Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Há dias que (não) são assim...

Lassidão


Há dias que são assim, duma lassidão sem fim,

em que a vida é só cansaço, tudo é frouxo, tudo é lasso.

Arrasto-me a cada passo e não vou a parte alguma.

Perco-me dentro da bruma da vida que é embaraço,

sem qualquer rumo nem traço.

Sem nada ser não nem sim não existe nó nem laço

que prenda o meu eu a mim.

Regina Gouveia


Mas o dia de ontem, não foi assim, bem pelo contrário.
O dia de ontem foi, para mim, um dia bonito.

A manhã dediquei-a ao voluntariado no Hospital de Santo António. A registar que uma das pessoas que acompanhei à consulta era um senhor de 87 anos, de Carrazeda de Ansiães. Bastante surdo, mas de uma grande lucidez. Quando lhe disse que era de Alfândega da Fé falou, consternado, no abandono a que a agricultura foi votada e recordou algo que já aqui referi uma vez. Nos meus tempo de criança a amêndoa era o bem mais precioso daquela região. Na altura da apanha, os maiores colheiteiros contratavam a GNR para guardar os amendoais, a fim de evitar que a amêndoa fosse roubada. Hoje, a maior parte fica nas árvores e faz dó, em cada Primavera, ver as amendoeiras cheias de flores belíssimas, mas ostentando ainda as amêndoas ressequidas que no Verão anterior ficaram por apanhar.



Ao fim da tarde fui ao espaço Vivacidade, para estar presente no encerramento da exposição de pintura da minha amiga Virgínia Barros
A Virgínia falou de alguns dos seus trabalhos associando um poema a cada um . Deu-me a honra de seleccionar quatro poemas meus e quis que eu os lesse. Lembrei-me então que um dia, por mero acaso, vi na NET, no site “Timbres da Alma” que já não consigo encontrar, a referência a um poema meu dito, a par de mais treze poemas, por uma brasileira cujo nome desconheço. Esse poema foi um dos seleccionados pela Virgínia. Sugeri então que em vez de ser eu a lê-lo, fosse ouvido o CD. Gostaria de colocar essa leitura mas não consegui.Coloco apenas o poema

Chama

Dançava a chama, voluptuosa,

espalhando em redor um tom vermelho-rosa

As achas ardiam na lareira

e a criança batendo as palmas, rindo,

dizia "lindo, lindo",

apontando a fogueira.

Era uma chama voluptuosa

e ao mesmo tempo etérea,

por causa do plasma,

o quarto estado da matéria.

Vibravam núcleos e iões,

e em estranhas convulsões,

electrões davam saltos quânticos.

Era a energia

que assim se emitia

em passos de dança, sensuais, românticos.

A criança que, batendo as palmas, rindo,

dizia "lindo, lindo",

adormeceu sorrindo.

E então a louca chama, pressentindo

que a criança já estava dormindo,

deu em esmorecer, foi-se extinguindo.
Regina Gouveia
No fim da sessão, o pequeno Daniel com seis anos, neto da Virgínia, brindou-nos mais uma vez com o som do seu violino, quer em solos, quer acompanhado em flauta pela mãe

Mas o dia ainda não acabara. Ao chegar a casa tinha um e-mail com a agradável notícia de que o Instituto Piaget tinha seleccionado um poema meu para o 6º volume do Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa.

Há dias assim….

 

terça-feira, 27 de abril de 2010

Ainda no rescaldo do 1º Encontro de Literatura Infanto –Juvenil da S.P.A

Um dos poetas apresentados e entrevistados no referido encontro foi Jorge Sousa Braga, médico ginecologista, mas com uma obra poética já consagrada e em que constam duas incursões pela poesia infantil, dois livros que aconselho, “Herbário” e “Pó de estrelas”.

Ao longo da conversa, conduzida por Álvaro Magalhães, este depois de abordar essa incursão, focou algumas características do autor, nomeadamente a sua irreverência e alguns dos temas que aborda, relacionados com a sua profissão, cuja poesia não é em geral previsível para o comum dos mortais.

Não resisto a transcrever um deles, publicado em Ferida Aberta

Corrimento

Entre restos celulares e

Bacilos de Döderlein

Flutuavam alguns nenúfares



Pessoalmente não me espantou pois, numa intervenção do Prof Sobrinho Simões, um colóquio sobre o cancro a que assisti em Serralves, fiquei de tal fascinada por umas imagens apresentados a propósito da terrível doença, que me surgiu o poema que transcrevo




Células cancerígenas em multiplicação. Fonte: Whitehead Institute for Biomedical Research

Câncer

Colóquio sobre o cancro.

Falam-nos em displasia, metaplasia, neoplasia,

mostram imagens de tecidos, células,

essencialmente epiteliais.

Por ironia, imagens terrivelmente belas.

Algumas poderiam ser expostas como telas em qualquer museu ou galeria.

Cancro.

Subtis avançam tentáculos letais que vão minando a vida.

E trava-se então luta renhida entre a sua mordaz malevolência

e o avanço infatigável da ciência

domingo, 25 de abril de 2010

O que foi feito de Abril?

No trigésimo aniversário do 25 de Abril, a Revista “Palavra em Mutação” que, apesar de premiada no Brasil com o prémio Cecília Meireles acabou por morrer, dedicou, no seu número PM5zero, um grande espaço à efeméride, com a publicação de poemas de vários autores (Papiniano Carlos, José Augusto Seabra, ;Castro Gil, Teixeira e Castro, Leitão Baptista, Maria do Sameiro Barroso, Domingos da Mota, Urbano Tavares Rodrigues, Ramiro Teixeira, , Eduardo Roseira, António Vera, Fernando Pinheiro, Maria Teresa Dias Furtado, Fernando Morais, Regina Gouveia.
Transcrevo apenas os mais pequenos


Dos restos

Alinhavam os morros

Tão frios, embrulhados

nos lençóis da memória:

coveiros açodados

a ruminar a história,

enquanto discursavam,

aplicados heróicos,

e os vermes devoravam

a história que restava

(José Augusto Seabra)


30 anos do 25 de Abril

De Abril direi apenas que existiu

Porque estive lá

O que lhe aconteceu depois

Devemos perguntar aos cangaceiros

Ou nem sequer perguntar

Porque há perguntas que não se fazem

De tão proibitivas….

(Fernando Morais)


A solução tem de ser imediata

rápida

para nos libertarmos deste presídio

para nos libertarmos deste martírio…

É preciso

é preciso

é preciso…

E não é que foi assim

da noite para o dia!

(Ramiro Teixeira)


Lembro-me quando foi Abril.

Lembro-me da música que no ar pairava,

lembro-me das mãos entrelaçadas,

lembro-me da alegria que tudo irradiava.,

lembro-me dos cravos.

Hoje vejo rostos onde se estampa a tristeza,

vejo pobreza, fome, desemprego, violência, medo.

O que foi feito de Abril?

Todos os anos , em Abril renascem cravos

mas não renasce Abril.

(Regina Gouveia)  já com algumas alterações em relação ao texto então publicado


E para terminar, as duas versões de Tanto Mar de Chico Buarque e uma pintura de Manuel San Payo

sábado, 24 de abril de 2010

Dois registos...

1º registo
Ontem dia 23 de Abril, fez um ano que a minha maior amiga partiu. Nascemos precisamente no mesmo dia e no mesmo ano, fomos colegas de Faculdade e foi (é) madrinha do meu segundo filho.
Durante o dia, envolvida no 1º Encontro de Literatura Infanto – Juvenil da S.P.A, que decorreu ontem e hoje na BMAG, esqueci um pouco a tristeza que a data me evoca.
Mas ao fim do dia, na missa de aniversário, a saudade bateu muito forte. As palavras começaram a atropelar-se na minha cabeça, não as do padre, que essas não as ouvi, mas outras que ganhavam asas na minha mente


Reunidos amigos e família,

volvido um ano sobre a tua partida.

O coração apertado, turvam-se a visão e o ouvido.

Das palavras do prelado, nem uma só ouvi.

Palavras de circunstância, adequadas à ocasião,

ou talvez não.

Dos teus filhos, frases que subentendo,

através de palavras soltas

que me chegam carregadas de emoção e de saudade-

- generosidade, exemplo de vida.

Que grande privilégio teres sido minha amiga

2º Registo


Como referi no registo anterior, decorreu na BMAG o 1º Encontro de Literatura Infanto – Juvenil da S.P.A




A par deste programa houve, no dia 23, encontros entre crianças e escritores. Como o escritor Vergílio Alberto Moreira não pôde estar presente (entrou nesse dia no Clube dos Avós a que eu já pertenço) fui “substituí-lo” junto de cerca de 40 crianças. É algo que gosto sempre de fazer…

Mas regressemos ao programa.

Embora com muito pouco tempo dedicado a questões que o público pudesse colocar, as entrevistas correram bem, umas melhores que outras, obviamente.

Destaco a entrevista à ilustradora Teresa Lima. Foi muito interessante. A meio relatou um episódio que aconteceu com a ilustração do livro, Lá de cima, cá em baixo, de António Mota. Numa das ilustrações figurava uma girafa, intencionalmente sem cabeça, em que o pescoço terminava no topo da página.
A gráfica achou por bem descer a girafa e adaptar-lhe uma cabeça e, tanto gostou do novo desenho, que o usou para colocar na contra-capa… E pensar que o meu ilustrador ( o meu filho Nuno) ficou muito aborrecido porque na gráfica deslocaram um pouco as ilustrações…

Foi muito enriquecedora a intervenção de Osvaldo Silvestre que se centrou essencialmente em torno de duas questões: Alice no País das maravilhas é um clássico? É um livro para crianças?

Foram também muito interessantes as intervenções dos grupos Pé de Vento, Quinta Parede, Os gambozinos e do actor Carlos Moreira

De entre os vários poemas que foram lidos seleccionei alguns para trazer aqui

O Mosquito Escreve

O mosquito pernilongo trança as pernas, faz um M,

depois, treme, treme, treme,

faz um O bastante oblongo, faz um S.

O mosquito sobe e desce.

Com artes que ninguém vê, faz um Q,

faz um U, e faz um I.

Este mosquito esquisito

cruza as patas, faz um T.

E aí, se arredonda e faz outro O,

mais bonito.

Oh! Já não é analfabeto, esse insecto,

pois sabe escrever seu nome.

Mas depois vai procurar alguém que possa picar,

pois escrever cansa, não é, criança?

E ele está com muita fome.

(Cecília Meireles)



O Cometa
Lá vem lá vem o cometa

Tema cauda branca a cabeça preta

Que não se intrometa na sua rota nenhum planeta

E que ninguém tente cortar-lhe o cabelo ou não fosse de gelo

Nunca noiva alguma teve um vestido assim feito de espuma

Lá vai lá vai o cometa. Tem a cauda branca a cabeça preta

Se o não viste passar daqui a cem anos ele há-de voltar

(Jorge Sousa Braga)



Coisas que não há que há

Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num sítio onde só eu ia...

(Manuel António Pina)


Mistérios da escrita

Escrevi a palavra flor.

Um girassol nasceu no deserto de papel.

Era um girassol como é um girassol.

Endireitou o caule, sacudiu as pétalas

e perfumou o ar.

Voltou a cabeça à procura do sol

e deixou cair dois grãos de pólen

sobre a mesa.

Depois cresceu até ficar

com a ponta de uma pétala fora da Natureza.

( Álvaro Magalhães)


HISTÓRIA DO SR. MAR

Deixa contar...

Era uma vez

O senhor Mar

Com uma onda...

Com muita onda...

E depois?

E depois...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

E depois...

A menina adormeceu

Nos braços da sua Mãe...

(Matilde Rosa Araújo)



O penúltimo momento do encontro foi a apresentação do livro “Camões- O super-herói da Língua Portuguesa” de Maria Alberta Meneres. Maria Alberta Menéres completou 80 anos e está a ser homenageada pela ASA. A filha, Eugénia de Melo e Castro, acompanhou-a e a entrevista, muito bem conduzida por José António Gomes, e a que responderam mãe e filha, foi de facto um momento alto do programa.
Do livro fica um excerto

Como disse José António Gomes, o livro mostra que Camões continua na "continuação"











A finalizar e porque de poesia infantil se tratou, deixo um poema do meu último livro para crianças

Poesia

Perguntaram à Maria

o que era a poesia

e a Maria respondeu:

É saber olhar o Céu,

ouvir as ondas do mar,

e sentir a maresia,

as aves a chilrear,

desde que o sol se levanta,

deixar a areia escapar

por entre os dedos da mão,

é saber ouvir o vento

que traz sempre uma mensagem

quando chega de viagem.

É acarinhar a terra,

cada animal, cada planta,

cada pedra, cada rio.

É cantar ao desafio com o melro,

o gavião, e também a cotovia,

o pardal , o rouxinol.

É saudar o arco-íris

num dia de chuva e sol

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Lições de vida...

Às quintas feiras, das 8,30h às 11, 30h e desde há cerca de um ano e meio, faço voluntariado no Hospital de Santo António, ajudando pessoas que sintam dificuldade em se dirigir à consulta, ou pela idade, ou por serem oriundas de um meio rural, algumas vezes analfabetas, ou pela complexidade do acesso a alguns serviços, ou por limitações pessoais de ordem física ou psicológica…


Um dia tive que ajudar uma senhora de uma aldeia perto de Cinfães. Poucas vezes saíra da terra e nunca tinha andado de elevador. Dirigia-se ao serviço de Provas Funcionais Respiratórias, no 6º piso do Edifício Neoclássico cujo acesso é um pouco confuso para quem entra pelo Edifício Luís de Carvalho (“Hospital Novo” como grande parte dos utentes o refere). Quando chegámos ao serviço ela começa a chorar e diz-me aflita: Oh minha senhora, eu depois não vou conseguir sair daqui.

Tranquilizei-a prometendo-lhe que de meia em meia hora iria ao serviço ver se já estava despachada. À despedida disse-me: As senhoras são mesmo uns “anjos da guarda”.

Hoje o dia foi para particularmente rico, como experiência de vida. Uma das pessoas que encaminhei era um senhor que aparentava os seus 70 anos, muito direito, movimentando-se com muita segurança e agilidade. A dada altura disse-.me. Eu perco-me neste hospital onde nasci há 84 anos. Há 84 anos? perguntei incrédula. O senhor respondeu-me que apesar do aspecto tinha vários problemas de saúde mas, mesmo assim, continuava a dirigir a sua empresa, com 40 funcionários, levantando-se todos dos dias às 6 da manhã pois fazia questão se ser o primeiro a entrar na empresa e o último a sair, nunca antes das 20 h. E concluiu: Isso é que me mantém vivo.

Quando regressava de ter acompanhado o referido senhor, senti alguém a bater-me nas costas. De início não reconheci a senhora. Acompanhara-a uma vez ao serviço de medicina nuclear. No percurso apercebi-me de que a senhora, com cerca de 70 anos, estava com os olhos rasos de lágrimas . Quando chegámos ao serviço sugeri-lhe que se sentasse enquanto eu ia ao guichet tratar dos “papéis”. Mal se sentou começou a chorar copiosamente. Passara um Natal feliz com a filha e os netos e pouco tempo depois tinha-lhe sido diagnosticado um cancro. Fiquei com ela até ao momento de ser chamada para o exame, que iria durar algumas horas. Todo o tempo repetiu que só queria morrer, não tinha mais apego à vida, etc, etc. É difícil dizer qualquer coisa nestes momentos mas, num lugar daqueles, é pelo menos possível mostrar que há muitas outras pessoas com problemas tanto ou mais graves que o nosso e o importante é não desanimar.

Pois hoje, ao bater-me nas costas, disse-me. Como vê já estou a reagir. Quem sabe ainda escapo desta? Obrigada pelo apoio que me deu.

Mas houve mais. Apareceu para a consulta de cirurgia, uma senhora invisual com 35 anos. Tratei de todos os trâmites iniciais, levei a senhora até à consulta e fiquei a seu lado até à chamada, Começou por me perguntar o que fazia e a dada altura disse-lhe que tinha sido professora de Física e Química. E isso o que é? Respondi-lhe citando-lhe várias conquistas da sociedade ao longo dos tempos, que só foram possíveis devido ao acumular de conhecimentos nessa áreas. Ela própria transportava dois exames um deles uma ecografia mamária cujo fundamento tentei explicar-lhe a partir do eco do som audível. Disse-me então: Saber essas coisas deve ser muito interessante. Eu estudei pouco. Começou a falar de si e foi então que me apercebi da força daquela mulher. Cegou aos doze anos pelo que a escolaridade é pouca, trabalha como telefonista e há cerca de 10 anos casou com um invisual de quem teve um filho. Vítima de maus tratos, está separada há quatro anos, cuida do filho e luta com quantas forças tem para impedir que o pai fique com a custódia da criança, que requereu alegando o insucesso escolar da mesma. E a pobre mulher diz-me. As dificuldades dele são na matemática, mas como posso eu ajudá-lo? Não posso pagar a um explicador. Prometi tentar saber se no lugar onde vive haverá alguma possibilidade de apoio à criança, em qualquer organismo estatal ou não. Oxalá consiga.

E agora, dizia-me, suspeitam que estou com cancro na mama.

Acompanhei-a à consulta e o médico, um jovem extraordinariamente carinhoso, pediu-me que ficasse para depois a poder levar. Viu os exames , examinou a senhora, mas, em seu parecer, tratava-se apenas de simples quistos, nada de grave. Mandou fazer novos exames dentro de 3 meses e regressar à consulta nessa altura, consulta essa que ficou já marcada.

Quando saímos, a senhora disse-me: Estou tão feliz. Posso dar-lhe um beijinho

Deixei a senhora no autocarro para o Bolhão. Aí apanharia outro que a levaria ao seu emprego. À despedida disse-me: Agora só me falta resolver o problema do meu menino. Grande mulher…

E lembrei-me do poema Calçada de Carriche de António Gedeão

Em vez das habituais 3 h, hoje dediquei 5h ao voluntariado, mas as experiências vividas compensaram de longe o meu cansaço.

sábado, 17 de abril de 2010

A propósito de prémios

Um génio matemático, Grigory Perelman, acaba de ser contemplado com um prémio de um milhão de dólares por ter resolvido um dos sete problemas mais difíceis da matemática, mas é provável que o recuse.
A recusa de um grande prémio já não é novidade. Sartre, por exemplo,  recusou em 1964 o Prémio Nobel da Literatura

E a propósito do Prémio Nobel da Literatura, Miguel Torga foi proposto para o galardão mas não lhe foi atribuído.  O  mesmo aconteceu Jorge Amado que um dia referiu
Se existe alguém que escreve em português e merece o Nobel é Miguel Torga, não eu.
in  Miguel Torga- Fotobiografia
Esta humildade demonstra bem a grandeza de Jorge Amado, espcialmente quando comparamos a sua atitude com outras tão diferentes, mesmo aqui neste cantinho do Mundo

No último livro de Manuel Alegre ” O miúdo que pregava pregos numa tábua”, pode ler-se na página 37: (…) Mas na corrida, ao contrário da literatura, diz o miúdo que pregava pregos numa tábua ao receber um prémio literário, não há batota, ganha quem chega primeiro.

A Câmara Municipal da Guarda anunciou na quinta-feira, 21 de Janeiro, a criação do Prémio Literário Manuel António Pina, no valor de 2.500 euros, que tem como objectivo homenagear o escritor, natural do Sabugal, e “divulgar obras inéditas” de poesia e de literatura infanto-juvenil.
O anúncio foi feito pelo presidente da Câmara da Guarda, Joaquim Valente, no final do seminário intitulado “Manuel António Pina – Palavras para além das fronteiras”, realizado naquela dia na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, integrado no Ciclo Manuel António Pina dedicado ao escritor e poeta.
Joaquim Valente explicou que o Prémio Literário “pretende divulgar obras inéditas de poesia e de literatura infanto-juvenil, prestando, desta forma, homenagem ao grande escritor e poeta natural do distrito da Guarda”, acrescentando que o galardão que será atribuído anualmente, que premiará, de forma alternada, obras de poesia e de literatura.

Já por quatro vezes enviei um e-mail para a Câmara Municipal da Guarda pedindo informações sobre o referido prémio. Até hoje não tive qualquer resposta.
Consta que por vezes a “batota” começa na deficiente divulgação (intencional?) dos prémios .

terça-feira, 13 de abril de 2010

Poderá o nosso universo ter-se formado dentro de um buraco negro que existe noutro universo?

Será possível o nosso universo estar dentro de um buraco negro que se encontra dentro de outro universo muito maior? Alguns, como o físico teórico Nikodem Poplawski, da Universidade do Indiana, acreditam que sim.
A notícia, a ser publicada hoje na Physics Letters B, demonstra que todos os buracos negros podem ter buracos de verme no seu interior, dentro do qual podem existir outros universos. Este trabalho pode explicar a origem da inflação cósmica e ser uma alternativa à teoria do Big Bang (excerto de um artigo publicado em  em Ciência Hoje )
Apesar dos contínuos avanços no conhecimento do Universo, que  representará esse conhecimento face ao que ainda ignoramos? Provavelmente uma pequena gota num infinito oceano de mistério

Ah, que diversidade,


E tudo sendo. O mistério do mundo,

O íntimo, horroroso, desolado,

Verdadeiro mistério da existência,

Consiste em haver esse mistério.

 
Mais que a existência


É um mistério o existir, o ser, o haver

Um ser, uma existência, um existir —

Um qualquer, que não este, por ser este —

Este é o problema que perturba mais.

O que é existir — não nós ou o mundo

Mas existir em si?

Fernando Pessoa in Primeiro Fausto. Mistério do Mundo

E termino com um poema que está para os anteriores na  mesma relação  que   o universo  já conhecido está  para o quanto dele falta conhecer

Scherzo
Do quark à galáxia, por entre a matéria escura,

no Cosmos infinito estará disseminada

uma memória futura.

Talvez nessa memória esteja lavrada a história

dum outro universo, simples mas diverso,

pleno de música, de riso, de cor,

sem ódio, sem guerra, sem dor.

Essa memória futura,

algures no espaço- tempo,

terá, porventura, acordes de um scherzo lento.
Gouveia. R. in Poemas no espaço-tempo (a aguardar edição)

sábado, 3 de abril de 2010

Sábado de Aleluia...

Hoje, Sábado de Aleluia,  invadiu-me uma imensa nostalgia. Talvez me falte o repicar ensurdecedor dos sinos, a substituir o tanger dolente das matracas nos dias anteriores,  o cheiro a folar acabado de fazer, a exuberância dos campos que a Primavera se encarregou de matizar de verde salpicado de branco, amarelo, vermelho, azul…


Se a Páscoa não era "alta" ( ou seja se ocorria em  Março ou princípios de Abril), ainda se podiam ver as amendoeiras em flor.  Com um pouco de sorte também já se podiam encontrar nos campos os deliciosos espargos silvestres.

Na minha aldeia, perdida algures no Nordeste Transmontano, a Páscoa era uma data festiva tão importante como o Natal, senão mais…Reuniam-se as famílias à roda dos folares, doces e de carne, cuja feitura, extremamente cansativa, culminava num ambiente de odor inesquecível.

Depois havia os rituais que precediam o "Dia de Páscoa" nomeadamente,  no Domingo de Ramos,  a entrega à madrinha do ramo (feito com ramo de oliveira e alecrim) depois de benzido na missa dominical.

No Domingo de Páscoa , antes da Missa passava a procissão e as varandas e janelas engalanavam-se com colchas de seda e de linho, pintadas, bordadas , tecidas. Após a Missa aguardava-se a Visita Pascal. Colocavam-se folhas e flores às portas ( em minha casa, ao portão de ferro) e quando se ouvia a sineta todos se dirigiam para a porta /portão a receber o cortejo  que guiavama  até  à dependência mais nobre da casa, onde um acólito dava a Cruz a beijar

Recordo a voz doce da minha mãe, ainda antes de chegar a Visita . “Por favor não encostes os lábios à Cruz pois tal prática pode ser transmissora de doenças. Finge que beijas. Isto é apenas um ritual”

Das tradições pascais faziam parte ainda o cordeiro assado e as amêndoas, essencialmente as de Moncorvo,  que algumas vezes vi confeccionar à porta das lojas, na então vila. A sua confecção faz-se em tabuleiros redondos de cobre com cerca de um metro de diâmetro, colocados em cima de potes de barro com borralho (brasas que ardem lentamente). Nesses tabuleiros colocam-se as amêndoas depois de ligeiramente torradas, às quais se vai juntando uma calda de água e açúcar. Aos poucos, as mãos hábeis das artesãs, “ornamentadas” com dez dedais sem cabeça, vão-nas cobrindo lentamente remexendo-as uma e outra vez…Assim vai ficando coberta a amêndoa, tomando uma forma diferente das demais, com pequenas saliências a que chamávamos piquinhos

Não havia coelhinho de Páscoa nem ovos de chocolate. Mas a Páscoa da minha infância era plena de magia que não consigo encontrar na Páscoa dos nossos dias.
Daí a minha nostalgia de hoje que leva aterminar com o poema que segue
As flores de amendoeira, antes da Primavera,

cobrem a ladeira como um branco véu

ou como vestes de anjo que se esfumou no céu.

Impressa no código genético a química magia

da ebúrnea cor que recende a nostalgia.

Gouveia ,R. In Magnetismo Terrestre



Feliz  Páscoa para  todos