Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 31 de dezembro de 2011

As últimas "breves" de 2011...

Não deixem de ler as declarações prestadas por Carlos Fiolhais à jornalista Christiana Alves Martins (CAM) do Expresso 


Quanto a música, deixo uma sugestão.
CONCERTO DE ANO NOVO: VIVE LA FRANCE, 6 de Janeiro 21:00,Sala Suggia
Um momento de puro encantamento, com melodias embriagantes, ritmos cómicos, valsas insinuantes, tudo temperado com o tom característico da música francesa num programa que assinala a estreia do barítono Andrew Ashwin no Porto.


No que respeita às artes pláticas sugiro "A METAMORFOSE DA MATÉRIA"  em exibição no Museu da Fundação Escultor José Rodrigues, de 8 de Novembro de 2011 a 29 de Fevereiro de 2012
 
Mais eventos culturais para 2012 poderão ser consultados aqui  

Despeço-me com o meu último trabalho de 2011 (pastel de óleo sobre papel)




Desejo a todos um Feliz 2012

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Feliz 2012 com ou sem bosão de Higgs

Os físicos acreditam que o tímido bosão de Higgs se revelará em 2012

O "ultra-tímido" bosão de Higgs pode, finalmente, ter-se mostrado no LHC. Ambos os detectores principais, ATLAS e CMS, descobriram indícios de um Higgs leve. A ser verdade, o Modelo Padrão de Partículas estaria completo.


Ainda mais emocionante, um Higgs com uma massa perto de 125 giga eléctrão-Volt/c2, seria também o início de um caminho num terreno inexplorado. Ser tão leve implicaria pelo menos um novo tipo de partícula para estabilizá-lo. "É muito emocionante", afirmou o porta-voz do CMS, Guido Tonelli. "Este poderá ser o primeiro anel de uma cadeia de descobertas."


Sendo a principal teoria de como partículas e forças interagem, o Modelo Padrão tem sido um sucesso espectacular desde que foi proposto na década de 1960. Mas ele só funciona no pressuposto de que o bosão de Higgs existe realmente. A partícula é o cartão de visitas de uma entidade invisível chamado o campo de Higgs, que conferirá a massa às partículas. O problema é o Modelo Padrão não poder prever a massa do Higgs. Os físicos começaram, há vários anos, a sua caça em aceleradores de partículas na versão menos massiva. Experiências têm vindo a descartá-la num intervalo de massas, com excepção de uma janela estreita entre os 115 e 141 GeV/c2.


Agora(…) os físicos do Large Hadron Collider, do CERN, perto de Genève, Suiça, Tonelli e Fabiola Gianotti, chefe do detector ATLAS, apresentaram, separadamente, os resultados de mais de 300 mil milhões de colisões de partículas de alta velocidade efectuadas no ano passado. "Esta é a primeira vez que nós estamos realmente a explorar a sua massa em toda a região com a sensibilidade certa, o que permitirá que se há algo lá então começaremos a ver alguma coisa", diz Tonelli




Ainda a propósito do bosão de Higgs Carlos Fiolhais disse respondendo ao filósofo Fernando Belo

FB:"Uma tribo de milhares de físicos, suspensa dum acontecimento anunciado numa máquina de 27 km de percurso. Se se provar que o famoso bosão de Higgs existe (embora sem 'aparecer'), a pergunta ingénua que faz o leigo é: e depois, a Física fica completa, acaba?"


CF:Respondo neste espaço. Não, não está de maneira nenhuma à vista o fim da Física, quer apareça, quer não apareça a partícula de Higgs. Não sendo especialista na área, tenho defendido o fantástico empreendimento que a numerosa "tribo" de físicos tem realizado no CERN, entre a Suíça e a França. Trata-se de um exercício colectivo de física fundamental, da união internacional de esforços para verificar se uma dada peça prevista pelos físicos teóricos para compreender a existência de massa de partículas existe ou não no nosso Universo. Ninguém melhor que o Nobel da Física Steven Weinberg afirmou a propósito da nossa necessidade da Física fundamental: "O esforço para compreender o Universo é uma das poucas coisas que eleva a vida humana acima da comédia e lhe confere um pouco da dignidade da tragédia.” Não penso que tenha sido bom para a ciência a não-notícia que foi, há dias, o anúncio em Genebra da não-descoberta (até agora) do Higgs. Esta partícula só merecerá uma conferência de imprensa quando, de facto, for notícia. Pode ser que o venha a ser. Ou pode ser - surpresa, surpresa! - que não. A Física avançará tanto num caso como noutro(...).


A existência do bosão de Higgs foi postulada na década de 1960 pelo físico britânico Peter Higgs. Antes dele, Isaac Newton descobrira que a gravidade é a força de atracção que existe entre todas as partículas com massa e Albert Einstein demonstrara a equivalência entre massa e energia, mas nada disto serviu para responder a duas questões: o que é, afinal, a massa, e de onde é que ela provém?
Enquanto esta partícula subatómica não for detectada, os cientistas não conseguem explicar a existência da própria matéria, à luz do actual modelo de compreensão da matéria e das forças que a unem - o chamado Modelo Standard. Por outras palavras, sem o bosão de Higgs fica mais difícil explicar porque é que existem coisas no Universo.

Termino com um poema meu dedicado ao bosão de Higgs, o desejo de que 2012 revelando-o ou não, seja para cada um, o melhor possível , o poema de Ano Novo de Carlos Drummond de Andrade e um concerto de Ano Novo 2011 em  Viena

Existirá desde o primeiro momento


ainda sem espaço, ainda sem tempo,


sem quando, nem onde,


em que o tudo era simplesmente o nada?


Afinal, a massa de onde é que provém?


É este, em essência, o segredo que, cioso, esconde,


mau grado o empenho de toda a ciência.


Cioso, acanhado, quiçá temeroso de um qualquer depois,


ainda mais terrível do que eme cê dois


na bomba de Hiroshima


O bosão de Higgs existirá ou não?


Eis a questão

Regina Gouveia 2011


Para você ganhar belíssimo Ano Novo



cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,


Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido


(mal vivido ou talvez sem sentido)


para você ganhar um ano


não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,


mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,


novo até no coração das coisas menos percebidas


(a começar pelo seu interior)


novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,


mas com ele se come, se passeia,


se ama, se compreende, se trabalha,


você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,


não precisa expedir nem receber mensagens


(planta recebe mensagens?


passa telegramas?).


Não precisa fazer lista de boas intenções


para arquivá-las na gaveta.


Não precisa chorar de arrependido


pelas besteiras consumadas


nem parvamente acreditar


que por decreto da esperança


a partir de janeiro as coisas mudem


e seja tudo claridade, recompensa,


justiça entre os homens e as nações,


liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,


direitos respeitados, começando


pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um ano-novo


que mereça este nome,


você, meu caro, tem de merecê-lo,


tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,


mas tente, experimente, consciente.


É dentro de você que o Ano Novo


cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Teatro em Alfândega da Fé

Tal como anunciei em mensagem anterior, no passado dia 16 a peça "Breve História da Química" que escrevi propositadamente para o Ano Internacional da Química (que está a findar), e cujo livro  foi patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Química, foi representada pela recém-criada Escola Municipal de Teatro Alfândega da Fé, no auditório da Casa da Cultura da referida vila.


Mas antes desse evento vou referir brevemente a minha passagem pela Escola Secundária de Penafiel que em tempo tinha manifestado interesse na minha presença, nesse dia 16. Como havia o compromisso com Alfândega da Fé, declinei o convite.

Posteriormente o editor manifestou vontade em ir, juntamente com a mulher, assistir ao evento em Alfândega da Fé. Apercebi-me de que, nessas condições já poderia ir a Penafiel. Saí de manhã com eles, fiz duas sessões em Penafiel e dali seguimos para Alfândega, onde o meu marido que saiu mais tarde do Porto, já estaria à nossa espera para almoçarmos juntos. Mas quase não almoçávamos pois, um pouco antes de Vila Real, estivemos parados cerca de 1h, por causa obras na A4.

Em Penafiel tive a grata surpresa de encontrar uma ex-estagiária muito empenhada no seu trabalho. Levou-me aos laboratórios, um luxo, e disse-me : Penso muitas vezes em si. Com o seu entusiasmo pela componente experimental imagino como gostaria de ter trabalhado em laboratórios como estes.

Embora estivéssemos com pressa ainda fomos ver uma exposição de mesas de Natal levada a cabo por alunos de 9º ano.

Sei que me vou repetir. Mas não posso deixar de exprimir a minha admiração por estes professores que tanto se empenham e tão pouco respeitados têm sido



Mas voltemos a Alfândega da Fé

Às 15 h foi apresentado o livro por dois amigos: Beatriz Magalhães, professora de Química aposentada, e José Lopes, director do Agrupamento de escolas.

 Logo a seguir houve uma representação da peça e houve uma outra às 21h. Nos três eventos, com o auditório sempre cheio, esteve presente a Presidente do Município, Drª Berta Nunes a quem se deve a iniciativa da criação da referida Escola Municipal de Teatro. Existe um protocolo com a Filandorra e o Dr. David Carvalho, do referido grupo, presta assistência à escola cuja dinamização in loco está essencialmente a cargo de Carlos Damasceno. Os actores vão praticamente dos 12 aos 70 anos mas a maioria são alunos do Agrupamento de Escolas. Há também alguns professores do mesmo agrupamento e outras pessoas da vila. Uma delas pelo menos, o jovem Luís Inocêncio, já integrou outros grupos de teatro.
O grupo teve apenas dois meses para ensaiar mas portou-se muito bem.











Aqui deixo o meu obrigada a todos.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Memórias de Natal

A imagem que eu guardo dos natais em criança, e de que a seguir dou conta, é, tal muitas outras, um misto de duas culturas, como tento traduzir no poema imagem
O Natal brasileiro de que a minha mãe me falava, com as indispensáveis idas à praia, nunca me entusiasmou. Ao falar desse natal, a minha mãe não falava das idas ao musgo, da fogueira da praça nem do cantar dos Reis. E disso eu gostava muito. Começava a pensar nele muito tempo antes, não sei bem quanto, mas só quando chegavam a TIA e o tio Justino é que o Natal começava realmente para mim. No dia seguinte à sua chegada, eu, o meu pai e o tio Justino íamos ao musgo. Às vezes tinha pena de arrancá-lo, tão verde e tão fofo ele estava, agarrado às paredes. Parecia veludo. Arrancado o musgo começava a construção do presépio, essencialmente a cargo do tio Justino e da minha mãe. Eu colaborava activamente. Também os meus colegas de escola vinham muitas vezes ajudar. Fazia-se no pátio de baixo. O tio Justino começava por empilhar várias cortiças de modo a criar uma estrutura em relevo. Depois cobríamo-las com o musgo. Em seguida, com areia fazíamos uns carreirinhos ao longo dos quais iríamos colocar várias figuras. Estas eram de barro pintado e tinham sido trazidas de Viana pelo tio Justino. Também foi ele quem fez a cabana do Menino Jesus, com uma cortiça virgem. Para além das figuras, da cabana e dos carreirinhos, havia no presépio um lago, feito com um espelho envolvido de musgo, ao qual dava acesso um regato que serpenteava ao longo da cascata e era feito com papel prateado. Havia ainda uma fogueira feita com papel celofane vermelho, coberto com galhinhos de lenha, e por baixo do qual se colocava uma lanterna acesa. Era à volta desta fogueira que se colocavam os pastores. Presa do tecto havia uma estrela que iluminava os reis magos. Era de cartão coberta com papel dourado.


Para além do presépio havia lá em casa uma árvore de Natal, e creio que seria a casa de cima a única casa da TERRA onde tal acontecia. A ideia da árvore de Natal tinha vindo com a minha mãe. Era feita com um zimbrinho que era colhido no mesmo dia em que íamos ao musgo. Os enfeites eram pompons de lã, coloridos, que eu fazia com a ajuda da Mininha, e pequenos biscoitos que a minha mãe fazia com vários formatos- de estrela, de meia lua, de sino, de árvore. Na parte superior da árvore havia um grande laço de seda arranjado pela minha mãe.


Mas o Natal era muito mais que o presépio e a árvore. Era a ceia, sempre na CASA, até à morte da TIA. Comíamos todos à mesa- os meus pais, a TIA e o tio Justino, a Germana, a Balbina, o António Joaquim e a família. A ceia constava de bacalhau, polvo e pescada cozidos com batatas e couves da TERRA que têm um sabor diferente de todas as outras que eu conheço. E tudo isto era regado com o azeite dourado das oliveiras, também da TERRA. Eu, na altura, não apreciava muito essa comida mas sabia que depois vinham as sobremesas. E dessas eu gostava. Eram as rabanadas, as filhós, os milhos doces, o arroz doce, a aletria, os fritos de jerimum, os rochedos de amêndoa. No dia de Natal o almoço era na casa de cima. Invariavelmente era peru recheado com farofa acompanhado de arroz com amêndoas, passas e nozes. À sobremesa eram doçarias brasileiras- quindins, bom bocado, docinhos de amêndoa, pudim de laranja. Eu gostava de ajudar a fazer estas doçarias, particularmente os docinhos de amêndoa. Eram feitos de véspera com uma pasta de açúcar, gemas e amêndoa, que era introduzida dentro de cascas de nozes para ali secar. No dia de Natal saíam das cascas docinhos de amêndoa com o formato de noz.


Depois do almoço eu ia sempre com o meu pai e o tio Justino ver a fogueira na praça. Ainda hoje se faz a fogueira. Antes do Natal os rapazes da TERRA vão pelas casas mais abastadas pedir lenha. As pessoas indicam-lhe onde a podem ir buscar. Na véspera de Natal lá vão eles. Após a ceia de Natal, lá pelas 10 h da noite, a lenha, grandes toros e raízes, começa ser empilhada na praça, em frente à igreja. Em seguida acende-se a fogueira. Levam-se umas chouriças para assar e assim, entre conversas, comendo chouriça assada, os homens vão passando a noite. Se há Missa do Galo, vai-se à Missa. Caso contrário por ali se fica até passar da meia-noite. A fogueira manter-se-á acesa por vários dias, enquanto a lenha durar. As mulheres não participam deste evento. Podem ir ver, passar algum tempo, mas é uma prática essencialmente masculina.


Outra boa recordação que tenho da época natalícia é o cantar dos Reis. Aí participam crianças e jovens que vão de porta em porta cantando. Lembro-me particularmente de alguns excertos de duas canções de Reis. Uma delas era:


Dai-nos leitão e cabrito,


arroz doce e marmelada,


dai-nos vinho de há cem anos


já não vos queremos mais nada.


Trigo e nozes e marmelada,


lombo de porco, vitela assada,


pão com manteiga, chá ou café


e o Deus Menino nascido é.






A outra, era a última a ser cantada:






Ao carrasco de Lisboa já lhe caiu a bolota


Se nos querem dar os Reis venham-nos abrir a porta




E as portas abriam-se e lá vinham as nozes, a marmelada, os figos, as chouriças. Eu gostava muito de cantar os Reis em todas as casas mas, muito em especial, na casa de cima. A minha mãe preparava uma cesta com uns embrulhos feitos em papel de seda com uns grandes laços. Cada um de retirava da cesta um embrulho. Era bonito, pela surpresa. Lá dentro podia haver caramelos de leite (que ela fazia tão bem), biscoitos iguais aos da árvores, docinhos recheados com amêndoa, pé de moleque. Eu ficava muito feliz até porque me parecia que a minha mãe também estava feliz.

(in Estórias com sabor a Nordeste, edição da Câmara Municipal de Alfândega da Fé))

Imagem


Minha mãe era brasileira de alma e coração,


para ela, o Brasil era país de eleição.


O meu pai era brasileiro de torna- viagem


e assim, do Brasil eu construí uma imagem.


Nessa imagem há uma miscelânea tal


que vai de Salvador até ao Carnaval,


de Copacabana à aguardente de cana.


É Elis, Betânia, Caetano, Jobim


é jeito de samba, sabor de quindim.


São as cataratas do Iguaçu e as cachoeiras lá em Avaré


É jaca, acerola, pitanga, caju


gosto de garapa, cheiro de café,


É Sena, Pelé. É Oscar Niemeyer disperso em Brasília


é toda a família. Irmãos, tios, primos, sobrinhos, sei lá,


ali em S.Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina.


È Chico Buarque, o meu cantor dilecto,


Cabral de Melo Neto, "Vida e Morte Severina"


É Manuel Bandeira e é Jorge Amado


Érico Veríssimo, Alcântara Machado


Di Cavalcanti, Vinicius, Heitor Villa Lobos.


É impossível enumerar todos.


É a bandeira, verde e amarela,


é cheiro de cravo, sabor a canela


É telenovela, coronéis, jagunços, grandes fazendeiros,


fazendas, engenhos, bois e boiadeiros.


É praia e é mar, é Sol a brilhar


É o Céu Azul e o Cruzeiro do Sul


É pamonha de milho e é vatapá


Enfeitando os jardins, é o manacá


É um povo que canta e seus males espanta


È a Amazónia e é o Pantanal,


Pedro Álvares Cabral


É um testemunho bem colonial como em Olinda e em Parati,


é o negro Zumbi, os Tupi-Guarani


É onça pintada, tatu, colibri


É cheiro a cocada, gosto de siri


É mistura de gentes


É o Tiradentes. É o Lampião


É o Rio Amazonas e o Maranhão


É arroz com feijão nem sempre na mesa


É a extrema pobreza dos descamisados, marginalizados,


dos sem terra e sem pão, gente do sertão.


É Carmen Miranda, afinal portuguesa,


tudo isto é Brasil com toda a certeza


in Reflexões e Interferências, Editora Palavra em Mutação, 2002

De novo por terras de Montemor o Velho...

No dia 12 estive numa escola em Montemor (em mais uma escola do Agrupamento). Acompanhou-me o grupo de teatro e fizemos duas sessões, a 1ª para 150 alunos e a segunda para mais de 200, incluindo alunos dos CEF. A primeira sessão correu melhor do que a segunda, mas tendo em conta o número de alunos, qualquer uma delas correu para além das minhas expectativas.
Ficaram de me enviar fotografias; quando as receber colocarei algumas


A professora Bibliotecária é uma pessoa muito empenhada e para além disso de uma gentileza extrema (descobrimos que passamos férias em terras vizinhas, Moncorvo e Alfândega da Fé….)

Enquanto aguardávamos a hora de almoço fez questão de me levar ao castelo (que eu já tinha visitado há muito tempo, há tanto que já nem me lembrava de quão bonito ele é). Podem ver várias imagens aqui
Depois de almoço e enquanto aguardava que me fossem buscar (a editora assegura-me sempre as viagens)fez questão de me levar ao centro, nomeadamente à Biblioteca Municipal onde estava uma exposição de presépios feitos com papel reciclado, pelas crianças das escolas. Os trabalhos, genericamente muito interessantes, serão sujeitos a votação por parte dos utilizadores da Biblioteca e os mais votados serão publicados no site oficial da Câmara Municipal. Vai ser difícil a escolha…

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"A criança é o amor feito visível."

Foi o poeta alemão Friedrich Novalis (1772-1801) quem disse: "A criança é o amor feito visível."
Como referi em mensagem anterior, no dia 28 de Novembro estive no Centro Escolar da Araucária, em Vila-Real. As imagens então colocados, dão ideia do carinho com que fui recebida por professores e alunos. Anteontem enviaram-me, por mail, mais um “mimo” que aqui deixo. Obrigada ao grupo de estágio e aos meninos e meninas da turma 09-4º ano da EB1 nº 7.


Hoje, e relativamente à  sessão com crianças na casa Barbot referida em mensagem anterior ,

recebi da editora esta foto


E porque  "o melhor do mundo são as crianças", termino com palavras de Eugénio de Andrade e com
Barcarolle dos  Contes d'Hoffmann ( ao som da qual muitas vezes adormeço os netos), na voz de Placido Domingo 

Em Louvor das Crianças


Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.


A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade(…)..


Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Breve História da Química pela Escola Municipal de Teatro de Alfândega da Fé

No próximo dia 16 a peça "Breve História da Química" que escrevi propositadamente para o Ano Internacional da Química (que está a findar), e cujo livro que foi patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Química, irá ser encenado pela recém-criada Escola Municipal de Teatro de Alfândega da Fé

Excelíocres e Mediocrelentes- Parte II

Em mensagem  anterior  atribuí alguma da responsabilidade da situação a que se chegou, a numa nova classe de funcionários, sejam eles de que departamento forem. Designei-os por  Excelíocres ou Mediocrelentes.

Esta espécie, protegida por uma avaliação secreta, muito transparente, nasceu do cruzamento da mediocridade real com a excelência virtual.


Como é espécie protegida, há lobbies que defendem "com unhas e dentes" a sua protecção, lutando por um, cada vez maior, secretismo na avaliação.

Na educação e provavelmente em outras situações, há casos de tal modo caricatos que tentei descrevê-los em versos satíricos.

Aqui deixo o que consegui escrever, na esperança de que, por mera casualidade, o Sr. Ministro Nuno Crato os leia

A estória que aqui se narra tem “muita uva e pouca parra”.


Eventuais semelhanças com qualquer realidade,


não passam de coincidências, na verdade.


Trata-se de um diálogo sobre avaliação


numa suposta escola de qualquer região.

P1-


Nesta escola não vai haver qualquer excelente.
Assim decidimos democraticamente.


P2-


Quem decidiu?


P1-


Eu, (o) a presidente mais a equipa por mim escolhida, obviamente,


equipa muito subserviente (perdão, queria dizer competente).


P2-


Mas não há cotas?


P1-


Há cotas obviamente mas decidi, quero dizer decidimos


(eu e a equipa subserviente, enganei-me novamente,


a equipa competente) que não vai haver nenhum excelente.


P2-


E pode ?


P1-


Claro que posso, basta um critério definido de forma inteligente.


Quem teve aula assistida( quem não teve é diferente)


não poderá ultrapassar os oito ponto nove.


P2-


Mas se por acaso um relator, ao avaliar um professor


atribuir em cada domínio uma pontuação


que leve no final a uma classificação, no mínimo igual a nove?


P1-


Obviamente não pode. Baixa aqui, reduz além,
não importa porquê nem se convém
Muito bom chega-lhe bem


“Isto é de mais” Pensou um relator degenerado,


Lembrou-se de Vinicius de Moraes
e tal como o operário em construção,
o relator degenerado disse não.


Gerou-se uma tremenda discussão.


Disse o relator degenerado, de cabeça erguida e em voz bem alta.


R-


Eu não altero um só ponto da minha proposta.


Alterem o que quiserem, com responsabilidade vossa


e com a devida justificação em acta.


P1-


Que justificação? Não temos uma razoável para dar.






Então o (a) presidente e a equipa competente ( leia-se subserviente)


tiveram que aceitar o excelente.


Saíram comentando entre dentes.


P1,E-
Ora esta…


Para que queremos nós os excelentes?


Com eles quando há sucesso é bem real.


O que importa é o sucesso virtual


que a parafernália de papéis  atesta.


Parece surrealista mas não é tanto como parece. Fazendo uma inspecção minuciosa e séria  pelas escolas, encontrar-se-iam algumas (eventualmente muitas) situações em que as coisas se passam de forma muito semelhante à relatada.

Se têm que existir cotas, não seria muito mais honesto que os professores tivessem a classificação adequada, independentemente ou não de haver cota? Eram excelentes mas não podiam constar do respectivo quadro  por estar preenchido Falsear resultados, colocando no mesmo saco o trigo e o joio, em nada dignifica qualquer classe profissional.

Uma das razões que pretensamente justificaria estes modelos de avaliação aberrantes era evitar as subidas automáticas na carreira com as injustiças daí decorrentes. O sistema vigente permite injustiças muito mais flagrentes.
Numa outra mensagem anterior referi:

Sempre fui defensora da avaliação dos professores; sempre dei o meu melhor, muitas vezes sacrificando a família, e custava-me ver que outros, para quem a escola era apenas um meio de ganhar um dinheirito, a acumular por vezes com o que auferiam em profissões liberais, em explicações, etc, ascendiam na carreira tal como eu. Não se interprete das minhas palavras que tenho algo a ver contra as acumulações, que em alguns casos, em nada interferem com a qualidade do serviço prestado nas escolas. Eu própria, de 1999 a 2006, acumulei o ensino Secundário com umas aulas no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Porto


Mas dizia eu que me custava ver aquela forma injusta de se ascender na carreira.


Só que, o que se tem passado ultimamente em muitas escolas, é muito mais injusto.


Já tive oportunidade de referir aqui que há escolas onde excelentes muitas vezes não ultrapassam o Bom e medíocres e maus são classificados com Excelente (os tais excelíocres ou mediocrecelentes).

É tudo uma questão de subserviência…

Só há uma forma de evitar estas aberrações: a transparência. Porque não são tornados públicos os resultados? (aliás a pergunta poderá ser feita para todas as avaliações e não só para a dos professores).


Experimentem tornar secreta a avaliação dos alunos. O sistema educativo cairia, por certo…


Ainda na mesma mensagem refiro um documento (que provavelmente o Sr. Ministro Nuno Crato conhece bem),  produzido pela Associação de Professores de Matemática e que se debruça sobre avaliação onde pode  ler-se :
A avaliação deve ser transparente.
(…)Tanto quanto possível as escolas e os professores envolvidos no processo de avaliação deverão intervir activamente no sentido de garantir a sua transparência.

Claro que não basta a transparência na avaliação, para a tornar credível.
É preciso que o que se avalia tenha realmente a ver com a qualidade de ensino e aprendizagem, não virtuais como as que nos tentam impingir, mas reais.
E a real qualidade de ensino- aprendizagem será tanto melhor quanto menor o tempo que os professores tiverem que dedicar a preencher papéis e a assistir a reuniões, ambos obsoletos na maior parte dos casos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Postal de Natal


Há uns anos, num concurso de poesia organizado pela Câmara Municipal de Mogadouro, fiquei em 1º lugar com o poema “Era poesia”

Era poesia


Em agosto, o sol rubro ao poente


antecipando um dia muito quente


e o alegre canto da cigarra


que a morna brisa acalentava,


faziam o poema.


Em novembro, as cores outonais


das folhas, bailarinas surreais


que caídas no fim do seu tempo


bailavam ao sabor do vento,


faziam o poema.


Em dezembro, o crepitar da lareira


e o manto branco na ladeira,


emprestando um ar de fantasia


a um natal pleno de magia,


faziam o poema.


Em maio, o campo com seu ar de festa


exalando um subtil odor a giesta


e o rubro das papoilas nas searas,


contrastando com tímidas flores claras,


faziam o poema.


O poema estava ali,


não precisava de palavras.

Decidi usar um excerto desse poema para, juntamente com um dos meus últimos trabalhos a pastel de óleo,  formular a todos os meus votos de Boas Festas

Feliz Natal 2011

(…) Em dezembro,


o crepitar da lareira


e o manto branco na ladeira,


emprestando um ar de fantasia


a um natal pleno de magia,


faziam o poema(...)


O poema estava ali,


não precisava de palavras.
Regina Gouveia In Era poesia


Acompanho o cartão com dois trechos de Handel e com dois trabalhos sobre a Natividade da autoria de duas portuguesas: Josefa de Óbidos e Paula Rego

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Excelíocres e mediocrelentes- Parte I


Ontem recebi uma carta muito estranha da qual insiro um excerto.


Ao lê-lo fiquei sem saber se me havia de rir ou de chorar (de raiva...).

Estou aposentada, descontei toda a vida para tudo o que me foi pedido e, tendo em conta as minhas actividades de escrita, estou como trabalhadora independente (autora).

Acontece que da Campo das Letras foram-me pagos os direitos só até a empresa começar a ficar com dificuldades que culminaram na insolvência, pelo que só me pagaram direitos pela terça parte da 1ª edição(nenhuns pela segunda). Passei a trabalhar com a Gatafunho da qual até à dita ainda nada recebi (duas edições de um livro e uma edição de outro), alegadamente por atravessar um momento difícil. Acontece que, relativamente ao primeiro livro, havia um compromisso meu de doar à ONG, Ajuda Amiga, parte  dos direitos a fim de serem canalizados para as crianças da Guiné-Bissau. Como fui educada no respeito pelos compromissos, já adiantei, do meu bolso, quinhentos euros, esperando vir a receber os direitos. Estou há meses com nova editora, pelo que ainda não decorreu o prazo para prestação de contas, fixado no contrato .
Se relato isto aqui é para verem o absurdo de me virem pedir, por causa da minha actividade independente, uma contribuição mensal de 124, 09 euros…

Dirigi-me logo de manhã à Rua António Patrício, endereço indicado na carta. Na fila encontravam-se já várias pessoas que tinham recebido uma carta idêntica. Não era ali. Teríamos que nos deslocar a várias repartições possíveis, uma delas em Miguel Bombarda. Quando tirei a senha de atendimento saiu o nº 63. O último nº a ser chamado tinha sido o 4…. Mesmo assim fui aguardando e era meio dia quando saí sem ser atendida (o atendimento ia no nº 26).

À tarde, em regime de voluntariado, fui estar com crianças de escolas de Gaia, do 1º e 3º ano. A sessão, que correu bem, foi na casa Barbot (una casa lindíssima Arte Nova, cujo exterior conheço há mais de quarenta anos, mas onde nunca tinha entrado).

Há muitos anos a casa veio referida numa revista de arquitectura ou decoração, não sei bem. Os interiores eram fabulosos. Lembro-me de uma casa de banho belíssima. Agora há várias divisões, as casas de banho são fracções das que existiam, etc. Mas mesmo assim vale a pena a visita.
Casa Barbot
Mas voltando ao episódio da carta. Acabada a sessão na casa Barbot, meti-me no Metro e fui à Loja do Cidadão. Da estação do Metro à Loja é um estirão mesmo para quem gosta de andar a pé (interrogo-me sempre que faço este percurso: Por que razão a estação de Metro, onde foi gasto muito dinheiro dos contribuintes, foi pensada  tendo em conta exclusivamente o estádio do Dragão?).

Cheguei ao balcão de atendimento, passavam 10 min das 16 h. Havia uma fila formada com pessoas sem senha pois a máquina não “dava” senhas. Várias pessoas com senha anteriormente tirada, aguardavam atendimento. A fila foi crescendo sem qualquer explicação por parte dos funcionários. Na fila, ou à espera, vi muitas pessoas com uma carta idêntica à minha. Eram já 18 h, a máquina começou a funcionar.

Eram quase 19 h quando fui atendida; o atendimento, por uma funcionária muito simpática, diga-se de passagem, foi muito breve. Se estou aposentada estou isenta. Pasme-se…Na era da tecnologia, essa informação não existia nos dados de que aquele serviço dispõe.

Eu creio que tenho uma resposta para grande parte dos problemas que assolam o pais (para além da corrupção branqueada, dos compadrios, etc, etc).

A resposta está numa nova classe de funcionários, sejam eles de que departamento forem. São os Excelíocres também chamados mediocrelentes.

Esta espécie, protegida por uma avaliação secreta, muito transparente, nasceu do cruzamento da mediocridade real com a excelência virtual.

Como é espécie protegida, há lobbies que defendem "com unhas e dentes" a  sua protecção, lutando por um cada vez maior secretismo na avaliação.

Na educação, e provavelmente em outras situações, há casos de tal modo caricatos que estou a tentar descrevê-los em versos satíricos. Entretanto vou pedindo ajuda a António Aleixo…

Julgando um dever cumprir,


sem descer no meu critério,


- digo verdades a rir


aos que me mentem a sério!


Inteligências há poucas.


Quase sempre as violências


nascem das cabeças ocas,


por medo às inteligências


Co'o mundo pouco te importas


porque julgas ver direito.


Como há-de ver coisas tortas


quem só vê em seu proveito?



E a terminar um cartoon retirado daqui



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Por escolas de Coimbra, Oliveira do Hospital e Montemor- o Velho



No passado dia 5 passei a manhã na Escola Secundária c/ 3º Ciclo da Quinta das Flores e Conservatório de Música de Coimbra  onde estive com alunos de 7º e 10ºano a propósito do meu último livro "Breve história da Química", escrito no âmbito do Ano Internacional da Química, que este ano se comemora.

Alunos do 7º ano dramatizaram, de uma forma muito interessante, o primeiro ato da peça. A minha apresentação foi também feita por alunos. Durante a sessão fiz algumas experiências muito simples. Embora tivessem estado presentes alguns alunos menos interessados, a maior parte dos alunos participou ativamente

No que respeita ao 10ºano, genericamente os alunos mostraram-se muito interessados. Também aqui a minha apresentação esteve a cargo dos alunos e, dada a época natalícia, surpreenderam-me com a leitura de alguns poemas de Natal de minha autoria.

À tarde estive com vários alunos do Agrupamento de escolas do Vale do Alva, Oliveira do Hospital.

Contrariamente às expectativas dos professores, os alunos considerados como genericamente muito desmotivados, portaram-se impecavelmente.

Cheguei a casa cansada mas estes “regressos à escola” genericamente fazem-me sentir muito bem.

No dia 6 passei a manhã em Pereira, Montemor o Velho em duas sessões

com alunos dos 2.º e 3.º ciclos. Tive a companhia do grupo de teatro 3 Pancadas que, com a graça que lhes é habitual, ajudou a cativar os alunos. Ali conheci a escritora Vanda Marques de quem a minha neta já me tinha falado, por ter estado na sua escola. A pedido da minha neta "entreguei-lhe" um beijinho e trouxe outro de volta. Cheguei a casa por volta das 16 h e quando ela chegou às 16,30, ficou toda satisfeita com a “notícia”.Como tinha uns trabalhos de inglês para fazer, pediu uma pequena ajuda. Felizmente o meu inglês lido e escrito não é tão mau como o falado ou “ouvido”.

Agradeço a professores e alunos das várias escolas por onde passei, a forma carinhosa como fui recebida

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ainda a propósito da "Breve história da Química..."


Tomei há dias conhecimento de dois vídeos que gostaria de partilhar convosco. Um  tem a ver com o 3º aniversário do Centro Ciência Viva - Rómulo de Carvalho, instalado no Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (na Rua Larga, em Coimbra), e que teve lugar no passado dia 24 de Novembro. Recorde-se que o dia 24 de Novembro,  aniversário de Rómulo de Carvalho, é o Dia Nacional da Cultura Científica.


O Centro Ciência Viva – Rómulo de Carvalho é um Centro Ciência Viva a funcionar com característica de centro de recursos para o ensino e aprendizagem das ciências e a difusão da cultura científica. Os objectivos serão contribuir para a cultura científica e tecnológica nacional, atraindo e mantendo mais jovens para a ciência. (O nome Rómulo de Carvalho, para o Centro Ciência Viva, justifica-se plenamente: Rómulo de Carvalho (1906-1997) foi professor de Ciências Físico-Químicas (para muita gente mais conhecido por António Gedeão, o poeta de “Pedra Filosofal” e de outros poemas de inspiração científica) e é um símbolo da cultura científica em Portugal. Além de professor de ciências e de poeta, juntando na mesma pessoa de forma única duas sensibilidades distintas, foi um notável divulgador científico e um historiador da ciência, da pedagogia e, em geral, da cultura portuguesa. A sua ligação a Coimbra é conhecida pois foi nessa cidade que ensinou durante alguns anos, que iniciou a sua carreira literária nos anos 50 e que estudou colecções de instrumentos históricos da Universidade.


O outro vídeo tem a ver com a rubrica Escolhas de Livros de Carlos Fiolhais. No dia 15 de Novembro a escolha recaiu sobre o meu último livro “Breve História da Química


Agradeço mais uma vez ao Professor Carlos Fiolhais, as palavras generosas que tem proferido a propósito de quase todos os meus livros

 

sábado, 3 de dezembro de 2011

Por terras de Torga...

No passado dia 28, a convite das professoras Márcia Cabanelas, Fátima e Bruna, do Centro Escolar da Araucária, Vila Real, fui ao referido centro a propósito do livro “Pelo sistema solar vamos todos viajar”.


Fui de camioneta ( a viagem hoje já se faz muito bem) e cheguei por volta das 10h e30 min. Aguardava-me a professora Márcia, orientadora de estágio das outras duas professoras, duas jovens de grande maturidade que, para poderem custear os seus estudos, serviram no exército durante alguns anos. O grupo (orientadora e estagiárias) é extremamente dinâmico o que se reflecte, obviamente, nos alunos. Antes da minha intervenção, numa encenação simples mas muito sugestiva, um grupo de alunos apresentou o texto. Posteriormente, os restantes alunos envolveram-se na leitura de um acróstico que tinham construído e que fizeram questão de me oferecer.


Para além destes alunos estiveram alunos de outras turmas, pelo que deveriam estará presentes cerca de  70 alunos. À medida que ia falando sobre o livro e realizando algumas experiências ia “dando” algumas dicas. A propósito dos versos

(…)Vou usar todas as ondas


que eu mesmo emito para o espaço


e assim vou poder contar


muita história de encantar(...)

projectei no tecto um arco-íris, usando um copo com água e um retroprojector. E assim falámos das ondas visíveis e invisíveis, da velocidade da luz, do tempo que a luz demora a chegar do Sol e da Lua até à terra (8 minutos e pouco mais de 1 segundo, respetivamente).

Perguntei então se tinham alguma ideia da distância entre a lua e a terra. De imediato uma menina respondeu (vim depois a saber que uma outra respondeu simultaneamente mas o som não foi suficientemente forte para eu ouvir) que tendo em conta a velocidade da luz e o tempo que a mesma demorava a chegar da lua à terra, a Lua estaria a mais de 300.000km. Claro que a par destas respostas houve outras de um grande ingenuidade como 100 km, 1000km, etc. Também quando perguntei se tinham alguma ideia sobre a idade do Sol a maior parte tinha a ideia de que era muito, muito grande mas também houve quem admitisse que podia ter 1000 anos e até houve quem sugerisse 40…. As crianças foram genericamente muito participativas mas a preocupação de responderem depressa não permitia, por vezes, que reflectissem sobre o absurdo de alguma respostas.

Já passava do meio dia mas as crianças queriam fazer muitas perguntas e também queriam autógrafos em livros, folhas de papel, etc.

Chegada a hora do almoço, e por causa dos horários da cantina tiveram, que ir almoçar. Prometi-lhes que estaria de novo depois de almoço para os autógrafos. E lá estavam todos, com a sua espontaneidade, meninos e meninas que pretendem ser cientistas, veterinário(a)s, futebolistas, escritore(a)s, professore(a)s.

Às 17 h e 35 min , em direção ao Porto, deixei Vila Real onde fui sempre “mimada” pela gentileza de professores e alunos. Obrigada a todos.
Deixo-vos com algumas imagens que me foram gentilmente enviadas pelo grupo de estágio.

 








sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

E se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos ?


Genericamente, quando falamos em Mia Couto associamo-lo a inúmeras obras entre elas Terra Sonâmbula, O último voo do flamingo, Estórias Abensonhadas, Venenos de Deus, Remédio do Diabo, Mar me quer, A chuva pasmada....

Não é tão frequente associarmos o autor a literatura para o público mais jovem. Mas Mia Couto e o exemplo de literatura universalizada para todas as idades

O seu livro O gato e o Escuro faz-nos de imediato pensar no texto de Saramago:
“E se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos? Nós, os adultos, seríamos capazes de aprender o que há tanto tempo ensinamos?
A leitura dos contos para crianças teria de ser obrigatória para os adultos. Estes textos são fábulas morais, nas quais são ensinados valores que consideramos indispensáveis, como a solidariedade, o respeito ao próximo e a bondade. Mas depois, nós, os adultos, somos os primeiros a esquecer disso na vida real”.


O gato e o escuro, a reinvenção do escuro, lugar propício à ambientação do medo. A necessária mudança de perspectiva mediante um conflito. A inversão do olhar da temática do medo, tão recorrente e opressora no universo literário infantil.


Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor.
Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas. Todos lhe chamavam o Pintalgato.
Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto. Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro. O caso, vos digo, não é nada claro.
Aconteceu assim:
o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente. A mãe se afligia e pedia:
- Nunca atravesse a luz para o lado de lá.
Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.
Mas fingia obediência.
Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá. Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.
Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir.
Foi ganhando mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho.
Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite.
Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou.
Estavam pretas, mais que breu.
Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim. Não queria ser visto em flagrante escuridão.
Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira. E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade. À medida que avançava seu coração tiquetaqueava. Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão.
Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu? Virara cego? Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto?
Chorou. Chorou. E chorou.
Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato. Foi então que ouviu uma voz dizendo:
- Não chore, gatinho.
- Quem é?
- Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar porque olho tudo e não vejo nada.
Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz!
Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmo ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza.
E o escuro, triste, desabou em lágrimas.
Estava-se naquele desfile de queixas quando se aproximou uma grande gata. Era mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:
- Pois eu dou licença a teus olhos: fiquem verdes, tão verdes que amarelos.
E os olhos do escuro de amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto. O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então porque não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nosso medos.
A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro. E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as suas costas estavam das cores todas da luz. Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. Afinal? O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande:
- Você quer ser meu filho?
O escuro se encolheu, ataratonto. Filho? Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.
- Como posso ser seu filho se eu nem sou gato?
- E quem lhe disse que não é?
E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas. O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente.
- Mas, mãe: sou irmão disso aí?
- Duvida, Pintalgatito? Pois vou-lhe provar que sou mãe dos dois. Olhe bem para os meus olhos e verá.
Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.
Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encheram de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.
Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.
Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo. Por detrás dessa fenda o que é que ele viu? Adivinham? Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo.

O autor de o Gato e o Escuro é também o autor deste outro texto sobre o medo


(…)Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:


“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.


A terminar, o poema "Mortos justificados"

Demoliram o país de Ahmed.



Erro de construção, justificaram.


Os pilares acentavam numa fé errada.


Debaixo do tecto se abrigavam famílias,


velhos, meninas, mulheres.


Todos tinham o mesmo nome,


o nome daqueles que não têm nome.


O país ruiu, ante bombas e tanques,


prova de que não estava bem dimensionado.

Os pombos escaparam, os pobres não.


Que culpa têm os demolidores


de haver tanta gente viva?


Dos que sobraram não se escutam lamentos.


Os moradores choram numa língua errada.


Entre os escombros, um braço de menina


ousa a culpa: de que valia ser criança


se não dava uso à infância?


Erro de cálculo na engenharia,


falta de sustentabilidade ambiental,


inviabilidade financeira:


o auditor da comunidade internacional,


encerrou o file no laptop,


e suspirou, aliviado: felizmente,


a maior parte dos países

nunca chegou a existir

Mia Couto in idades cidades divindades