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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Gatos na pintura e na poesia...

Quase todas as crianças têm fascínio por animais, nomeadamente cães e gatos e os meus filhos não foram excepção. Mas ter um animal destes num andar é um pouco complicado. Quando, na década de 80, passámos a habitar uma casa com quintal, decidimos arranjar um gato. Passado algum tempo desapareceu o que causou grande consternação na família. Pensámos em não arranjar mais nenhum mas a instâncias dos filhos arranjámos um outro que também desapareceu e finalmente um terceiro que após uma luta tenebrosa com gatos das redondezas acabou por morrer. Decidimos pôr um ponto final no assunto. Não haveria mais gatos foi a nossa decisão de pais que há quatro anos foi revogada face à solicitação da minha neta que o baptizou - Fuscas.


Fuscas em "bebé"


O Fuscas faz hoje os encantos da Rita, do primo com quatro anos ,e do irmão que vai fazer um ano. Mas cães e gatos não fazem só as delícias das crianças como também dos adultos, entre eles pintores e escritores que os evocam nas suas obras. Centremo-nos nos gatos

Comecemos pela pintura citando alguns pintores famosos

Picasso, Dora Maar (com o gato ao colo)

Paul Klee, Pássaro e gato

Chagall, Paris pela janela

Quanto à literatura, nomeadamente à poesia, são inúmeros os textos com alusões a gatos .

Seleccionei alguns de entre as múltiplas escolhas possíveis


Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa


Onírica
Os gatos moles de sono
rolam laranjas de lã.
Mário Quintana

Uma prosa sobre os meus gatos



Perguntaram-me um dia destes


ao telefone


por que não escrevia

poesia (ao menos um poema)


sobre os meus gatos;


mas quem se interessaria


pelos meus gatos,


cuja única evidência


é serem meus (digamos assim)


e serem gatos


(coisa vasta, mas que acontece


a todos os da sua espécie)?


Este poderia


(talvez) ser um tema


(talvez até um tema nobre),


mas um tema não chega para um poema


nem sequer para um poema sobre;


porque é o poema o tema,


forma apenas.


Depois, os meus gatos


escapam de mais à poesia,


ou de menos, o que vai dar ao mesmo,


são muito longe


ou muito perto,


e o poema precisa do tempo certo


de onde possa, como o gato, dar o salto;


o poema que fizesse


faria deles gatos abstractos,


literários, gatos-palavras,


desprezível comércio de que não me orgulharia


(embora a eles tanto lhes desse).


Por fim, não existem «os meus gatos»,


existem uns tantos gatos-gatos,


um gato, outro gato, outro gato,


que por um expediente singular


(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)


me é dado nomear e adjectivar,


isto é, ocultar,


tendo assim uns gatos em minha casa


e outros na minha cabeça.


Ora só os da cabeça alcançaria


(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.


Fiquei-me por isso por uma prosa,


e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.


Manuel Pina






Gato e o pássaro


Uma cidade escuta desolada


O canto de um pássaro ferido


É o único pássaro da cidade


E foi o único gato da cidade


Que o devorou pela metade


E o pássaro pára de cantar


O gato pára de ronronar


E de lamber o focinho


E a cidade prepara para o pássaro


Maravilhosos funerais


E o gato que foi convidado


Segue o caixãozinho de palha


Em que deitado está o pássaro morto


Levado por uma menina


Que não pára de chorar


Se soubesse que você ia sofrer tanto


Lhe diz o gato


Teria comido ele todinho


E depois teria te dito


Que tinha visto ele voar


Voar até o fim do mundo


Lá onde o longe é tão longe


Que de lá não se volta mais


Que você teria sofrido menos


Sentiria apenas tristeza e saudades


Não se deve deixar as coisas pela metade.


Jacques Prévert


Poema do gato






Quem há-de abrir a porta ao gato


quando eu morrer?






Sempre que pode


foge prá rua


cheira o passeio


e volta para trás,


mas ao defrontar-se com a porta fechada


(pobre do gato!)


mia com raiva


desesperada.


Deixo-o sofrer


que o sofrimento tem sua paga,


e ele bem sabe.


Quando abro a porta corre para mim


como acorre a mulher aos braços do amante.


Pego-lhe ao colo e acaricio-o


num gesto lento,


vagarosamente,


do alto da cabeça até ao fim da cauda.


Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,


olhos semi-cerrados, em êxtase,


ronronando.


Repito a festa,


vagarosamente,


do alto da cabeça até ao fim da cauda.


Ele aperta as maxilas,


cerra os olhos,


abre as narinas,


e rosna,


rosna, deliquescente,


abraça-me


e adoremece.


Eu não tenho gato, mas se o tivesse


quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão






Finalmente, dois poemas meus em que faço referência ao meu gato






Sonho


Decidi ir agarrar um sonho.


um sonho distante e desmedido.


Imaginei partir com companhia.


Talvez o meu gato (eu tenho um gato,


o que não acontecia a Gedeão)


mas logo pensei: Não.


Quando visse o sonho a esvoaçar


havia de cuidar que era uma ave.


Gatos e aves nunca se deram bem


à excepção do gato malhado


e da andorinha Sinhá de Jorge Amado.


Pensei então levar alguém, mas quem?


Os nossos sonhos


raramente coincidem com os sonhos de outrem.


Parti sem mais ninguém. Fui de balão.


Não o enchi com hidrogénio,


com hélio, nem ar quente.


Enchi-o simplesmente de ilusão


e assim me aventurei.


Aproveitei as correntes ascendentes,


ao sabor do vento rodopiei no ar,


tempestades e tormentas tive que enfrentar


mas continuei, por vezes sem sentido,


em busca do sonho distante, desmedido.


E quanto mais subia, mais distante o sonho parecia,


até me aperceber que não subia


e que, vertiginosamente,


descia em direcção ao chão.


Talvez tivesse havido uma fuga de ilusão.


Pensei então em frei Gusmão,


nos Montgolfier, em Charles, em Zeppelin e assim,


tentei uma outra vez, e outra,


e outra e ainda mais uma.


Tudo se repetiu como da vez primeira.


Quero ainda tentar mais uma vez, a derradeira.


Mas como hei-de eu encher o meu balão


se é já tão pouca a ilusão, quase nenhuma?






Limites


Ronrona o meu gato estirado no tapete


Ao ritmo da respiração


o dorso afunda-se e alteia


como é normal num gato.


O coração bate apressado,


duas vezes por segundo,


por isso a sua vida é relativamente breve.


Ronrona o meu gato estirado no tapete


indiferente a tudo o que o rodeia.


Ignora raios cósmicos, neutrinos, mesões e leptões,


que atravessam o seu corpo em constante correria


ite e dia, noite e dia.


Não quer saber


se o cosmos tem princípio ou fim


tão pouco o preocupam os seus mistérios


que o homem incessantemente tenta desvendar,


fazendo os limites do universo recuar.


O meu gato, tranquilamente a ronronar,


agita a cauda docemente.


Talvez sonhe com um pássaro a voar


batendo as asas ao de leve


ou talvez sonhe ultrapassar os muros do jardim,


fazendo recuar, assim, os limites do seu mundo.

4 comentários:

  1. Quer os poemas quer os quadros são lindos. Mas gostei muito do seu poema "Sonho".

    Um abraço.

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  2. Este post fez-me lemmbrar o musical Cats que foi a loucura dos meus filhos, quando o vimos em Londres pela primeira vez, do grupo de teatro do Colégio Alemão, que levou a peça à cena mais de dez vezes, em Espanha, noutras escolas e no proprio colégio. Ainda tenho a roupa que pintei para o meu filho João toda preta com pinceladas de acrilico dourado e prateado, brilhava na noite e no palco. Também a minha filha adorou entrar no musical e hoje são os meus netos que o dançam no meio da sala com o Pai...cenas inesquecíveis.
    Ter cão, tive-os quando criança, uns Serra da Estrela lindos...mas depois que passei a morar num apartamento, acabaram-se os bichanos.

    Vale a pena comprar o livro de T.S. Eliot, de que foram extraidos os poemas para o musical, em tradução e versão inglesa, se ainda estiver no mercado.

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  3. Os teus poemas são lindos..para quando o novo livro???

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  4. Obrigada Graciete e Virgínia
    A poesia infantil tem edição assegurada, pelo menos para já. Vai sair em breve o 3º livro. Quanto à outra...O quando é "quando" arranjar editor...

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