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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 6 de junho de 2010

Estética e ética

Por iniciativa da recém inaugurada Casa da Galeria de Santo Tirso, de que Domingos Loureiro ( meu professor de pintura) é consultor artístico, decorreu ontem uma visita guiada ao Museu Internacional de Escultura Contemporânea. Trata-se de um conjunto de mais de quarenta esculturas espalhadas pela cidade. Nesta primeira visita, guiada pelo Mestre Alberto Carneiro, vimos 23 obras de acordo com o “roteiro" anexo


Está prevista uma outra visita para ver as restantes obras

Alberto Carneiro foi o grande impulsionador da criação do Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso (MIEC), do qual é director artístico nacional. Criado oficialmente a 20 de Outubro de 1996, o Museu tem por base o espólio recebido dos simpósios internacionais de escultura contemporânea ao ar livre, realizados em Santo Tirso desde 1991.

Ao longo de toda a visita emergiu a concepção de “arte ecológica” que Alberto Carneiro defende:
Uma nuvem, uma árvore, uma flor, um punhado de terra situam-se no mesmo plano estético em que nos movemos, são parte integrante do nosso mundo, são um manancial de sensações vindas de todos os tempos, através de uma memória que tem a idade do homem. Não a pedra pelo seu lado externo, pela conversão dos seus valores formais, mas pelas qualidades do seu íntimo, pelo cosmos que está nela e o qual nos é dado a possuir na simplicidade da coisa que vive (Alberto Carneiro citado por Emília Pinto de Almeida em Alberto Carneiro. O ser do estar, Casa da Galeria)

Emergiu também a posição do escultor de que não concebe a estética desligada da ética
No museu figuram duas obras suas. Uma delas, da qual se apresentam duas fotos tiradas sob ângulos diferentes, tem por título "o barco, a montanha e a lua"





As pedras, que o escultor foi buscar ao monte Córdova, contam uma história. Para além das intervenções da natureza, revelam também a intervenção humana (marcas de brocas na  pedra mais atrás da primeira fotografia, de ferros utilizados para quebrar a rocha, pedra à direita na segunda foto ) para além de algumas intervenções do autor.
E isso transporta-me para um poema meu
O silêncio das pedras

Gosto do silêncio das pedras. Mudas, falam através de testemunhos,


de estratos e fissuras, de formas e de cor,


que permitem chegar ao seu passado de muitos milhões de anos-


aos ventos que as fustigaram, às águas que as arrastaram,


às elevadas pressões e temperaturas a que se sujeitaram


na epopeia da sua formação.


Gosto do silêncio das pedras que, mudas, conservam na memória


os seres vivos com quem coabitaram dos ínfimos aos poderosos,


passando pelos humanos que ao longo de toda a história


tantas vezes as moldaram com lágrimas e com suor.


Gosto do silêncio das pedras tantas vezes pisadas no chão,


pedras que não choram, ao contrário dos meus olhos desditosos


que nelas se demoram.


Insistem as lágrimas em escorrer pelo rosto


Cerro os punhos tentando esmagar o meu desgosto


já que o coração, amargurado, mudo como as pedras


não encontra outra forma de falar.
Regina Gouveia


Mas regressemos à visita. No site do Museu poderão "visitar-se" outras obras. Pessoalmente gostei muito de uma do escultor Zulmiro de Carvalho , um bloco de granito um puco informe, com um paralelepípedo de bronze encastrado.


Após a visita onde pude apreciar grandes Obras (com O maiúsculo), regressei ao Porto, ainda a tempo de passar pela galeria do Café Majestic onde tenho uma obra (com o muito minúsculo) integrada numa exposição promovida pelo Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do BPI

3 comentários:

  1. Concordo com Alberto Carneiro quando diz que os elementos da natureza contém algo mais do que a matéria de que são feitas ou aquilo que os olhos veem, significam muito mais para nós devido à sua pertença a um mundo a que nós pertencemos também. Há como que uma conivência entre uma árvore,o tronco, as raízes, as folhas e as nossas vivências, memórias ou idiossincrasias.
    Não consigo, no entanto, compreender muito bem as esculturas do artista, já vi várias na net e em catálogos e tenho ainda dificuldade em me pronunciar sobre elas, não me atraem esteticamente, não me transmitem a tal sensação de empatia que me faz apreciar outras esculturas de outros autores.

    Quanto ao teu poema, é bem diferente, gosto dele, diz-me muito, como quase todos os que vou lendo. Também gosto deste teu quadro, é definido, embora abstracto e tem tonalidades
    muito belas.

    Parabéns pela presença na exposição.

    O concerto hoje foi lindo. A 2ª parte com todos os jovens desde os mais velhos aos mais novos tocando em uníssono, como uma afinação e harmonia espantosas. Pena o teu neto estar tão impaciente por se ir embora:))

    Bjo

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  2. Regina não consigo aceitar muito bem a arte contemporânea. Não a compreendo. Gosto ,por exemplo, do cubo do Zé Rodrigues, mas este foge um pouco às características das obras ainda mais actuais. Quanto à pedra ,terra e quaisquer outros materiais da Natureza admiro-os mais pela história que nos contam da evolução do planeta e da vida, embora possam ser matéria prima para obras de arte maravilhosas. Mas do que eu menos gosto é das instalações. E o seu lindo poema vai
    mais ao encontro de esta minha opinião.
    Mas continuo a dizer, a Regina é uma autêntica apaixonada pelo conhecimento em todas as suas vertentes.
    Um grande abraço.

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  3. Obrigada às duas
    Também eu tenho, por vezes, dificuldade em apreciar determinadas obras contemporâneas, inclusivamente algumas que vi em Santo Tirso.
    Tinha eu os meus doze anos quando vi a primeira exposição de arta abstracta. Não achei graça nenhuma. Hoje, gosto imenso desse tipo de arte (embora não de toda)
    Quanto ao concerto fiquei cheia de pena mas o Ju não consegue estar mais que 5 min parado...Espero que acalme com o tempo...
    Bjs
    Regina

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