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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Sr. Álvaro

Já aqui falei do Sr. Álvaro, de sessenta anos, invisual desde os quatro.
Um homem cheio de vontade de viver, casado com uma senhora invisual de quem fala com muito carinho.
Conheci-o no Hospital de Santo António durante a minha manhã de voluntariado. Acompanhei-o quer na consulta, quer nos testes audiométricos que teve que fazer. Face aos exames, o médico concluiu que apenas com próteses de qualidade se lhe poderia restituir alguma audição.

E aqui começou o maior problema. O Sr. Álvaro não tinha qualquer possibilidade económica de adquirir as próteses.

Já há anos que contribuo para algumas associações de solidariedade. Achei que era hora de lhes pedir algo. Contactei-as e, de imediato, a Futuro Viver se empenhou no sentido de ajudar a resolver o problema, tendo levado a cabo várias iniciativas. Participei em duas delas. Na altura decorria, no espaço Vivacidade, uma exposição de pintura com “obras” minhas. Ofereci o valor de um quadro que a pessoa interessada escolheria, sendo o pagamento feito directamente à Futuro Viver. A minha amiga Virgínia, que pinta muito melhor que eu, não hesitou em comprar o quadro cuja imagem anexo.


Ofereci também uma aguarela que foi “rifada”.


Para aquisição das próteses foram contactadas várias empresas. A Amplifon, sensibilizada com o caso, forneceu as próteses em condições muito especiais.

Hoje o Sr. Álvaro foi colocá-las. Estava feliz e eu também. Passei toda a manhã com ele pois foi preciso testar, ajustar, ensinar o Sr. Álvaro a colocar e manusear as próteses.

O médico, pessoa gentilíssima, felicitou-o por tão rapidamente ter adquirido as competências que lhe irão permitir colocar, retirar, limpar, mudar as pilhas, etc. Os invisuais têm olhos nas pontas dos dedos, comentou o Sr. Álvaro, com a boa disposição que sempre manifesta.








Nos momentos em que aguardávamos o desenrolar do processo e, enquanto conversávamos, falei da surdez de Beethoven. Conhece várias obras do compositor, pois quando aluno do Instituto S. Manuel, onde fez a 4ªclasse, tinha aulas de música. Posteriormente aprendeu a tocar acordeão, órgão, cavaquinho, bandolim e viola, e toca por vezes em grupos musicais.
Quando alguém lhe pergunta se é fácil tocar cada um destes instrumentos responde com o seu bom-humor. Facílimo. Até um cego é capaz…
É assim o Sr. Álvaro em nome do qual eu agradeço a todos, desde a Amplifon e o médico que acompanhou o processo, a pessoas singulares e colectivas que contribuíram para que o Sr. Álvaro possa continuar a comunicar com o espírito vivo que o caracteriza. Destaco particularmente a Futuro Viver, na pessoa da Drª Cristina Pereira, pelo seu empenho na resolução deste problema.

2 comentários:

  1. Também me sinto feliz pelo Sr. Álvaro e felicito-a por todo o seu trabalho de ajuda.
    Mas , Regina, tantos Srs. Álvaros que não têm a sorte de encontrar pessoas, como a Regina, que tão desinteressadamente contribuem para minorar os seus problemas!!!!!
    Este mundo é mesmo ingrato!!!
    É preciso modoficá-lo!!!

    Um beijo de muita amizade.

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  2. Fiquei feliz ao ler este post. Também tenho uma sobrinha invisual e sei o que os pais fazem para ela ter uma vida normal e estudar como os outros meninos, para lá dos gastos financeiros que a doença acarreta, operações no estrangeiro, etc.

    Admiro-te muito, como sabes. É uma gota no oceano, mas essa gota já é imenso. Ainda bem que pude contribuir....e o teu quadro está no meu quarto em frente à minha cama, olha para ele todos os dias e lembro-me do Sr.Álvaro e de ti.

    Bom fim de semana!

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