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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 3 de abril de 2012

A saúde mental dos portugueses



Apesar de publicado já em 21 de Junho de 2010, só hoje tomei conhecimento do texto ''A saúde mental dos portugueses" saído no Público e da autoria do psiquiatra  Pedro Afonso
Aqui o deixo.



Recentemente ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque nos últimos quinze anos o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da segurança social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante estes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso
Médico Psiquiatra



Ao ler este texto lembrei-me de dois  outros. Um deles,  a Calçada de Carriche aqui na voz de Carlos Mendes  e de Luís Gaspar
O outro,  Operário em construção de Vinícius de Morais, fica aqui na voz de Mário Viegas



2 comentários:

  1. Também não conhecia o texto que é muito bom.
    E os poemas adequadíssimos.

    Um beijo grande, Regina.

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  2. A saúde mental é um mistério para a maioria das pessoas.
    Há quem faça das tripas coração e consiga manter-se estável num ambiente completamente hostil e há quem perca o tino só porque lhe reduzem parte do salário ou o subsídio de férias.
    Tudo depende das condições e das expectativas. Vejo que a maioria dos portugueses - falo da classe média - vivia muito bem, com mordomias para si e para os filhos e que tiveram de definir prioridades, como o fazem os seus pares no resto da Europa. Já não era sem tempo.

    Em relação aos mais carenciados, penso que há muita economia paralela, se não não se viam tantas pessoas nos cafés, nos shoppings, nas viagens em grupo ou mesmo nos festivais e procissões. Não acho que Portugal esteja tão miserável quanto se apregoa. E muitos subsidios vão para mãos erradas.

    O divórcio é necessário e muitos só se divorciam em desespero de causa, o problema é a falta de civismo entre conjuges, que tudo querem e com nada estão satisfeitos. As crianças são vitimas, mas tb beneficiam dessas situações em termos materiais, recebem de dois lados e desmedidamente.

    A saúde mental devia ser grátis, a sua monotorização deveria começar na escola com psicólogos e assistentes sociais que ajudariam os profs a detectar anomalias, mas não. Ignoram-se até à idade e ao momento em que tudo parece desabar com o efeito das drogas, com fuga dos filhos ou delinquência total.

    Na Inglaterra o SNS trata dos doentes mentais como se fossem sua responsabilidade, interna-os, paga-lhes as despesas todas, inclusivé quartos, medicação, consultas, análises, tudo. Só os obriga a manter contacto e aparecer no consultório. E tanto faz ser rico como pobre, estrangeiro como imigrante. Todo são tratados da mesma forma. Sei-o desde 2005, já passaram 7 anos desde que a minha filha adoeceu lá com esquizofrenia. Ainda lá vive e está bem.

    A sociedade que ignora estes problemas ou os atira para os media em vez de se organizar em comunidade e em família, é uma sociedade sem futuro. E não é só o Estado - essa entidade maléfica - que tem a responsabilidade toda. Cada família é autónoma a tomar decisões e a velar pelos seus.

    Boa Páscoa.
    Bjo

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