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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ser professor em Portugal



E em Portugal?

Deixo para reflexão a carta anexa.  

Carta da Sara, filha de Professora, aos Professores

Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.
As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.
Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero.
Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores.Até ao dia 1 de Março.
Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci, o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.
A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.
Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.
De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver.
E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda.
Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor.
Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.
Sara Fidalgo

À Sara e a tantos outros, filhos, pais, cônjuges, companheiros, amigos que testemunham dia a dia a angústia de muitos professores, deixo a  minha solidariedade.


Como já aqui referi por mais que uma  vez foi com muita angústia que pedi a aposentação aos 60 anos, com 39 de serviço (na altura ainda o podia fazer sem penalização).
Sei que existem situações problemáticas com alunos,  gravíssimas em alguns casos, mas felizmente dos alunos só guardo boas recordações. O mesmo já não posso dizer daqueles que têm sido responsáveis pelas políticas de (des)educação nos últimos anos. Cheguei a acreditar que com Nuno Crato as coisas melhorariam mas em breve me convenci que "era mais do mesmo..."
E desengane-ser que  pensa que só  são desvalorizados  os  professores mais velhos. Neste mesmo blogue escrevi em Dezembro de 2011, dois textos com o título Excelíocres ou Mediocrelentes

referindo uma nova classe de funcionários  que, muitas vezes,  são aqueles que o sistema valoriza. Têm uma característica muito especial, são altamente subservientes, pelo que de mediocridade são facilmente guindados à  excelência. E as escolas não ficaram imunes a esta "praga"...


3 comentários:

  1. Olá Regina
    Gostei muito deste post.
    Os professores são os pilares do futuro,mas são terrivelmente maltratados, principalmente pelo sistema. Não têm condições, sobrecarregam-nos com trabalhos absurdos e depois há os meninos mal educados e os paizinhos que não sabem responsabilizá-los. Mas pais e meninos serão totalmente culpados? Que vida lhes deram?
    Este mundo está errado e é necessário muita luta e sacrifício para que se crie um verdadeiro mundo de solidariedade e amor.
    Havemos de lá chegar. Mas quando?

    Um beijo, Regina.

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  2. No tempo em que os animais falavam, fiz um curso de formação - a que fui obrigada por causa dos créditos e dos malditos escalões ( mesmo assim perdi 400 contos com o atraso com que os fiz) - cujo tema era exatamente este: ser professor em Portugal.

    Durante cinco dias trabalhei duramente, metida no sindicato dos profs licenciados. Ia para lá revoltada e saía de lá pior. Tudo aquilo me dava a volta ao estômago, pois estava a perder horas da minha vida e nada aprendia que fosse válido para o ministério da minha disciplina de inglês.

    Quando me despedi da senhora que popmposamente se apelidava de formadora, ela fez um comentário: "Colega, não se pode ser assim tão pessimista!" Ao que eu ripostei: "Olhe, se eu fosse pessimista, não andava há 30 anos a ensinar numa escola pública!"

    Nunca mais me esqueci do trauma que foram aqueles dias.

    Penso como sempre pensei.

    Para ser professor é preciso amar os alunos....e 50% dos profs, limita-se a amar o vencimento ao fim do mês, que é escasso e não incentiva a melhorar.

    Não é os sistema - que não me parece pior que noutros lugares da Europa, é a auto-exigência, a competência, a responsabilidade e o carisma daquele que nasce para ser professor.

    Se faltarem estas qualidades, o professor não passa da cepa torta, se lhe derem alunos indisciplinados, acomoda-se, sofre, mas não modifica nada, pois ele próprio acha que não vale a pena o esforço.

    Não acredito no mundo de solidariedade e amor, mas acredito em actos pontuais que vão melhorando o que está mal...e acredito na carolice dos que ainda amam os alunos e a sua profissão. São esses os pilares da Educação.

    Desculpa o arrazoado.

    bjo

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  3. Só queria acrescentar que a carta da Sara Fidalgo exprime todo o horror que desabou sobre a Escola no reinado de MLR. A mulher conseguiu destruir as poucas benesses que os profs tinham. Enquanto não se acabar com as aulas de 90m ( nas línguas estrangeiras é uma aberração), não vale a pena fazer manifs a protestar contra outro tipo de inquinações do sistema. As aulas de 90m são um atentado a alunos e profs....mas aqui a culpa é das Escolas que se acomodam aos horários já feitos e não querem ter o trabalho de se organizar.

    Ficava aqui a escrever durante horas......)

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