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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 11 de março de 2012

De poesia e de poetas



 A Poesia Vai Acabar
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?


Este é um poema de Manuel António Pina, autor
que podemos ouvir aqui a propósito do seu último livro, Como se desenha uma casa .

Deixo também um poema de um autor que conheci pessoalmente há dias, num almoço extremamente agradável em casa do editor Manuel Reis.
Trata-se do poeta Ivo Machado 

Na madrugada do dia 2 de Dezembro de 1967
começou a grande tristeza de minha mãe. Ainda
Neil Amstrong não pisara a lua, nem meu pai
gozava salário de gente, tão pouco conhecia
o rosto à liberdade
[no meu país – diziam estrangeiros – os utópicos
viviam sob silêncio, masmorra e nó]
Enfim, marcou-me a data
por ser esse o dia da morte de minha avó.
Ao contrário de meus filhos nasci em escuridão,
como meus pais, como o meu país, mas apesar
da tristeza de minha mãe e do salário de meu pai,
de minha avó herdei uma lição: nenhum tirano
mata a poesia ou proíbe um aperto de mão.
In, Os Limos do Verbo, 2005

Quase a terminar,  um poema do autor brasileiro Carlos Vogt. e um outro, muito modesto, de minha autoria 


PRAGMATISMO ESTÉTICO

A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
    
o poema é quase nada
mais a inspiração 

na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
Carlos Vogt



Poesia

Gosto do narciso poeta aquela flor cuja  corola,
por  dentro amarela,é  branca por fora.
Colhi duas. 
Uma decidi comê-la 
cuidando assim engravidar de poesia
Mas a poesia, tão arredia, riu-se de mim.
Cheia de mágoa, à  beira da água
lancei ao mar a outra flor, daquelas duas.
E fiquei a olhar,  a flor  boiar
na onda  que vai  e que logo vem,
que se reflecte e se refracta,
que interfere e se difracta.
A luz do sol bateu no mar fê-lo de  prata,
reflexão também.
Por entre os meus dedos,
a areia fluía suavemente.
A flor boiava dolentemente
e a onda,  sempre a ir e voltar,
e o som do mar com seus segredos
e o gosto a sal a pairar no ar
deixando  um cheiro a  maresia.
Então, por magia,
luz , céu e  ar, onda do mar, no ir e voltar,
areia,  sal , flor  a boiar, tudo em redor foi poesia



E, para fechar com chave de ouro, O poeta é um fingidor na voz de João Villaret


Autopsicografia

   O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração. 
Fernando Pessoa 



4 comentários:

  1. Hoje é dia da Poesia?

    Ou promulgaste tu o Dia por tua alta recreação?

    Está um dia lindo e há poesia no ar...quer seja ou não o Dia dela.

    Bjo

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  2. Todo o tempo é de poesia

    Desde a névoa da manhã

    à névoa do outo dia.
    António Gedeão

    Bjs
    Regina

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  3. A poesia e a Regina convivem tão bem que, até o programa das suas aulas que tive o privilégio de frequentar na UPP, era um autêntico poema.

    Um beijo.

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  4. Graciete
    É tão generosa sempre nas suas palavras.
    Obrigada minha amiga
    Bjs
    Regina

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