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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 1 de maio de 2012

Guernica


Muito se tem escrito sobre a obra Guernica de Picasso.  Para muitos,  o artista só começou a interessar-se verdadeiramente por política na Guerra Civil Espanhola ao tornar-se vivamente solidário com os republicanos. As fotografias que apareceram na imprensa no início de Maio de 1937, relativas ao bombardeamento de Guernica (antiga capital do País Basco) tê-lo-ão tocado profundamente. Passado pouco mais de um mês e após 45 estudos preliminares, sai do seu atelier de Paris o painel Guernica (3.50x7.82 m) para ser colocado na frontaria do pavilhão espanhol da Exposição de Paris de 1937 dedicada ao progresso e à paz.



A escolha deste tema para a mensagem de hoje surgiu porque recebi um e-mail com a indicação deste sítio onde se faz uma leitura desta obra de Picasso, leitura essa semelhante a muitas outras que tenho lido e que já me levaram a escrever o poema anexo

Guernica
A espada de aço quebrada,
presa a um braço decepado do corpo
a que a cabeça foi ceifada.
Nos braços de uma mãe, um filho exangue.
Nos tons escuros a morte,
ausente a cor do sangue.
Picasso e a memória da dor.
Sob a espada de aço
e a contrastar com o horror,
jaz uma simples flor.


Muitos pesquisadores acreditam que uma das fontes de inspiração de  Picasso, no que respeita a esta obra, terá  sido  uma obra de Goya “Os Fuzilamentos de 3 de maio”, em que Goya retrata também um acontecimento trágico,  o fuzilamento de espanhóis realizado na rua, nos arredores de Madrid pelo exército de Napoleão.


E essa obra de Goya reporta-nos de imediato para o belíssimo poema de Jorge de Sena  CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA, aqui na voz de Mário Viegas
 
 
Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
.
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.

É possível, porque tudo é possível, que ele seja

aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,

onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém

de nada haver que não seja simples e natural.

Um mundo em que tudo seja permitido,

conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,

o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

E é possível que não seja isto, nem sequer isto

o que vos interesse para viver. Tudo é possível,

ainda quando lutemos, como devemos lutar,

por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,

ou mais que qualquer delas uma fiel

dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade

não tem conta o número dos que pensaram assim,

amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,

de insólito, de livre, de diferente,

e foram sacrificados, torturados, espancados,

e entregues hipocritamente à secular justiça,

para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,

a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas

à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,

foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,

e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,

ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras

por serem de uma classe, expiaram todos

os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência

de haver cometido. Mas também aconteceu

e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer

aniquilando mansamente, delicadamente

por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.

Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,

foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha

há mais de um século e que por violenta e injusta

ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,

que tinha um coração muito grande, cheio de fúria

e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve,

nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)

de ferro e de suor e sangue e algum sémen

a caminho do mundo que vos sonho.

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém

vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.

É isto o que mais importa – essa alegria.

Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto

não é senão essa alegria que vem

de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez

alguém está menos vivo ou sofre ou morre

para que um só de vós resista um pouco mais

à morte que é de todos e virá.

Que tudo isto sabereis serenamente,

sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,

e sobretudo sem desapego ou indiferença,

ardentemente espero. Tanto sangue,

tanta dor, tanta angústia, um dia

– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –

não hão-de ser em vão. Confesso que,

muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos

de opressão e crueldade, hesito por momentos

e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,

quem ressuscita esses milhões, quem restitui

não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?

Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes

aquele instante que não viveram, aquele objecto

que não fruíram, aquele gesto

de amor, que fariam «amanhã».

E, por isso, o mesmo mundo que criemos

nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa

que não é só nossa, que nos é cedida

para a guardarmos respeitosamente

em memória do sangue que nos corre nas veias,

da nossa carne que foi outra, do amor que

outros não amaram porque lho roubaram.

3 comentários:

  1. Olá Regina
    Também escrevi um pequeno "post" sobre Guernica, nada que se compare com o seu ,tão bonito e tão bem documentado.

    Um beijo.

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  2. Já fui ao seu blogue e já o coloquei nos favoritos
    Temos que marcar um encontro para lhe entregar o Kephir...

    Bjs
    Regina

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