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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 25 de agosto de 2012

Morreu Neil Armstrong

Morreu Neil Armstrong . O melhor  que encontrei para o homenagear foi  o Poema do Homem Novo de António Gedeão


Neil Armstrong pôs os pés na Lua


e a Humanidade saudou nele

o Homem Novo.

No calendário da História sublinhou-se

com espesso traço o memorável feito.



Tudo nele era novo.

Vestia quinze fatos sobrepostos.

Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,

um colante poroso de rede tricotada

para ventilação e temperatura próprias.

Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,

catorze, no total,

de película de nylon

e borracha sintética.

Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,

na cabeça e nos braços,

confusíssima trama de canais

para circulação dos fluidos necessários,

da água e do oxigénio.



A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento,

um envólucro soprado de tela de alumínio.

Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,

auscultadores e microfones,

e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,

luvas com luz nos dedos.



Numa cama de rede, pendurada

da parede do módulo,

na majestade augusta do silêncio,

dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num borborinho ansioso,

bocas de espanto e olhos de humidade,

todos se interpelavam e falavam,

do Homem Novo,

do Homem Novo,

do Homem Novo.



Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.

Caminhava hesitante e cauteloso,

pé aqui,

pé ali,

as pernas afastadas,

os braços insuflados como balões pneumáticos,

o tronco debruçado sobre o solo.



Lá vai ele.

Lá vai o Homem Novo

medindo e calculando cada passo,

puxando pelo corpo como bloco emperrado.



Mais um passo.

Mais outro.

Num sobre-humano esforço

levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.

Com redobrado alento avança mais um passo,

e a Humanidade inteira,

com o coração pequeno e ressequido,

viu, com os olhos que a terra há-de comer,

o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,

exactamente como faria o Homem Velho.



António Gedeão, in 'Novos Poemas Póstumos'

Obrigada Neil Armstrong

4 comentários:

  1. Ainda há pouco tempo escrevi sobre ele no meu manual do 10º ano, é um homem que aprendi a admirar desde os meus 20 anos...

    Belo poema...para um grande Homem.

    bjo

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  2. O nome é Neil ( deficiência profissional):)))

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  3. Extraordinário poema! Como Gedeão sabia interprear bem os acontecimentos!!!!


    Um beijo, Regina!

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  4. De facto o nome é Neil mas no poema, Gedeão chamou-lhe Niels. Como incluí o poema mantive o nome. Devia ter feito um esclarecimento inicial.
    De qualquer modo, obrigada.
    Bj para as duas
    Regina

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