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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 21 de março de 2011

Todo o tempo é de poesia...

Hoje é o Dia Mundial da Poesia. Mas para quê um dia,  se todo o tempo é de poesia...

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã

à névoa do outro dia.


Desde a quentura do ventre


à frigidez da agonia


Todo o tempo é de poesia


Entre bombas que deflagram.


Corolas que se desdobram.


Corpos que em sangue soçobram.

Vidas qu'a amar se consagram.


Sob a cúpula sombria


das mãos que pedem vingança.



Sob o arco da aliança


da celeste alegoria.


Todo o tempo é de poesia.


Desde a arrumação ao caos


à confusão da harmonia.


António Gedeão

E porque de poesia falamos, deixo um poema de Camões e outro de Fernando Pessoa, porventura os dois expoentes máximos da poesia portuguesa

Verdes são os campos


Verdes são os campos,


De cor de limão:


Assim são os olhos

Do meu coração.


Campo, que te estendes


Com verdura bela;

Ovelhas, que nela


Vosso pasto tendes,


De ervas vos mantendes


Que traz o Verão,


E eu das lembranças


Do meu coração.


Gados que pasceis


Com contentamento,


Vosso mantimento


Não no entendereis;


Isso que comeis


Não são ervas, não:


São graças dos olhos


Do meu coração.

Luís de Camões


Ouçamos o poema, com música de José Afonso (também poeta), na voz de  Teresa Silva Carvalho






Camões visto por Júlio Pomar – azulejos da estação de metro Alto dos Moinhos














Autopsicografia


O poeta é um fingidor.


Finge tão completamente


Que chega a fingir que é dor


A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,


Não as duas que ele teve,


Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,


Esse comboio de corda


Que se chama coração.


Fernando Pessoa (Ortónimo)

Ouçamos o poema na voz de João Villaret 



Retrato de Fernando Pessoa da autoria de Almada Negreiros, também ele poeta















Termino com um poema bem menor, um poema  meu do primeiro livro publicado, Reflexões e Interferências

E para ilustrá- lo, dois pequenos quadros (20x30cm), os meus primeiros quadros a óleo


Exploração


Qual exploradora, parti um dia.


Embrenhei-me na selva da vida


onde sabia andar escondida


a poesia


Encontrei-a


na luz ténue do sol ao fim do dia,


na molécula, no átomo, no quantum de energia,


nas leis de Newton, no conceito de entropia.


Encontrei-a


na reflexão da luz, na impulsão no ar,


no cheiro a maresia e nas algas do mar,


no orvalho, na geada, na chuva, no luar.


Encontrei-a


no ínfimo e no imenso que a vista não alcança,


nas rugas dum idoso, no rir de uma criança,


numa tela, num concerto, numa dança.


Encontrei-a


no voo da gaivota, na pétala da flor,


na chama que tremula e se multiplica em cor


e que irradia energia na forma de calor

Encontrei-a

nas estrelas, nas galáxias mais distantes,

no olhar apaixonado daqueles dois amantes,

nos extintos dinossauros de dimensões gigantes.

Encontrei-a

em medusas, corais, nos fundos oceanos,

no vento a agitar nas árvores os ramos,


em pinturas rupestres com vários milhares de anos
Encontrei-a


na violeta escondida no canto do jardim

e no frasco que continha essência de jasmim.


Tentei então guardá-la só para mim.


Foi assim que ela se evolou


e de novo eu aqui estou


a procurá-la.



Hoje é também o dia Mundial da Árvore

Estive  no Agrupamento de Escolas de Cantanhede.  Mais uma vez me deliciei com a atenção a a curiosidade das crianças. Numa das escolas as crianças  distribuíam pequenas árvores em cartolina. Eis  a frente o verso, este com uma semente.






E porque hoje também se iniciou a Primavera, termino a mensagem com um excerto da Sagração da Primavera de Stravinsky , num bailado com a famosa bailarina  Pina Bausch

2 comentários:

  1. Hoje é o Dia de todas as celebrações.

    E que dia lindo esteve.

    Parabés pelos teus óleos que não conhecia...os poemas já os conheço a todos e continuo a gostar deles.
    Bjo

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  2. Todo o seu post é um hino à Poesia, à Primavera, à Ciência e à Vida(no seu lindo poema) e à luta também(no poema de Gedeão).
    Será que algum dia chegaremos da "confusão à harmonia"?
    Parabéns ,Regina. Como sempre gostei muito deste seu post.

    Um beijo.

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