Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 28 de maio de 2011

Abstenção e voto branco

Estamos a uma semana das eleições e ouço com frequência a frase Desta vez vou abster-me. Se a intenção vem dum jovem, ainda posso entendê-la mas se vem de alguém que viveu no tempo em que não havia eleições livres, fico triste. Para que serviu tanta luta a exigir o direito de votar livremente?

Quando indago sobre a razão da abstenção a resposta é sistematicamente a mesma. Nenhuma alternativa me serve. Ora, a meu ver, a abstenção não vai traduzir esse desencanto. Abster-se significa que qualquer das soluções serve. Por isso, quem pretender mostrar que nenhuma alternativa serve, deverá votar, mas votar em branco.

domingo, 22 de maio de 2011

Sucesso escolar….

No dia 21 de Maio o blog de Rerum Natura  colocou a mensagem que segue:

A que ano de escolaridade supõe o leitor que se destinará o teste intermédio de Ciências Físico-Químicas onde consta a seguinte pergunta:


"O sistema solar é constituído pelo Sol e pelos corpos celestes que orbitam à sua volta. Actualmente, considera-se que os planetas que fazem parte do sistema solar são Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. Em 2006, Plutão deixou de ser classificado como um planeta, embora continue a fazer parte do sistema solar.


1. Actualmente, considera-se que o sistema solar é constituído por quantos planetas?


Resposta: ________________________________________________


Por mais incrível que pareça, o teste foi destinado ao 9º ano de escolaridade, disciplina de Física e Química

A mensagem despoletou uma série de comentários um deles o meu, que transcrevo com ligeiras alterações

Em outros testes intermédios (lembro-me de um para 11ºano) havia perguntas igualmente caricatas (coloco uma em anexo) Desde há muito que o sistema se preocupa apenas com os resultados (obviamente virtuais) sem a mínima preocupação com a aprendizagem real; escolas há em que os responsáveis ameaçam veladamente os professores com represálias na sua avaliação se os resultados ao longo do ano não forem virtuais(aqueles que mostram um bom desempenho dos alunos). Assim se constrói o sucesso do ensino em Portugal.
E é preciso não esquecer que os testes intermédios são corrigidos pelos professores dos alunos. Relativamente à correcção têm que preencher grelhas, não sei para mostrar o quê porque as provas, depois de corrigidas ficam nas mãos dos alunos. Ou seja, um professor pouco sério pode conseguir resultados espantosos, duplamente virtuais... E assim com estas e outras anedotas se vão também construindo alguns dos professores de excelência virtual( e mediocridade real).
Digo isto com muita tristeza
Regina Gouveia


Teste 11º ano






Durante algum tempo o magnetismo e a electricidade ignoraram-se mutuamente. Foi só no início do século


XIX que um dinamarquês, Hans Christian Oersted, reparou que uma agulha magnética sofria um desvio


quando colocada perto de um circuito eléctrico, à semelhança do que acontecia quando estava perto de um


íman. Existia pois uma relação entre electricidade e magnetismo.


C. Fiolhais, Física Divertida, Gradiva, 1991 (adaptado)


1. Transcreva a parte do texto que refere o que Oersted observou.


Este teste também originou vários comentários um dos quais pode ser lido aqui
Caro colega:


Para conhecimento…


Teste intermédio FQA 11 ano Fev 11 -


Veja-se o grau de dificuldade da questão 1 do grupo I (transcreve…) ; da questão 1 do grupo IV (exercício de escalas) e do grupo III igual ao do ano lectivo anterior apenas com dados diferentes:


http://www.gave.min-edu.pt/np3content/?newsId=9&fileName=FQA11_Fev2011_V2.pdf


Dá que pensar. claro que os professores que preparam alunos para exames nacionais é que ficam mal vistos pois fazem testes muito difíceis.


J.P.


Criar sucesso virtual em nada ajuda ao real sucesso.

Os factores que levam ao insucesso são inúmeros, dependendo de múltiplos contextos

O vídeo a seguir fala-nos de um desses factores no contexto brasileiro, que não é propriamente o nosso. O nosso contexto é o do país de fachada que infelizmente temos vindo a construir

Sejam quais forem os factores há que, urgentemente, combatê-los na origem

Para amenizar este mau estar no ensino aprendizagem, nada melhor que um pouco de humor aqui, aqui e aqui

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Poesia/ Idade

Não pude deixar de me emocionar  um pouco com o generoso  comentário que o Professor Fiolhais colocou ontem no seu blogue, a propósito da minha poesia.

POESIA CIENTÍFICA PARA OS MAIS NOVOS

(…) Mas Regina Gouveia teve e tem uma second life, que poderia parecer desligada da sua first life, mas, vendo bem, não está. Ela é poeta. Encontram-se nas livrarias e nas bibliotecas vários livros da sua autoria, como Reflexões e Interferências (Palavra e Mutação, 2002) e Magnetismo Terrestre (Calendário, 2005). Os títulos dão conta da ligação entre as suas duas “vidas”: Os temas da sua predilecção são científicos. Poderemos, embora o nome possa enganar, falar de poesia científica. A autora tem-se, em particular, interessado pela poesia para os mais pequenos, como nas obras Era uma vez... Ciência e poesia no reino da fantasia (Campo das Letras, 2006) e Ciência para meninos em poemas pequeninos (Gatafunho, 2009), as duas com títulos elucidativos a respeito da temática dos poemas. Saiu no final do ano passado o seu terceiro livro de poesia científica infantil, Pelo sistema solar vamos todos viajar, com ilustrações do seu filho, o arquitecto Nuno Gouveia. Falemos dele, agora em que a literatura infantil está valorizada pela atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina.


O livro mais recente de Regina Gouveia está na linha das outras obras infantis, merecendo tal como a anterior figurar nas listas do Plano Nacional de Leitura. A editora, que o incluiu na colecção Ciência e poesia de mãos dadas, foi a mesma que publicou Um Rapaz Invulgar, uma biografia ilustrada de Einstein para infantes, no Ano Mundial da Física. Pelo sistema solar vamos todos viajar, pequeno como convém para gente pequena (só tem 36 páginas), tem papel de boa qualidade, o que valoriza tanto o texto como os desenhos a cores. O conteúdo reparte-se por dois poemas: Era uma vez o Sol e Era uma vez a Lua. O primeiro é uma visita guiada ao sistema solar em que o guia é o próprio Sol, ao passo que o segundo trata das observações da Lua por uma menina, a Gabriela, dona da gata Fofinha (a propósito: a editora, que tem como logotipo uma gata, usa também o imprint de Gafafunho). Mas nada como transcrever um excerto de cada um dos poemas para o leitor se dar conta do estilo da autora (…)
Como se vê, a imaginação poética, aqui especialmente dirigida aos muito pequenos, surge aliada ao rigor científico (repare-se no pormenor da poesia já dar conta da “despromoção” de Plutão de planeta para planeta-anão) numa linguagem muito simples. Onde é que já vimos isso? Pois o nome de António Gedeão, pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho, também ele professor de Física do secundário, vem-nos à memória. Como afirma Ferreira da Silva, professor de Física da Universidade do Porto, na badana, “...a formação científica da autora transparece, como em António Gedeão, na obra poética”. Já muito se tem feito para motivar para a ciência os nossos petizes. Como bem mostra Regina Gouveia, a poesia é um meio  com o qual se pode fazer ainda mais...



Coloco ainda um comentário ao referido texto, também ele “postado” no mesmo blogue

Seja qual for em verdade


a forma que ela revista


dentro da autenticidade,


a Poesia não tem


por qualquer ângulo vista


idade para ninguém!


Este comentário fez-me lembrar José Saramago:
E se a poesia para crianças fosse de leitura obrigatória para os adultos?

(in A Maior Flor do Mundo)

Diz o nosso povo que as conversas são como as cerejas… Assim, a propósito da maior flor do mundo deixo um texto  e o filme a que o texto se refere


Ainda a propósito da poesia sem idade, hoje, mais uma vez a convite da Bibliotecária Manuela Lima, estive em mais uma escola de Esmoriz, com meninos do pré-primário e do 1ºciclo.

Quando terminou a sessão com os mais pequeninos, um deles, o Martim, que durante toda a sessão fez inúmeras intervenções, fez questão que eu fosse à sala dele e aí mostrou-me as estantes e outros espaços que tinha arrumado dizendo. Arrumei-as para ti…Disse-me posteriormente a educadora que ele tinha chegado mais cedo e muito ansioso porque ia conhecer uma escritora…

Com os mais crescidos, quando as professoras lhes perguntaram se tinham gostado, em coro responderam: Não gostámos, adorámos..

Mas não só os alunos. A mesma expressão foi usada pelas professoras o que vem de encontro ao título desta mensagem .

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Ano Internacional da Química (AIQ)

Sob proposta da IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry), 2011 é o ano dedicado à Química.
De entre as várias iniciativas destinadas às comemorações da efeméride, surgiu a ideia de dar a conhecer um pouco da história da Química, através de uma peça de teatro, dedicada essencialmente à população escolar. A iniciativa partiu da Dr.ª Lourdes Leitão, professora no Colégio dos Órfãos do Porto. A seu pedido, escrevi o texto que agora se publica. A ideia para o início da peça, entrada em palco de um grupo de saltimbancos, fazendo habilidades com o fogo, foi sugerida pela referida professora. A partir daí a peça surgiu e,” para o bem e para o mal”, é da minha inteira responsabilidade

O texto acima é a nota introdutória para o meu novo livro que brevemente deverá estar nas bancas.

Chama-se “Breve História da Química”, um livro para todos, mas essencialmente dedicado ao público infanto-juvenil

Ontem, a Drª Lourdes Leitão enviou-me dois documentos: um, o texto que a seguir anexo e o outro, uma imagem do cartaz que irá ser afixado pela cidade

“O GRANDE MUSICAL DA QUÍMICA”


No âmbito das comemorações do Ano Internacional da Química, três escolas do Grande Porto (Escola Salesiana Colégio dos Órfãos do Porto, Escola Secundária Inês de Castro, de Vila Nova de Gaia e a Escola Secundária João Gonçalves Zarco, de Matosinhos) estão a desenvolver o projecto “ O Grande Musical da Química”.


O Teatro do Sol assumiu o desafio de pôr em palco esta divertida peça de teatro, com base no texto Breve História da Química da autoria de Regina Gouveia.
Na peça participam várias dezenas de alunos das três escolas envolvidas, dando vida a um conjunto de protagonistas, do qual se destacam os quatro elementos (Fogo, Terra, Água e Ar) e químicos notáveis, como Marie Curie.
O projecto tem como principal objectivo divulgar os principais marcos da História da Química, contextualizados na História do Teatro e na História Universal, celebrando as múltiplas contribuições desta ciência para a Humanidade. Trata-se de um projecto potenciador da motivação e sensibilização dos jovens para as disciplinas científicas, mas também para a História e para a Arte em geral, permitindo-lhes uma integração transversal de diferentes aprendizagens, a par do desenvolvimento de novas competências. O Grande Musical da Química representará ainda uma mais-valia para qualquer espectador, independentemente da sua idade.
O espectáculo será levado à cena no Rivoli Teatro Municipal nos dias:
- 20 de Junho, segunda-feira, às 21h30min, para o público em geral
- 21 de Junho, terça-feira, às 10h30min e às 15h30min, para as escolas
Os bilhetes têm um custo de 5 € e encontram-se à venda na bilheteira do Rivoli Teatro Municipal (223392201) ou em www.bilheteiraonline.pt .
Para qualquer esclarecimento ou marcação de grupos, contactar um dos professores responsáveis pela concepção/dinamização do projecto:
Maria de Lourdes Leitão [Colégio dos Órfãos]
mlourdesleitao@gmail.com
917584775
Maria da Conceição Mendonça e Maria de Fátima Sousa [Escola Secundária Inês de Castro]
cmilhais@gmail.com
fatima.s.f.sousa@gmail.com
964341331;  962554960
Jorge Vieira [Escola Secundária João Gonçalves Zarco]
jorgevieira.prof@gmail.com
910899949/938347823

No passado sábado fui assistir a um ensaio da peça. Gostei muito e daqui felicito os professores envolvidos no processo (talvez não se imaginem as horas que têm dedicado ao mesmo), o grupo de teatro do sol e, muito em particular os alunos que, religiosamente, todos os sábados de tarde se envolvem com afinco nos ensaios.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

De cor e de silêncio

CLUBE LITERÁRIO DO PORTO



Galeria piso 2 (De 17 a 31)


Exposição de pintura e adereços “De cor e de silêncio…”, de Regina Gouveia


Abertura dia 17, às 21h30


Inauguração dia 20, às 21h30

Pensava fazer, por estes dias, referência a esta exposição. O meu amigo Carlos Vaz antecipou-se e já a referiu em Textualino- Revista de Artes . Obrigada, Carlos Vaz, pela distinção.

Acontece de novo…Já em 2008 tinha exposto no Clube Literário. A exposição, O rosto da memória, constava de acrílicos e aguarelas, o que até então tinha trabalhado na Utopia , escola que continuo a frequentar, tendo o privilégio de ter desde o primeiro dia como professor, o artista plástico Domingos Loureiro.

Passados três anos regresso ao Clube Literário com a exposição De cor e de silêncio, que consta de trabalhos em pastel e em óleo, para além de acrílicos e aguarelas.
Tal como na anterior, exponho também alguns adereços que venho fazendo desde há algum tempo, como autodidacta.

Deixo aqui imagens de algumas obras mais recentes:





Os trabalhos acima são em pastel seco sobre papel e os que seguem são técnica mista e óleo sobre tela



sexta-feira, 6 de maio de 2011

Façam o favor de ser felizes: Breves

Raul Solnado, que já não está entre nós, deixou-nos  um apelo: «Façam o favor de ser felizes».
É nesse sentido que deixo este vídeo.

Deixo também alguns dados de uma  exposição na escola/galeria Utopia , Sexto Sentido- arte no feminino, de três colegas da escola,  onde todos nos esforçamos para ser felizes

Aqui ficam trabalhos de cada uma das autoras (de acordo com a ordem estabelecida no catálogo)


E por último, Felicidade com Tom Jobim e Vinícius

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Serenata de Schubert

Há dias, no Coro Vivacidade  de que faço parte, falou-se na Serenata de Schubert. A minha mãe que, tinha uma fabulosa voz de soprano, no Brasil era solista num coro. Eu cresci ao som da música: essencialmente árias de ópera, canções napolitanas e outras. Uma das que mais gostava de ouvir era a Serenata de Schubert, com a letra que ainda recordo. Na conversa referida, ninguém conhecia esta letra. Fui procurá-la na NET. Encontrei outras, mas esta não. Aqui a deixo e espero que a memória não me traia.
Num ninho quente

as aves arrulham

ensinado a amar

Também eu quero,

o meu doce amor

ao teu ouvido segredar.

Vem não tardes meu amor,

Pois todos dormem já,

todos dormem já.

Mas a brisa carinhosa

nos protegerá,

nos protegerá.

Vem atende ao meu chamado,

tudo me prediz,

que tão somente a teu lado

eu posso ser feliz

eu posso ser feliz.

Posso ser feliz


Agora, em alemão na voz de Nana Mouskouri

Leise flehen meine Lieder

durch die Nacht zu dir;

in den stillen Hain hernieder,

Liebchen, komm zu mir!



Flüsternd schlanke Wipfel rauschen

in des Mondes Licht, in des Mondes Licht;

des Verräters feindlich Lauschen

fürchte, Holde, nicht, fürchte, Holde, nicht.



Hörst die Nachtigallen schlagen?

ach! sie flehen Dich,

mit der Töne süssen Klagen

flehen sie für mich!



Sie versteh'n des Busens Sehnen,

kennen Liebesschmerz, kennen Liebesschmerz

rühren mit den Silbertönen

jedes weiche Herz, jedes weiche Herz.



Lass auch dir die Brust bewegen,

Liebchen, höre mich !

bebend harr' ich dir entgegen !

komm, beglücke mich !

komm, beglücke mich, beglücke mich !

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Grande Noite da Música Espanhola"

Ontem de manhã estive na Escola Inês de Castro, em Gaia, com cerca de 60 alunos do 7º ano de escolaridade, sessão que decorreu no auditório. A escola sofreu grande intervenção e é uma escola muito bem equipada. Talvez num país como o nosso fossem dispensáveis alguns requintes, em prol de melhorias em outras escolas, investimentos numa formação séria de professores, etc. Mas gostei da escola. Entre os alunos, alguns muito interessados, outros um pouco menos mas o balanço foi positivo.

No caminho de regresso vi, por acaso, este cartaz :



Fiquei entusiasmadíssima pois trata-se de três obras que se encontram entre as minhas preferidas. Fui, mesmo sem ter arranjado companhia ( ou porque o bilhete era caro, ou porque não havia disponibilidade assim em cima da hora)

Eis alguns dados sobre o concerto

Uma noite com os sons da Orquestra Sinfónica Estatal Ucraniana e o som da guitarra de Rolando Saad cujas sonoridades nos lembram a magia da música de Joaquin Rodrigo e o encantamento bruxo de Manuel de Falla. A obra do "Concerto de Aranjuez", de Joaquín Rodrigo, é uma fusão criativa de música de influências populares com uma imaginativa orquestração.


Do concerto fazem ainda parte "La Fantasia para um Gentilhombre" também de Joaquin Rodrigo, a magnífica peça de Manuel de Falla toda ela fantasia e mistério "El Amor Brujo", num entrelaçar de sons que fazem voar os nossos sentidos, e a suite dessa ópera fabuloso de Geoges Bizet que se chama "Carmen".Bem pode dizer-se que neste concerto toda a Espanha está presente, numa mistura de paixão, violência e sensibilidade que transborda dos instrumentos e envolve o espectador mais desatento.

Sobre Rolando Saad :

Se não posso deixar aqui o fabuloso concerto a que assisti, deixo a  actuação de Rolando Saad em outros palcos

Concierto de Aranjuez

Fantasía para un Gentilhombre

Deixo ainda a Danza ritual del fuego e um trecho da HABANERA na voz de Maria CALLAS

domingo, 1 de maio de 2011

Memória serena

Aos fins de semana e em uma das refeições principais,, juntamo-nos todos, querendo dizer com “todos”: nós, os dois filhos , as duas noras e os quatro netos. Um primo que nasceu e vive no Maputo, de vez em quando manda-me umas mensagens referindo a saudade que tem do calor destes nossos encontros semanais.

Desta vez foi escolhido o Domingo, por coincidir com o Dia da Mãe.
Recordei-me do poema de João de Deus, A ENJEITADINHA que, muito sinceramente , hoje não acho um grande poema.

Aprendi-o na infância mas não me lembro se constava de algum livro de leitura ou se foi um dos inúmeros poemas que o meu pai me dizia, alguns deles ainda antes de eu saber ler.

Por que choras tu anjinho?


Tenho fome e tenho frio.


E só por este caminho.


Como a ave que caiu ainda sem plumas do ninho.


E tua mãe já não vive?


Nunca a vi em minha vida.


Andei sempre assim perdida,


E mãe por certo não tive.


És mais feliz do que eu,


Que tive mãe e morreu.

Recordo-me  que na altura me marcou muito pois só de pensar que poderia perder a minha mãe senti uma angústia indescritível.

Tive o privilégio de ter tido uma mãe fantástica e não é apenas o meu olhar, eventualmente pouco isento. Todas as pessoas que a conheceram recordam-na como uma pessoa excepcional.

Hoje senti muito a sua ausência mas também a sua presença.

Em tempos dediquei-lhe o poema anexo, ainda não publicado.

Memória serena


Ali, naquele sofá de couro,


está uma memória sentada.


Não é fantasma, é memória,


doce e serena como a luz do luar,


como o rio que desliza mansamente para o mar.


A mão, já enrugada,


pousa no braço do sofá de couro,


lá onde está marcada a mão real,


tantas vezes pousada.


Doce é o sorriso, profundo o olhar.


Na gola do casaco imaginado,


um alfinete de ouro com o nome gravado.


Ali, na memória sentada no sofá de couro.


Felizmente não a recordo muito perturbada, vítima de Alzheimer aos 58 anos. A imagem que sempre me surge é a de um senhora lindíssima, com uma belíssima voz de soprano, com mãos de fada e com um sorriso muito doce.


Esse sorriso também motivou um outro poema, este publicado no meu primeiro livro, Reflexões e interferências

Sorriso


Junto à campa da minha mãe


nasceram lírios no passado mês.


Alguns dos seus elementos,


o magnésio talvez,


já terão sido, por certo,


pertença da minha mãe.


Há momentos,


passava perto


de um lírio que ali cortei


e quando o olhar fixei,


pareceu-me ver alguém


que sorria para mim.


Doce, o sorriso, sem fim.


Por certo era a minha mãe,


só ela sorria assim.



Até sempre Mãe.