Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ainda há lugar para a utopia….


Amanhã, dia 1 de março, é inaugurada em Vivacidade - Espaço criativo, a Exposição de Pintura Cor em Movimento, de Virgínia Barros autora do blogue com o mesmo título. A autora será apresentada pelo jovem mas já conceituado artista Domingos Loureiro de quem, tal como a Virgínia, tenho o privilégio de ser aluna de pintura

No passado dia 20, na Galeria Café Majestic, foi inaugurada a exposição de pintura de Teresa Silva Vieira que esteve patente ao público até ao dia 27 de Fevereiro.

A artista Teresa Vieira é proprietária da Escola Utopia onde decorrem as aulas de pintura acima referidas. A ela um grande abraço com o meu pedido de desculpas por só hoje fazer referência ao evento mas os meus últimos 15 dias têm sido um pouco atribulados


Para ambas os meus parabéns

Também no passado dia 26, a exposição “Memórias paralelas da Guerra Colonial”, reportagem fotográfica de Fernando Gouveia, passou da Vivacidade- Espaço criativo, para o Instituto das Artes e Ciências (Praça Carlos Alberto, nº 114, 115 e 116 Tel.: +351 22 339 02 69) onde ficará até 12 de Março


No próximo dia 6 de Março será inaugurada na Junta de Freguesia de Ramalde, uma exposição de Pintura Tradicional Indiana  com trabalhos adquiridos por Isabel Iglesias nas suas viagens pelo Oriente. A par da referida exposição, estarão expostos trabalhos seus que representam “Pedaços de Viagens”

Como não poderei vistar a exposição, estive hoje em casa de Isabel Iglesias a fim de apreciar os seus trabalhos e as pinturas indianas.
À medida que ia mostrando as pinturas, Isabel  ia explicando sumariamente as técnicas desde o madhubani, ao kalamikari  passando por patachitras, warli, phadas, tangkas, desenhos em bambu, pinturas tântricas e tribais.
Saí enriquecida . Tenho a certeza de que gostarão de ver a exposição até porque Isabel Iglesias estará lá para dar explicações sobre as diferentes pinturas

Para mudar o mundo é preciso paixão

Para mudar o mundo é preciso paixão


É essencialmente esta a mensagem que Isabel Allende nos deixa na comunicação anexa que uma amiga me enviou por e-mail. Nela emerge a feminista, mas essencialmente a mulher empenhada em mudar as relações de poder no mundo
A propósito de um dos seus livros mais conhecidos, A casa dos espíritos, Alexandra Gomes refere:

Em 1981, quando Isabel Allende soube que o seu avô se encontrava moribundo, começou a escrever uma carta de despedida para ele. A partir do momento em que as palavras começaram a ser derramadas, nada mais as conteve. Quando finalmente tomou fôlego, Allende deparou-se com 500 páginas manuscritas que se tornaram o seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos.
História épica de três gerações da família Trueba e do seu envolvimento na revolução socialista chilena, onde o passado e o presente se entrelaçam para formar uma intriga brilhante de morte, ódio, ira e traição.
(…)
A extensa visão que Isabel Allende revela ter da história chilena do século XX, do caos do governo de Allende, do golpe militar que o destitui e da repressão subsequente, é inteligentemente representada através das provações e atribulações da família Trueba.
Apesar da personagem principal ser Esteban Trueba e todos os eventos girarem em torno dele, são as mulheres da família que efectivamente dominam. Três mulheres marcam toda uma narrativa, profundamente feminina, que combina de forma extraordinária narrações de primeira e terceira pessoas, mantendo-a viva e cativante. Clara, Blanca e Alba – nomes cujo significado intrínseco apontam a Luz como dominante – são mulheres fortes que lutam pelo que acreditam. Criticadas por uma sociedade conservadora pelas suas ideias revolucionárias, encontram sempre meio de ajudar os outros, defendendo secretamente os direitos das mulheres. Estas personagens representam algo mais que feminismo, representam a luta da Mulher e da Sociedade, tipicamente masculina, que permitiu e continua a permitir os direitos das mulheres. (…)
É o feminismo lírico que torna este romance excepcional, prestando tributo à Mulher chilena, em particular e, a todas as mulheres do mundo, em geral.

E a propósito da exploração das mulheres no mundo ….

Tchador

Déboras, Irinas, Svetlanas

ucranianas, sul- americanas, não importa.

Partiram em busca de uma porta

que lhes desse acesso a melhores vidas.

e acabaram ludibriadas, iludidas,

nas mãos de proxenetas.

São traficadas,  são exploradas, vezes sem conta são violadas

e quando, apesar de jovens, acabadas,

são abandonadas, jogadas nas sarjetas.

Sandras, Bintas, não importa o nome,

a vida deu-lhes até hoje violência e fome.

Aquela com onze anos, tão menina,

de uma outra menina já é mãe.

Por certo é a primeira boneca que ela tem.

E nos olhos, em vez de ódio e de revolta,

uma lágrima solta, enquanto embala a filha com amor.

Aquela outra ali é argelina,

talvez a "pietá" que correu mundo.

Nos olhos um desgosto tão profundo,

maior que o próprio mundo.

E aquelas outras das quais não vejo o rosto

que, se doentes, não podem ser tratadas,

que são impuras, se desvirginadas, que se forem violadas

poderão por castigo ser queimadas?

O que dirão os seus olhos por baixo do tchador?

Humilhação? Desgosto? Resignação? Rancor? Talvez revolta?

Se eu um dia usar tchador por meu querer

acreditem que não é para me esconder

é só para tentar não ver  tanta injustiça, tanto horror,

tanto fanatismo, tanta dor, neste mundo cruel à nossa volta.


Gouveia, R in Reflexões e Interferências


Na comunicação Isabel Allende faz referência a Fernando Botero


As obras de Botero (1932) são sempre misteriosas. Cada uma parece ser uma cena da mesma peça, do mesmo mundo de cores completamente saturadas.

Para este artista a cor é fundamental nos seus quadros porque ilumina a pintura. Nos seus quadros somente existe a forma, e a cor interior também procura sempre uma certa monumentalidade.

Para Fernando Botero, a forma é a visão que, excluindo a cor, se tem da natureza. É uma exaltação da realidade, do volume, é sensualidade. É uma visão que deve ser sempre diferente. A função do artista é exaltar a vida através da sensualidade e comunicá-la através da ideia do volume.



E porque se falou de paixão , termino com Chico e Betânia em Bem querer

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A minha capa inglesa

Abrigo

A minha capa inglesa com setenta anos

abrigou amores, sonhos, desenganos.

Era de meu pai.

Apesar da idade que não se adivinha

ainda me protege da chuva que cai, forte ou miudinha,

e ainda me abriga do frio e do vento.

Só não me protege daquela saudade,

que, qual neve, invade o meu pensamento


Já se passaram dez anos sobre a data em que escrevi este poema. Recordo-o hoje, porque face à chuva e ao vento dos últimos dias, voltei a vestir a minha capa inglesa.

O meu pai foi para o Brasil nos anos 20 do século passado, trabalhar para uma empresa de importação /exportação de um familiar, no Estado de S. Paulo . Começou por ser viajante da empresa. Fazia a linha da Sorocabana, uma linha de caminho de ferro que conduzia a várias cidades do interior do estado.
Habitualmente associamos ao Brasil um clima de temperaturas elevadas esquecendo muitas vezes que no Sul neva. Mas os dias frios não existem apenas no Sul. No interior do Estado de S. Paulo há zonas onde as temperaturas descem abaixo dos 10ºC. Algumas destas zonas faziam parte do itinerário do meu pai, por isso ele adquiriu uma capa inglesa, em lã prensada (como algumas botas russas), quente e impermeável, mas muito pesada. È uma capa muito bonita, cinza-acastanhada, com um forro em lã xadrez em tons de verde e cinza.
Não sei durante quanto tempo o meu pai usou o “trem” para se deslocar mas em 1927 adquiriu o seu Chevrolet. Quanto à capa,não sei se continuou a usá- la nas suas viagens mas  usou-a pelo menos anos mais tarde, não no Brasil mas já em Portugal.
Na década de 50, era eu criança, não havia estrada para a aldeia onde vivia. Apenas um caminho por onde transitavam muito poucos automóveis, um deles o do meu pai. No Inverno era intransitável e para ir à vila, nomeadamente nos dias de feira, o meu pai deslocava-se a cavalo. Invariavelmente cobria-se com a sua capa inglesa. Nesses dias, tal como outras crianças, ia esperar o meu pai ao caminho, já perto da aldeia. Quando nos encontrávamos, ele punha-me em cima do cavalo, e aconchegava-me dentro da sua capa. Esta uma das memórias mais fortes que retenho dele. Após a sua morte demos as suas roupas, mas a capa inglesa ficou. Adaptei-a para mim e ainda hoje a uso em tempos de invernia.


Há cerca de dois anos, a minha irmã, dez anos mais velha que eu, quis ser fotografada com a capa.


Foi pois esta capa que deu origem ao poema com que inicio este texto.
Se à minha mãe devo o gosto pela música, ao meu pai devo o gosto pela poesia. Desde sempre me lembro de ele me ler poesias (Guerra Junqueiro, Camões, Bocage, Camilo…). Sabia que por vezes escrevia poesia. Vinte anos após a sua morte, fui encontrar uma série de poemas seus que a Câmara Municipal de Alfândega da Fé publicou em 2004 sob o título “Poemas Póstumos”.

Termino com um desses poemas


Em sonho vi as estrelas

brilhar extraordinariamente.

Pareceram-me mais belas

nesse cintilar cadente.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ciência e Arte de mãos dadas - S.O.S pelo planeta azul

Esta foto de uma esfera verde microscópica envolta por fibras de polímeros com diâmetro equivalentes a 1/500 de um fio de cabelo foi a grande vencedora de um concurso anual de imagens científicas – «International Science & Engineering Visualization Challenge» –, promovido pela revista «Science» e pela Fundação Nacional da Ciência (EUA). ( In Ciência Hoje)
Segundo os autores da foto, Sung Hoon Kang, Joanna Aizenberg e Boaz Pokroy, com o título «Save our Earth. Let's Go Green», esta pode ser uma representação da necessidade de cooperação entre pessoas de todas as áreas para lidar com questões ambientais
Sung Hoon Kang, investigador da Universidade Harvard, referiu que cada minúscula fibra pode representar uma pessoa e todas estas no conjunto, podem conseguir sustentar a esfera, ou seja, o planeta Terra.


Na categoria ilustrações, uma das imagens vencedoras mostra uma representação gráfica das forças exercidas por células pulmonares ao formarem vasos capilares. A imagem tridimensional faz parte de um projecto para apresentar dados científicos de maneiras novas e criativas.

A ilustração de um hambúrguer de água-viva (Jellyfish Burger), de Jennifer Jacquet e David Beck – uma cientista marinha e um ilustrador gráfico, respectivamente, da Clarkson University – recebeu uma menção honrosa.
O objectivo é alertar para os perigos da pesca excessiva e das consequências das mudanças climáticas na vida marinha. Os criadores defendem que o aquecimento dos oceanos reduzirá os a quantidade de peixes, mas permitirá a multiplicação de espécies agressivas, como as águas-vivas.

O concurso premiou ainda concorrentes nas categorias de gráficos e posters de informação e jogos interactivos. Os premiados foram anunciados na última edição da revista "Science", publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência.



Navio azul
Terra, navio azul

no oceano cósmico infinito

onde ecoa o teu apelo aflito.

Insensatos, fingimos não escutar,

esquecendo que juntamente contigo

iremos naufragar.


Elegia

Como cantar-te terra?

Uma ode, um hino de alegria, um poema de amor?

Talvez seja melhor compor uma elegia

que possa ressoar em sintonia

com esse teu grito de tristeza e dor.


Amazónia

Crescem crateras no pulmão do mundo.

Para alguns a riqueza desmedida,

para muitos a fome imerecida.


Deserto

Ao vento que ali sopra frio e forte

segue-se o tórrido sol que tudo queima.

A vida que ali outrora foi pujante

é hoje agonizante.

Eis o deserto

de uma beleza ímpar, sufocante,

onde sede e fome ecoam como um grito

abafado, suplicante, aflito.



O bailado das aves

Desenhando volutas no ar transparente

aves exibiam os seus passos de dança

num gentil bailado

A música vinha do rumor das águas,

do soprar do vento

Mas eis que o ruído e o fumo invadiram o ar

Já não se vêem as aves voltear

e sente-se ao longe um piar dolente.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

De Maria João Pires a Henri Matisse

Livros e CD (particularmente da música muitas vezes e algo impropriamente designada por clássica) são as prendas que mais gosto de receber. No Natal de 2008, uma das prendas que recebi e de que mais gostei, não foi nem um livro nem um CD mas um bilhete ( o meu marido recebeu outro) para o concerto que Maria João Pires iria dar, em Outubro de 2009, na Casa da Música. Quando se aproximou a data do concerto, a comunicação social comunicou o adiamento do mesmo para data a confirmar. Foi ontem. Maria João Pires interpretou Beethoven: sonatas em Sol menor, op. 5, nº2, e em Lá maior op.69, ambas para piano e violoncelo e Variações em Dó menor, Sonata em Ré menor , op.31, nº 2, para piano.O violoncelista foi Pavel Gomziakov.

Valeu a pena a espera. Não sou melómana pois os meus conhecimentos sobre música são relativamente reduzidos, mas gosto muito de música. Maria João Pires é, para mim, uma pianista fabulosa. Gosto particularmente de a ouvir interpretar Mozart e Chopin. Dela tenho vários CD e um deles, com as sonatas para piano de Mozart, KV279, KV 280, KV 281 é um CD de que gostam muito os meus três netos, de 8 meses a 7 anos.
Recordemos  a diáspora de Maria João Pires


Maria João Pires nasceu a 23 de Julho de 1944, em Lisboa. Tocou pela primeira vez

em público em 1948. Em Portugal estudou com Campos Coelho e Francine Benoit, e

mais tarde, na Alemanha, com Rosl Schmid e Karl Engel.

Gravou para a editora Erato durante 15 anos e, nos últimos 17 anos, para a

Deutsche Grammophon.

Desde 1970 tem-se dedicado à reflexão sobre a influência da arte na vida, na

comunidade e na escola, tentando desenvolver novos meios de implementação das

teorias pedagógicas na sociedade. Pesquisou novas formas de comunicação que

respeitam o desenvolvimento pessoal, em oposição à lógica destrutiva e

materialista da globalização. Em 1999, Maria João Pires criou o Belgais, um centro

para o estudo das Artes, tendo actualmente alargado a filosofia e pedagogia de

Belgais à cidade da Baía, no Brasil.

Em 2005 criou o Art Impressions, um grupo experimental de teatro, dança e

música e, em conjunto, produziram dois projectos – "Transmissions", e em 2007

"Schubertiade".
Ouçamo-la interpretando Mozart

Alcançar a mestria de Maria João Pires implica não só muito talento como muito trabalho. Sempre foi um sonho da minha mãe, amante de música, que eu aprendesse piano. Acontece que, naquele tempo, em Bragança não havia professores de música. Tinha eu 14 anos quando chegou ao Liceu um novo Reitor (Dr :Manuel Lopes da Silva que tinha o curso de violino) casado com a D. Maria Teresa que, por sua vez, tinha o curso de piano. Ambos eram melómanos, ele em especial. Organizou várias sessões de música, geralmente aos fins de semana e muitas delas na Pousada de S. Bartolomeu.Com a D. Maria Teresa iniciei a minha aprendizagem de piano. Ao casal, se ainda viver, a minha gratidão por me terem ensinado muito, embora eu tenha aprendido pouco. Faltavam-me não só o talento como a força de vontade para trabalhar horas a fio. Para a minha mãe foi um desilusão pela qual me penitencio até hoje Disso dou conta no poema a seguir

Mãe

Como eu me lembro bem, mãe.

Catorze anos seria talvez a minha idade, uma colega do liceu

disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade. E eu fiquei toda cheia de vaidade.

Lembro-me de tanta outra coisa mãe

Do linho esticado dentro do bastidor e dos teus bordados em ponto pé-de flor,

em matiz, ponto de sombra ou de grilhão, ao sabor da imaginação,

como o vestido da minha comunhão.

Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão; chamavas-lhe quitutes, mãe.

Receita portuguesa, brasileira, italiana, ainda hoje os teus quitutes têm fama

entre os amigos que os saborearam. Ainda há dias alguns os recordaram.

Lembro-me ainda que não era só o sabor, era o aspecto.

Em tudo colocavas muito afecto e sempre a tua a sensibilidade infinda.

Além de sensível eras tolerante, corajosa, lutadora, criativa, generosa.

Como eu recordo, mãe, tantas histórias inventadas por ti,

em que o sabiá e a surucucu contracenavam com o colibri, com a jibóia e o bicho tatu.

Como eu recordo, mãe, a tua lindíssima voz de soprano

cantando árias de Verdi, de Puccini,

(da Madame Butterfly, da Traviata), do barbeiro de Sevilha de Rossini,

ou ainda Shubert, a serenata, tentando eu acompanhar-te no piano

que, por falta de talento, mal tocava, o que algum desgosto te causava.

Um dia, já a tua mente muito vária, apercebi-me de que não gravara a tua voz

Tentei então que cantasses uma ária para ficar com os registos entre nós

Tarde demais De reconhecer a música tu foste incapaz

Tinhas apenas cinquenta e oito anos.

E a partir daí a doença, tão voraz, foi-te destruindo dia a dia a mente,

dia após dia causando mais danos

e eu, recusando-me a aceitar tais desenganos, era contigo que me revoltava, mãe.

Que foi feito de ti mãe outrora tão sensata, inteligente?

Que foi feito da tua sensibilidade, da tua coragem e força de vontade?

Porque te deixaste assim destruir, mãe?

Ficaram as fotos, a recordação, tanto vazio no meu coração,

tantas lembranças, algumas em bocados.

Como herança deixaste o bastidor, as partituras, as receitas, os bordados.

Ficaram sentimentos de culpa e muita dor. Por dizer ficou ainda tanto amor.

(in Reflexões e interferências)


Um outro, poema mais recente e ainda não publicado


Acordes
Que acordes são estes que quebram o silêncio que me invade a alma?

De onde vêm estes sons

que me transportam a outra dimensão no cosmos infinito?

Presto assai, allegro moderato, andante lento -

sinfonia que vem do alfa e vai em direcção a um ómega ignoto,

difundida por entre as estrelas, a propagar-se na matéria escura

talvez vinda dum tempo remoto,

dum tempo em que ainda não havia tempo,

talvez ainda antes da criação do mundo,

quem sabe transportada pela radiação de fundo.

Na noite calma, embala-me esta música que não identifico,

e onde, entre um tanger de cítaras e harpas, se impõe sublime, um violino

Acordo, deixo o cosmos etéreo, esfuma-se o som divino.

O som que escuto agora é bem real. Apenas um bater de coração aflito…

E finalizo com uma  imagem de  "Música" de Matisse


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"Caminhos rochosos" ou "Entre a cultura e a burocracia: o ensino"

Terminei a mensagem anterior falando dos caminhos rochosos do professor.
Hoje, em Novo Mundo, deparei com um artigo cujo título é  entre a cultura e a burocracia: o ensino. Deixo um excerto  mas aconselho vivamente a leitura do texto.

Os professores foram o bombo da festa (o bode expiatório, para ser mais erudito) de muitas opiniões espontâneas e outras bem estruturadas (e nem por isso correctas). Agora que se levantam questões sobre o parque escolar (que afinal é uma EPE e não uma ideia geral como ingenuamente pensava) tal como os levantados por Santana Castilho (no Publico de hoje), e donde destaco a contradição da autonomia das escolas apregoada no mesmo instante em que se lhes retiram competências de gestão, o problema tem raiz política inequívoca e objectiva.



Sem nunca esquecer o impacto que isso tem no desempenho dos professores, como leio aqui: (…) acabo de corrigir 74 testes, tendo havido 8 positivas. Tenho perfeita noção que, à luz do sistema e independentemente da falta de bases e métodos de estudo dos alunos e da sua falta de atenção, esforço e empenho, a responsabilidade destes resultados é minha e só minha, por não os ter motivado convenientemente. Mas, claro, é fácil obter a redenção. Basta que assuma o meu pecado e premeie o fraco desempenho com óptimas notas, contribuindo para o “sucesso” educativo português .


Se lhe dou crédito, é porque reflecte em detalhe o que vou me apercebendo como encarregado de educação ao longo destes últimos 12 anos.

Obrigada Pedro  pelo seu testemunho

É possível sobreviver com esta avaliação do desempenho?

O título deste “post” é inspirado em “ É possível sobreviver sem avaliação do desempenho? “, um texto muito interessante de Helena Damião publicado em De Rerum Natura e do qual extraí um excerto:


No Jornal Público de 30 de Janeiro de 2010 foi publicada uma entrevista de Ana Gerschenfeld a Christophe Dejours, professor no Conservatoire National dês Arts et Métiers, em Paris.


Nessa entrevista, o especialista com obra reconhecida na área da Psicologia do Trabalho e da Acção apresenta o essencial das análises que tem feito sobre a avaliação individual do desempenho profissional que está a ser implementada em inúmeros países, nos mais diversos sectores, em instituições e empresas públicas e privadas, sob o pretexto de aumentar a qualidade do trabalho e a igualdade e justiça social.


Trata-se de análises que não deviam ser ignoradas porque há nelas factores de sobra para nos preocuparmos directamente e a curto prazo com a saúde física e psicológica dos profissionais, a qual se reflectirá no funcionamento social e técnico das instituições onde estão integrados, que, por sua vez, se reflectirá no atendimento às pessoas que a elas se dirigem. Menos directamente e a mais longo prazo, mas de modo mais sério e profundo, reflectir-se-á no modo como nos vemos e vemos os outros, como encaramos a nossa existência e que sentido lhe atribuímos, como estruturamos os valores que fundam a cultura em que nos estruturámos como pessoas(…).

Ao ler o artigo pensei imediatamente na avaliação dos professores sobre a qual já escrevi neste blogue. Mas afinal não fui apenas eu que fiz a ponte para essa famigerada avaliação. Num comentário colocado por José Batista da Ascenção pode ler-se.

(…)Agora, sistemas de avaliação em que os professores competem directamente uns com os outros, em ambientes restritos, onde há amizades e incompatibilidades, influências e interesses, é caminho certo para as maiores injustiças. Ainda por cima num país e numa sociedade medularmente sujeita à cunha, ao compadrio e à corrupção como é a nossa. Só não o vê quem se faz de cego. E por outro lado, os pressupostos da paranóia avaliativa que tomou conta de todos os serviços, nem sequer tem por base o melhoramento deles, antes a justificação para cortar despesas em determinados sectores e propiciar relações de poder aos mais afoitos e menos escrupulosos.


Mas esta febre vai passar-nos, mais ano menos ano. Por um lado todos ou quase todos vão batotá-la o mais que puderem e por outro lado o que não se gasta/desperdiça com certas actividades menos justificáveis vai esbanjar-se na montagem dos próprios sistemas de avaliação.


E quando o dinheiro escassear, lá se extinguem os excessos avaliativos.


Entretanto, eu e tantos outros professores que optámos por esta vida vamo-nos confrontar com dores imensas, ver e sofrer o que desejávamos não acontecesse e resistir enquanto a nossa (mais ou menos frágil) saúde o permitir. Bem fizeram aqueles que, mesmo com algum prejuízo, fugiram a tempo. E alguns bem mereciam o que lhes pagavam. Pobre país.

O que se passa com a avaliação dos professores ( provavelmente também o será noutras áreas) é repugnante ( não consigo encontrar uma palavra mais branda para classificar o processo).

Só há dias soube, pasme-se, que os resultados da avaliação não são tornados públicos; cada professor é informado apenas da sua avaliação. Pensei que esses tempo tinham acabado definitivamente com o 25 de Abril, mas ressurgiram e para pior.

Que democracia é esta?

Ainda sou do tempo dos reitores. No Liceu Sá de Miranda em Braga  tive como Reitor o Dr Feliciano Ramos e no Alexandre Herculano, no Porto, o Dr. Martinho Vaz Pires.

Sempre fui contestatária mas creio que nenhum deles me terá prejudicado por esse facto.

Neste momento, para além dos perigos que José Batista da Ascenção refere,  temo que alguns directores executivos (creio que é esta a designação) usem a avaliação como represália para quem não é suficientemente servil.

Não sendo tornada pública a avaliação, como podemos ter a certeza de que os subservientes e bajuladores não serão beneficiados? Infelizmente tenho sérias razões para crer que assim acontece em alguns casos. Da minha experiência como orientadora de estágio durante mais de vinte anos e como responsável pela cadeira de Didáctica da Física, no Mestrado em Física para o Ensino(FCUP) durante nove anos pude aperceber-me do empenho e desempenho de muitos professores e da sua evolução no tempo. Em muitos casos o resultado dessa avaliação cheia de secretismos indefensáveis, é duma injustiça gritante


E lembro  Chico Buarque e as suas duas versões de Tanto Mar
Versão 1

Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


Versão 2

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim


Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

E depois de tanto mar, Abril
Abril


Foram cravos vermelhos nos canos das espingardas
Cortaram-se grilhões,
abriram-se prisões,
soltaram-se emoções,
há muito adormecidas.

Foram cravos vermelhos nos canos das espingardas
Após tão longa espera,
aquela primavera,
aquele Abril, trouxera
esperança a muitas vidas.

Foram cravos vermelhos nos canos das espingardas
Foi o sonho a flutuar,
foi o amor a pairar,
a alegria a fervilhar,
nas praças, nas avenidas.

Depois, murcharam os cravos nos canos das espingardas.
Por que hão-de sempre murchar as flores ?

Regina Gouveia

A terminar mais um quadro belíssimo de Edith Cohen Gewerc cujo título é  Caminhos rochosos.


Cada vez mais rochosos são os caminhos de um professor. E é pena porque ser professor é, porventura, uma das mais belas tarefas que o ser humano pode desempenhar

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Amor é… proteger o Planeta

Não tinha qualquer intenção de falar sobre o dia de S. Valentim até porque,  dos meus tempos de namorada,  não me recordo de se festejar tal dia.

Aliás, segundo a Wikipédia, até há alguns anos seria festejado em 12 de Junho tal como ainda o é no Brasil

O que me levou a falar sobre o dia de S. Valentim foi o artigo Amor é… proteger o Planeta que deu o título a esta postagem e que foi publicado em Ciência Hoje
E porque estamos a falar de namorados, não posso deixar de fazer referência aos lindíssimos lenços de namorados. Fui encontrar esta e outras imagens no endereço anexo  de onde também extraí também o texto


É provável que a origem dos "lenços dos namorados" ou "lenços de pedidos" esteja nos lenços senhoris do sec. XVII - XVIII, adaptados depois pelas mulheres do povo, dando-lhe consequentemente um aspecto característico.
Antes de tudo, eles faziam parte integrante do traje feminino e tinham uma função fundamentalmente decorativa. Eram lenços geralmente quadrados, de linho ou algodão, bordados segundo o gosto da bordadeira.
Mas não é enquanto parte integrante do traje feminino que nos interessa o seu estudo, mas a sua outra função, não menos importante, e da qual vem o nome: a conquista do namorado.
A moça quando estava próxima da idade de casar confeccionava o seu lenço bordado a partir dum pano de linho fino que porventura possuía ou dum lenço de algodão que adquiria na feira, dos chamados lenços da tropa.
Para realizar esta obra, a rapariga utilizava os conhecimentos que possuía sobre o ponto de cruz, adquiridos na infância, aquando da confecção do seu marcador ou mapa.
Depois de bordado o lenço ia ter às mãos do "namorado" ou "conversado" e era em conformidade com a atitude deste de usar publicamente ou não, que se decidia o início duma ligação amorosa.
Os lenços carregam consigo, por isso, os sentimentos amorosos duma rapariga em idade de casar, revelados através de variados símbolos amorosos como a fidelidade, a dedicação, a amizade, etc.
Estes lenços eram originariamente em ponto de cruz, e por ser um ponto trabalhoso obrigava a bordadeira a passar, durante muitas semanas e mesmo durante meses os serões na sua confecção.
Como a escassez de tempo passou a ser um facto na vida moderna, a mulher deixou de ter tanto tempo para a confecção destes lenços, o ritmo de vida tornou-se mais intenso e a mulher teve que solucionar este problema adoptando no bordado outros pontos mais fáceis de bordar.
Com esta alteração outras se impuseram no trabalho decorativo dos lenços dos namorados: o vermelho e o preto inicial vai dar origem a uma grande quantidade de outras cores, e com elas novos motivos decorativos se impuseram. Os lenços não deixaram porém de ser ainda mais expressivos, acompanhados muitas vezes de quadras de gosto popular dedicados àquele a quem era dirigida tão grande fantasia: O Amado.


Finalmente, porque o tema é o Amor , incluo alguns poemas de amor, começando pelo “Soneto da fidelidade” de Vinícius de Moraes dito pelo autor


Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões


Enquanto não superarmos

a ânsia do amor sem limites,

não podemos crescer

emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos

a dor de nossa própria solidão,

continuaremos

a nos buscar em outras metades.

Para viver a dois, antes, é

necessário ser um.

Fernando Pessoa



Poema do Amor

Este é o poema do amor.

O poema que o poeta propositadamente escreveu

só para falar de amor, de amor, de amor, de amor,

para repetir muitas vezes amor, amor, amor, amor.

Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico

contar as palavras que o poeta escreveu,

tantos que, tantos se, tantos lhe, tantos tu, tantos ela, tantos eu,

conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu

foi amor, amor, amor.

Este é o poema do amor.

António Gedeão


E depois destes poemas “maiores” , de entre muitos outros que poderia ter escolhido, quatro poemas “bem menores”


Pesadelo

Não sabia quão grande era o amor

mas ao imaginar tê-lo perdido

foi de tal modo intensa a dor,

como um buraco negro

foi tão densa que tudo à minha volta era vazio.

Sem luz, sem qualquer crença,

tudo se tornou lúgubre, frio.

A vida ficara sem sentido.

(publicado em Os dias do Amor)


Pasárgada

Agrilhoada a vontade

resta sempre livre o pensamento.

Com ele parto para Pasargada

em busca dum amor que não existe

ou se existe é noutro espaço e noutro tempo,

um amor despojado de ciúme em que a paixão, sublime,

porque terna ainda que não perdure é sempre eterna


É tarde…

Chegaste e na minha mão depuseste uma rosa vermelha.

Tomei-a por centelha de um amor

que em tempos pressentia vagamente

mas que supunha há muito tempo ausente.

Emudeci.

As lágrimas teimavam em aflorar-me os olhos

cobrindo-os de uma névoa através da qual te via,

enquanto tristemente te sorria.

Ah, se tu soubesses das cartas que te escrevi e que rasguei,

das telas que mentalmente eu pintei,

todas elas mar azul e sol poente,

envoltas num amor ardente, o amor que então te dediquei.

Ah, se tu soubesses do mar de ilusões em que vaguei

na esperança de te ver, por entre a maresia,

chegar um dia, talvez com uma rosa vermelha na mão,

e pleno de paixão, envolver-me num sufocante abraço.

Mas não e então esmoreci.

Agora será tarde para começar.

Nas lágrimas que me turvam o olhar

não sei se ainda há amor ou só cansaço.


Não sei…

Não sei se era amor o que sentia

Só sei que em sonhos eu te via

e pressentia que por ti

tinha esperado desde sempre

Não sei se era amor o que sentia

sei que eras a luz que mal surgia

encandeava tudo num repente

Não sei se era amor o que sentia

mas sei que ao amar-te assim

tão loucamente

só poderias ser uma utopia

e que existias somente em minha mente.

Regina Gouveia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Magnetismo terrestre

Continuando a falar da magia do magnetismo, vamos falar um pouco do magnetismo terrestre

“Observei um milagre (…) quando em criança, com 4 ou 5 anos de idade, o meu pai me ofereceu uma bússola.” (in Pais Abraham, Subtil é o Senhor. Vida e pensamento de Albert Einstein, 1993, Gradiva, pag 57).

Em 2005 comemorou-se o Ano Internacional da Física (AIF).  Foi escolhido esse ano por corresponder ao centésimo aniversário do "ano milagroso" (annus mirabilis) da produção científica de Albert Einstein, ano em que publicou quatro artigos lendários que criaram ou forneceram a base para o desenvolvimento de outros tantos campos fundamentais da Física, a saber: a Teoria Quântica, a Física Estatística, a Teoria da Relatividade e a Física Atómica e Nuclear

Nesse contexto escrevi um poema dedicado a Einstein e que foi divulgado num site dedicado ao AIF


Einstein


Fascinou-o uma bússola que lhe deram em menino


Talvez apontasse, bem cedo, o seu destino cujos indícios não eram evidentes.


Como imaginar que um funcionário do registo de patentes,


com o estigma da época -era judeu -


pudesse vir a ombrear um dia com Newton e Galileu?


Espírito inquieto, infatigável, havia de empreender uma aventura notável


pelos trilhos da ciência.


Para a luz, sublime, etérea, com audaz clarividência,  previu a curvatura face à gravitação.


Os dados colhidos num eclipse solar deram-lhe razão.


Nobel da Física, ganhou o galardão pelos estudos da interacção luz e matéria.


Tolerante, livre, com a maior dignidade caminhou sempre em busca da verdade


o que originou na ciência, uma revolução -


a relatividade, com novas relações espaço –tempo,


que ainda não cabem no vulgar entendimento.


Talvez qualquer mortal ouse afirmar que a velocidade provoca no tempo uma dilatação


enquanto que no espaço provoca contracção.


(provavelmente não sabe é o porquê),


e com idêntica ousadia falará na relação massa-energia,  E = mc2 que, por ironia,

iria contribuir para a chacina em Nagasaqui e também em Hiroshima.


Entristeceu-o tão bárbara imprudência, tanta estupidez no uso da ciência.


“Com armas podem vencer-se guerras, mas a paz não se conquista”


era o seu lema de empenhado pacifista


Um dia deixou de bater o coração mas a inteligência deixou-a, como legado, para a ciência.


O seu espírito, liberto agora das pressões do mundo,  talvez vagueie num espaço-tempo mais profundo


a uma velocidade, quiçá maior que c.

Regina Gouveia in Poeira Cósmica

Na altura tinha dois livros a aguardar publicação. Um era Poeira Cósmica. O outro foi publicado em 2006 com o título Magnetismo Terrestre. Foi prefaciado pelo Professor Doutor Ferreira da Silva ( a quem mais uma vez agradeço). Transcrevo um excerto desse prefácio

O título desta colectânea de poemas repassados de saudades de um tempo e de um lugar (que afinal é um universo) é a transposição alegórica de uma temática científica da área da Física, o que não surpreende porque a autora, docente de Física e Química pode, com a maior naturalidade, emoldurar o seu estro em referentes científicos ainda que metafóricos, como é o caso presente e foi também o caso das obras anteriores Reflexões e Interferências e Poeira Cósmica.

Poeira cósmica, que em princípio, deveria ter sido publicado antes de Magnetismo Terrestre, continua a aguardar publicação

De Magnetismo Terrestre (livro), onde cada poema é acompanhado de uma foto da autoria de Fernando Gouveia,  incluo dois poemas onde emerge o magnetismo terrestre(fenómeno físico) e duas fotos

Outrora


Outrora, seriam por certo diferentes

o achatamento polar, o campo magnético, a atracção lunar

e, como tal, o peso das coisas, as marés.

Diferença subtil, irrelevante,

pois se esse tempo, à escala humana é já distante,

à escala do Universo ainda é presente.

Outrora, seriam por certo diferentes as gentes que no castro habitavam

mas como hoje, sofriam, amavam e guerreavam em sangrentas batalhas,

deixando virgens, talvez para sempre, tímidas donzelas.

Testemunhas desse tempo, as muralhas,

naturais do lado do abismo, do outro lado humana construção,

como também humana a destruição que de onde em onde grassa.

Ignorou-se que enquanto o tempo passa,

as pedras guardam na memória os feitos da história,

o sangue derramado, a glória, o revés.

Em terras que com sangue foram adubadas,

florescem hoje papoilas encarnadas

por entre alvas estevas, roxas arçãs e giestas amarelas.

Na Primavera, todas elas salpicam a ladeira do castro até ao rio.

Deste, quem sabe, o rumor será ainda eco dum clamor,

outrora lançado no vazio.





Andorinhas

Sentada no terraço,

vejo as andorinhas entrar e sair dos ninhos na casa do vizinho.

O vizinho morreu e a casa está abandonada,

mas as andorinhas, de luto, como é sempre o seu vestir,

talvez pelo vizinho, os que o antecederam e os que ainda hão-de vir,

continuam a voltear em torno dos ninhos na casa agora abandonada

do vizinho que morreu.

Sempre me lembro das andorinhas no beiral da casa do vizinho.

Sei que as de agora não são as mesmas que as de outrora

mas talvez de geração em geração, tal como passa o sentido de orientação,

tenha passado a informação

da minha existência no terraço em frente à casa do vizinho

desde quando o meu pai me dizia poesia que falava da sua migração.

Orientadas pelo campo magnético terrestre, pelo sol, pelas estrelas

ou simplesmente navegando à vista, aí vão elas seguindo uma pista

que as trará de volta novamente, quando se iniciar o tempo quente

Só que um dia já não haverá casa do vizinho,

nem eu estarei no terraço a recebê-las.





E a propósito do magnetismo terrestre fenómeno físico …


A Terra, um imenso íman???




Em 16OO William Gilbert, médico da rainha Isabel I de Inglaterra, foi o primeiro a explicar o funcionamento da bússola magnética.

Afirmou que toda a Terra é um imenso íman cujo campo magnético actua no pequeno íman que é a agulha da bússola, alinhando-a na direcção norte-sul. No início do século XX, Einstein considerava que a origem do campo magnético terrestre era um dos problemas fundamentais da física ainda não resolvidos. Apesar dos avanços científicos entretanto conseguidos, no início do século XXI a origem do campo magnético terrestre continua envolta em mistério.

0 campo magnético terrestre comporta-se como se o centro da Terra fosse ocupado por uma poderosa barra magnetizada. 0 alongamento desta barra hipotética fazia um ângulo de cerca de 11º em relação ao eixo de rotação do nosso planeta. 0 campo magnético pode ser visualizado como uma série de linhas de força que, em cada local do espaço nos indicam a orientação da força magnética.

Apesar do modelo da barra magnetizada explicar perfeitamente a geometria do campo magnético terrestre, ele não pode ser aplicado ao nosso planeta. Com efeito, experiências laboratoriais mostram que os materiais só conseguem reter um campo magnético permanente se estiverem a temperaturas inferiores ao denominado ponto de Curie que, para a maioria dos minerais susceptíveis de serem magnetizados, anda perto dos 500º C. Ora o manto e o núcleo terrestre estão demasiado quentes para reterem um campo magnético permanente.

Outra forma de criar um campo magnético é através de correntes eléctricas. Adaptando os conceitos do electromagnetismo ao estudo da Terra, os cientistas avançaram com a denominada teoria do dínamo. À semelhança do manto, o núcleo externo líquido estará agitado por correntes de convecção. Esta movimentação é considerada como capaz de produzir tanto as correntes eléctricas como o campo magnético necessário para manter um dínamo no núcleo, tanto mais que este é formado essencialmente por ferro no estado líquido (que é um bom condutor). É a partir deste dínamo fluido existente no núcleo externo que é gerado o campo magnético terrestre. Embora ainda existam muitos aspectos por esclarecer, esta ideia parece ser a melhor explicação para o magnetismo terrestre.

Algumas rochas, como os basaltos, são bastante ricas em ferro e tornam-se ligeiramente magnetizadas pelo campo magnético terrestre à medida que arrefecem abaixo do ponto de Curie. Os grãos dos minerais passam então a comportar-se como minúsculos ímanes “fósseis”, orientados de acordo com o campo magnético terrestre existente na altura de formação da rocha. Através do estudo dessas rochas é possível determinar o campo magnético antigo, denominado paleomagnetismo ou magnetismo fóssil. O paleomagnetismo tornou-se uma ferramenta indispensável para o estudo do passado do nosso planeta. Com efeito, a determinação da orientação do campo magnético numa amostra e a sua comparação com o campo magnético actual, permite-nos saber se a rocha estudada terá sofrido alguma rotação desde o seu arrefecimento inicial. Por outro lado, a inclinação das linhas de força do campo magnético terrestre varia com a latitude; se determinarmos a inclinação magnética em amostras de rochas antigas, poderemos também ficar a saber a paleolatitude dos locais de formação das rochas. Estes dados são fundamentais para estudar as movimentações sofridas pelos blocos que constituem a superfície da Terra.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A magia do magnetismo…

(…)Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.
Primeiro trouxeram o íman. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando se desencravar, e até os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. “As coisas têm vida própria”, apregoava o cigano com áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a sua alma.” José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível se servir daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra.
Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: “Para isso não serve.” Mas José Arcadio Buendía não acreditava, naquele tempo, na honradez dos ciganos, de modo que trocou o seu jumento e um rebanho de cabritos pelos dois lingotes magnetizados. Úrsula Iguarán, sua mulher, que contava com aqueles animais para aumentar o raquítico património doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. “Muito em breve vamos ter ouro de sobra para assoalhar a casa”, respondeu o marido. Durante vários meses empenhou-se em demonstrar o acerto das suas conjecturas. Explorou palmo a palmo a região, inclusive o fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o conjuro de Melquíades (...)

(Gabriel Garcia Marquez em “Cem anos de solidão”

Esta ideia de que um íman atrai qualquer metal é vulgar nas crianças e também em muitos adultos. No entanto, basta aproximar um íman de um pedaço de chumbo, de alumínio, de ouro, de cobre, de prata para constatar quanto a ideia é incorrecta.

Também é vulgar a identificação da atracção de um clip por um íman com a atracção de pequenas partículas de papel por uma caneta friccionada na manga da camisola.

Thales de Mileto, matemático grego (~624 a.C. - ~546 a.C. ) descreveu as propriedades dos ímanes e da eletricidade estática, e considerou que os dois fenómenos tinham a mesma natureza. No século XVI, William Gilbert (1544-1603), fez uma distinção entre os dois fenómenos no seu livro De Magnete,  (sobre os ímanes, os corpos magnéticos e o grande iman terrestre) publicado em 1600


Ali descreve diversas experiências sobre magnetismo e electricidade estática. Com base nos seus estudos admitiu que a Terra se comportava como um magnete e seria esse o motivo pelo qual as bússolas têm servido para orientação desde há muitos anos. (Crê-se a bússola teve a sua origem na China, no século IV A.C.)

No século XIX a electricidade e o magnetismo passaram  a fazem parte de um mesmo corpo de conhecimentos - o electromagnetismo.Para isso contribuíram essencialmente os trabalhos de Oersted, Ampére  e Faraday.

Efectivamente Oersted verificou, pela primeira vez, que uma agulha magnética se “desnorteia” não apenas na presença de um íman mas também na presença de um circuito eléctrico
Por outro lado, Faraday verificou que num circuito fechado constituído apenas por uma bobina e um galvanómetro, é possível detectar a passagem de uma corrente eléctrica desde que se movimente adequadamente um íman junto da bobina

A magia do magnetismo levar-nos-ia muito mais longe mas hoje terminaremos Com as  borboletas migratórias e  as suas bússolas internas

Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010 (Ciência Hoje)

Dois estudos, recentemente publicados – um na «Science» e outro na «Nature» –, sugerem que aves e outros animais migratórios se regem pelo campo magnético terrestre para se orientarem e chegar mais depressa ao destino.
As borboletas que migram do Norte da Europa para o mediterrâneo, no Outono, como as Autographa gamma, por exemplo – e inversamente durante a Primavera –, não se deslocam ao sabor do vento; e o estudo original determina que estes insectos sabem como aproveitar rapidamente para viajar e corrigem o seu destino caso o vento não sopre de feição.
O artigo da «Science» indica que as borboletas têm uma espécie de bússola interna; já o texto da «Nature», acrescenta algumas explicações.
A equipa de Jason Chapman, do Rothamsted Research, BBSRC, G-B, desenvolveu radares para detectar a passagem de borboletas migratórias, desde centenas de metros de altitude. Os investigadores britânicos centraram, especialmente, o estudo em três espécies nocturnas e uma diurna. Uma das borboletas nocturnas viaja a mais de 400 metros de altitude. Os insectos migratórios deslocam-se em média a 54 quilómetros por hora, mas podem chegar aos 90 quilómetros por hora se o vento for forte – o que é mais do que a sua constituição lhes permite.
Estas boboletas podem chegar ao destino pretendido apenas após algumas noites. Durante a Primavera, os ventos sopram para Norte, segundo sublinham os investigadores, e isto facilita bastante o trajecto. Já no Outono, são orientados para Este, mas podem sempre corrigir a trajectória.
Um modelo usado em meteorologia para a dispersão de partículas na atmosfera permitiu confirmar que os caminhos preferidos pelas borboletas migratórias nem sempre dependem do vento. Segundo estes modelos, percorrem mais 40 quilómetros, devido à correcção feita.
Ainda Steven Reppert, da University of Massachusetts (EUA) decidiu estudar uma proteína fotorreceptora presente em insectos e vertebrados: o criptocromo. Nas borboletas monarcas (Danaus plexippus), que viajavam perto de quatro mil quilómetros por hora, entre a América do Norte e o México, esta proteína permite detectar o campo magnético terrestre.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dos pré-conceitos a Rosa Lobato Faria

Qualquer educador sabe que as crianças transportam para o ensino formal uma série de pré-conceitos ( concepções alternativas, ideias prévias e mais um desfilar de nomes que querem significar praticamente o mesmo) que, muitas vezes colidem com o conceito científico, oferecendo aparentemente uma melhor explicação para os fenómenos

E não posso deixar de citar Gedeão in Poema para Galileu

(...)Eu queria agradecer-te, Galileo,


a inteligência das coisas que me deste.

Eu, e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar- que disparate, Galileo!

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça

sem a menor hesitação-

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.(...)


Mas a que propósito  falo de pré-conceitos?

Porque os pré-conceitos existem em muitas outras situações.

Quando em 1995 Rosa Lobato Faria publicou o Pranto de Lúcifer, não senti qualquer curiosidade em ler o livro. Funcionou o pré-conceito. Associava a autora aos festivais da canção e a algumas participações em programas do Herman José pelo que, pressupunha à partida, que o seu romance não corresponderia ao meu género de leitura Muita crítica foi favorável mas, se por um lado não me deixo impressionar exclusivamente pela crítica, por outro todos sabemos como ela funciona muitas vezes, especialmente para autores muito mediatizados. Em 1996 surgiu a obra  os Pássaros de Seda. Hesitei um pouco em comprar o livro mas pensei que deveria ler uma das obras para assim fundamentar ou não o meu pré-conceito. Comprei-o.
Gostei imenso . Pela fantasia lembrou-me um pouco alguns títulos de Isabel Allende. Posteriormente comprei vários outros livros da autora, não só para mim, mas também para oferecer.

Daquele meu preconceito peço desculpa, postumamente a Rosa Lobato Faria.
Quem sabe, agora possa bordar pássaros, não de seda, mas feitos da luz das estrelas.

(…)Foi numa exaltação quase febril que a Diamantina bordou a primeira colcha. Era cor de pérola, coberta de flores inventadas, beges, amarelas, todas as cores do pêssego, da ameixa e da laranja e ao centro um deslumbrante pássaro cor-de- fogo que arrepiava de tão improvável (…)

(…)Vou bordar esta colcha em tons de lua, azuis e prateados. Vou bordá-la sozinha, em estado de paixão e quando estiver pronta virei à Pedra Moura e hei-de pendurá-la na sala para visitas imaginárias, naquele lugar vazio, ao lado do lençol das amostras. Para que o sortilégio que foi a minha vida, que é a vida, tenha o sabor do eterno retorno.

In Pássaros de Seda