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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Em jeito de testemunho...

O dia 24 de Novembro é o Dia Nacional da Cultura Científica, em homenagem a Rómulo de Carvalho
Tal como o homem deixou uma pegada na Lua também Rómulo de Carvalho deixou, indelével, uma pegada cultural multidimensional

Para além de excepcional professor de Física e Química e de divulgador da ciência foi poeta, historiador, construtor de equipamento didáctico que concebeu, fotógrafo, ensaísta, autor de ficção e teatro, formador.
De entre esta multidimensionalidade destaca-se o poeta António Gedeão

Gedeão não teria existido sem Rómulo e este seria com certeza um outro se não existisse Gedeão

Rómulo de Carvalho aprendeu de Gedeão o gosto pelos objectos simples, pela história singelamente contada, pela experiência quotidiana. Quanto a Gedeão, penso nele como companheiro de carteira de Rómulo na aprendizagem interior do espírito da Física, cedo feita de ensinar os outros
Mariano Gago (in prefácio de “A Física no Dia a Dia”de Rómulo de Carvalho

Em 2006, centenário do seu nascimento, tive o privilégio de ser convidada para prestar o meu testemunho sobre Rómulo de Carvalho /António Gedeão, em várias das homenagens que lhe foram prestadas. Já depois e com o mesmo fim, fui solicitada mais algumas vezes

Algum tempo antes, já após o seu falecimento, tinha sido convidada pela Areal Editores para co-dinamizar uma série de actividades em sua homenagem.
Achei estranho o convite mas a pessoa que me convidou justificou-o. Na Areal trabalha um engenheiro que foi seu aluno e ao perceber que pretendíamos homenagear RC/AG referiu que “a professora Regina Gouveia o homenageava muitas vezes, ao começar uma aula com um poema de Gedeão que, de seguida explorava”.

Vou tentar fazer uma síntese daquilo que fui referindo nessas sessões


O meu “contacto” com RC começou no 6º ano do Liceu através do Guia de Trabalhos Práticos de Química, que ainda conservo e de muito me serviu, quando docente. Nada mais sabia de RC.

Em Outubro de 1962 entrei para a Universidade e passado algum tempo vi, na montra de uma livraria, o livro História do Átomo cuja autor me era familiar.

Adquiri-o de imediato tal como viria a adquirir mais tarde outros da mesma colecção Ciência para gente nova ( O Professor Fiolhais diz que era essencialmente Ciência nova para a gente).

Nesse livro pode ler-se

A história do átomo é uma das mais belas vitórias dos homens. Quer-nos até parecer que em todo o desenrolar das actividades humanas nunca a Ciência e a Poesia estiveram ligadas tão intimamente como neste caso. A descoberta do átomo não é apenas bela pelo seu significado prático, por se prestar a melhorar profundamente a vida dos homens. É bela também como conquista do espírito, pelo extraordinário poder de imaginação que revela. (Rómulo de Carvalho)


Não creio que me tenha apercebido que em alguns dos livros da referida colecção( História dos Isótopos e História da energia nuclear) a capa era da autoria de António Gedeão, mas se me apercebi, na altura esse nome não me dizia nada. Eu ainda não conhecia António Gedeão.





Foi por mero acaso que um dia, na Revista “O Tempo e o Modo” li o poema Impressão Digital


Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
nao vêem escolhos nenhuns(...)
in "Movimento Perpétuo", 1956 em "Poesias Completas"


Fiquei fascinada e, desde então até hoje, tenho vindo a adquirir  a obra de António Gedeão.

Em 1964 Jorge de Sena, no prefácio de Poesias Completas, referindo-se a António Gedeão diz:
Ali estava um poeta novo e diferente …..

Eu acrescentaria:  Um poeta novo e diferente fruto da cumplicidade entre Rómulo de Carvalho e António Gedeão

Já leccionava e já sabia quem era Gedeão, já assinava a Gazeta de Física (foi através de alguns artigos da autoria de RC, publicados na Gazeta que aprendi a trabalhar com os primeiros osciloscópios que chegaram às escolas, os dinossauros, como lhe chamávamos), quando numa das minhas habituais passagens pelas livrarias, deparei com o livro , em dois volumes, Física para o Povo.

Talvez por acreditar que o saber é um dos principais caminhos de cidadania e liberdade Rómulo de Carvalho tinha a preocupação de divulgar o conhecimento, particularmente a ciência, e a todos os públicos.

Este livro é para si, meu amigo. Foi escrito a pensar em todas aquelas pessoas que gostariam de estudar e de aprender mas que não tiveram ocasião para isso….
Pus-me assim a pensar sobre várias coisas que o meu amigo poderá ter observado na sua vida diária e que talvez gostasse de saber explicar….
Não mostre este livro a nenhuma pessoa sabedora porque essa encontraria com certeza muitos motivos de censura nas minhas palavras. Acharia que aqui não estava bem explicado, que ali tinha usado palavras impróprias….E tinha razão. Mas não se preocupe com isso. Isto é só para o meu amigo…..Carvalho, R. In Física para o povo

Emociono-me sempre que leio este trecho. Leio no mesmo uma afabilidade e uma generosidade que nem sempre transpareciam no contacto pessoal. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente Rómulo de Carvalho, no meu Exame de Estado, pois fazia parte do júri. Dos 26 aos 29 anos, nos primeiros anos em que orientei estágio, estive algumas vezes com RC, que era um dos orientadores itinerantes. Achei –o sempre um pouco distante mas talvez fosse eu que, por me sentir tão pequenina perante ele, vestia a carapaça da minha timidez.
E a propósito da sua vertente de formador é interessante ler o depoimento que segue

…O objectivo prioritário (…) era sensibilizar-nos para os problemas da actividade ensino-aprendizagem, sem nos impor um “modelo” definitivo de professor. Toda a sua actuação tinha por fim incentivar-nos para a descoberta e desenvolvimento de potencialidades que nos permitissem criar o nosso modelo pessoal de professor, adaptável em cada momento à realidade aluno-escola…
(depoimentos de Alcina do Aido e Maria Gertrudes Bastos in Pessoa. C (2001), Pedra Filosofal, Gazeta


Haveria muito mais a dizer destas vertentes de RC bem como de todas as outras mas o texto já vai longo (embora curtíssimo face à dimensão de RC/AG)
Nas palavras prévias com que introduz “O texto poético como documento social” ( FCG, 1995), Rómulo de Carvalho refere:

Pretende o autor, com a presente obra, erguer, aos olhos do leitor, a pessoa do poeta como um ser atento aos acontecimentos que o rodeiam, e envolvem, no ambiente social em que o poeta se movimenta….

Esta preocupação com o ambiente social em cada momento está bem presente na sua poesia. Quem nunca leu o poema para Galileu que aqui deixo na voz de Mário Viegas? Quem nunca ouviu a Pedra Filosofal ou a Lágrima de Preta , na voz de Manuel Freire? E os poemas Dia de Natal, Máquina do Mundo, Calçada de Carriche, Poema da Morte na estrada, Poema do fecho éclair, Poema do Homem Novo……???


Quase a terminar cito RC num texto que começou a escrever para o filho, quando este tinha seis anos

Sabes o que são poetas? São os homens que fazem versos. Quando os versos são bonitos e soam bem aos ouvidos é muito agradável lê-los. Muitas pessoas aborrecidas ficam bem dispostas quando lêem versos. Por isso ser grande poeta é tão útil como ser grande médico ou ser grande engenheiro.

Carvalho, R. In “As origens de Portugal. História contada a uma criança”



Termino de  forma simples mas sentida

Eu queria agradecer-te Rómulo de Carvalho…


Eu queria agradecer-te António Gedeão….

4 comentários:

  1. Regina, este seu texto é admirável.
    RC/AG bem o merece até por vir de alguém com tanto valor como a Regina.
    Foi através da UPP que a conheci e comecei a admirá-la logo após a leitura do seu programa de Física.
    Mais uma vez, Regina, os meus parabéns e um beijo grande.

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  2. Eliminei o 1º comentário porque tinha muitas gralhas. Coisas da idade!!!!

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  3. Obrigada Graciete.
    Hoje estive no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra, nas comemorações do Dia da Cultura Científica e do 3º aniversário do Centro.Foi interessante
    Ab
    Regina

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