Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 1 de julho de 2012

Vida...


Na mensagem anterior, a que dei o título Miscelânea, o tema transversal a todos os textos incluídos foi a vida. Continuemos então a falar de vida.
Comecemos com a questão Existirá vida fora da Terra colocada em 10 de Junho, em De Rerum Natura 

A Terra é habitada por  milhões de milhões de seres, alguns considerados  vivos, outros não. Todos eles são formados por elementos químicos. Onde reside então a diferença ? Essencialmente na forma de organização desses elementos. A vida é uma manifestação fantástica da organização de elementos químicos.

 Vida

O mundo com todas as suas fragrâncias
é feito de elementos, misturas, substâncias.
Elementos  mais ou menos cem.
Como pode acreditar alguém, com senso,
que a diversidade de um  universo tão imenso
a partir de tão pouco seja conseguida?
Mas o mais estranho é o que agora vem.
Muito menos elementos tem
aquilo a que resolvemos chamar  vida.

Gouveia R. in Reflexões e Interferências

Possuindo não apenas unidade de composição mas também unidade funcional, a célula é a unidade básica da vida de todos os seres vivos, de cujo trabalho depende a própria vida.
Todo ser vivo é formado por células, alguns por uma única célula, seres unicelulares, outros por várias,  pluricelulares.

O ser humano é pluricelular. O corpo humano adulto é formado por cerca de 10 triliões de células. As maiores células do corpo humano têm aproximadamente o mesmo diâmetro de um fio de cabelo, mas a maioria são menores do que isso têm cerca de um décimo do diâmetro de um fio de cabelo humano, ou seja, um fio de cabelo tem cerca de 100 mícrons de diâmetro (um mícron é um milionésimo de um metro assim 100 mícrons correspondem a um décimo de um milímetro), deste modo uma célula humana comum pode ter cerca de um décimo do diâmetro de um fio de cabelo (10 mícrons). O dedo mínimo do pé representa 2 a 3 bilhões de células, dependendo do seu tamanho, em analogia considerando uma casa grande cheia de ervilhas, a casa corresponderia ao dedo mínimo do pé e as ervilhas às células.

Entre as várias células que compõem o corpo humano, as que mais me fascinam são os neurónios, responsáveis por quase tudo que ocorre no nosso corpo.


O neurónio é  uma célula nervosa, estrutura básica do sistema nervoso, comum à maioria dos vertebrados. Os neurónios são células altamente estimuláveis, que processam e transmitem informação através de sinais eletroquímicos. Uma das suas características é a capacidade das suas membranas plasmáticas gerarem impulsos nervosos.

E a propósito de neurónios não posso deixar de referir o texto Caminhos neuronais, da autoria do bioquímico António Piedade, incluído no livro “Caminhos de Ciência” 


 O referido texto pode ser  ser lido na íntegra aqui

Caminhos neuronais
Caminho adentro um trilho florestal debruado por pinheiros e eucaliptos. As folhas acompanham-me com os versos do poeta andaluz, Manuel Machado: “…caminante no hay camino, se hace el camino al andar”. De facto, só ao caminhar desvendo o fluir do caminho, os seus trilhos efluentes, as suas sendas que ficam inexoráveis para trás.

Caminho à beira-mar com a água salina a ondular a areia em vagas pulsantes. A cada onda, desaparecem os rastos dos meus passos. É como se a água levasse o caminho feito. A cada onda, renova-se o areal horizonte de meus passos futuros, como se uma nova folha se esbranquiçasse para receber, novamente virgem, o traço seguinte.

Caminho ao longo de um axónio imaginário, prolongamento celular nervoso que nasce do corpo neuronal e se espraia até à enseada da sua ligação, ou sinapse, com o neurónio a quem passa o testemunho de uma mensagem que flui. Flui como uma onda salina de potássio e sódio, propulsionada por uma acção potencial de natureza electroquímica. A passagem de testemunho tem cambiantes químicos que modelam a mensagem com neurotransmissores específicos: serotonina e noradrenalina associadas ao “humor”; dopamina ao controlo motor; acetilcolina à aprendizagem e memória; ácido gama-aminobutírico à inibição; glutamato e aspartato à estimulação; et cetera.

A vaga neurotransmissora banha o neurónio pós-sináptico, passo seguinte, e uma nova onda se espoleta e conflui com milhares de outras vindas de tantos outros neurónios, numa raiz dendrítica que encorpa no integrante corpo celular.

E assim, de sinapse em sinapse, passo a passo, a mensagem faz o seu caminho e a via neuronal se estabelece, consequente, numa acção causal de efeitos complexos ainda pouco estabelecidos, porque muitos são os caminhos e muitas as suas intercomunicações em rede(…).

(…)Um dia, se o sonho tiver natureza neuronal, peço emprestado o verso ao poeta luso António Gedeão e digo que “Eles nem sabem nem sonham, que o sonho comanda à vida” e que é pelo sonho que caminhamos!


Fotografias de neurónios feitas em alguns dos principais laboratórios de neurociências do mundo foram reunidas sob a inédita forma de uma exposição de artes plásticas que já passou por cidades como Barcelona, Chicago e Rio de Janeiro.


O Espaço Ciência Viva, no Rio de Janeiro, realizou uma atividade  com o tema “Cérebro – Viajando na Linguagem”, integrada num  Projeto Ciência e Arte. Os participantes foram envolvidos na criação artística de Redes Neurais. 


Aqui ficam duas imagens de trabalhos realizados



 
Termino com mais um poema...

Viagem
Do quark ao átomo, do átomo à célula, da célula à vida,
quanta energia despendida, quanta energia transformada…
Para quê tanto corrida se afinal é breve a estada ?
Já se aproxima a partida, foi há tão pouco a chegada.

Gouveia R. (in Pro tempore Suo tempore, a aguardar publicação)


4 comentários:

  1. Ótimo texto que devia ser partilhado no site do Professor Calafate com quem ultimamente tenho trocado algumas opiniôes.

    Parabéns Regina e um grande beijo.

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  2. Obrigada Graciete pelas suas generosas palavras.... Conforme a sua sugestão, já enviei o texto ao João Pedro.
    Um abraço
    Regina

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  3. Cara Regina

    Agradeço a referência ao meu texto e ao meu livro. Bem haja. Um abraço. António Piedade

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  4. Caro António Piedade
    Não tem nada que me agradecer. Eu, como leitora, é que agradeço ter-me presenteado com um livro cujos textos, para além de muito ricos em conteúdo científico, são autênticos textos poéticos.
    Ab
    Regina Gouveia

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