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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 2 de maio de 2010

Dia da Mãe

Já aqui disse que não sou muito apologista dos dias dedicados a algo, pelo que neste caso concreto considero que todos os dias deveriam Dias da Mãe.

O primeiro poema dedicado à Mãe que me lembro de ter lido creio que ainda em criança,  foi de José Régio, era ele adolescente. Ainda hoje esse poema me toca profundamente.


Em cima da minha mesa,

Da minha mesa de estudo,

Mesa da minha tristeza

Em que, de noite e de dia,

Rasgo as folhas, leio tudo

Destes livros em que estudo,

E me estudo

(Eu já me estudo…)

E me estudo,

A mim,

Também,

Em cima da minha mesa,

Tenho o teu retrato, Mãe!


À cabeceira do leito,

Dentro dum lindo caixilho,

Tenho uma Nossa Senhora

Que venero a toda a hora…

Ai minha Nossa Senhora

Que se parece contigo,

E que tem, ao peito,

Um filho

(O que ainda é mais estranho)

Que se parece comigo,

Num retratinho,

Que tenho,

De menino pequenino…!


No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo, a um canto,

Não lhes vá tocar alguém,

(quem as lesse, o que entendia?

Só riria

Do que nos comove a nós…)

Já tenho três maços, Mãe,

Das cartas que tu me escreves

Desde que saí de casa…

Três maços – e nada leves! –

Atados com um retrós…


Se não fora eu ter-te assim,

A toda a hora,

Sempre à beirinha de mim,

(Sei agora

Que isto de a gente ser grande

Não é como se nos pinta…)

Mãe!, já teria morrido,

Ou já teria fugido,

Ou já teria bebido

Algum tinteiro de tinta!



Há poemas belíssimos dedicados à Mãe. Na impossibilidade de os colocar aqui todos, insiro apenas alguns.

Para Sempre

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo —

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'


Poema à mãe de Eugénio de Andrade


Também eu escrevi vários poemas dedicados à minha mãe, que em nada se comparam aos que acabei de inserir, mas são uma forma modesta de prestar homenagem à Mulher excepcional que tive o privilégio de ter por Mãe. Começo pelo mais recente (de 2010) e incluo mais três, dois deles já publicados e um outro também inédito



Mãe!
Dedicaram-te este dia a ti e a todas as mães.

Já foi outro e agora é este como poderia ser um outro qualquer.

Para ti não bastariam mil milhões de dias

e se em mim fala mais alto o coração,

em muitos dos que te conheceram quem fala é a razão.

Muito mais que uma linda mulher que assim o eras,

eras uma mulher linda, de uma infinda beleza interior,

como jamais conheci alguém.

Dotaram-te os deuses de todos os dons,

inteligente, abnegada, lutadora, corajosa, infinitamente generosa.

Talvez não fosse humana a tua condição.

Mas se assim era como foi possível cair sobre ti tamanha maldição,

Alzheimer aos cinquenta e oito anos.

Quem sabe o(s) deus(es), por inveja, não aceitaram a tua perfeição.

ou, então, foi a mim que quiseram castigar

pelo amor que te dediquei, 

muito aquém daquele  que tu merecias.

Mãe, perdoa-me, mas eu não sou igual a ti,

tenho as fraquezas dos demais humanos.



Sorriso

Junto à campa da minha mãe nasceram lírios no passado mês.

Alguns dos seus elementos, o magnésio talvez,

já terão sido, por certo, pertença da minha mãe.

Há momentos, passava perto de um lírio que ali cortei

e quando o olhar fixei, pareceu-me ver alguém que sorria para mim.

Doce, o sorriso, sem fim.

Por certo era a minha mãe, só ela sorria assim.



Mãe

Como eu me lembro bem, mãe.

Catorze anos seria talvez a minha idade, uma colega do liceu

disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade

E eu fiquei toda cheia de vaidade.

Lembro-me de tanta outra coisa mãe

Do linho esticado dentro do bastidor

e dos teus bordados em ponto pé-de flor,

em matiz, ponto de sombra ou de grilhão,

ao sabor da imaginação, como o vestido da minha comunhão.

Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão;

chamavas-lhe quitutes, mãe.

Receita portuguesa, brasileira, italiana,

ainda hoje os teus quitutes têm fama

entre os amigos que os saborearam.

Ainda há dias alguns os recordaram.

Lembro-me ainda que não era só o sabor, era o aspecto.

Em tudo colocavas muito afecto

e sempre a tua a sensibilidade infinda.

Além de sensível eras tolerante, corajosa,

lutadora, criativa, generosa.

Como eu recordo, mãe, tantas histórias inventadas por ti,

em que o sabiá e a surucucu contracenavam com o colibri,

com a jibóia e o bicho tatu.

Como eu recordo, mãe, a tua lindíssima voz de soprano

cantando árias de Verdi, de Puccini,

(da Madame Butterfly, da Traviata),

do barbeiro de Sevilha de Rossini,

ou ainda Shubert, a serenata,

tentando eu acompanhar-te no piano

que, por falta de talento, mal tocava,

o que algum desgosto te causava.

Um dia, já a tua mente muito vária,

apercebi-me de que não gravara a tua voz

Tentei então que cantasses uma ária

para ficar com os registos entre nós

Tarde demais

De reconhecer a música tu foste incapaz

Tinhas apenas cinquenta e oito anos.

E a partir daí a doença, tão voraz,

foi-te destruindo dia a dia a mente,

dia após dia causando mais danos

e eu, recusando-me a aceitar tais desenganos,

era contigo que me revoltava, mãe.

Que foi feito de ti mãe outrora tão sensata, inteligente?

Que foi feito da tua sensibilidade,

da tua coragem e força de vontade?

Porque te deixaste assim destruir, mãe?

Ficaram as fotos, a recordação,

tanto vazio no meu coração,

tantas lembranças, algumas em bocados.

Como herança deixaste o bastidor,

as partituras, as receitas, os bordados.

Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.

Por dizer ficou ainda tanto amor



Memória serena

Ali, naquele sofá de couro, está uma memória sentada.

Não é fantasma, é memória,

doce e serena como a luz do luar,

como o rio que desliza mansamente para o mar.

A mão, já enrugada, pousa no braço do sofá de couro,

lá onde está marcada a mão real, tantas vezes pousada.

Doce é o sorriso, profundo o olhar.

Na gola do casaco imaginado,

um alfinete de ouro com o nome gravado.

Ali, na memória sentada no sofá de couro.

Incluo duas obras de arte dedicadas à Mãe


Afecto de Augusto Higa - Museu de Arte do Parlamento de São Paulo

"Espera" Lúcia Crestana - Museu de Arte do Parlamento de São Paulo



E, finalmente, a Mãe  na obra de Gustave Klimt

3 comentários:

  1. Leio isto as 5 da manhã, fruto da insónia que o meu amor de Mãe me provoca. Preferia estar a dormir do que a remoer as dores do meu filho, mas por sabe-las justificadas, revolto-me e acordo inquieta com o seu futuro.
    Poemas lindos que nunca seria capaz de escrever a minha Mãe, embora ela o merecesse. Falarei dela no meu blogue, à minha maneira, mas só amanhã, para que ela agorajulgue que eu ainda estou dormindo.

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  2. Que lindo este teu texto especialmente o final...
    Bjs
    Regina

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  3. Regina parabéns pelo maravilhoso "post".
    Eu fiquei muito comovida com a sua homenagem a este "Dia" que a mim não me diz nada pois o considero puro apelo ao consumismo .
    Mas os poemas que escolheu e os seus próprios são tão lindos que me emocionaram muito.
    Um beijo muito grande.

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