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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 2 de janeiro de 2010

“No passado, o futuro era melhor?”

Mais um texto que foi publicado em http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/


Nha Fala
“NHA FALA é uma parábola sobre a voz(...) A fala de Vita é a fala da África(...)

Quis contar esta história por meio de uma comédia musical para mostrar a vitalidade deste continente. A música é o melhor modo de expressão dos africanos”.

(Flora Gomes)



Se há no Porto espaços em que me sinto bem, um deles é o Clube Literário. Mesmo quando os eventos não me atraem muito, tenho sempre o rio em frente para deleite do olhar. Mas foi mais que isso na Semana Cultural dedicada à Guiné Bissau.

Terça feira, 17 de Novembro de 2009, bar do Clube, encontro sobre Contos tradicionais da Guiné-Bissau.

Já há muitos anos adquiri um livro de contos guineenses pelo que os contos não constituíram uma novidade. Um sociólogo guineense fez uma análise sobre os mesmos, o que foi minimamente enriquecedor. Sempre com um fundo moral, nos contos figuram muitos animais entre eles o lobo, egoísta e agressivo, a lebre e a tchoca, símbolos de esperteza. Figuram também animais solidários que emprestam os seus olhos a outros animais cegos, e animais ingratos que depois de recebidos os olhos tentam apropriar-se deles para sempre

Enquanto o encontro decorria, um tocador dedilhava um cora. Cora é um instrumento de cordas, tradicional dos povos mandingas da África Ocidental. Construído a partir de uma meia cabaça fechada por uma cobertura de pele, e com um braço que sustenta até 25 cordas, é o instrumento que acompanha os trovadores errantes, um misto de poetas e cronistas. O seu som, belíssimo, pretende reproduzir o de uma ave

Sexta feira, 20 de Novembro de 2009, auditório do Clube, projecção do filme Nha Fala de Flora Gomes. Fantástico. Lembrando um pouco Kusturica, Flora Gomes busca, através da personagem Vita, um rumo para um povo que, para renascer, precisa de cortar com uma parte do passado

A banda sonora, muito bem conseguida, como que proclama a importância da música na cultura africana

Embalada pela música africana viajo no tempo….

Dezembro de 1969, visita de Spínola a Bafatá.

Acompanha-o a mulher, Helena Spínola, a quem é oferecida uma recepção, enquanto o marido trata de assuntos que ali o levaram. Para a recepção são convidadas as mulheres dos militares.

Fui colocada perante um dilema. Estar presente seria como que uma conivência com uma guerra sem sentido, que sempre abominei.

Faltar significaria perder um espectáculo que, provavelmente, jamais iria ter oportunidade de ver. A balança pesou para este segundo lado.

Dirigi-me à casa do Administrador onde estava Helena Spínola na varanda, acompanhada por várias senhoras. Como não conhecia ninguém isolei-me a um canto. Helena Spínola, muito gentil, veio ter comigo e integrou-me no grupo. Em breve a música africana ecoava no ar. Marimbas, guitarras, coras, tambores, num inesquecível festival de sons.


(fotografia de Fernando Gouveia)

E outros sons me assomaram agora à memória: os sons dos tambores num choro (funeral) bem perto de minha casa, os sons de um batuque num casamento e os sons dos guizos nas pernas e nos braços de uma criança.

Foi numa tabanca perto de Bafatá. A criança estava ao colo da mãe que, orgulhosa, ma estendeu para eu pegar nela ao colo. Emocionada peguei na criança, que ao ver-se fora dos braços da mãe começou a gesticular, perninhas e bracinhos em grande agitação. Do tilintar dos guizos emergia uma espécie de toada que tornou mágico o momento

Mas a estas imagens e a tantas outras recordações que deixaram em mim marcas indeléveis, associam-se outras que já não deveriam existir no século XXI. Refiro-me ao programa “Dar a vida sem morrer” apresentado por Catarina Furtado.

E apesar de tudo ainda continuam a cantar.

Que força é essa amigo…

Vi-te a trabalhar o dia inteiro, construir as cidades pr'ós outros

carregar pedras, desperdiçar muita força pra pouco dinheiro.

Vi-te a trabalhar o dia inteiro. Muita força pra pouco dinheiro (…)

Sérgio Godinho, Que força é essa


Em 2005, a propósito das comemorações do 30º aniversário da independência do seu país, Mia Couto quando proferia na Suiça, uma conferência subordinada ao tema: “No passado, o futuro era melhor?” disse a dada altura:

Em 1975, nós mantínhamos a convicção legítima mas ingénua de que era possível, no tempo de uma geração, mudarmos o mundo e redistribuirmos felicidade. Não sabíamos quanto o mundo é uma pegajosa teia onde uns são presas e outros predadores.

Ao ver a situação da Guiné Bissau nos dias de hoje sei que o futuro com que sonharam no passado era bem melhor que o futuro que lhes estava reservado. Tal como nos contos, o povo continua solidário capaz de dar os olhos, mas há sempre lobos predadores egoístas e sem escrúpulos.

Ao escrever estas palavras lembrei-me de dois poemas que de certo modo, põem o dedo na ferida.


Hipocrisia

Lactarius deliciosus. Não sei se foi Lineu quem o nome lhes deu.

Eu, no meio do pinhal, com gestos suaves, subtis, vou-as colhendo uma a uma.

São as sanchas, frágeis, delicadas, como que envergonhadas,

por baixo da caruma.

Chapéu e pé em tom alaranjado, já em pequenina, a medo, eu as colhia

pois sabia que mesmo ali ao lado, outros cogumelos, alguns muito mais belos,

teciam seus ardis. Insidiosos, perigosos, escondem em si a muscarina,

a psilocibina, tanta, tanta toxina, tantas vezes fatal.

Tal qual a hipocrisia nos humanos, desumanos, antes eu diria,

que enchem a boca com a democracia e a globalização, visando um mundo novo,

enquanto vendem armas para matar o povo que subjugam pela exploração.

Regina Gouveia , Magnetismo Terrestre

Tchador

Déboras, Irinas, Svetlanas ucranianas, sul- americanas, não importa.

Partiram em busca de uma porta que lhes desse acesso a melhores vidas.

e acabaram ludibriadas, iludidas, nas mãos de proxenetas.

São traficadas são exploradas, vezes sem conta são violadas

e quando, apesar de jovens, acabadas, são abandonadas, jogadas nas sarjetas.

Sandras, Bintas, não importa o nome, a vida deu-lhes até hoje violência e fome.

Aquela com onze anos, tão menina, de uma outra menina já é mãe.

Por certo é a primeira boneca que ela tem. E nos olhos, em vez de ódio

e de revolta, uma lágrima solta, enquanto embala a filha com amor.

Aquela outra ali é argelina, talvez a "pietá" que correu mundo.

Nos olhos um desgosto tão profundo, maior que o próprio mundo.

E aquelas outras das quais não vejo o rosto que, se doentes, não podem ser tratadas, que são impuras, se desvirginadas, que se forem violadas

poderão por castigo ser queimadas?

O que dirão os seus olhos por baixo do tchador?

Humilhação? Desgosto? Resignação? Rancor? Talvez revolta?

Se eu um dia usar tchador por meu querer acreditem que não é para me esconder

é só para tentar não ver tanta injustiça, tanto horror,

tanto fanatismo, tanta dor, neste mundo cruel à nossa volta.

Regina Gouveia em Reflexões e Interferências



Regina Gouveia

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