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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Platero e eu...

De 17 de Julho a 21 de Agosto, decorreu no jardim municipal de Alfândega da Fé uma exposição fotográfica ao ar livre “Fé nos burros”, que de imediato me transportou a um livro belíssimo “Platero e eu”




Deixo-vos com algumas imagens da exposição e alguns textos de “Platero e eu”

Platero e Eu é um livro magnífico, em prosa poética, da autoria de Juan Ramón Jiménez (Prémio Nobel de Literatura, em 1956).É um livro de afectos. Afectos por terras e gentes e, muito especialmente, pelo burrito Platero. Com ele podemos percorrer as ruas de Moguer, cruzando-nos com alguns dos seus habitantes (a filha do carvoeiro que entoa uma canção de embalar, a tísica, o menino pateta, o veterinário Darbón, os meninos pobres que brincam, o padeiro que vai entregar o pão ao meio-dia, etc.).

Recebi-o, teria eu os meus doze anos, creio que pelo meu aniversário. Já o li e reli vezes sem conta.


Eis alguns textos

Platero

Platero é pequeno, peludo, suave, tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.

Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal roçando, as florinhas róseas, azuis - celestes e amarelas... Chamo-o docemente: “Platero”, e ele vem 5 até mim com um trote curto e alegre que parece rir .

Come o que lhe dou. Gosta das tangerinas, das uvas moscatéis, dos figos roxos, com a sua cristalina gotita de mel...

É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra. Quando passo nele, aos domingos, pelas últimas ruelas da aldeia, os camponeses, 10 vestidos de lavado e vagarosos, param a olhá-lo:

- Tem aço...

Tem aço. Aço e prata de luar, ao mesmo tempo.


O menino pateta


Sempre que voltávamos pela Rua de S. José, o menino pateta estava à porta de sua casa, sentado numa cadeirinha, olhando os outros passar. Era uma dessas crianças a quem nunca chega o dom da palavra nem a dádiva da graça; menino alegre ele, e triste de ver; para sua mãe, tudo, nada para os outros.

Um dia, quando passou pela rua branca aquele mau vento negro, o menino não estava à porta. Um pássaro cantava no umbral solitário, e eu lembrei-me de Curros, mais pai do que poeta, que, quando ficou sem o filho, perguntou por ele à borboleta galega: Volvoreta d’aliñas douradas...

Agora, que vem a Primavera, penso no menino pateta, que da Rua de S. José partiu para o céu. Deve estar sentado na sua cadeirinha, ao lado das rosas, vendo com seus olhos, outra vez abertos, a passagem dourada dos bem-aventurados.


Asnografia

Leio num dicionário: «Asnografia: s. f.: diz-se, ironicamente, da descrição do asno».

Pobre asno! Tão bondoso, tão nobre, tão inteligente como és! Ironicamente... Porquê? Nem uma descrição séria mereces tu, cuja descrição exacta seria um conto de Primavera? Se ao homem que é bom deveriam chamar asno! Se ao asno que é mau deveriam chamar homem! Ironicamente... De ti, tão intelectual, amigo dos velhos e das crianças, dos regatos e das borboletas, do sol e dos cães, das flores e da lua, paciente e reflexivo, melancólico e amável, Marco Aurélio dos prados...

Platero, que sem dúvida compreende, olha-me fixamente com seus grandes olhos brilhantes, de uma serena firmeza, onde o sol brilha, diminuto e refulgente, num breve e convexo firmamento negro. Ai! Se a sua peluda cabeçorra idílica soubesse que eu lhe faço justiça, que eu sou melhor que esses homens que escrevem Dicionários, quase tão bom como ele!

E escrevi à margem do livro: «Asnografia: s. f.: deve dizer-se, com ironia, claro está!, da descrição do homem imbecil que escreve dicionários».


Darbón

Darbón, el médico de Platero, es grande como el buey pío, rojo como una sandía. Pesa once arrobas. Cuenta, según él, tres duros de edad.

Cuando habla, le faltan notas, cual a los pianos viejos; otras veces, en lugar de palabra, le sale un escape de aire. Y estas pifias llevan un acompañamiento de inclinaciones de cabeza, de manotadas ponderativas, de vacilaciones chochas, de quejumbres de garganta y salivas en el pañuelo, que no hay más que pedir. Un amable concierto para antes de la cena.

No le queda muela ni diente, y casi sólo come migajón de pan, que ablanda primero en la mano. Hace una bola y ¡a la boca roja! Allí la tiene revolviéndola, una hora. Luego, otra bola, y otra. Masca con las encías, y la barba le llega, entonces, a la aguileña nariz.

Digo que es grande como el buey pío. En la puerta del banco, tapa la casa. Pero se enternece, igual que un niño, con Platero. Y si ve una flor o un pajarillo, se ríe de pronto, abriendo toda su boca, con una gran risa sostenida, cuya velocidad y duración él no puede regular, y que acaba siempre en llanto. Luego, ya sereno, mira largamente del lado del cementerio viejo:

—Mi niña, pobrecita niña...



Podem encontrar mais alguns textos em

http://namoradosdosapo.17.forumer.com/a/posts.php?topic=173&start=0

A finalizar e porque ao ver um burrico me vem à memória “A moleirinha” de Guerra Junqueiro, aqui fica o poema cantado por Maria de Lurdes Resende

2 comentários:

  1. Olá Regina . Que lindos textos escolheu de "Platero e eu". Eu conheço o livro mas, se o lí, já foi há muito tempo. Decerto a Regina também conhece os burrinhos de Miranda do Douro. Bela iniciativa para salvar a espécie em extinção, mas quase sem apoios, como é costume. Quanto
    à moleirinha conheço-a bem. O meu pai era um grande admirador de Guerra Junqueiro.

    Um abraço.

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  2. Platero e eu é um livro belíssimo. Por vezes sinto necessidade de relê-lo.
    O meu pai também era um grande admirador de Guerra Junqueiro e gostava particularmente de " A velhice do Padre Eterno"

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