muitos outros, travou uma luta feroz com a doença.  A Clínica da Universidade de Navarra, que completou 50 anos em 2011,  deu a conhecer um pouco da vida de alguns desses lutadores, nomeadamente da Ana Maria

Tenho mais duas amigas que, tal como a Ana Maria, têm lutado contra muitas adversidades, nomeadamente a doença.

E quando penso em mulheres lutadoras,  a primeira que me vem à lembrança é a minha mãe. Lutou por tudo aquilo em que acreditava, só não conseguiu lutar contra a doença de Alzheimer que, durante 13 anos e a partir dos 58, foi destruindo aquela  mulher ímpar.
Sei que já coloquei aqui um poema que lhe dediquei, em que tento dar conta de toda a sua força, mas não resisto a colocá-lo de novo.

Mãe

Como eu  me lembro bem, mãe.
Catorze anos seria talvez  a minha idade,
uma colega do liceu
disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade
E eu  fiquei toda cheia de vaidade.
Lembro-me de tanta outra coisa mãe
Do linho esticado dentro do bastidor
e dos teus bordados em ponto pé-de flor,
em matiz, ponto de sombra ou  de grilhão,
ao sabor da  imaginação,
como o vestido da minha comunhão.
Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão;
chamavas-lhe quitutes, mãe.
Receita portuguesa, brasileira, italiana,
ainda hoje os teus quitutes têm fama
entre os amigos que os saborearam.
Ainda há dias alguns os recordaram.
Lembro-me ainda
que  não era só o sabor, era o aspecto.
Em tudo colocavas muito afecto
e sempre a tua a sensibilidade infinda.
Além de sensível eras tolerante,  corajosa,
lutadora, criativa, generosa.
Como eu recordo, mãe,
tantas histórias inventadas por ti,
em que o sabiá e a surucucu
contracenavam com o colibri,
com a jibóia e o bicho tatu.
Como eu recordo, mãe,
a tua lindíssima voz de soprano
cantando árias de Verdi, de Puccini,
(da Madame Butterfly, da Traviata),
do barbeiro de Sevilha de Rossini,
ou ainda Shubert, a serenata,
tentando eu acompanhar-te no piano
que, por falta de talento, mal tocava,
o que algum desgosto te causava.
Um dia, já a tua mente muito vária,
apercebi-me de que não gravara a tua voz
Tentei então que cantasses uma ária
para ficar com os registos entre nós
Tarde demais
De reconhecer  a música tu foste incapaz
Tinhas apenas cinquenta e oito anos.
E a partir daí a  doença, tão voraz,
foi-te destruindo dia a dia a mente,
dia após dia causando mais  danos
e eu,  recusando-me a aceitar tais desenganos,
era contigo que me revoltava, mãe.
Que foi feito de ti mãe
outrora tão  sensata,  inteligente?
Que foi feito da tua sensibilidade,
da tua coragem e força de vontade?
Porque te deixaste assim destruir, mãe?
Ficaram as fotos,  a recordação,
tanto vazio  no meu coração,
tantas lembranças, algumas em  bocados.
Como herança deixaste o bastidor,
as partituras, as receitas, os bordados.
Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.
Por dizer ficou ainda tanto amor.


 Termino com a fotografia da autoria do espanhol Samuel Aranda que que ganhou em 2011 o World Press Photo 2011, o mais conceituado prémio de fotojornalismo



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Book


Talvez já conheçam  o vídeo Book  uma revolução tecnológica. De qualquer forma não resisto a partilhá-lo com quem eventualmente ainda o não viu


Partilho também  um outro vídeo  sobre o tema: Os fantásticos livros voadores do Senhor Lessmore


 A ideia de partilhar estes vídeos surgiu após a leitura de um belíssimo texto  “introdutório” que José Luís Peixoto faz ao seu livro Abraço




E já que o tema é livros  deixo ainda uma imagem cuja fonte desconheço e  um poema meu não publicado

 

Submissão

As letras dentro das sílabas.
As sílabas dentro das palavras.
As palavras dentro dos textos.
Os textos dentro dos livros.
Gosto de livros.
Gosto de passear o olhar por título e autor.
Depois, qual ritual, num gesto sensual,
acaricio a capa e a lombada,
aspiro o seu odor.
Por fim decido-me a abri-los, a folheá-los
E, de uma forma sôfrega, apressada,
começo a lê-los.
Leio-os por vezes só de uma assentada.
Mais tarde releio-os lentamente,
saboreando frases e palavras uma a uma.
Em suma,
ler é uma fonte inesgotável de prazer.
Mas o livro não pode ser qualquer.
Alguns, simplesmente não os leio,
outros abandono-os quando a meio.
Todos eles simples, submissos,
aceitam os meus gestos, 
manifestos ou  omissos.
(2007)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dia dos namorados

Em 2011, a propósito do Dia dos Namorados, a Editora Gatafunho, com a qual trabalhava à data, pediu-me uma colaboração para o blogue  

Eis o que acabou por ser editado.

Em 2009 foi editado o Livro "Os Dias do Amor", uma recolha antológica de 365 poemas de amor de 365 poetas, feita por Inês Ramos. E porque amanhã é o dia dos namorados vamos incluir aqui dois poemas da antologia (…)

Fim das chuvas nas searas

Sobre as coisas diversas do campo a mesma luz terrestre
O meu amor vai regressar e eu estou feliz
Talvez de mãos dadas ou talvez sem dar as mãos
É impossível não pensar que amanhã caminharemos até aquela casa
Para ver como a cidade é bonita vista das montanhas
Ou para não ver como a cidade é bonita vista das montanhas
António Ladeira

Pesadelo

Não sabia quão grande era o amor
mas ao imaginar tê-lo perdido
foi de tal modo intensa a dor,
como um buraco negro foi tão densa
que tudo à minha volta era vazio.
Sem luz, sem qualquer crença,
tudo se tornou lúgubre, frio.
A vida ficara sem sentido.
Regina Gouveia

Por sugestão minha foram  também incluídos o poema que segue de Jorge Sousa Braga e um texto que escrevi propositadamente para os mais pequenos

Poema de Amor
 
Esta noite
sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo
com o receio
de que ele não te coubesse no dedo.
Jorge de Sousa Braga


 Um belo dia...
Um belo dia, uma raia
resolveu ir passear
e assim foi a flutuar,
lá desde as águas profundas,
onde costuma habitar,
quase até à beira mar
onde, se sabe,  há perigos
sempre prontos a atacar.
Foi quando viu um peixinho,
lindo, lindo de encantar,
pendurado duma cana
que viera para o pescar.
Nadou então velozmente
para o fio ir cortar .
Ao peixinho, já cansado
de se tentar libertar,
quando a viu aproximar
pareceu-lhe ver um anjo
com as asas a adejar.
Liberto daquela cana
que o tentara pescar,
tirou-lhe a raia o anzol
que ainda estava a magoar.
Cobriu-o com a barbatana
como se fora um lençol.
Levou-o então mar afora
para a sua casa no fundo
e o peixinho descansou
dormiu um sono profundo.
Sonhou com o Nemo e a Dora.
A raia, quando o velava,
começou a perceber
que já estava enamorada.
Foi então que ele acordou
e ao ver o seu anjo ao lado
ficou logo enfeitiçado.
Foram nadar enlaçados
conhecer o mar inteiro.
E eis que  viram no mar
uma placa a anunciar
"14 de Fevereiro
o dia dos namorados".
Regina Gouveia (inédito)



Ainda por sugestão minha foi incluída no referido blogue uma referência aos lenços de namorados

 

Termino com um belíssimo soneto de Vinicius, dito pelo autor

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fernando Lanhas - Os 7 Rostos

Ainda a propósito da personalidade multifacetada de Fernando Lanhas, encontrei este vídeo a que  também faz  referência  De Rerum Natura. Aí podemos encontrar também   alguns poemas seus  e um texto muito interessante da autoria de Carlos Fiolhais

Eis os poemas

I
Deus não é
a forma que lhe atribuímos,
mas a sua verdade,
que inventamos,
é a única que entendemos.

XXVI

O Sol
os sóis
os navios.
Os navios usam-se;
entendemos os navios que fizemos.

Os sóis
não os inventamos.

XXVII

Seguimos
à beira de saber;
a cumprir
aquilo que não sabemos,
do lado
em que não se sabe.



 

Conforme referido no vídeo, não se lhe conhecia uma grande relação com a música. Talvez pela  surdez contraída em criança e que se agravou ao longo dos anos. Mas em sua homenagem deixo mais um excerto dos planetas de Holst, desta vez dedicado a Urano

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Se Isto é um homem

Se isto é um homem é o título do livro mais conhecido de Primo Levi de quem já aqui falei a propósito de um outro livro : O Sistema Periódico
No passado dia 1 de Fevereiro, pôde ler-se em De Rerum Natura

Acaba de sair na colecção "Ciência Aberta" da editora Gradiva um livro muito interessante Diálogo sobre a Ciência e os Homens entre o escritor Primo Levi e o físico Tullio Regge, em tradução do professor de Física da Universidade do Porto Eduardo Lage e prefácio de outro professor de Física da mesma Universidade José Moreira Araújo. Por amabilidade da editora transcrevemos o prefácio:

 Aqui ficam alguns excertos desse prefácio.

 (...)A sua obra literária, hoje traduzida em muitas línguas, cresceu e diversificou-se ao longo de quatro décadas,num estilo marcado pela sua formação e curiosidade científica. No entanto, muitos de nós, pouco confiantes no seu domínio da língua italiana, tiveram de esperar anos, por vezes muitos, por uma tradução em língua mais divulgada, por exemplo inglês. Com a excepção, que creio única, de Se questo e un uomo, tais traduções só surgem a partir dos anos 80 (...)
(...)Neste Ano Internacional da Química (2011), não será despropositado recordar que, em 2006, a prestigiada e centenária Royal Institution britânica decidiu identificar o melhor livro sobre ciência jamais escrito («the best science book ever written»). Convidadas instituições e individualidades a propor obras dessa índole, não faltaram sugestões de escritos assinados por notáveis, do século XIX aos contemporâneos: Charles Darwin, Bertold Brecht, Konrad Lorenz, Peter Medawar, James Watson, Richard Feynman, Roger Penrose, Oliver Sacks, Richard Dawkins, etc., etc. E o difícil problema de escolha terminou com a proclamação da obra vencedora: precisamente O Sistema Periódico, de Primo Levi. Se o autor ainda vivesse teria, provavelmente, acolhido a notícia com não mais que um modesto sorriso…


Pesquisando na NET encontrei um vídeo com uma interessante entrevista a Primo Levi.

A propósito do livro Se isto é um homem pode ler-se num outro site:

(...)Logo, Levi tenta dizer-se intimamente, numa espécie de autolibertação, como é passar pelas experiências desumanas às quais fora obrigado a experienciar e, por isso mesmo, está condenado a revivê-las continuamente na “viagem ao fundo do poço” sem fundo.
É esse “chegar no fundo” que a narrativa de Primo Levi consegue descrever de forma tão vivamente dramática e aterrorizante. O pano de fundo dessa projeção é o testemunho vivo das experiências vividas por Levi em um campo de concentração, em Monowitz, perto de Auschwitz, no terrível ano de 1944, na Polônia. Ao (re)atravessar, através da rememoração, essas terríveis ondas de um mar de insanidades nazistas, Levi leva-nos a refletir sobre o que é o homem ou, para ser mais abrangente: que características devem possuir um representante da espécie humana para ser considerado um ser humano em seu sentido mais abrangente. Precisa-se mais que um corpo em si mesmo, isto é, um corpo nu, natural, orgânico, sem qualquer produção cultural, como designa o termo körper, em alemão; precisa-se do leib, o sublime, o humano, para que se possa continuar a existir como uma estrela cintilante e não como um fantasma de si mesmo.
Nesse sentido, antes de iniciar a narração de suas lembranças, Levi nos adverte:

“pensem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno”.
 (1988).



Para Levi, então, está claro que para ser humano é preciso que haja a razão, a presença da luz divina na alma, a centelha de vida, a dignidade, algo que, paulatinamente, o nazismo tentou apagar em seus prisioneiros incessantemente. O sujeito [sub-jectum] como o suporte de si mesmo fora apagado pouco a pouco, restando tão somente um corpo como uma máquina: frio e inerte. Não uma máquina em seu sentido capitalista, produtivo, mas uma carcaça do que tinha sido antes dos inúmeros flagelos a que fora submetido “desrazoadamente”.
Através da memória de Primo Levi, o quadro que se apresenta diante do leitor é um retrato de quase-morte; é a história de homens, mulheres e crianças, transformados em farrapos, destituídos de todos os seus direitos enquanto humanos. Bichos, porque expostos aos mais terríveis maus-tratos e humilhações, é o termo que mais se aproxima de suas condições de existência naqueles tenebrosos dias do nazismo. Basta um olhar, por desatento que seja, para se verificar que esse grupo de homens, que anda cabisbaixo e faminto, assemelha-se a um grupo de animais prisioneiros, porque submetido à horríveis privações de alimentos, de abrigo, de descanso, de calor humano, de linguagem; em resumo, do prazer da liberdade. No campo de concentração, os prisioneiros aprendem rapidamente “a responder Jawoh!, a não fazer nunca perguntas, a fingir ter compreendido sempre” (1988: 31). Esse exercício repetitivo de submissão faz com que percam, pouco a pouco, a capacidade para refletir sobre seu mundo e sobre si mesmos: exercício necessário para se atingir o esclarecimento. A linguagem lhes havia sido podada. Poucos compreendiam o jargão alemão utilizado nos Lager pelos Kapos e, assim, a comunicação entre os prisioneiros era rara. O mais importante, descobriam, não era compreender a linguagem dos SS, mas manter-se vivo através da concentração no trabalho. Como escreve Levi, “o [trabalho] era como exercício da mente, como a evasão do pensamento da morte, como modo de viver o dia-a-dia”. A frase “O trabalho enobrece”, disposta em vários lugares nos Lager, buscava incutir nos prisioneiros a crença na libertação através do trabalho árduo e não através do esclarecimento possibilitado pelo pensamento crítico.


E a propósito de campos de concentração deixo -vos com imagens impressionantes do pintor Lasar-Segall




ACERVO DO MUSEU LASAR SEGALL.


A ARTE DE LASAR SEGALL  É UMA ARTE DE “DENÚNCIA SOCIAL” DIANTE DA INTOLERÂNCIA, E, AO MESMO TEMPO, UM ANSEIO PERMANENTE DE SOBREVIVÊNCIA HUMANA NUM MUNDO MELHOR.