Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 9 de janeiro de 2011

2011-Ano Internacional da Química

Ano Internacional da Química
Em ciência Hoje pode ler-se :
Carlos Corrêa, professor Emérito do departamento de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade, vai ser o Conselheiro Ciência Hoje para o Ano Internacional da Química que decorre em 2011.
(...)Que significa isto? Que o professor catedrático, jubilado em 2006, acompanhará o Ciência Hoje no noticiário relacionado com tudo o que tenha a ver com este Ano Internacional, nomeadamente dando sugestões, fazendo recomendações e fornecendo respostas a questões que nos sejam colocadas neste âmbito.
(...)«Dado que tenho mais tempo que os meus colegas no activo, sinto-me na obrigação de dar a minha colaboração ao CienciaHoje (que muito estimo). Não se trata de "alguém muito qualificado" mas alguém que tentará ajudar recorrendo a colegas nas diferentes áreas da Química quando achar necessário. Alguém que, do ponto de vista químico,tentará ajudar o vosso trabalho ao longo do ano», escreveu-nos respondendo ao convite que lhe foi endereçado.

Tive o privilégio de trabalhar alguns anos com o Professor Carlos Corrêa, essencialmente na orientação dos estágios pedagógicos, mas também em outros projectos. Alia de uma forma invulgar, o humor a química e o ensino da mesma.

E porque neste blogue se fala também de poesia, deixo alguns poemas relacionados com a química

Química

Sublimemos, amor. Assim as flores


No jardim não morreram se o perfume


No cristal da essência se defende.


Passemos nós as provas, os ardores:


Não caldeiam instintos sem o lume


Nem o secreto aroma que rescende.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"


Poema das folhas secas de plátano

As folhas dos plátanos desprendem-se e lançam-se na aventura do espaço,


e os olhos de uma pobre criatura comovidos as seguem.


São belas as folhas dos plátanos quando caem, nas tardes de Novembro


contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.


Ondulam como os braços da preguiça no indolente bocejo.


Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,


traçam erres e esses, cicloides e volutas,


no espaço escrevem com o pecíolo breve,


numa caligrafia requintada, o nome que se pensa,


e seguem e regressam, dedilhando em compassos sonolentos


a música outonal do entardecer.


São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.


Eram lisas e verdes no apogeu da sua juventude em clorofila,


mas agora, no outono de si mesmas,


o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,


deixou-se trespassar por afiado ácidos.


A verde clorofila, perdido o seu magnésio, vestiu-se de burel,


de um tom que não é cor, nem se sabe dizer que nome tenha,


a não ser o seu próprio, folha seca de plátano.


A secura do Sol causticou-a de rugas,


um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,


e esta real e pobre criatura


vendo o solo coberto de folhas outonais


medita no malogro das coisas que a rodeiam:


dá-lhes o tom a ausência de magnésio;os olhos, a beleza

António Gedeão in “Poemas Póstumos”


Cores outonais


O muro de xisto é já uma ruína
mas a vinha, velha e tão cansada,
exibe de novo os seus tons outonais.
Numa subtil gradação de frequências a folhagem é agora amarelada, acobreada,
cor de vinho, acastanhada.
Ostentam cores outonais também,
mais além, a pereira e o marmeleiro.
Enquanto transferências de electrões desencadeiam oxidações e reduções,
carotenos e antocianinas
conjugam-se em paisagens quase surreais.
Sentada numa fraga, ao lado de um sobreiro,
quero perpetuar estes instantes, transformar em eterno este momento,
mas o agora de há pouco, já é antes, nesta implacável corrida do tempo.

                              Regina Gouveia in "Magnetismo Terrestre"                   (foto de Fernando Gouveia)

Indicador

Indicador, o que indica, pode ser dedo da mão,


mas também identifica carácter de solução.


Pode ser o tornesol  ou a fenolftaleína,


pode ser bromotimol, ou também heliantina.


Há quem não encontre o rumo e precise de um sinal,


talvez um fio de prumo que lhe indique a vertical.


Há quem passe pela vida,só entregue à sua sorte,


com a bússola perdida, jamais encontrando o norte,


deixando confusos rastos.


Há quem diga que os astros no Universo em expansão


são grandes indicadores.


Há quem neles leia amores, venturas e dissabores.


E há quem leia uma paixão num simples ramo de flores

Regina Gouveia in "Reflexões e interferências"



E a terminar,  “lágrima de preta” de António Gedeão, na voz de Manuel Freire

3 comentários:

  1. Nunca gostei de Química, a não ser daquela que aproxima dois seres que se amam e os faz ter a certeza de que nasceram um para o outro!! :))

    Acredito que se possa ser apaixonado por esta ciência, mas tanto quanto a Física me fascinava por ter sempre explicação para os fenómenos da Natureza, a Química era um labirinto para mim, com contas e mais contas, fórmulas e mais fórmulas, matemática à mistura, demasiado abstracta para meu gosto.

    Mas de poesia gosto e é como juntar o mel ao fel.....consigo apreciar melhor as fórmulas e aplicar a teoria :)))

    Bjo

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  2. A Física também me fascina mais que a Química mas, por exemplo,na magia das cores da natureza, no outono de que tanto gostas, a química está muito presente. E não só aí, obviamente...
    Por outro lado cada vez mais as fronteiras entre as ciências se esbatem.
    Quando apareces para tomar um café?
    Um beijinho grande
    Regina

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  3. Hoje a Química e a Física confundem-se. As fórmulas e as equações são explicadas pela Física. Eu gosto muito das duas disciplinas mas procuro interpretar a Química através da Física.
    De qualquer modo os posts e poemas que a Regina apresenta continuam lindos. Os dois últimos poemas, que são da autoria da Regina, são mesmo muito bons e aí a Física e a Química estão bem presentes.

    Um beijo grande, Regina.

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