Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 17 de junho de 2012

No Brasil, a família...

Idos de Cusco, chegámos a S. Paulo por volta da meia noite do dia 2 de Junho. À nossa espera em Guarulhos, a minha irmã e o filho que nos levaram para Santos.
Quando pensámos visitar o Perú, decidi que só o faria se fosse também ao Brasil visitar a família, embora numa visita muito breve (apenas uma semana)
Graças à boa vontade de todos, consegui estar com a quase totalidade dos familiares. Em Santos reuniu-se a  família do lado do meu pai:  irmãos, cunhada, sobrinhos, sobrinhos- netos, primos, ao todo trinta e duas pessoas, alguns idos de cidades distantes como Curitiba, Goiânia e Uberlândia... Em S. Paulo reuni com a família do lado da minha mãe, vários primos e primas, ao todo dezoito pessoas.
A sua curiosidade por conhecer as origens, levou-me a que fizesse algumas pesquisas quanto às árvores genealógicas, de um e outro lado. Do lado do meu pai não consegui muito pois o Arquivo de Bragança não dispõe ainda de muitos dados. Do lado da minha mãe, Arquivo de Aveiro, consegui já bastantes dados e vou continuar a pesquisa.
Com os dados colhidos construí árvores genealógicas personalizadas que distribui...
Como exemplo, insiro aqui uma de cada um dos lados.


Um primo meu, pelo lado do meu pai,  que vivia em Maputo e recentemente veio viver para Lagos, costuma dizer que gosta muito do calor humano da nossa  família ...Mas também há ovelhas ranhosas....felizmente em minoria.


Eu cresci entre dois mundos...em qualquer deles a família tem um peso enorme e isso emerge nos dois  poemas a seguir, publicados em Reflexões e Interferências
 Imagem
Minha mãe era  brasileira de alma e coração,
para ela, o Brasil era país de eleição.
O meu pai era brasileiro de torna- viagem
e assim,  do Brasil eu construí uma imagem.
Nessa  imagem há uma miscelânea tal
que vai de Salvador até ao Carnaval,
de Copacabana à aguardente de cana.
É Elis, Betânia, Caetano, Jobim
é jeito de samba, sabor de quindim.
São as cataratas do Iguaçu
e as cachoeiras lá em Avaré
É jaca, acerola,   pitanga,  caju
gosto de garapa, cheiro de café, É Sena, Pelé.
É Oscar Niemeyer disperso em Brasília, é toda a família
Irmãos,  tios,  primos, sobrinhos, sei lá,
ali  em S.Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina.
È Chico Buarque,  o meu cantor dilecto,
Cabral de Melo Neto,"Vida e Morte Severina"
É Manuel Bandeira e é Jorge Amado
Érico Veríssimo, Alcântara  Machado
Di Cavalcanti, Vinicius, Heitor Villa Lobos.
É impossível enumerar todos.
É a bandeira,  verde e amarela,
é cheiro de cravo, sabor a canela
É telenovela, coronéis,  jagunços, grandes fazendeiros,
fazendas, engenhos, bois e boiadeiros.
É praia e é mar, é Sol a brilhar
É o Céu Azul e o Cruzeiro do Sul
É pamonha de milho e  é vatapá
Enfeitando os jardins,  é o manacá
É um povo que canta e seus males espanta
È a Amazónia e é o Pantanal,Pedro Álvares Cabral
É um testemunho bem colonial como  em Olinda e em Parati,
é o negro Zumbi, os Tupi-Guarani 
É onça pintada, tatu, colibri
É cheiro a cocada, gosto de siri
É mistura de gentes
É o Tiradentes. É o Lampião
É o Rio Amazonas e o Maranhão
É arroz com feijão nem sempre na mesa
É a extrema  pobreza dos descamisados,
marginalizados, dos sem terra e sem pão, gente do sertão.
É Carmen Miranda, afinal portuguesa,
tudo isto é Brasil com toda a certeza

 Imaginário
O meu imaginário
lembra, em imagens, um caleidoscópio,
sem o  sonho, seria como um baroscópio,
a que faltou o ar para o empurrar.
No meu imaginário cruzam-se  dois mundos
ligados por laços, em geral, profundos
No meu imaginário há onças pintadas, 
mouras encantadas, há o bem-te-vi,
há o colibri, há a andorinha,  e a joaninha,
que voa, que voa vai para Lisboa,
há o bicho tatu, a surucucu,
há o gato e o cão,  a assombração,   o bicho papão.
Há jaboticabas, caquis e goiabas,
há nozes, amêndoas, pitangas e mangas
há cerejas, castanhas e jacas, tamanhas.
Há cocos, coqueiros bolotas, sobreiros.
Há cheiro a jasmim, há o alecrim,
há o sabiá, há o jacaré.
Há frio e há fumo que sai da chaminé
Há montes e há sol, há neve e há mar,
histórias ao luar.
Há o Zé do Telhado, há o Lampião
o lobo, a raposa, a cobra pitão
há o mocho,  há o cuco,  a perdiz, o tucano
há o vira, o malhão, samba todo o ano.
Há todas as gentes e todas as cores,
múltiplos  cheiros,  múltiplos  sabores.
Há bacalhau no Natal e no fim do ano,
há arroz doce, folar, e há couve mineira
há feijoada,  bem à brasileira, 
há pão- de - ló, leite creme, rolete de cana,
há pé de moleque e cocada baiana.
Há bonecas de trapos e  de porcelana.
Há navegantes e há bandeirantes,
há escravos, há reis e há imperadores,
há grandes senhores, há  marqueses, vilões,
condes e   barões,
burguesia,  nobreza e muita pobreza.
Há muito opressão, muita exploração.
Há jugo e há canga, grito do Ipiranga.
Há guerras com Espanha e a Restauração
Há muita façanha e muito visionário.
No meu imaginário, que une dois mundos,
há laços profundos, de muita beleza.
Há canto de canário, sabor a medronho, 
há quimera e sonho, cheiro a maresia,
alguma tristeza e muita nostalgia, cor azul turquesa.


Imagens tiradas em Santos. A partir do segundo dia o tempo arrefeceu muito e choveu bastante mas ainda deu para rever Santos da ilha Porchat  e para visitar a Pinacoteca e o Museu do Café...



Imagens tiradas com  a família em S. Paulo, as três últimas na represa de Guarapiranga, onde um dos meus primos tem uma casa "de fins de semana". Como se pode ver, o frio fazia-se sentir de uma forma pouco vulgar para o local, embora o Inverno esteja a chegar

Em S. Paulo fomos visitar a Pinacoteca (duas últimas imagens)  e o Museu da língua Portuguesa (gostei imenso deste último) instalado em parte da estação ferroviária da Luz de que a minha mãe tantas vezes me falou

A viagem chegou ao fim. As saudades dos que cá ficaram também já apertavam...

O Porto, à chegada.
O Porto que eu adoptei como "uma das minhas terras".... 
Miragem

Estou sentada no café do cais
aqui na Ribeira junto ao rio,
um passante segue pela rádio o  desafio,
e, ao meu lado, uma jovem  enlevada
olha com o olhar perdido  a outra margem,
enquanto um casal recorda uma viagem.
Os demais conversam sobre tudo.
Aqui e além  falares dispersos.
Aqueles ali creio que falam eslavo
e conversam com um ar muito sisudo
Na minha mesa está pousado um cravo
e o livro que ando a ler "Primeiros versos"[i]
Não me apetece ler, de enamorada
que fico  ao olhar  esta paisagem
mista de sonho e de realidade,
nem sei se ela existe ou se é miragem.
Do outro lado, as caves imponentes;
atravesso a ponte e já me encontro em Gaia,
na vila nova que agora  é cidade.
Vejo o Douro, os barcos rio acima
levam turistas e passam indolentes,
vejo as fachadas de granito, e bem por cima
ameaçando chuva o céu cinzento.
Um ar frio perpassa-me, é o vento
o tal a que chamam de nortada.
Regresso e  inicio  uma viagem,
entro num carro eléctrico,  na paragem
e  aí vou eu  vagueando com o olhar,
S. Francisco, S. Pedro em Miragaia,
a  Alfândega,  Massarelos , vários cais.
O eléctrico avança um pouco mais
e do outro lado já vejo o Cabedelo,
o rio encontrou o Oceano, entrou no mar.
Difusos através da bruma,
uma traineira, um navio parado,
que para entrar na barra ao largo aguarda.
enquanto o mar se agita e regurgita  espuma.
A difusão da luz torna tudo mais  belo,
mas o  meu passeio vai findar, não tarda.
O meu corpo está enregelado
e o vento desalinha-me o cabelo.
É quase noite, urge regressar
mas é difícil ter que abandonar
estas paisagens de bruma e de granito.
Não sei se  adivinhando  o meu pensar
uma gaivota solta um pio, aflito.


[i] de António Nobre

2 comentários:

  1. Olá Regina
    Os seus poemas, as suas fotografias e o seu relato são tão vivos, que nos levam a viajar consigo.
    Por cá, como já deve ter notado, também está frio, apesar do verão.
    O último poema é triste e enregela-nos um pouco, mas é muito lindo.

    Um beijo.

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  2. Sinto pena de nunca ter ido à India, no tempo em que os meus tios ainda existiam. No ano passado morreu o último dos oito irmãos de meu Pai. A minha Mãe era filha única, mas também a sua ancestralidade não era portuguesa mas italiana e serbo-croata, pelo que sinto como tu esta mistura de culturas e sangue dentros de mim.
    Compreendo muito bem esses poemas, pois toda a minha infancia, até 1961, foi iluminada pelos odores das canelas, dos caris e das mangas que vinham de Goa. Era um nunca acabar de goiabadas, chacutis, bananas de Moira, vindaloos, etc.
    Conheci muitos dos meus tios e primos e alguns vieram para Portugal estudar, mas a maioria ficou por lá depois da anexação. Goa permanece um sonho na minha vida...

    Ainda bem que conseguiste fazer as árvores genealógicas, o meu irmão Mário anda a tratar disso e a fazer um biografia do meu Avô, que fez 120 anos no ano passado. Digo fez porque ele está vivo na minha memória, Nunca morrerá.

    Bjo

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