Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Sr. Álvaro...

Já aqui referi que às quintas feiras de manhã, como membro da Liga dos Amigos do Hospital de Santo António, sou voluntária no referido Hospital.
Precisamente hoje, 5ª feira, passei a manhã a acompanhar o Sr. Álvaro, de sessenta anos, invisual desde os quatro.
Um homem cheio de vontade de viver, casado com uma senhora invisual de quem fala com muito carinho, o Sr. Álvaro está a aprender a lidar com os computadores. Mas, infelizmente, está com muitas dificuldades auditivas que o impedem de continuar a sua formação nessa área.
Hoje dirigiu-se ao Hospital de Santo António onde tinha uma consulta. Antes da consulta teve que fazer uns testes de audiometria. Acompanhei-o quer nos testes quer na consulta . Estava muito esperançado que iria resolver ou pelo menos atenuar o seu problema.
O médico, face aos exames, reconheceu que os seus problemas auditivos são grandes e não podem ser resolvidos por intervenção cirúrgica. Apenas as próteses lhe poderão restituir alguma audição. Tudo isso consta no relatório que escreveu.

E aqui começa o maior problema. O Sr. Álvaro não tem qualquer possibilidade económica de adquirir as próteses que rondarão os 2000 euros. Segundo a informação dada no Hospital, há uns tempos atrás o Sistema Nacional de Saúde contribuía para as próteses, agora apenas contribui para as infantis. Mesmo assim, fui com com o Sr. Álvaro aos serviços sociais do Hospital, onde me foi disto que não dispõem de qualquer verba para essa ajuda. Ao fim de três horas nestas diligências, levei o Sr. Álvaro à paragem do autocarro. Ia com um ar triste, a contrastar com a boa disposição que tinha manifestado toda a manhã.

Que mundo triste este  atingido por uma louca cegueira, não aquela de que padece o Sr. Álvaro, mas a cegueira dos cegos, que vendo não querem ver...

(…)Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem (,..) in Ensaio sobre a cegueira de José Saramago
O filme, inspirado no respectivo livro, pode ser visto aqui
Pessoalmente considero o livro excepcional, como acho aliás, quase todas as obras de Saramago. Quanto ao filme, apesar de ter lido várias críticas negativas, considero-o bastante bom
Mas regressando ao Sr. Álvaro. Prometi-lhe que iria tentar uma ajuda para as suas próteses. Nesse sentido já enviei apelos a várias entidades. São bem vindas todas as sugestões que nos possam encaminhar na resolução do seu problema
E porque neste blogue também se fala de ciência, voltemos aos testes do Sr. Álvaro.

A partir dos 2000Hz o Sr. Álvaro só ouve sons com um nível sonoro muito elevado. Ora o ouvido humano é sensível a sons que vão de 20 Hz a 20.000Hz. A idade vai-nos fazendo perder a acuidade auditiva e eu fui-me apercebendo disso quando ia com os alunos visitar o Departamento de Acústica da FEUP. A dada altura apercebi-me de que já não detectava sons acima de 12000Hz. Os alunos brincavam comigo: Professora, ainda bem; são tão agudos que incomodam…

Mas o grande problema da poluição sonora, advém do nível sonoro ( que se exprime em dB) e não da frequência (que se exprime em Hz)

A OMS considera que a partir de 50 dB, os efeitos negativos dos sons podem começar a manifestar-se. Alguns problemas podem ocorrer a curto prazo, outros levam anos para serem notados
Sabendo que o ouvido pode sofrer lesões a partir dos 85 dB, e que 120 dB corresponde ao limiar da dor,  qualquer habitante de uma cidade de média ou grande dimensão está diariamente exposto a agressões múltiplas com consequências que poderão ser irreversíveis.

E já que falámos em cegueira e em sons, ouçamos a música de  Joaquín Rodrigo e a voz de Andrea Bocelli,

Joaquim Rodrigo compositor e pianista virtuoso espanhol era  cego desde a mais tenra idade e Andrea Bocelli  tenor, compositor e produtor musical italiano cegou completamente aos doze anos
A terminar " O guitarrista cego" de Picasso



2 comentários:

  1. Olá Regina
    Em primeiro lugar quero felicitá-la pela sua exposição de que gostei muito, em especial daquele seu primeiro quadro.
    Quero também dizer-lhe que eu julgava que não me surpreenderia mais com os seus trabalhos que são sempre tão bons.Mas enganei-me pois este seu post é tão cheio de sensibilidade,arte, ciência, cultura, dádiva, inteligência,que é difícil encontrar assim reunidas.

    Um grande beijo.

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  2. Obrigada Graciete pela mensagem e pela sua presença na exposição, num dia tão mau como o de ontem.
    Bjs
    Um beijinho também para a Alda
    Regina

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