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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um reino maravilhoso

Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.
Miguel Torga, em “ Um Reino Maravilhoso”


Na minha modesta obra constam quatro livros de poesia (deve sair mais um ainda em 2009) e tenho ainda mais cinco para publicar. Em 2004 a Câmara Municipal de Alfândega da Fé publicou o meu primeiro, e até agora único livro de ficção, embora esteja prevista para breve a publicação de um segundo. Em ambos emerge o meu fascínio pelo Nordeste Transmontano onde cresci, o meu reino maravilhoso onde passo genericamente todo o mês de Agosto.

Viemos no dia 31 de Julho e trouxemos connosco os dois netos mais crescidos, a Rita (8 anos) e o Ju (4 anos).
Ambos adoram passar uns dias na casa onde eu cresci, que se mantém praticamente igual. Apenas o lagar do vinho foi transformado numa mini-piscina e a adega vai sendo pouco a pouco transformada numa espécie de museu rural.

Como vem sendo hábito, passada uma semana vêm os pais das crianças. No dia da chegada são brindados com uma pequena peça de teatro cujos actores são os meus netos, juntamente com uma amiguinha que também aqui passa férias na mesma altura e que desde o ano passado intervém na peça de teatro que tem lugar no Castelo de Bragança, peça de cariz histórico escrita e encenada pelo pintor e escritor António Afonso, meu amigo de infância.

Mas voltemos à “nossa peça”. O argumento é criado pelas crianças. Cabe-me a mim escrever os textos e improvisar cenários e trajes. A minha neta fez questão que o irmão, com um ano, também entrasse na peça. E assim, a rainha Ricky, com o “filho” ao colo, recebeu no seu castelo a rainha Marty. De seguida depôs o príncipe nos braços da aia( a mãe “de verdade”). As rainhas conversaram enquanto bordavam e o meu neto, feito aio, levou-lhes um tabuleiro com chá que depois retirou, acompanhando de grandes vénias as entradas e saídas . A rainha Ricky anunciou à rainha Marty que iriam ver parte do ensaio geral de uma peça que iria ter lugar no palácio.

Foi então que o meu neto, de capa máscara e espada, montado num cavalo de pau, irrompeu pelo palco “Eu sou o cavaleiro valente, venço tudo o que me aparece à frente” e investindo sobre um inimigo (calças, casaco adamascado e chapéu pendurados numa cruzeta) atira o inimigo ao chão. Regressa ufano ao centro do palco e diz “Eu sou o cavaleiro maltês, venço sete de uma vez”.

A assistência era obviamente constituída pelos pais, avó, irmão e prima da rainha Marty, os pais e o irmão(por instantes actor) da rainha Ricky e os pais do cavaleiro valente, que condicionou o argumento pois desde sempre impôs que só entraria na peça se houvesse uma luta…

Na semana que antecedeu o teatro, para além dos ensaios houve as idas ao rio de margens alcantiladas, de praias de areia e de calhaus rolados onde se misturam os cheiros a erva-peixeira, a tomilho, a arçã, a esteva, a orégãos. Em breve, com a construção da barragem do Baixo Sabor, o rio, considerado por muitos, o mais selvagem da Europa, dará lugar a uma albufeira e, a meu ver, este reino maravilhoso ficará mais pobre.

No dia sete de Agosto fomos todos almoçar ao convento de Balsamão pois na véspera tinha-lhes contado a lenda dos cavaleiros das esporas douradas que envolve Alfândega da Fé, Chacim, Castro Vicente e Balsamão. Aproveitámos para ir visitar ali perto, um museu arqueológico junto à barragem do Azibo, muito interessante mas muito mal assinalado pelo que não foi fácil encontrá-lo, e um pouco parado pela escassez de verbas…Acresce ainda que no convento, ao pedirmos indicações sobre o museu, constatámos que desconheciam a sua existência bem como a do museu rural de Salselas, também ali perto e que nós já tínhamos visitado no ano passado. Há muito a fazer pela cultura em Portugal…

De regresso tomámos um banho numa das muitas praias da barragem do Azibo.

No dia seguinte os meus filhos partiram e o meu neto Ju também, embora regresse no dia 25. Ficaram a Rita, a mãe e o irmão. O pai regressou terça feira e na quarta fomos ver o Museu do Côa. De caminho almoçámos peixes do rio, na Foz do Sabor. Aliás “uma ida aos peixes” é prática obrigatória nas “férias” de Verão…

Na quinta feira, depois do jantar, netos e respectivos pais, partiram rumo ao Porto, para prosseguirem férias no Algarve. A minha neta estava muito “dividida” . Queria ficar mais tempo, mas também queria ir para o Algarve. Ao partir abraçou-se a mim com os olhitos rasos de lágrimas.

E eu, triste por vê-los partir, mas ao mesmo tempo feliz por sentir que para eles, este reino ainda é um reino maravilhoso. Até quando?

4 comentários:

  1. Que lindo texto que escreveu!!!!! E que maravilhosas férias proporcionou aos seus netos!!!!
    Relmente ainda há reinos maravilhosos no nosso país que a pouco e pouco vão desaparecendo. Veja o que está a acontecer ao Parque de Peneda Gerês e a outras regiões com os incêndios!!!!!
    E a barragem do Sabor que, segundo o Professor Dalmindo, era o ùnico rio selvagem português!!!!
    Sabe que já comi peixinhos do Sabor num passeio da UPP?
    Gostei muito deste seu post e espero que continue a passar umas muito boas férias.

    Um beijo.

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  2. Estou na Madeira com os meus dois filhos e também aqui encontro memórias maravilhosas. Passei a minha lua de mel aqui e cá voltei mais tres vezes. Não tenho os meus netos, mas qualquer dia trago-os cá tb...é o meu reino já que não tenho raizes no campo, nem na provincia. a Praia da luz é um local sagrado da minha familia, mas nem sempre está livre.
    Compreendo a lágrima da tua neta, mas não devemos separar os filhos dos pais nas férias...sou muito firme nisso, acho que é a unica altura em que estão juntos e podem fazer coisas giras. O meu filho Joao tem estado a tomar conta do filho de 18 meses todas as manhas em Harvard há um mês e agora com os outros dois para a minha nora poder trabalhar para o doutoramento. Os pais tem de estar com os filhos e como avó, nunca os substituiria a não ser em caso de necessidade. Não te estou a censurar, ainda bem que tens a possibilidade de estar com eles assim na tua terra mãe.

    benvinda ao blogue!

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  3. Olá Regina,

    As nossas raizes são mesmo muito importantes; é o princípio de um reinado e os reinos são mais ou menos maravilhosos conforme somos educados e ensinados para os ver e principalmente para os sentir. Depois, quem nos acompanha no crescimento e quem temos ao lado pela vida fora, faz muito pelo sentir "maravilhoso"...
    Adelaide pereira

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  4. Só hoje posso responder aos vossos comentários pois na aldeia a NET é lentíssima. Hoje vim ao ciber espaço da vila e aproveitei para responder bam como para colocar dois novos post
    sem imagens pois não tenho scanner e esqueci-me do cabo de ligação da máquina fotográfica
    Obrigada pelos comentários.
    Graciete , os peixinhos do rio são deliciosos mas com a barragem...lá se vão
    Virgínia, de modo algum pretenderei alguma vez substituir os pais dos meus netos. Eles adoram este reino e vêm sempre comigo uma semana; depois continuam as suas féris com os pais
    Adelaide, um mesmo reino não é igualmente maravilhoso para todos os olhares; a minha mãe, transportada de S. Paulo directamente para aqui aos 27 anos,nunca se adaptou contrariamente a mim e ao meu pai que aqui crescemos. Os meus filhos sempre gostaram de passar aqui parte das férias e os meus netos, para já adoram. Até quando?
    Um beijo às três
    Regina

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