Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Lições de vida...

Às quintas feiras, das 8,30h às 11, 30h e desde há cerca de um ano e meio, faço voluntariado no Hospital de Santo António, ajudando pessoas que sintam dificuldade em se dirigir à consulta, ou pela idade, ou por serem oriundas de um meio rural, algumas vezes analfabetas, ou pela complexidade do acesso a alguns serviços, ou por limitações pessoais de ordem física ou psicológica…


Um dia tive que ajudar uma senhora de uma aldeia perto de Cinfães. Poucas vezes saíra da terra e nunca tinha andado de elevador. Dirigia-se ao serviço de Provas Funcionais Respiratórias, no 6º piso do Edifício Neoclássico cujo acesso é um pouco confuso para quem entra pelo Edifício Luís de Carvalho (“Hospital Novo” como grande parte dos utentes o refere). Quando chegámos ao serviço ela começa a chorar e diz-me aflita: Oh minha senhora, eu depois não vou conseguir sair daqui.

Tranquilizei-a prometendo-lhe que de meia em meia hora iria ao serviço ver se já estava despachada. À despedida disse-me: As senhoras são mesmo uns “anjos da guarda”.

Hoje o dia foi para particularmente rico, como experiência de vida. Uma das pessoas que encaminhei era um senhor que aparentava os seus 70 anos, muito direito, movimentando-se com muita segurança e agilidade. A dada altura disse-.me. Eu perco-me neste hospital onde nasci há 84 anos. Há 84 anos? perguntei incrédula. O senhor respondeu-me que apesar do aspecto tinha vários problemas de saúde mas, mesmo assim, continuava a dirigir a sua empresa, com 40 funcionários, levantando-se todos dos dias às 6 da manhã pois fazia questão se ser o primeiro a entrar na empresa e o último a sair, nunca antes das 20 h. E concluiu: Isso é que me mantém vivo.

Quando regressava de ter acompanhado o referido senhor, senti alguém a bater-me nas costas. De início não reconheci a senhora. Acompanhara-a uma vez ao serviço de medicina nuclear. No percurso apercebi-me de que a senhora, com cerca de 70 anos, estava com os olhos rasos de lágrimas . Quando chegámos ao serviço sugeri-lhe que se sentasse enquanto eu ia ao guichet tratar dos “papéis”. Mal se sentou começou a chorar copiosamente. Passara um Natal feliz com a filha e os netos e pouco tempo depois tinha-lhe sido diagnosticado um cancro. Fiquei com ela até ao momento de ser chamada para o exame, que iria durar algumas horas. Todo o tempo repetiu que só queria morrer, não tinha mais apego à vida, etc, etc. É difícil dizer qualquer coisa nestes momentos mas, num lugar daqueles, é pelo menos possível mostrar que há muitas outras pessoas com problemas tanto ou mais graves que o nosso e o importante é não desanimar.

Pois hoje, ao bater-me nas costas, disse-me. Como vê já estou a reagir. Quem sabe ainda escapo desta? Obrigada pelo apoio que me deu.

Mas houve mais. Apareceu para a consulta de cirurgia, uma senhora invisual com 35 anos. Tratei de todos os trâmites iniciais, levei a senhora até à consulta e fiquei a seu lado até à chamada, Começou por me perguntar o que fazia e a dada altura disse-lhe que tinha sido professora de Física e Química. E isso o que é? Respondi-lhe citando-lhe várias conquistas da sociedade ao longo dos tempos, que só foram possíveis devido ao acumular de conhecimentos nessa áreas. Ela própria transportava dois exames um deles uma ecografia mamária cujo fundamento tentei explicar-lhe a partir do eco do som audível. Disse-me então: Saber essas coisas deve ser muito interessante. Eu estudei pouco. Começou a falar de si e foi então que me apercebi da força daquela mulher. Cegou aos doze anos pelo que a escolaridade é pouca, trabalha como telefonista e há cerca de 10 anos casou com um invisual de quem teve um filho. Vítima de maus tratos, está separada há quatro anos, cuida do filho e luta com quantas forças tem para impedir que o pai fique com a custódia da criança, que requereu alegando o insucesso escolar da mesma. E a pobre mulher diz-me. As dificuldades dele são na matemática, mas como posso eu ajudá-lo? Não posso pagar a um explicador. Prometi tentar saber se no lugar onde vive haverá alguma possibilidade de apoio à criança, em qualquer organismo estatal ou não. Oxalá consiga.

E agora, dizia-me, suspeitam que estou com cancro na mama.

Acompanhei-a à consulta e o médico, um jovem extraordinariamente carinhoso, pediu-me que ficasse para depois a poder levar. Viu os exames , examinou a senhora, mas, em seu parecer, tratava-se apenas de simples quistos, nada de grave. Mandou fazer novos exames dentro de 3 meses e regressar à consulta nessa altura, consulta essa que ficou já marcada.

Quando saímos, a senhora disse-me: Estou tão feliz. Posso dar-lhe um beijinho

Deixei a senhora no autocarro para o Bolhão. Aí apanharia outro que a levaria ao seu emprego. À despedida disse-me: Agora só me falta resolver o problema do meu menino. Grande mulher…

E lembrei-me do poema Calçada de Carriche de António Gedeão

Em vez das habituais 3 h, hoje dediquei 5h ao voluntariado, mas as experiências vividas compensaram de longe o meu cansaço.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo teu trabalho!
    Trabalho em hospital e sinto a dificuldade que as pessoas tem de se localizar nos diversos setores.Muitas vezes pelo corre, corre de uma rotina agitada, e, com tantos afazeres, não nos damos conta dessas coisas que acontecem. Mas sempre existirá pessoas como você, boa de alma, para acalentar os necessitados.

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  2. Fiquei comovida com este relato, acho que poderias escrever um livro. Seria muito util e interessante para os jovens que as vezes se queixam de nao terem nada para fazer...estao desempregados ou nao sabem como empregar o tempo livre. Nem toda a gente tem a estaleca que tu tens - és uma pessoa excepcional, mas as vezes tb não são suficientemente estimuladas para o voluntariado. Na Inglaterra há imensas associações de voluntarios e muitas, muitas lojas que angariam fundos, vendendo o que os outros nao querem a preços baixissimos.
    Sei que sou muito egoista e que nao seria capaz de manter uma actividade certa desse tipo. Canso-me com facilidade e mesmo agora notei como me custam muitas horas fora de casa. Mas admiro muito pessoas como tu. TU não existes!

    Li há tempos um livro muito bom do Miguel Lobo Antunes, que foi meu amigo em Lisboa, ele e o resto da família. Relata experiências dele como médico nos EUA, lidando com doentes terminais de cancro. Chama-se : Sinto muito ( em inglês, I'm sorry). fica-se melhor depois de o ler.

    Parabens e continua assim....meu anjo da Guarda!

    Bjo

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  3. Olá Regina. Já não consegue surpreender-me. A Regina é uma mulher completa. Admiro-a muito.O seu post comoveu-me.

    Um grande beijo.

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  4. Não sou tão generosa como pensam.Tenho uma grande dose de egoísmo. Ao fazer voluntariado no HGSA escolhi a tarefa que me é menos difícil. Provavelmente seria bem mais útil se acompanhasse doentes terminais ou deficientes mentais profundos... mas não tenho a generosidade suficiente para me confrontar com tais situações

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