Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mais vale tarde que nunca…

Sou fã incondicional de Chico Buarque desde a “Banda”. No âmbito musical, tenho quase toda a sua obra. Quando saiu o seu livro Estorvo, o mesmo constituiu um verdadeiro estorvo para mim. Familiares e amigos, sabendo da minha “devoção” a Chico Buarque, resolveram oferecer-me o livro pelo Natal. Recebi seis exemplares…


Sou franca. Não gostei do livro ( e ainda há pouco tempo o reli e não mudei muito a minha opinião). Quando saiu Benjamim resolvi adquirir o livro . Achei este mais interessante mas mesmo assim li-o sem grande entusiasmo. Quando saiu Budapeste decidi não o comprar mas foi-me oferecido. Li-o com agrado.

Quando saiu Leite Derramado, comecei a lê-lo na livraria que mais frequento (a Leitura no “Cidade do Porto”). Comprei-o de imediato pois não conseguia para de o ler. Já o reli e, apesar de já ter lido várias críticas muito negativas, continuo a achar que é um livro fabuloso.

Por isso, quando lhe foi atribuído o Prémio PT,  pensei dedicar-lhe um post mas só agora me foi possível.

Mais vale tarde que nunca…


No Jornal Público pôde ler-se :
Com obra "Leite Derramado" Chico Buarque é o vencedor do Portugal Telecom de Literatura 2010

(…)Receber este prémio no valor de 100 mil reais (42.416 euros) para o escritor - que trabalha com "o nosso idioma", apesar de muitas vezes "não perceber o que os portugueses estão a falar" -, é "um abraço a Portugal também e aos demais países da língua portuguesa", disse respondendo a uma pergunta do PÚBLICO, no final da cerimónia.

(…)A noite foi também de homenagem ao Prémio Nobel da Literatura 1998, José Saramago (1922-2010), que com "Caim" estava entre os dez finalistas mas foi retirado da lista a pedido da Fundação Saramago. Foi Pilar del Río, que em cima do palco, abriu o envelope, disse :"Toda a vida quis dizer isto" e leu o nome do vencedor: Chico Buarque e "Leite Derramado".

Imagens da cerimónia que foi também de homenagem a José Saramago,podem ver-se aqui




Também no JLpodemos ler :
 Chico Buarque distinguido com o Prémio PT
Chico Buarque é o grande vencedor da edição deste ano do Prémio PT de Literatura, um dos galardões mais importantes do Brasil. O júri atribuiu o 1.º lugar a Leite Derramado, em que o conhecio cantautor revisita os últimos cem anos da história brasileira (em segundo lugar ficou Outra Vida, de Rodrigo Lacerda, e, em terceiro, Lar, de Armando Freitas Filho). Recuperamos aqui a crítica que publicamos no JL n.º 1009 (de 3 de Junho de 2009), antes da saída do romance em portugal

Cinco anos depois de Budapeste, Chico Buarque regressa à escrita com um romance em tons sombrios. Leite Derramado não é apenas a história de uma família mas também o relato de décadas de História do Brasil. Já dizia Jorge Luís Borges que "o livro é uma extensão da memória e da imaginação"(...9

"Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra". Assim começa o quarto romance de Chico Buarque, um olhar sobre a vida, a partir do fim, movido por um impulso de regresso às origens. Eulálio d'Assumpção, aristocrata arruinado de Copacabana, encontra-se, aos 100 anos, numa cama de hospital, depois de ter sofrido uma grave fractura(...)

"Estou pensando alto para que você me escute", diz Eulálio que, logo nas primeiras páginas, lança uma dúvida ao leitor: para quem fala este homem que desmonta à nossa frente a sua vida? Falará apenas para a sua interlocutora ou para si próprio? Na verdade, Chico desenhou nesta história um protagonista complexo, à semelhança do José Costa de Budapeste. Tão complexo como entusiasmante(...)

O romance constrói-se sobre dois planos a história propriamente dita e o simbolismo do espaço em que se desenrola. O primeiro remete-nos, efectivamente, para o abandono de Eulálio pela mulher, Matilde, quando esta ainda amamentava a filha do casal. A história de Eulálio é contada de forma fragmentada, aos retalhos, ou não fossem estas memórias "um pandemónio" que só ganham sentido porque alguém as ouve ("sem você meu passado se apagaria"). Progressivamente, a saga familiar de Eulálio cruza-se com o segundo plano, uma imagem de um país visto através do olhar amargo de um narrador que transforma esta tragédia numa derrocada irreversível(...)

Os avanços e recuos dão lugar à justaposição de histórias em tempos diferentes, conseguindo atingir um efeito realista, e à sobreposição eficaz da ficção com a realidade. O olhar racista das elites e a mestiçagem são dois dos temas privilegiados que dão lugar a verdadeiras cenas tragicómicas protagonizadas por Eulálio que, ao descer ao ambiente da "cidade-dormitório", nem assim perde a altivez aristocrata ("em momento algum perdi a linha"). Deliberadamente ou não, a história da saga familiar de Eulálio é reveladora de um profundo conhecimento, por parte do autor, ao nível cultural e historiográfico. Leite Derramado pode ser, mais do que a história da ruína de uma família aristocrata, uma metáfora de dois séculos de história do Brasil republicano(…)

À medida que a narrativa se desenvolve, os espaços da vida do narrador vão sendo cada vez mais exíguos. Do chalé de Copacabana dos seus 20 anos passamos para um apartamento nas traseiras do chalé, seguimos para um apartamento menor na Tijuca, vemos o palacete da família em Botafogo ser vendido, a fazenda de infância transforma-se numa favela e a última morada do narrador é o antigo cemitério onde jaz o avô. Tudo converge para um estado que culmina, simbolicamente, na morte. Em relação ao narrador, o leitor desenvolve sentimentos contraditórios: pena, indiferença, raiva. Mas é de Matilde, cuja vida termina de forma dramática por causa dos preconceitos e dos ciúmes doentios de Eulálio, que se guarda uma imagem inesquecível. É Matilde, ao amamentar a filha (com o leite, símbolo de vida, amargo), que se converte numa imagem obsessiva para Eulálio(...)

A respeito desta personagem, Leyla Perrone-Moisés levanta uma hipótese bem interessante e a merecer desenvolvimento: e se este livro for, indirectamente, não a história de um homem mas a história de uma mulher, Matilde? Uma história triste, contada pela voz confusa de um narrador, que leva Matilde a juntar-se à galeria de personagens femininas de Chico Buarque. Matilde, mulher espontânea, que viveu uma história triste, à mercê do ciúme masculino, e que, ao longo do livro, atinge uma densidade poética, porque "a respiração de Matilde chamava as ondas"(...)

"Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências dessa gente toda, até o tempo de Napoleão". Regressa-se com facilidade ao passado, a esse tempo das origens, através da imaginação. Mas esse é um tempo irreversível, como o leite que se derrama e que não é possível recolher. Assim é a vida, a de Eulálio e a de todos os homens, única, irrepetível. A voz de Eulálio Montenegro d'Assumpção é, de algum modo, a voz de cada um de nós. Em Leite Derramado, Chico Buarque capta esta que é a essência da vida: todos vivemos a nossa história, a história do país, as nossas próprias ficções. Todos regressamos, mais cedo ou mais tarde, às origens, a esse tempo de infância onde, ainda menino, de calças curtas, Eulálio é levado pela mãe a despedir-se do tetravô no hospital(…)


A terminar ouçamos o autor lendo excertos do livro e o "cantautor" em três canções que evocam figuras femininas:

Terezinha

Rita

Joana Francesa

2 comentários:

  1. Já falei deste prémio no meu blogue e no do meu irmão. Não li o livro, só conheço amúsica desde os meus 30 anos. Tenho os discos de vinil dele e do Vinicius e Toquinho, Caetano e Bethania. Eram canções fabulosas e ainda são , mas já não têm o mesmo impacto em mim, não sei porquê.
    Obrigada pelo teu mail, comoveu-me muito.

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  2. Olá Regina. Despertou-me o desejo de ler o livro "Leite Derramado".Vou comprá-lo.

    Um beijo.

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