Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um fio de cabelo possui um diâmetro que varia de 30.000 a 100.000 nanómetros...

Navegando pela Net fui ter a um site interessante, ciência de 1 a 5 
Os temas ali abordados distribuem-se por diversas áreas:


ANATOMIA ANIMAIS ASTRONOMIA BIOLOGIA BOMBA NUCLEAR ELETROMAGNETISMO FISICA CLÁSSICA FOTOS ASTRONOMICAS FRACTAL GEOLOGIA GRAVIDADE JUPITER LUA MARTE MOTOR RAIOS RELATIVIDADE SOL STEPHEN HAWKING SUPERNOVAS VIDA ALIENIGENA ÁGUA ÁGUA NO ESPAÇO ÁTOMO

Ainda não tive tempo de explorar as diferentes áreas mas a propósito da biologia, encontrei um post muito interessante “fotos nanométricas do corpo humano”


Aqui ficam  algumas  imagens
Espermatozóides tentando entrar no óvulo

 neurónios






Nanómetro: a dimensão que sempre existiu (in Ciência Hoje)


Materiais ou estruturas com dimensões da ordem dos nanómetros (um nanómetro é um milionésimo do milímetro) sempre existiram na natureza. O que é recente, é a nossa capacidade de manipular, construir e compreender estruturas destas dimensões. Desde há alguns anos, no entanto, é raro encontrar uma revista de divulgação científica que não inclua algum artigo sobre avanços na área da nanotecnologia, um nome criado por Norio Taniguchi em 1974.

O objectivo da nanotecnologia é a construção e utilização tecnológica de materiais com dimensões características menores do que algumas centenas de nanómetros. Este é um campo multidisciplinar por excelência, onde se juntam conhecimentos e especialistas nos domínios da engenharia, química, física, medicina e biologia, entre outros.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Este blogue tem novo visual...

Já há muito que pretendia organizar um pouco melhor o blogue, criando várias páginas, tendo em conta actividades por que reparto o meu tempo.
Assim surgem, para já,  as páginas:
  • criação de adereços
  • actividades na pintura
  • actividades na escrita
  • actividades diversas
  • curriculum vitae (CV)
  • sugestões de actividades
É provável que, de futuro,  sejam criadas outras.

Começo pela criação de adereços

Tudo me prende à terra onde me dei, o rio subitamente adolescente…
 Eugénio de Andrade in “Canção Breve”.
Também a mim tudo me prende à terra onde me dei, nomeadamente o rio Sabor que umas vezes adormece outras galopa na viagem… e em cujos areais, pedras que o rio esculpiu, desde pequenos calhaus rolados a fragas ostentando múltiplas formas e cores, me fascinam desde criança. Com essas e outras memórias recriadas pela imaginação, fui tecendo, dia a dia, enredada teia, teia que por sua vez é o manancial de memórias onde a imaginação se nutre








Fui entrelaçando pedras e memórias que se propagam na curva do espaço enquanto que, lânguida, a memória se espreguiça na curva do tempo…

 Memórias que vão de lágrimas e sorrisos a botões, fivelas, restos de adornos da mãe, da avó, de uma ou outra tia….


Assim vêm surgindo,desde há muito, pequenos adereços que vou distribuindo por familiares e amigos.

 São alguns desses adereços que vou dar a conhecer na nova página , actualizada sempre que surjam novos trabalhos.

 Aguardo as vossa críticas

Também no que respeita a actividades no âmbito da pintura  e no âmbito da escrita coloquei alguns quadros e títulos de livros. Futuramente  acresentarei mais dados

Novamente espero as vossa críticas

No que respeita a sugestões de actividades trata-se, para já, de sugestões de actividades, essencialmente experimentais, destinadas a crianças .

sábado, 25 de setembro de 2010

My way

Numa das minhas pesquisas sobre arte contemporânea fui parar ao site do artista brasileiro,  Nelson Dias-Lopes.
Procurando um pouco mais acerca do artista fui encontrar um outro site de onde extraí o texto anexo

Nelson Dias-Lopes, artiste lusophone
J'ai découvert Nelson Dias-Lopes au Marché d'Art Contemporain à Bastille il y a quelques jours, j'ai aimé cet artiste et voudrais vous le faire découvrir...
"Nelson Dias-Lopes a suivi une formation d’architecte et de peintre. Son évolution est un va-et-vient constant entre des œuvres en aplat (collages ou peintures) et des œuvres en relief. Ses premières réalisations (1984) représentent des collages de papiers anciens, choisis méticuleusement en fonction de leurs couleurs, leurs motifs, et même leur grain, puisqu’il utilisait aussi du papier craft. Découpés, puis collés et peints, ces papiers forment une composition abstraite, harmonie de formes et de couleurs. A l’occasion, Nelson Dias-Lopes utilise la technique du pochoir pour “imprimer” des lettres, sans rapport entre elles, par-dessus la composition de papiers collés. Ces lettres n’ont pas de sens, ne forment - à priori - pas de mots, mais sont choisies simplement pour l’arabesque qu’elles constituent. Détail significatif, ces lettres sont des lettres d’imprimerie entrecoupées : le “S” est en trois parties, le “R” est interrompu deux fois…. Bref ! Elles sont à elles seules des collages “automatiques”. Puis Nelson Dias-Lopes abandonne les papiers collés pour la peinture. Cependant ses compositions gardent l’apparence de collages : le peintre imite les papiers, inventant leurs motifs et leurs couleurs. On est encore dans l’aplat.


Algumas obras de Nelson Dias-Lopes, uma colagem e duas pinturas.





São do artista,  as palavras que seguem

In my childhood, I always drifted with pencils and brushes. ... In my way I continue to pursue this edge (Abstraction - figuration)!!!!; ...

E o sublinhado conduziu-me de imediato à canção my way, que considero belíssima.

Aqui a deixo em três versões , uma delas com a tradução da letra, a terceira na voz “dos três grandes tenores"  e na presença de FranK Sinatra.

E, ainda a propósito de my way só hoje tenho oportunidade de me referir a uma exposição belíssima na escola  Utopia,

Trata-se de uma exposição de Teresa Silva Vieira, responsável pela referida escola e de quem já em tempos coloquei imagens de outros trabalhos. Se a obra da Teresa é, para mim, sempre muito interssante, esta exposição, que me parece  um novo caminho no percurso artístico de  Teresa Silva Vieira. superou todas as minhas expecxtativas. Parabéns Teresa.
Fotos de trabalhos expostos podem ser vistas em , mas o melhor será visitar a exposição. Não percam...

Estrelas…

No passado dia 13 nasceu a minha neta Marta, subindo assim para quatro o número de netos …No dia seguinte, dia 14, fez cinco anos o irmão e houve que festejar o aniversário com a família e os amiguinhos. No dia, um jantar com o pai ( a mãe estava na maternidade), os tios , os primos e os avós pelo lado paterno. No domingo, dia 19, uma festa com a família de ambos os lados e os principais amiguinhos. Criaram-se jogos e brincadeiras, caças ao tesouro, enfim, foi uma tarde longa e  muito divertida.
Por isso, envolvida com a nova “estrela” da família (que de modo algum atenua o brilho das outras três…) com o aniversários do irmão e a assistência aos primos,  tudo o mais passou para 2º plano.

Hoje, após 15 dias de ausência, regresso ao blogue para falar de estrelas, ou melhor, de galáxias



Galáxia elegante numa luz invulgar

É este o título de um artigo muito interessante em de que deixo uns excertos.

A galáxia captada pelo ESO

A nova imagem obtida com a poderosa câmara HAWK-I montada no Very Large Telescope do ESO, no Observatório do Paranal, Chile, mostra a galáxia NGC 1365 no infravermelho, uma bela galáxia espiral barrada. A NGC 1365 faz parte do enxame de galáxias Fornax, situada a de 60 milhões de anos-luz de distância da Terra.
Esta e outras galáxias do mesmo tipo foram observadas mais atentamente em anos recentes quando novas observações indicaram que a Via Láctea poderia também ser uma galáxia espiral barrada. Este tipo de galáxias são bastante comum - dois terços de todas as galáxias espirais são barradas, de acordo com estimativas recentes, e por isso estudar outras galáxias do mesmo tipo poderá ajudar os astrónomos a melhor compreender a nossa própria casa galáctica.


A Via Láctea ou Estrada de Santiago, como lhe chamava em criança, sempre me fascinou. Em tempos "dediquei-lhe"  um poema que ainda não foi publicado e que aqui deixo.


Via Láctea

Hoje, ao olhar o firmamento, na direcção de Cassiopeia e de Perseu

deparei com algo, que não via no céu há muito tempo.

Na nossa galáxia espiral, milhões de estrelas em cintilação

definiam como que uma estrada, uma mancha difusa, esbranquiçada.

Muitas delas já nem estrelas serão pois as estrelas,

como qualquer mortal, também nascem, crescem e fenecem.

A mitologia, que sempre alimentou a humana fantasia,

tem, para a dita estrada, outra explicação.

Júpiter que, apesar de ser deus, de galáxias e estrelas nada percebia,

decidiu criar no céu aquela via

E assim, enquanto Juno o filho amamentava, pelo céu algum leite derramava.

O que Júpiter jamais suspeitaria é que tal via,

mais tarde serviria a uma outra fé, num outro deus.

sábado, 11 de setembro de 2010

E tudo o vento levou...

O título desta mensagem fui buscá-lo a um filme de que muito ouvi falar em criança, pois era um dos filmes eleitos de minha mãe. Trata-se de um filme de 1939 cujos actores principais são Clark Gable e Vivien Leigh

Vi-o mais tarde e percebi porque a minha mãe tanto gostava desse filme

Tudo isto vem um pouco a propósito da polémica barragem do Baixo Sabor

Pessoalmente, tal como várias associações ambientalistas, vejo mais aspectos negativos do que positivos na construção da barragem
E lamento que os governantes se preocupem tanto em termos de produção de energia e tão pouco na redução do seu consumo… Mas a construção da barragem parece ser já inevitável

Na margem direita do Sabor, num local da freguesia de Parada (Alfândega da Fé) está situado a ermida de Santo Antão da Barca. Trata-se de um lugar tradicional de passagem deste rio, a vau no verão e, em tempos idos, de barca no Inverno. É de admitir que por este ponto, se fizesse a ligação entre Alfândega e Mogadouro no período medieval.





A barca não existe mais, mas existem ainda restos do cabo...

Barca


Entardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiados

que se reflectem nos calhaus rolados que o rio afaga.

No ar, um silêncio que apenas o rumor do rio apaga,

rumor, ou talvez prece ao Senhor da Barca, ali ao lado.

Já não existe mais a barca que outrora foi real

mas na margem do rio, enferrujado,

testemunha de um tempo intemporal,

jaz moribundo um pedaço do cabo

que, a cada viagem, guiava a barca de uma à outra margem.
Regina Gouveia em Magnetismo terrestre

A ermida terá sido mandada construir pelos Távoras entre 1730 e 1750,  segundo António dos Santos Lopes, autor da monografia “ O santuário de Santo Antão da Barca”publicada em 1994.


Na referida monografia consta que , concluída a construção da ermida, foi criada uma confraria com a inscrição de uma numerosa irmandade espalhada por todas as freguesias e lugares das redondezas. Existem
exemplares de estatutos da referida confraria, de 1895 e de 1911.

Destes últimos herdei um exemplar de meu pai, homem que sempre se empenhou em preservar aquele local de memórias. Fê-lo de diversas formas, integrando várias comissões de festas, custeando várias obras, e também através da poesia.  De "Poemas Póstumos",  livro editado em 2004 com poemas de sua autoria, esolhi o que segue:

No alvor daquela ermida
lá no fundo do rincão
está minha alma volvida
para o barqueiro Santo Antão.
Não perco a minha esperança,
não perco o meu amor
por Vós barqueiro da bonança
nesse porto do Sabor
Outros têm pugnado por manter vivo este local,  nomeadamente António dos Santos Lopes, acima citado, meu tio por afinidade, dado que casado com uma irmã de meu pai, um tio avô meu, um dos irmãos do meu pai, autor das fotografias aéreas acima e que datam do início dos anos quarenta (século XX), bem como vários familiares do meu marido e outras pessoas
Apesar de tudo, a confraria nunca havia sido registada e as obras feitas no recinto foram, em alguns casos, verdadeiros abortos.
Malgrado o que foi referido, no primeiro domingo de Setembro ali se reúnem, para a festa anual, inúmeras pessoas não só do concelho de Alfândega da Fé como de outros, nomeadamente de Mogadouro e Moncorvo.
Assim sendo, não é de estranhar que também os devotos se tenham manifestado contra a construção da barragem do Sabor, pois criada a albufeira, o santuário ficará submerso .

Este ano fui à festa,  movida não por razões religiosas, mas por querer testemunhar provavelmente a última festa no espaço que ali existe. Aqui ficam algumas fotos tiradas a par de outras já com muitos anos.







Têm decorrido negociações com a EDP e o santuário irá ser deslocado para um local um pouco mais acima, continuando com a água por perto

Manuel Gouveia, homem que ultimamente se tem empenhado de uma forma ímpar na defesa de todo o património do santuário e que já conseguiu a aprovação de novos estatutos bem como um enquadramento legal para a confraria, no seu livro Rio Sabor, publicado em 2004, faz uma antevisão dos tempos que se avizinham.


A par da “trasladação” da ermida  espera-se que a EDP crie algumas infra-estruturas de acordo com um projecto que me parece bastante interessante.
Oxalá se concretize para que mais tarde não tenhamos que dizer:
E tudo a água levou…

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O silêncio das pedras

O silêncio das pedras


Gosto do silêncio das pedras. Mudas, falam através de testemunhos,

de estratos e fissuras, de formas e de cor,

que permitem chegar ao seu passado de muitos milhões de anos-

aos ventos que as fustigaram, às águas que as arrastaram,

às elevadas pressões e temperaturas a que se sujeitaram

na epopeia da sua formação.

Gosto do silêncio das pedras que, mudas, conservam na memória

os seres vivos com quem coabitaram dos ínfimos, aos poderosos,

passando pelos humanos que ao longo de toda a história

tantas vezes as moldaram com lágrimas e com suor.

Gosto do silêncio das pedras tantas vezes pisadas no chão,

pedras que não choram, ao contrário dos meus olhos desditosos

que nelas se demoram.

Insistem as lágrimas em escorrer pelo rosto

Cerro os punhos tentando esmagar o meu desgosto

já que o coração, amargurado, mudo como as pedras

não encontra outra forma de falar.
Regina Gouveia

Vem este poema a peopósito do texto que aqui insiro.
Ainda no meu reino maravilhoso, no dia 4 de Setembro, o meu penúltimo dia de férias, participei, no âmbito do programa Ciência Viva no Verão, na acção "Maciço de Morais: antigo oceano enquadrado por dois antigos continentes"
No Maciço de Morais (Macedo de Cavaleiros) encontra-se bem representada a sutura do Orógeno Varisco. Num curto espaço geográfico, podem observar-se testemunhos do Continente Laurentia Báltica, do Oceano Rheit e do Continente Gondwana, os dois continentes e o oceano envolvidos na formação da Cadeia de Montanhas Varisca, formada entre 390-380Ma.

A acção foi levada a cabo através de uma visita orientada pelos Professores Eurico Pereira, Pedro Teiga e José Feliciano Rodrigues, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

O percurso que incluiu Izeda, Santolhão, Morais, Balsamão, Paradinha de Besteiros e Lagoa, foi iniciado às 9 h em Macedo de Cavaleiros e terminou por volta das 18 h na mesma cidade.

Próximo do convento de Balsamão, decorreu o almoço, um agradável pic-nic num local paradisíaco próximo do rio Azibo

E já que falei em Balsamão será curioso referir a famosa lenda que envolve Balsamão, Alfândega da Fé e as localidades vizinhas, Chacim e Castro Vicente

Lenda dos cavaleiros das esporas douradas

Havia naquelas paragens um terrível Muçulmano. Abdel Ali, dono e senhor que impunha como feudo a entrega de um determinado número de donzelas. Este imposto ficou conhecido como o “Tributo das Donzelas”. A cobrança do tributo revolta a população.
O casamento de dois jovens, Teolinda, filha de D. Rodrigo Ventura de Melo, Senhor de Castro (Vicente) e Casimiro, filho de D. Pedro Rodrigues de Malafaia (Alfândega) líder dos Cavaleiros das Esporas Douradas haveria de mudar o destino da população e do mouro malvado. ( os nomes, naturalmente imaginários, são  utilizados pelo Prof. João Baptista Vilares, no romance “Tributo das Donzelas”).
 É então que os “Cavaleiros das Esporas Douradas” organizam uma investida contra o infiel. Conta o povo que tal batalha não foi fácil, os Cristãos chegaram mesmo a estar em desvantagem. Foi quando apareceu Nossa Senhora, que com um bálsamo que trazia na mão foi reanimando os mortos e curando os feridos. A luta aumentou, de intensidade e os invasores acabaram por ser expulsos destas terras, pondo-se assim fim ao “Tributo das Donzelas”. No local construiu-se uma capela em homenagem a Nossa Senhora de Bálsamo na Mão, hoje Santuário de Balsamão, o lugar de tão grande Chacina deu origem a Chacim e Alfândega, graças à bravura e valentia dos seus Cavaleiros das Esporas Douradas e em nome da Fé cristã, passou a designar-se Alfândega da Fé.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O rosto da memória

O rosto da memória


Era um silêncio transparente,

cortante como um cristal de arestas afiadas.

Usei-o como escopro e, lentamente,

fui esculpindo no tempo o rosto da memória
Gouveia, R.


O texto de hoje é uma viagem por mundos de memórias

Começo pelo evento que  teve lugar hoje, às 17 h, no espaço criativo Vivacidade: a abertura da exposição Viagem através da memória, de Ana Maria Oliveira, que tive o privilégio de conhecer na escola de pintura Utopia, que ambas frequentamos, com um professor excelente, Domingos Loureiro, um jovem artista mas já com um currículo muito significativo
Foi o referido professor que fez a apresentação mas, instada pela autora, disse algumas palavras, essencialmente um poema que, a seu pedido , escrevi para o evento.

Aqui ficam alguns trabalhos de Ana Maria Oliveira e o referido poema


Nos céus da saudade, minha mente alada,


qual garça esvoaça em voo planado.

Eis que, em voo picado, veloz sobe e desce

para ir mergulhar num mar de memórias

que vai recriar de formas distintas

com pincéis e telas, com rendas e tintas
Regina Gouveia
 
No passado dia 1 de Setembro, foi apresentado no Centro cultural de Alfândega da Fé, o livro “Os rios também choram” de Carlos Afonso. Nascido em Parada, Alfândega da Fé, em 1962, precisamente no ano em que eu entrei para a Faculdade, não o conhecia, mas conheço/conheci muitos familiares seus, nomeadamente os pais. O autor, licenciado em Humanidades, é professor de Português e Literatura Portuguesa. Estando eu de férias na aldeia, programei desde logo estar presente na apresentação. No dia anterior fui contactada pelo autor. Pensava acompanhar a apresentação de um espectáculo levado a cabo pelas pessoas da terra, espectáculo em que se iriam recriar aspectos de uma forma de viver, não tão distante assim, no tempo. Pretendia que, a propósito da aldeia e do Santo Antão da Barca ( hoje bastante falado a propósito da barragem do Baixo Sabor que vai engolir o santuário), eu lesse dois poemas meus. O mesmo pedido fê-lo também ao poeta Manuel Gouveia, meu primo e amigo.

A viagem pelos caminhos da memória foi surpreendente. Nada foi esquecido. No palco foram recriadas a segada, a monda, a pesca no rio Sabor, a apanha, o escabulhar e o escachar da amêndoa, a ida à missa, a ida à fonte, a lavagem da roupa e a cura dos tremoços no rio, as procissões, nomeadamente a muda do Senhor da Barca (do Santuário, junto ao rio, até à aldeia), em tempos de grande seca, os jogos de roda das crianças … Até o meu neto entrou nos jogos de roda…

A propósito da aldeia li o poema Big-Bang e a propósito do Santo Antão da Barca o poema Barca

Big-Bang

Na minha infância, o Universo estendia-se do Castelo até às Eiras,

envolvendo a Praça e o Cabecinho onde ficava a minha escola.

Á volta eram ladeiras que velavam o sono do rio lá no fundo

Era assim o meu mundo que para mim, era maior que o infinito

e que em cinco linhas aqui ficou descrito,

contrariando assim, à evidência, uma das conjecturas da ciência.

Desde o seu Big-Bang o meu Universo contrai-se, não se expande.



Barca

Entardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiados

que se reflectem nos calhaus rolados que o rio afaga.

No ar, um silêncio que apenas o rumor do rio apaga,

rumor, ou talvez prece ao Senhor da Barca, ali ao lado.

Já não existe mais a barca que outrora foi real

mas na margem do rio, enferrujado,

testemunha de um tempo intemporal,

jaz moribundo um pedaço do cabo

que, a cada viagem, guiava a barca

de uma à outra margem.



A festa foi bonita e eu estive lá…





A festa foi bonita mas eu estive lá…Isto lembrou-me Chico Buarque em Tanto Mar.

Também a muda me lembrou o cantor. Deixo-vos com “permuta dos santos” de Chico Buarque e Edu Lobo, na voz de Mónica Salmaso


Termino citando Carlos Afonso no livro acima referido

Sempre que o coração me pedir para lhe contar histórias de encantar, pego nos espaços que me conhecem e nas gentes que me cercam e voo na direcção do sol.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Platero e eu...

De 17 de Julho a 21 de Agosto, decorreu no jardim municipal de Alfândega da Fé uma exposição fotográfica ao ar livre “Fé nos burros”, que de imediato me transportou a um livro belíssimo “Platero e eu”




Deixo-vos com algumas imagens da exposição e alguns textos de “Platero e eu”

Platero e Eu é um livro magnífico, em prosa poética, da autoria de Juan Ramón Jiménez (Prémio Nobel de Literatura, em 1956).É um livro de afectos. Afectos por terras e gentes e, muito especialmente, pelo burrito Platero. Com ele podemos percorrer as ruas de Moguer, cruzando-nos com alguns dos seus habitantes (a filha do carvoeiro que entoa uma canção de embalar, a tísica, o menino pateta, o veterinário Darbón, os meninos pobres que brincam, o padeiro que vai entregar o pão ao meio-dia, etc.).

Recebi-o, teria eu os meus doze anos, creio que pelo meu aniversário. Já o li e reli vezes sem conta.


Eis alguns textos

Platero

Platero é pequeno, peludo, suave, tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.

Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal roçando, as florinhas róseas, azuis - celestes e amarelas... Chamo-o docemente: “Platero”, e ele vem 5 até mim com um trote curto e alegre que parece rir .

Come o que lhe dou. Gosta das tangerinas, das uvas moscatéis, dos figos roxos, com a sua cristalina gotita de mel...

É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra. Quando passo nele, aos domingos, pelas últimas ruelas da aldeia, os camponeses, 10 vestidos de lavado e vagarosos, param a olhá-lo:

- Tem aço...

Tem aço. Aço e prata de luar, ao mesmo tempo.


O menino pateta


Sempre que voltávamos pela Rua de S. José, o menino pateta estava à porta de sua casa, sentado numa cadeirinha, olhando os outros passar. Era uma dessas crianças a quem nunca chega o dom da palavra nem a dádiva da graça; menino alegre ele, e triste de ver; para sua mãe, tudo, nada para os outros.

Um dia, quando passou pela rua branca aquele mau vento negro, o menino não estava à porta. Um pássaro cantava no umbral solitário, e eu lembrei-me de Curros, mais pai do que poeta, que, quando ficou sem o filho, perguntou por ele à borboleta galega: Volvoreta d’aliñas douradas...

Agora, que vem a Primavera, penso no menino pateta, que da Rua de S. José partiu para o céu. Deve estar sentado na sua cadeirinha, ao lado das rosas, vendo com seus olhos, outra vez abertos, a passagem dourada dos bem-aventurados.


Asnografia

Leio num dicionário: «Asnografia: s. f.: diz-se, ironicamente, da descrição do asno».

Pobre asno! Tão bondoso, tão nobre, tão inteligente como és! Ironicamente... Porquê? Nem uma descrição séria mereces tu, cuja descrição exacta seria um conto de Primavera? Se ao homem que é bom deveriam chamar asno! Se ao asno que é mau deveriam chamar homem! Ironicamente... De ti, tão intelectual, amigo dos velhos e das crianças, dos regatos e das borboletas, do sol e dos cães, das flores e da lua, paciente e reflexivo, melancólico e amável, Marco Aurélio dos prados...

Platero, que sem dúvida compreende, olha-me fixamente com seus grandes olhos brilhantes, de uma serena firmeza, onde o sol brilha, diminuto e refulgente, num breve e convexo firmamento negro. Ai! Se a sua peluda cabeçorra idílica soubesse que eu lhe faço justiça, que eu sou melhor que esses homens que escrevem Dicionários, quase tão bom como ele!

E escrevi à margem do livro: «Asnografia: s. f.: deve dizer-se, com ironia, claro está!, da descrição do homem imbecil que escreve dicionários».


Darbón

Darbón, el médico de Platero, es grande como el buey pío, rojo como una sandía. Pesa once arrobas. Cuenta, según él, tres duros de edad.

Cuando habla, le faltan notas, cual a los pianos viejos; otras veces, en lugar de palabra, le sale un escape de aire. Y estas pifias llevan un acompañamiento de inclinaciones de cabeza, de manotadas ponderativas, de vacilaciones chochas, de quejumbres de garganta y salivas en el pañuelo, que no hay más que pedir. Un amable concierto para antes de la cena.

No le queda muela ni diente, y casi sólo come migajón de pan, que ablanda primero en la mano. Hace una bola y ¡a la boca roja! Allí la tiene revolviéndola, una hora. Luego, otra bola, y otra. Masca con las encías, y la barba le llega, entonces, a la aguileña nariz.

Digo que es grande como el buey pío. En la puerta del banco, tapa la casa. Pero se enternece, igual que un niño, con Platero. Y si ve una flor o un pajarillo, se ríe de pronto, abriendo toda su boca, con una gran risa sostenida, cuya velocidad y duración él no puede regular, y que acaba siempre en llanto. Luego, ya sereno, mira largamente del lado del cementerio viejo:

—Mi niña, pobrecita niña...



Podem encontrar mais alguns textos em

http://namoradosdosapo.17.forumer.com/a/posts.php?topic=173&start=0

A finalizar e porque ao ver um burrico me vem à memória “A moleirinha” de Guerra Junqueiro, aqui fica o poema cantado por Maria de Lurdes Resende

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Medula: a fábrica da vida

É este o título de uma exposição que esteve patente ao público durante todo o mês de Agosto no Centro Cultural José Rodrigues em Alfândega da Fé. Trata-se de uma mostra composta por 99 painéis de azulejos produzidos por alunos de escolas de todo o país, do 1º ciclo ao 12º Ano

A iniciativa partiu do Centro de Histocompatibilidade do Norte (CHN). O referido Centro lançou, junto das escolas de todo o país, o Concurso de Painéis de Azulejos sobre o tema “Medula: a Fábrica da Vida”. Nas aulas de Ciências Naturais foi abordado e discutido o tema e nas aulas de Educação Visual procedeu-se à criação dos painéis de azulejos.

As imagens que ilustram os painéis, juntamente com os textos de 23 personalidades nacionais e internacionais, integram um livro bilingue e um CD com o mesmo nome da exposição, o qual conta com o prefácio do Professor Daniel Serrão.
Já os painéis, depois de percorrerem algumas localidades do país, irão integrar as paredes do novo edifício do CHN, simbolizando a solidariedade e a partilha de responsabilidades na construção de soluções futuras para os doentes com leucemia.

O Centro de Histocompatibilidade do Norte (CHN) editou ainda um CD interactivo intitulado “Medula: a fábrica da vida”, inserido no programa Educação para a Saúde.


O objectivo consiste em divulgar nas escolas e ao público em geral, de uma forma acessível, temas genéricos, como:

• O que é a medula;

• Como é constituído o sangue;

• O que é a Leucemia;

• Como se trata a Leucemia;

• O que é um transplante de Medula óssea;

• O que é a compatibilidade de tecidos;

• Noções sobre as células do sangue, os cromossomas e o DNA;

• Como é feita a recolha da medula óssea;

• Como ser dador de medula.

Nos sites anexos poderão encontrar-se mais alguns dados

http://www.portaldasaude.pt/portal/conteudos/a+saude+em+portugal/noticias/arquivo/2005/12/CHN+CD.htm


http://www.emp-myeloma.eu/Portals/1/News/livro%20medula%20a%20fabrica%20da%20vid...pdf


Quase a finalizar, uma notícia publicada em Ciência Hoje : Carreras anuncia instituto para investigar leucemia


E porque falámos em José Carreras ouça-mo-lo  em "La fleur que tu m'avais jetée" (da ópera Carmen de Bizet)



Termino com um poema que aborda o problema terrível das doenças oncológicas. Creio que já o coloquei numa outra mensagem

Câncer


Colóquio sobre o cancro.

Falam-nos em displasia, metaplasia, neoplasia, mostram imagens de tecidos,

células, essencialmente epiteliais.

Por ironia, imagens terrivelmente belas.

Algumas poderiam ser expostas como telas em qualquer museu ou galeria.

Cancro.

Subtis avançam tentáculos letais que vão minando a vida.

E trava-se então luta renhida entre a sua mordaz malevolência

e o avanço infatigável da ciência.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Deambulando pelo reino maravilhoso, um escaldo das férias…

Como referi no post do dia 16 de Agosto, no dia 11 do mesmo mês fomos visitar o Museu do Côa. Como não dispunha de scanner e o acesso à Internet era difícil, só hoje posso referir-me à visita. Há cerca de um ano tinha visitado o museu, apenas pelo exterior, dado que a inauguração decorreu no passado dia 30 de Julho.

Quem ali chega quase não vê o edifício (projecto dos jovens arquitectos Camilo Rebelo e Tiago Pimentel) que, apesar da sua modernidade, se integra de forma discreta e harmoniosa na soberba paisagem atravessada pelo Douro em frente e pelo Côa à direita.

No interior, a mesma sobriedade. Paredes negras e uma iluminação adequada a cada situação permitem destacar várias réplicas de rochas gravadas, gravuras, fotos, objectos arqueológicos, com destaque para o sílex, tudo distribuído ao longo de seis salas(A a F) que, conjuntamente com a sala G (escultura de Alberto Carneiro) constituem as salas de exposição permanente.


Há ainda salas para exposições temporárias, à data com obras de vários artistas contemporâneos, entre eles Ângelo de Sousa, Julião Sarmento, Pedro Croft e, obviamente uma loja de vendas, onde comprei para os meus netos um livrinho interessante de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada “Vale do Côa um lugar mágico”

Vale a pena visitar o Museu embora me pareça um pouco confuso. Talvez uma resenha histórica geral, apresentada no início da visita permitisse uma visão global facilitadora. Também acho que se poderia ter investido mais em réplicas e menos em painéis, até porque alguns dos interactivos não estavam a funcionar

Mas, repito, vale a pena visitar o Museu. E façam também uma visita às gravuras. Fi-la em 2008 e achei fascinante.