Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 22 de janeiro de 2011

Carta ao principezinho

Já há muito que não escrevia uma carta mas senti uma necessidade imperiosa de contactar com o principezinho. Dele apenas conheço a morada. Nem telefone , nem e-mail…
Decidi então escrever-lhe

Ao Principezinho
Asteróide B612

Caro principezinho.

Deves achar estranha esta carta pois possivelmente nem sabes quem eu sou.

Mas eu conheço-te desde os meus 12 anos e nunca mais te esqueci. Tão pouco esqueci a descrição da tua viagem e as tuas conversas com Saint Exupéry, que ele tão bem nos legou.

Como estão o teu planeta, a tua flor e o teu carneiro? Como resolveste o problema com a mordaça? Tens estado atento aos vulcões e aos baobás? Tenho a cereteza que sim pois, tal como o acendedor de lampiões que encontraste no quinto planeta que visitaste, tens pleno sentido da responsabilidade

Voltaste à Terra? Suponho que não. Não creio, aliás, que gostasses do que irias ver. Está infestada de pessoas que pensam como o homem de negócios e como o rei. O ter e o poder passaram a valores primordiais. Cada vez mais agitados, os homens correm de um lado para o outro sem conhecer o sabor da água de uma fonte cristalina
Gostaria de emigrar para o teu planeta mas sei que é pequeno demais.
Ainda espero que neste meu planeta nos dêmos conta, um dia, de que o essencial é invisível para o olhar. Entretanto vou continuar a estar atenta ao teu riso vindo lá das estrelas
Se quiseres responder-me podes fazê-lo para o meu blogue www.docaosaoscomos.blogspot.com

Surgiu-me a ideia de colocar esta mensagem ao reler pela enésima vez o livro.

A necessidade de o reler surge-me em diferentes situações. Sei que neste momento,  a “mola” foi toda a hipocrisia desta campanha eleitoral .

Provavelmente todos os que lêem este blogue conhecem o livro.
Se o não conhecem, experimentem lê-lo. Por certo irão gostar.
De qualquer modo deixo dois excertos escritos e o link para três vídeos com o texto não integral ( faltam-lhe excertos belíssimos)

O pricipezinho no planeta do geógrafo


O pricipezinho no planeta do acendedor de lampiões

O quinto planeta era muito curioso. Era o menor de todos. Mal dava para um lampião e o acendedor de lampiões
O principezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num planeta sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões. No entanto, disse consigo mesmo:
- Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que adormecem. É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita.

Quando abordou o planeta, saudou respeitosamente o acendedor:
- Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião?
- É o regulamento, respondeu o acendedor. Bom dia.
- Que é o regulamento?
- É apagar meu lampião. Boa noite.
E tornou a acender.
- Mas por que acabas de o acender de novo?
- É o regulamento, respondeu o acendedor.
- Eu não compreendo, disse o principezinho.
- Não é para compreender, disse o acendedor. Regulamento é regulamento. Bom dia.
E apagou o lampião.
Em seguida enxugou a fronte num lenço de quadrinhos vermelhos.
- Eu executo uma tarefa terrível. Antigamente era razoável. Apagava de manhã e acendia à noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto da noite para dormir...
- E depois disso, mudou o regulamento?
- O regulamento não mudou, disse o acendedor. Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda!
- E então? disse o principezinho.
- Agora, que ele dá uma volta por minuto, não tenho mais um segundo de repouso. Acendo e apago uma vez por minuto!
- Ah! que engraçado! Os dias aqui duram um minuto!
- Não é nada engraçado, disse o acendedor. Já faz um mês que estamos conversando.
- Um mês?
- Sim. Trinta minutos. Trinta dias. Boa noite.
E acendeu o lampião.
O principezinho considerou-o, e amou aquele acendedor tão fiel ao regulamento. Lembrou-se dos pores-do-sol que ele mesmo produzia, recuando um pouco a cadeira. Quis ajudar o amigo.
- Sabes? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres...
- Eu sempre quero, disse o acendedor.
Pois a gente pode ser, ao mesmo tempo, fiel e preguiçoso.
E o principezinho prosseguiu:
- Teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passos, dar-lhe a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres descansar, caminharás... e o dia durará quanto queiras.
- Isso não adianta muito, disse o acendedor. O que eu gosto mais na vida é de dormir.
- Então não há remédio, disse o principezinho.
- Não há remédio, disse o acendedor. Bom dia.
E apagou seu lampião.

Esse aí, disse para si o principezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse aí seria desprezado por todos os outros, o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.

Suspirou de pesar e disse ainda:

- Era o único que eu podia ter feito meu amigo. Mas seu planeta é mesmo pequeno demais. Não há lugar para dois...

O que o principezinho não ousava confessar é que os mil quatrocentos e quarenta pores-do-sol em vinte e quatro horas lhe davam certa saudade do abençoado planeta.


Vídeos


 http://www.youtube.com/watch?v=KC3UQ5ekigM&feature=related

(Parte I)

http://www.youtube.com/watch?v=8s8ARIit_5I&NR=1

(Parte II)

http://www.youtube.com/watch?v=6RlJcKhN578&NR=1

(Parte III)

5 comentários:

  1. É uma da manhã.
    Recordo uma aula, a melhor que tive no liceu, em que a professora de francês trouxe o disco em vinil do Principezinho recitado pelo Georges Poujouly e o Gerard Philippe . A voz grave do aviador impressionou-me como me impressionou a voz da raposa. O principezinho era menos atraente. Fiquei apaixonada pela história e pedi á minha Mãe que trouxesse de Paris o disco, que não havia em Portugal. Entretanto saiu o livro em Português e li-o vezes sem conta.
    Quando os meus filhos estavam no Colégio Alemão, fizeram a peça em alemão com uma coreografia espectacular e música tocada por eles. O narrador lia maravilhosamente. O meu filho João fez de Rei, prepotente,tronitruante, ordenando ao Principezinho que saisse porque não conseguiu convencê-lo a ficar. Fiz-lhe um manto a preceito com uma colcha e estrelas douradas coladas, a minha filha era o vaidoso, que dava voltas e voltas com um chapéu e pedia ao Principezinho que batesse as palmas. Foi um êxito de que tenho um vídeo.
    No casamento do meu filho ele escolheu a passagem da Raposa para ser lida no fim da Missa. Adaptei-a e encurtei-a um pouco.
    A minha filha fez de Principezinho e o meu filho mais novo de Raposa. Foi das cenas mais comoventes, a que já assisti, numa cerimónia lindíssima com o coro da Sé.

    Entretanto o meu filho trouxe-me o CD de França, com a mesma capa do de vinil. Também tenho aqui na estante uma figura do menino pendurada junto aos livros, a lembrar-me nos momentos mais duros que, além numa estrela distante, há certamente um Amigo a sorrir-nos.

    Como tu nos sorris neste blogue todos os dias.
    Obrigada Regina....

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  2. Obrigada Virgínia.
    Tal como a ti,este livro tocou-me muito. Curiosamente, também "esteve presente" no casamento do meu filho Miguel. O convite de continha um excerto do diálogo com a raposa
    Regina

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  3. Ainda usei o começo da história numa sessão para professores sobre motivação. Desenhei uma caixa com furos no quadro e disse-lhes que adivinhassem o que lá estava dentro. A ninguém ocorreu a cena do desenho, em que o aviador faz uma caixa e diz que a ovelha está lá dentro. Devemos criar expectativas nos alunos sobre o que o vamos aprender e não dar-lhes tudo já planificado e à vista....
    Era esta a ideia:)))

    bom Domingo!

    Bjo

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  4. Que lindo o seu post. Sabe que uso muitas vezes o diálogo do principezinho com a raposa para exemplificar a necessidade de nos compreendermos!!!!!!?
    "É preciso cativar!!!!" É uma frase que utilizo muitas vezes, mesmo só para mim.

    Um beijo.

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  5. Esqueci-me de te dizer que os vídeos em brasileiro são muito bonitos, mesmo que a nível de imagem muito sucintos.

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