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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 3 de abril de 2010

Sábado de Aleluia...

Hoje, Sábado de Aleluia,  invadiu-me uma imensa nostalgia. Talvez me falte o repicar ensurdecedor dos sinos, a substituir o tanger dolente das matracas nos dias anteriores,  o cheiro a folar acabado de fazer, a exuberância dos campos que a Primavera se encarregou de matizar de verde salpicado de branco, amarelo, vermelho, azul…


Se a Páscoa não era "alta" ( ou seja se ocorria em  Março ou princípios de Abril), ainda se podiam ver as amendoeiras em flor.  Com um pouco de sorte também já se podiam encontrar nos campos os deliciosos espargos silvestres.

Na minha aldeia, perdida algures no Nordeste Transmontano, a Páscoa era uma data festiva tão importante como o Natal, senão mais…Reuniam-se as famílias à roda dos folares, doces e de carne, cuja feitura, extremamente cansativa, culminava num ambiente de odor inesquecível.

Depois havia os rituais que precediam o "Dia de Páscoa" nomeadamente,  no Domingo de Ramos,  a entrega à madrinha do ramo (feito com ramo de oliveira e alecrim) depois de benzido na missa dominical.

No Domingo de Páscoa , antes da Missa passava a procissão e as varandas e janelas engalanavam-se com colchas de seda e de linho, pintadas, bordadas , tecidas. Após a Missa aguardava-se a Visita Pascal. Colocavam-se folhas e flores às portas ( em minha casa, ao portão de ferro) e quando se ouvia a sineta todos se dirigiam para a porta /portão a receber o cortejo  que guiavama  até  à dependência mais nobre da casa, onde um acólito dava a Cruz a beijar

Recordo a voz doce da minha mãe, ainda antes de chegar a Visita . “Por favor não encostes os lábios à Cruz pois tal prática pode ser transmissora de doenças. Finge que beijas. Isto é apenas um ritual”

Das tradições pascais faziam parte ainda o cordeiro assado e as amêndoas, essencialmente as de Moncorvo,  que algumas vezes vi confeccionar à porta das lojas, na então vila. A sua confecção faz-se em tabuleiros redondos de cobre com cerca de um metro de diâmetro, colocados em cima de potes de barro com borralho (brasas que ardem lentamente). Nesses tabuleiros colocam-se as amêndoas depois de ligeiramente torradas, às quais se vai juntando uma calda de água e açúcar. Aos poucos, as mãos hábeis das artesãs, “ornamentadas” com dez dedais sem cabeça, vão-nas cobrindo lentamente remexendo-as uma e outra vez…Assim vai ficando coberta a amêndoa, tomando uma forma diferente das demais, com pequenas saliências a que chamávamos piquinhos

Não havia coelhinho de Páscoa nem ovos de chocolate. Mas a Páscoa da minha infância era plena de magia que não consigo encontrar na Páscoa dos nossos dias.
Daí a minha nostalgia de hoje que leva aterminar com o poema que segue
As flores de amendoeira, antes da Primavera,

cobrem a ladeira como um branco véu

ou como vestes de anjo que se esfumou no céu.

Impressa no código genético a química magia

da ebúrnea cor que recende a nostalgia.

Gouveia ,R. In Magnetismo Terrestre



Feliz  Páscoa para  todos

4 comentários:

  1. Olá! Tenha um grande sábado de aleluia e uma Feliz Páscoa!

    Beijos

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  2. Bem-vinda Juliana.
    Graciete, obrigada
    Feliz Páscoa para ambas

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  3. Foi onde vi a Páscoa mais celebrada de sempre : Chaves.
    A minha vizinha , mulher do Delegado, que era de Valpaços, tinha tudo em casa, do bom fumeiro aos folares e comi tanto nessa altura que até enjoei e durante algum tempo , já não podia vê-lo à frente ( estava grávida em 1979)!
    Apesar de não passar as festas lá em Chaves - excepto os Santos - vivi de um modo particularmente interessante os costumes da gente da terra e adorava esses rituais, muito mais religiosos do que os ovinhos, os coelhinhos e as amêndoas duras. Não gosto de amêndoas de Páscoa, a não ser as torradas, moles. Mas o folar....dava tudo por comer um bocadinho agora!
    Este ano só comi cabrito e pão de ló. Já não foi mau. Foi tudo muito calmo....
    Na minha adolescência vivia a Páscoa com rigor, ia todos os dias à Igreja, na Semana Santa e seguia os ritos com fé. Cantava no Coro dos Jerónimos o Alleluia de Handel, era uma experiência única.
    Sempre achei a Páscoa mais importante que o Natal e a leitura da Paixão de Cristo ainda hoje me impressiona.

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