Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ciência ao alcance de todos. Retomando as viagens...

Tendo os Planetas de Holst  como música de fundo inicia-se uma viagem aos tempos de Galileu e Newton. A leitura do poema para Galileu serviu de “mote” para uma abordagem simples de alguns conceitos fundamentais da mecânica clássica. Foram ainda passados vários vídeos

http://www.cienciamao.if.usp.br/tudo/exibir.php?midia=von&cod=_marteloepenanalua

http://www.youtube.com/watch?v=sr3PPuKLEK4&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=4ZIYMmJ2ewE&feature=related

Poema para Galileu


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,


aquele teu retrato que toda a gente conhece,


em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce


sobre um modesto cabeção de pano.


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.


(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.


Disse Galeria dos Ofícios).


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.


Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...


Eu sei... Eu sei...


As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.


Ai que saudade, Galileu Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença


está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.


Palavra de honra que está! As voltas que o mundo dá!


Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileu,


a inteligência das coisas que me deste.


Eu, e quantos milhões de homens como eu


a quem tu esclareceste,


ia jurar - que disparate, Galileu!


- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça


sem a menor hesitação -


que os corpos caem tanto mais depressa


quanto mais pesados são. Pois não é evidente, Galileu?


Quem acredita


que um penedo caia com a mesma rapidez


que um botão de camisa ou que um seixo da praia?


Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileu,


daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo


e tinhas à tua frente um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo a olharem-te severamente.


Estavam todos a ralhar contigo,


que parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição, se estivesse tornando um perigo


para a Humanidade e para a civilização.


Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, e percorrias, cheio de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.


Teus olhos habituados à observação dos satélites


e das estrelas, desceram lá das suas alturas


e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las , nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.


E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam,


e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal


e que os astros bailavam e entoavam


à meia-noite louvores à harmonia universal.


E juraste que nunca mais repetirias


nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, aquelas abomináveis heresias que ensinavas e escrevias


para eterna perdição da tua alma. Ai, Galileu!


Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo, que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,


andavam a correr e a rolar pelos espaços


à razão de trinta quilómetros por segundo.


Tu é que sabias, Galileu Galilei.


Por isso eram teus olhos misericordiosos,


por isso era teu coração cheio de piedade,


piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade.


Por isso, estoicamente, mansamente,


resististe a todas as torturas,


a todas as angústias, a todos os contratempos,


enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,


foram caindo, caindo, caindo, caindo, caindo sempre,e sempre, ininterruptamente,na razão directa dos quadrados dos tempos.

Gedeão, A. Poema para Galileu

Galileo diante do Santo Oficio, pintura do século XIX, por Joseph-Nicolas Robert-Fleury.


A primeira paragem levou-nos ao mundo da luz e, necessariamente, à teoria corpuscular de Newton e à teoria ondulatória, de Huyghens a Young.

Como fundo musical, Somewhere over the rainbow

Experiências simples sobre dispersão, difracção e interferência ajudaram a perceber a polémica gerada à volta das duas teorias .

A poesia esteve mais uma vez presente


Desde o Big-Bang corre pelo espaço


sem aparentar o mínimo cansaço.


Não tem concorrente na corrida.


pelo que, de antemão, é a vencedora da partida.


Durante a já longa viagem,


foi criando vários laços na passagem


ao tornar iridescente o belo diamante


quando nele se reflecte e se refracta,


ao cobrir o mar de um manto cor de prata,


ao ruborizar o céu


à hora de alva e ao sol poente,


ao emprestar à lua um manto de luar,


ao tornar multicolor o céu e o mar,


ao brincar com a chuva, como se fora criança,


traçando no céu o arco da aliança,


ao espargir de cor a mãe natureza


que a ama com fervor, e a olha com enleio.


Misteriosa luz, lasciva, bela .


Através dos vidros da janela, vejo, projectada no passeio,


a indelével sombra dum longínquo amor.

Gouveia R, Sombra


Física


Colho esta luz solar à minha volta,


No meu prisma a disperso e recomponho:


Rumor de sete cores, silêncio branco.


Como flechas disparadas do seu arco,


do violeta ao vermelho percorremos


O inteiro espaço que aberto no suspiro


Se remata convulso em grito rouco.


Depois todo o rumor se reconverte


tornam as cores ao prisma que define


À luz solar de ti e ao silêncio.

José Saramago, in Poemas possíveis

A propósito do arco-íris foram citados Keats e Dawkins

Keats, poeta inglês do século XIX, indignado com o facto de haver explicação natural para um fenómeno tão belo e envolto em misticismo, acusou Newton de destruir a "poesia do arco-íris".

Richard Dawkins, cientista da Universidade de Oxford e grande divulgador científico, no seu livro Decompondo o Arco-Íris refere:

O sentimento de respeitoso deslumbramento que a ciência nos pode oferecer é uma das experiências mais notáveis da mente humana. É uma profunda paixão estética que tem o seu lugar entre o melhor que a música e a poesia podem proporcionar


A Natureza é tanto mais bela quanto melhor for compreendida....

2 comentários:

  1. Tenho pena de não ter estado presente nesta sessão...over the rainbow ( que o meu neto toca tão bem no violino).
    O teu poema sobre a luz pareceu-me hoje ainda mais mágico, depois da sessão em que nos explicaste a relatividade de quase tudo:)e a constância da velocidade da luz.
    Não sinto grande fascínio pelas ciências, talvez porque nunca fui muito bem ensinada e decorar teorias sem as perceber não era "my cup of tea", expressão inglesa que quer dizer " aquilo que mais apreciava". Li muitos livros em criança daquela colecção do Adolfo Simões Muller e outra da Editorial Noticias sobre cientistas e apaixonei-me por aqueles homens e mulheres , como Marie Curie, que eram capazes de passar anos a fio a testar e a experimentar até atingir a meta.Continuo com dificuldade em compreender o pensamento científico, dado que sou impulsiva e pouco persistente, mas gosto que me expliquem fenómenos naturais.
    Obrigada pela tua sessao de hoje. Estava pouca gente, mas aprendi alguma coisa. Bjo

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