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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A propósito dos 144 anos de Marie Curie...


Na mensagem de ontem referi a comemoração do aniversário de Marie Curie numa escola em Coimbra.

Hoje chega-nos, também de Coimbra e através do blog De Rerum Natura, um belíssimo texto de António Piedade


Ouso interromper o silêncio do teu íntimo descanso cósmico, convidar a tua memória para celebrar os 144 anos do teu nascimento, a 7 de Novembro de 1867. Quantos núcleos de polónio (Po) e de rádio (Ra), que descobriste grão a grão entre toneladas de minério de urânio, decaem hoje para celebrar o teu aniversário?
Ouso olhar para as imagens das nebulosas, gases e poeiras restantes de supernovas, explosões no longínquo passado de milhares de milhões de anos, e que hoje os telescópios e a informática nos traduzem para um presente de cor, onde antes era só breu, desconhecido. Dessas explosões espalharam-se no espaço sideral alguns dos poucos núcleos de polónio e rádio que tu, na companhia inseparável de teu marido Pierre, e já com a tua primeira filha Irene ao colo, desvendaste do seio de amostras de pechblenda, um minério impuro de uraninita. Imagino a explosão de brilho da descoberta nos teus olhos radiantes ao ver o fulgor azulado no ar envolvente de poucos gramas de polónio, que baptizaste em honra à tua Polónia mátria.


Anunciaste a descoberta do rádio, cerca de um milhão de vezes mais radioactivo do que o urânio, no dia seguinte ao do Natal de 1898. Com ele, tu e Pierre confirmaram a existência dessa radiação provinda do núcleo de alguns elementos, actividade a que tu e Pierre cunharam de radioactividade. Mal sabiam vocês que essa mesma radiação, que vos alegrava pelo prazer da descoberta e do conhecimento, vos trespassava as células, que alterava, curie a curie, inúmeras letras do manual genético que regulava as vossas vidas.


Imagino o olhar terno e filial de Irene perante a alegria do trabalho árduo mas recompensado de sua mãe. Recompensado por ter descoberto, por ter compreendido. Anos mais tarde, Eve, a tua segunda filha, vai escrever a tua mais linda e comovente biografia. Foste uma mãe extremosa a quem o trabalho permanente não foi desculpa para os afectos com que envolveste os outros e disso é testemunho o reconhecimento maior que Eve escreveu sobre a tua sacrificada vida.


Afinal, o que te trouxe a Paris, à Sorbonne, senão a busca incessante pelo conhecimento, por quereres saber sempre mais, por olhares para o alto do que está para fazer, com os pés já em cima do degrau desvendado?


Disseste que “nada na vida deve ser temido, apenas compreendido”. E, de facto, nunca pestanejaste perante o cansaço que te alagava o chão que pisavas com a firmeza da perseverança, de uma vontade, diria hoje, radioactiva por contagiante aos que te rodeavam sem argumentos. E não foram poucos os que te honorificaram com prémios e mais prémios, honras e graus académicos. Muitos foram os que te cobiçaram e que não entenderam que conseguiste o que alcançaste, não porque eras mulher, mas porque nunca viraste a cara ao trabalho persistente, corrosivo, rigoroso pela excelência, iluminado pela verdade. Poucos segundos perdeste a olhar para o que fizeste pois só conhecias a procura do que ainda restava para fazer, para descobrir através do trabalho.


Foste a primeira das primeiras em muitas coisas do género humano. Os prémios? Esses outros os podem ganhar e ultrapassar-te na contabilidade dos orgulhos honoríficos. Mas a tua maior recompensa foi o conhecimento. E a noção de que o conhecimento que alcançavas deveria estar imediatamente ao acesso dos outros para sua utilidade. Cedo insististe no uso de equipamentos móveis de radiografia para tratar os enfermos na 1ª Guerra Mundial. Podes ter morrido de leucemia pela acumulação de erros genéticos provindos da radioactividade que nunca abandonaste. Mas hoje milhões de pessoas com cancro utilizam a radioterapia para escaparem a um destino fatal.


Tuas mãos, corroídas pelas radiações que compreendeste, descansam sobre o teu colo feminino, mas irradiam a humanidade que há nos afectos genuínos.


Obrigado Maria Sklodowska.

António Piedade


Termino com algumas fotos retiradas de um site onde poderão encontrar mais algumas
Pierre e Marie Curie no "hangar" de l'Ecole de Physique et Chimie Industrielles, em Paris. (1898.)


Marie Curie e suas filhas Irène e Eve  ao colo (1905)
 
 

Marie Curie e sua filha Irène no Hospital Hoogstade na Bélgica,  com o equipamento radiográfico (1915).
 
Marie Curie e sua filha Irène no laboratório do Instituto Radium, em Paris. (1921)

1 comentário:

  1. Lindo texto, lindas fotografias, maravilhosa homenagem a Marie Curie, cientista, humanista e mulher.

    Um beijo grande, Regina.

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