Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Memórias de Natal

A imagem que eu guardo dos natais em criança, e de que a seguir dou conta, é, tal muitas outras, um misto de duas culturas, como tento traduzir no poema imagem
O Natal brasileiro de que a minha mãe me falava, com as indispensáveis idas à praia, nunca me entusiasmou. Ao falar desse natal, a minha mãe não falava das idas ao musgo, da fogueira da praça nem do cantar dos Reis. E disso eu gostava muito. Começava a pensar nele muito tempo antes, não sei bem quanto, mas só quando chegavam a TIA e o tio Justino é que o Natal começava realmente para mim. No dia seguinte à sua chegada, eu, o meu pai e o tio Justino íamos ao musgo. Às vezes tinha pena de arrancá-lo, tão verde e tão fofo ele estava, agarrado às paredes. Parecia veludo. Arrancado o musgo começava a construção do presépio, essencialmente a cargo do tio Justino e da minha mãe. Eu colaborava activamente. Também os meus colegas de escola vinham muitas vezes ajudar. Fazia-se no pátio de baixo. O tio Justino começava por empilhar várias cortiças de modo a criar uma estrutura em relevo. Depois cobríamo-las com o musgo. Em seguida, com areia fazíamos uns carreirinhos ao longo dos quais iríamos colocar várias figuras. Estas eram de barro pintado e tinham sido trazidas de Viana pelo tio Justino. Também foi ele quem fez a cabana do Menino Jesus, com uma cortiça virgem. Para além das figuras, da cabana e dos carreirinhos, havia no presépio um lago, feito com um espelho envolvido de musgo, ao qual dava acesso um regato que serpenteava ao longo da cascata e era feito com papel prateado. Havia ainda uma fogueira feita com papel celofane vermelho, coberto com galhinhos de lenha, e por baixo do qual se colocava uma lanterna acesa. Era à volta desta fogueira que se colocavam os pastores. Presa do tecto havia uma estrela que iluminava os reis magos. Era de cartão coberta com papel dourado.


Para além do presépio havia lá em casa uma árvore de Natal, e creio que seria a casa de cima a única casa da TERRA onde tal acontecia. A ideia da árvore de Natal tinha vindo com a minha mãe. Era feita com um zimbrinho que era colhido no mesmo dia em que íamos ao musgo. Os enfeites eram pompons de lã, coloridos, que eu fazia com a ajuda da Mininha, e pequenos biscoitos que a minha mãe fazia com vários formatos- de estrela, de meia lua, de sino, de árvore. Na parte superior da árvore havia um grande laço de seda arranjado pela minha mãe.


Mas o Natal era muito mais que o presépio e a árvore. Era a ceia, sempre na CASA, até à morte da TIA. Comíamos todos à mesa- os meus pais, a TIA e o tio Justino, a Germana, a Balbina, o António Joaquim e a família. A ceia constava de bacalhau, polvo e pescada cozidos com batatas e couves da TERRA que têm um sabor diferente de todas as outras que eu conheço. E tudo isto era regado com o azeite dourado das oliveiras, também da TERRA. Eu, na altura, não apreciava muito essa comida mas sabia que depois vinham as sobremesas. E dessas eu gostava. Eram as rabanadas, as filhós, os milhos doces, o arroz doce, a aletria, os fritos de jerimum, os rochedos de amêndoa. No dia de Natal o almoço era na casa de cima. Invariavelmente era peru recheado com farofa acompanhado de arroz com amêndoas, passas e nozes. À sobremesa eram doçarias brasileiras- quindins, bom bocado, docinhos de amêndoa, pudim de laranja. Eu gostava de ajudar a fazer estas doçarias, particularmente os docinhos de amêndoa. Eram feitos de véspera com uma pasta de açúcar, gemas e amêndoa, que era introduzida dentro de cascas de nozes para ali secar. No dia de Natal saíam das cascas docinhos de amêndoa com o formato de noz.


Depois do almoço eu ia sempre com o meu pai e o tio Justino ver a fogueira na praça. Ainda hoje se faz a fogueira. Antes do Natal os rapazes da TERRA vão pelas casas mais abastadas pedir lenha. As pessoas indicam-lhe onde a podem ir buscar. Na véspera de Natal lá vão eles. Após a ceia de Natal, lá pelas 10 h da noite, a lenha, grandes toros e raízes, começa ser empilhada na praça, em frente à igreja. Em seguida acende-se a fogueira. Levam-se umas chouriças para assar e assim, entre conversas, comendo chouriça assada, os homens vão passando a noite. Se há Missa do Galo, vai-se à Missa. Caso contrário por ali se fica até passar da meia-noite. A fogueira manter-se-á acesa por vários dias, enquanto a lenha durar. As mulheres não participam deste evento. Podem ir ver, passar algum tempo, mas é uma prática essencialmente masculina.


Outra boa recordação que tenho da época natalícia é o cantar dos Reis. Aí participam crianças e jovens que vão de porta em porta cantando. Lembro-me particularmente de alguns excertos de duas canções de Reis. Uma delas era:


Dai-nos leitão e cabrito,


arroz doce e marmelada,


dai-nos vinho de há cem anos


já não vos queremos mais nada.


Trigo e nozes e marmelada,


lombo de porco, vitela assada,


pão com manteiga, chá ou café


e o Deus Menino nascido é.






A outra, era a última a ser cantada:






Ao carrasco de Lisboa já lhe caiu a bolota


Se nos querem dar os Reis venham-nos abrir a porta




E as portas abriam-se e lá vinham as nozes, a marmelada, os figos, as chouriças. Eu gostava muito de cantar os Reis em todas as casas mas, muito em especial, na casa de cima. A minha mãe preparava uma cesta com uns embrulhos feitos em papel de seda com uns grandes laços. Cada um de retirava da cesta um embrulho. Era bonito, pela surpresa. Lá dentro podia haver caramelos de leite (que ela fazia tão bem), biscoitos iguais aos da árvores, docinhos recheados com amêndoa, pé de moleque. Eu ficava muito feliz até porque me parecia que a minha mãe também estava feliz.

(in Estórias com sabor a Nordeste, edição da Câmara Municipal de Alfândega da Fé))

Imagem


Minha mãe era brasileira de alma e coração,


para ela, o Brasil era país de eleição.


O meu pai era brasileiro de torna- viagem


e assim, do Brasil eu construí uma imagem.


Nessa imagem há uma miscelânea tal


que vai de Salvador até ao Carnaval,


de Copacabana à aguardente de cana.


É Elis, Betânia, Caetano, Jobim


é jeito de samba, sabor de quindim.


São as cataratas do Iguaçu e as cachoeiras lá em Avaré


É jaca, acerola, pitanga, caju


gosto de garapa, cheiro de café,


É Sena, Pelé. É Oscar Niemeyer disperso em Brasília


é toda a família. Irmãos, tios, primos, sobrinhos, sei lá,


ali em S.Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina.


È Chico Buarque, o meu cantor dilecto,


Cabral de Melo Neto, "Vida e Morte Severina"


É Manuel Bandeira e é Jorge Amado


Érico Veríssimo, Alcântara Machado


Di Cavalcanti, Vinicius, Heitor Villa Lobos.


É impossível enumerar todos.


É a bandeira, verde e amarela,


é cheiro de cravo, sabor a canela


É telenovela, coronéis, jagunços, grandes fazendeiros,


fazendas, engenhos, bois e boiadeiros.


É praia e é mar, é Sol a brilhar


É o Céu Azul e o Cruzeiro do Sul


É pamonha de milho e é vatapá


Enfeitando os jardins, é o manacá


É um povo que canta e seus males espanta


È a Amazónia e é o Pantanal,


Pedro Álvares Cabral


É um testemunho bem colonial como em Olinda e em Parati,


é o negro Zumbi, os Tupi-Guarani


É onça pintada, tatu, colibri


É cheiro a cocada, gosto de siri


É mistura de gentes


É o Tiradentes. É o Lampião


É o Rio Amazonas e o Maranhão


É arroz com feijão nem sempre na mesa


É a extrema pobreza dos descamisados, marginalizados,


dos sem terra e sem pão, gente do sertão.


É Carmen Miranda, afinal portuguesa,


tudo isto é Brasil com toda a certeza


in Reflexões e Interferências, Editora Palavra em Mutação, 2002

3 comentários:

  1. Bonita descrição. Genuina e culturalmente interessante....todos temos experiências diferentes, mas sao elas que nos ajudam a identificar-nos.

    No Porto é diferente de Lisboa e em cada família diverge. Na minha casa não fazíamos consoada, íamos todos à Missa do galo e comíamos uma ceia frugal na Igreja do meu Tio Aleixo. Só no dia de Natal tinhamos a troca de prendas e jantar solene em nossa casa.

    Boas festas

    espero que esta fique!

    ResponderEliminar
  2. Que bonitas recordações de Natal!!! Eu também tenho algumas,mas mais citadinas.Muita família, muita comida, muito trabalho para a minha Mãe e a minha Avó, ajudadas por uma empregada, e uma Árvore de Natal enorme, com muitas lâmpadas elétricas coloridas, lâmpadas grandes, nada como as de hoje. Era um tio meu,que tratava da Árvore. Não me lembro de Presépio, mas lembro-me de que eu e os meus irmãos andávamos à procura dos presentes nas véperas do dia de Natal. Acho que não acreditávamo no Pai Natal.
    Hoje o Natal não tem significado para mim. Do ponto de vista religioso não é importante, pois não sou religiosa. Do ponto de vista familiar como nós, a família mais próxima, vivemos relativamente perto e todos os dias nos falamos, a reunião de família não tem o interesse que teria se vivêsemos longe e nos víssemos pouco. Mas concordo e aceito perfeitamente que o Natal seja mágico para muitas pessoas e seja capaz de despertar sentimemtos de amor e solidariedade. Só que a realidade é tão cruel que não se compadece com esses sentimentos que possam surgir em dadas épocas.
    Desculpe, Regina, estou a ser fria de mais, mas ando muito revoltada com a situação que o Mundo está vivendo.
    Vou dizer agora uma coisa mais simpática e sincera. Adorei o seu poema que eu, aliás, já conhecia.
    Apesar de todas estes desabafos desejo-lhe a si e toda a família um bom Natal, um 2012 menos "horribilis" do que o que se prevê e toda a felicidade do Mundo.

    Um grande beijo, Regina.

    ResponderEliminar
  3. Tudo o que escrevo neste blogue desaparece há mais de um m~es. Fica lá na altura, mas depois não aparece.
    Tenho pena porque escrevo sempre comentários enormes....

    UM FELIZ NATAL, Regina e obrigada por estes testemunhos maravilhosos. Fazes-me acreditar no PAI NATAL!!

    Bjo

    ResponderEliminar