Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O vestido da comunhão

Ontem ao deitar-me e quando ia preparar o despertador para as 7,30 (à quinta feira dedico a manhã ao voluntariado no HGSA) lembrei-me que não teria que me levantar cedo pois era dia Corpo de Deus

Tentei investigar o significado do Dia:
Assinala-se hoje a solenidade do Corpo de Deus, uma festa antiga que quer acentuar a centralidade da eucaristia na vida da Igreja e na espiritualidade dos cristãos.

Fui assim, sem querer, reportada para a festa da minha comunhão, lá no meu Nordeste, em data que não recordo; sei apenas que coincidiu com a Primeira Missa do Padre José Francisco da Fonseca Almeida cuja família, vizinha da casa dos meus avós ( que eu não conheci) me mimava e cobria de múltiplos carinhos e afectos. Ainda resta um elemento dessa família, a irmã mais nova do Padre Zé. Recordo ainda que, por causa da referida Missa, esteve na aldeia o Padre Grilo, já muito velhinho

Mas regressemos à comunhão. O vestido em seda natural, foi feito e bordado pela minha mãe que posteriormente o ofereceu à Igreja a fim de  poder servir a outras crianças mais desfavorecidas. O conto que segue, é a estória da história que vivi em 2005

O vestido da comunhão


….Se o tempo é longe ou perto


Em que isso se passou


Não sei dizer ao certo


Que nem sei o que sou


Sei só que me hoje agrada


Rever essa visão


Sei que não vejo nada


Senão o coração

Fernando Pessoa

Há quantos anos Luísa não ia à festa da terra lá no santuário, junto ao rio? Há tantos que já lhe perdera a conta. Por certo há mais de quarenta. Da última vez que ali fora era ainda solteira e para o ser….. Hoje é avó…
Também nesse ano não contava ir. Mas as primas desafiaram-na e lá foi. Foram a pé, não pelo velho caminho, sinuoso, contornando a ladeira, pleno de odores silvestres, delimitado de onde em onde por muros de xisto centenários, mas pela estrada de terra batida por onde se circula agora.
Outrora, pelos velhos caminhos, calmamente, a pé ou em cima das montadas, as gentes daquém e dalém rio iam descendo as encostas até à capela. Os dalém rio atravessavam-no no vau pois no Verão ali vai quase seco. Hoje circula-se em estradas de terra batida, em veículos motorizados que deixam uma nuvem de pó à sua passagem..
Pareceu-lhe haver muito menos gente que noutros tempos mas garantem-lhe que não. Os seus olhos de há quarenta e tal anos é que eram outros….Também a devoção lhe pareceu menor tal como o número de clérigos que preside às cerimónias religiosas. Mas também aqui tudo pode ser uma questão de perspectiva.
No recinto da festa, onde outrora se viam machos e outras montadas dispersas pela encosta, vêem-se agora carros dispostos aleatoriamente, inclusive no percurso da procissão, acompanhada por uma banda de música. Não três como noutros tempos.
Os cânticos, cujas letras parecem não ter mudado, estão agora embrulhados noutras músicas. Não mais Mozart , Gounod, Bach, Dvorak ou Schubert. Agora é geralmente música ligeira a que incorpora as letras dos cânticos religiosos.
As merendas, após a procissão, também perderam o seu encanto. Não mais o lauto farnel onde não faltavam os bolinhos de bacalhau, os peixes do rio, o frango assado, o presunto, o salpicão, o pão caseiro, as azeitonas, o vinho. Agora, nas várias bancas que para o efeito existem, come-se um frango assado, uma bifana ou um cachorro, acompanhados de cerveja ou coca-cola. E à sobremesa, não mais a deliciosa talhada de melão. Um gelado acabado de sair da máquina, carregado de antioxidantes, conservantes, espessantes, parece fazer as delícias dos mais novos e até de alguns mais velhos. E há ainda quem se meta no carro e vá jantar à vila para depois regressar para o arraial.
Noutros tempos a escuridão da noite aprisionava os romeiros até ao nascer do dia pelo que, enquanto uns iam circulavam no recinto em amena cavaqueira, outros dançavam ou tentavam a sorte na quermesse, outros rezavam recolhidos na capela e outros ainda iam dormitando aqui e além. De vez em quando lá vinha mais uma descarga de fogo para deleite do olhar. E quando os morteiros acabavam de ribombar, tudo voltava ao que fora interrompido.
No arraial, não mais o despique entre as bandas. Eram três noutros tempos, cada uma em seu coreto. Estes têm agora outra função. Servem para acampar os poucos que ainda mantêm a tradição da merenda . Em vez das bandas, apenas o ensurdecedor ruído dos conjuntos que tornam impossível uma conversa. Os tempos são outros tal como os sons que atordoam o ar…
Também não se ouvem os foguetes. Os incêndios, que durante o Verão por todo o lado grassam, aconselham precaução.
E foi neste contexto em que nada parecia igual ao que fora antes, que Luísa de repente estremeceu. Estava junto à capela quando, a correr, passa uma criança vestida de anjo, para incorporar a procissão. Luísa conhecia aquele vestido, todo em seda natural. Fora o vestido da sua comunhão, precisamente há cinquenta anos. Lembrou-se então que a mãe o oferecera à igreja.
E tudo recuou no tempo….
A catequese diária, como preparação para a comunhão, a primeira confissão, o receio de tocar a hóstia com os dentes, o vestido. Acima de tudo o vestido e as várias provas que frequentemente vinham desviar Luísa da brincadeira. Tanta prova… Depois a mãe, pacientemente, com a seda esticada no bastidor ia bordando todas aqueles raminhos de flores. Durante quanto tempo a mãe bordou o vestido? O vestido, o chapéu do qual pendia o véu, e a bolsinha presa na cintura. Esses já não constavam na indumentária da menina vestida de anjo. Que sumiço teriam levado? E Luísa recorda a mãe a colocar a entretela na aba do chapéu para lhe dar consistência. E ao serão, à luz do petromax, enquanto nas mãos da mãe a obra ia crescendo o pai ia contando histórias doutros tempos em que a sua avó criava bichos da seda. E falava nas amoreiras que existiam por todo o lado.
No tempo em que Luísa andava na escola, no terreiro da mesma havia várias. A escola mudou de sítio e as amoreiras já não existem. A criação de bichos da seda há muito que perdeu toda a importância na região. A testemunhar essa perda de importância aí estão, não muito longe, as ruínas do Real Filatório. Mas Luísa ainda se lembra da tia Laurinda criar bichos da seda., alimentando-os com folhas de amoreira. Lembra-se dos casulos. Pareciam pequenos ovos amarelados donde, se não fosse a interferência humana, sairia uma pequena borboleta.
E recorda o pai, descrevendo todo o processo. Os casulos eram mergulhados em um recipiente com água quente, para matar a crisálida. E depois era desmanchar o trabalho que o bicho da seda fizera com tanta mestria, ou seja, desenrolar o fio que estava enrolado no casulo e voltar a enrolá-lo em meadas que posteriormente iriam ser lavadas. Só então o fio iria ser tecido num tear. Por cada peça de seda, a morte de milhares de insectos.
Luísa sabe que a bisavó, tal como os demais criadores da aldeia, vendiam os casulos pelo que a seda do seu vestido não saiu directamente das mãos da bisavó nem das da tia Laurinda . Provavelmente veio do Oriente onde a seda sempre se produziu e continua a produzir em grande escala . E Luísa recorda a rota da seda, as aulas de História …
Mas acima de tudo vai recordando, ao pormenor, o dia da sua comunhão. O vestido ficara um deslumbramento. Toda a gente o queria ver. E os acessórios? O chapéu, o véu, a bolsinha, as luvas de renda que fizera a tia Cândida, os sapatos de camurça branca que o pai trouxera do Porto, o pequeno terço dentro duma caixinha, ambos em filigrana dourada. Foi a tia Maria do Carmo quem lhos ofereceu, para o efeito. Estão hoje na vitrina da sala, juntamente com as luvas..
Luísa revê mentalmente as fotos do acontecimento. Numa delas lê uma poesia que o pai escrevera.
No fim da cerimónia foi a festa que a mãe preparou e para a qual foram convidados todos os meninos da escola, os que fizeram a comunhão nesse mesmo dia e todos os outros, desde o mais pobre ao mais rico. Luísa recorda como foi bonita a festa….
Parecia que tudo estava a acontecer ali naquele momento.
A menina vestida de anjo olhava, um pouco intrigada, as lágrimas que corriam pelo rosto de Luísa. Foi então que Luísa, já um pouco refeita da emoção, perguntou:
Com o te chamas?
 Débora, respondeu a menina. (Também os nomes já não são os mesmos)

E então Luísa explicou a Débora que há cinquenta anos, fora ela a usar aquele vestido.
Na sua máquina digital tirou uma fotografia de Débora e ao chegar a casa confrontou-a com as velhas fotografias tiradas com a máquina de fole do pai. O vestido já perdeu um pouco a graça As mangas, outrora compridas, são agora curtas. Talvez estivessem já um pouco delidas. Também Débora é mais alta que Luísa à data da comunhão, por isso o vestido não chega aos pés.
E Luísa vai olhando uma a uma as várias fotos. Lá está aquela em que Luísa, figura central, lê a poesia. Ao lado, mas ligeiramente atrás, a mãe. Apesar de ser uma foto a preto e branco Luísa consegue reconhecer, na sua indumentária, a cor castanha do vestido e do chapéu. Sim, porque esse dia foi tão solene que a mãe usou chapéu…

Nota


O local da festa a que alude o conto  tem sido ultimamente referido pelos órgão de comunicação a propósito da barragem do Sabor. O santuário, mandado construir pelos Távoras em honra de Santo Antão (Santo Antão da Barca) irá ficar debaixo de água, mas vais ser transferido para um local um pouco mais acima, junto à albufeira, continuando junto à água. Já não haverá barca para transitar de um lado para outro, mas há muito que a mesma já não existia

O poema anexo refere-se a essa barca


Barca



Entardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiados


que se reflectem nos calhaus rolados que o rio afaga.


No ar, um silêncio que apenas o rumor do rio apaga,


rumor, ou talvez prece ao Senhor da Barca, ali ao lado.


Já não existe mais a barca que outrora foi real


mas na margem do rio, enferrujado,


testemunha de um tempo intemporal,


jaz moribundo um pedaço do cabo


que, a cada viagem, guiava a barca de uma à outra margem.

Regina Gouveia in Magnetismo terrestre


E termino com música de Handel

7 comentários:

  1. Sei que fiz a minha 1ª comunhão aos 6 anos no dia 29 de Maio de 1953, no dia em que o Hillary e o Tensing chegaram ao Everest - os primeiros - e houve festa no meu colégio inglês. A comunhão foi na Igreja dos Irlandeses, chamada Corpo Santo, em Lisboa. O meu vestido? Era o mesmo que tinha servido às minhas duas irmãs mais velhas. Levava um lacinho na cabeça. Não tenho fotos desse dia, só da Comunhão Solene feita aos 13 anos nos Jerónimos.

    Conto interessante , mais um das Terras do Nordeste.Não está publicado?

    Quanto aos poemas, parece que te saem dos dedos como as rosas da Rainha Santa...:))

    obrigada.

    Bjo

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  2. O conto é a estória da história. Aconteceu mesmo só que a Luísa sou eu...Está publicado numa revista de Alfândega da Fé e faz parte de um conjunto de textos a publicar pela respectiva Câmara Municipal; não se sabe é quando...
    Quanto aos poemas,obrigada pelo teu comentário. Sou eu com os poemas e tu com os quadros...
    Um abraço
    Regina

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  3. Regina, o seu blog é lindo e eu não dispenso a respectiva leitura. Também gostei muito da sua "estória" e do seu poema.
    Quanto ao rio Sabor seria mesmo nececessário usá-lo para construir uma barragem, sendo ele o único rio selvagem de Portugal?(julgo não estar enganada). Mas o "progresso" é assim. Se não for utilizado para maior bem estar do ser humano e com respeito pela Natureza, tudo destrói. Até as ilusões.

    Um beijo, Regina.

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  4. Graciete
    Não imagina a tristeza com que vejo a construção da barragem avançar. E não sei se é em nome do progresso ou de outros interesses porventura obscuros...
    Um abraço
    Regina

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  5. Provávelmente os interesses são outros, Regina.

    Um abraço.

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  6. Olá Mãe,

    É sempre emocionante reler a história do vestido da comunhão. beijinho
    nuno

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  7. Bem vindo ao meu blogue, meu ilustrador preferido...
    Bjs
    Mãe

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