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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Por outras palavras

O título deste texto é o mesmo de uma rubrica que Manuel António Pina mantém no JN. E é com um texto seu, extraordinariamente interessante e oportuno como são todos os seus textos, que inicio o meu...


Os novos pobres

A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país, fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do BCP que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos, por assim dizer, os seus postos de trabalho.
A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90 000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45 000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290 000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145 000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150 000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente. Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior. Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem.
(Manuel António Pina)

Recordo frequentemente um conselho da minha mãe: Não te preocupes com a opinião dos outros. Lembra-te da fábula " O velho, o rapaz e o burro". Preocupa-te,  sim,  com a tua consciência
Será que estes senhores não sentem um peso na consciência? Provavelmente não pois falta-lhes precisamente a consciência .Tivesse eu o engenho e a arte de M.Pina para denunciar estas asquerosas discrepâncias e, infelizmente,  não precisaria de outro tema para colocar neste blog.
Tal como Manuel Alegre eu não sou nenhum Buíça, com trovas entro na liça
Mas também aqui me faltam o engenho e a arte de M.Alegre.

Mesmo assim aqui deixo algumas das minhas “armas”…

Amazónia

A floresta Amazónica é o pulmão do mundo


e, segundo a segundo, está a desaparecer,


porque homens, sem qualquer ideal,

para além do vil metal,


a mandam abater.


Rancorosos, brutais,


mandaram abater o Chico Mendes e outros mais,


só porque eles não queriam ver


a Amazónia desaparecer.


A Amazónia é o pulmão do mundo,


a Amazónia não pode morrer.


A Amazónia é o pulmão do mundo,


a Amazónia não pode morrer.


A Amazónia é o pulmão do mundo,


a Amazónia não pode morrer.
(in Reflexões e Interferências)

Mole

Se me falam em mole, por associação,


posso pensar em macio, em massa informe,


mas posso pensar em rígido, isso conforme


pensar no significado ou na oposição.


Mas estranho é falar de mole como quantidade,


a que corresponde aquela enormidade,


seis vezes dez elevado a vinte e três.


É estranho ou esotérico talvez,


mas é assim que o nosso mundo é feito.


Não deixaria ninguém satisfeito uma mole de pão


já que nos esmagaria e, de tal jeito,


nem poderíamos morrer de indigestão.


Mas se ao mundo chegasse uma mole de amor,


por certo o mundo desabrocharia em flor.


A exploração, a xenofobia,


a guerra, a fome, tudo acabaria


e um novo mundo, então, começaria.
(in Reflexões e Interferências)


 
Hipocrisia


Lactarius deliciosus

Não sei se foi Lineu quem o nome lhes deu.

Eu, no meio do pinhal,

com gestos suaves, subtis,


vou-as colhendo uma a uma.


São as sanchas, frágeis, delicadas,


como que envergonhadas,


por baixo da caruma.


Chapéu e pé em tom alaranjado,


já em pequenina, a medo, eu as colhia


pois sabia que mesmo ali ao lado,


outros cogumelos, alguns muito mais belos,


teciam seus ardis.


Insidiosos, perigosos,


escondem em si a muscarina, a psilocibina,


tanta, tanta toxina, tantas vezes fatal.


Tal qual a hipocrisia nos humanos,


desumanos, antes eu diria,


que enchem a boca com a democracia


e a globalização, visando um mundo novo,


enquanto vendem armas para matar o povo


que subjugam pela exploração.


In Magnetismo Terrestre


Dissonância

Pego na palavra sinfonia e faço-a ressoar.


Faço-a rimar com fantasia, com alegria.


Pego na palavra dança e faço-a voltear.


Faço-a rimar com esperança, com criança.


Mas eis que o som sai desafinado, e na dança um passo é trocado.


E sinfonia e dança rimam com horror,


e criança passa a rimar com dor.


E vêm-me à memória barbaridades da história,


escravatura, exploração, campos de concentração,


Hiroshima, Bhopall, Chernobill, os meninos da rua no Brasil,


a prostituição infantil, a pedofilia,


barbaridades com e sem nome, crianças com fome, com leucemia.


Tapo os ouvidos e bloqueio todos os sentidos.


Não quero mais sentir tal sinfonia.
(ainda não publicado)

Amazónia II


Crescem crateras no pulmão do mundo.


Para alguns a riqueza desmedida,


para muitos a fome imerecida.

(ainda não publicado)

A terminar, Vinicius de Moraes na voz de Mário ViegasZé Afonso e  fotografias de Sebastião Salgado



Nota
Hoje, no blog De Rerum Natura (ver a minha lista de blogues) Carlos Fiolhais coloca um texto que vale a pena ler (como aliás todos os seus textos) e que tem por título Só e mal acompanhado

1 comentário:

  1. Os poemas também são uma arma e a Regina sabe usá-las muito bem.
    Parabéns por mais um excelente "post".
    Beijos.

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