Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A famigerada avaliação dos professores....

No meu livro Se eu não fosse professora de Física..(Areal Editores, 2000) refiro a dada altura, justificando, que se não fosse professora de Física gostaria de o ser e, a dada altura digo(sic): Se ser professor é sempre uma tarefa aliciante, apesar de todos os “senãos”, ser professor de Física é, em meu entender, duplamente aliciante.


É certo que os grandes senãos estavam para vir e de tal modo me senti maltratada pelo sistema que aos sessenta anos de idade e com 39 de carreira, pedi a aposentação. Foi um decisão muito dolorosa. Adorei ser professora. Não trocaria a minha profissão por qualquer outra e pensei sempre que, enquanto tivesse forças e me fosse legalmente permitido, eu não deixaria o ensino.

Já estou a imaginar comentários de alguns leitores: os professores nunca fizeram nada e por isso reagiram mal às alterações propostas pela ministra (sinistra) MLR.

Dei muito de mim ao ensino, muitas vezes em prejuízo da família. E o que dei não foi só tempo, empenho e dedicação. Com o meu dinheiro comprei muitas coisas que achava indispensáveis para levar a cabo actividades com os alunos e, dos inúmeros cursos de formação que fiz, se muitos foram pagos pelo sistema , outros foram totalmente a expensas minhas, nomeadamente alojamentos e deslocações. Acrescentarei que a Sociedade Portuguesa de Física reconheceu todo este meu esforço e, assim, em 2005 fui, por proposta da referida Sociedade, condecorada pelo Presidente Jorge Sampaio, com a Comenda da Instrução Pública e pela mesma Sociedade foi-me atribuído o prémio Rómulo de Carvalho para excelentes professores de Física (deste prémio dei parte à Escola para atribuição de um prémio ao melhor aluno de Física de 12º ano).

Coloco aqui estes dados correndo o risco de parecer imodesta, mas com eles pretendo mostrar que eu, tal como muitos professores ( creio que uma esmagadora maioria) davam, e por certo continuam a dar, o seu melhor em prol do ensino e da educação em Portugal. Tal como em qualquer outra profissão há parasitas no sistema e urge acabar com todos esses parasitismos. Mas não de uma forma leviana e pouco séria.

A propósito do problema da avaliação, choca-me profundamente ler e ouvir com frequência, que os professores não querem ser avaliados. É provável que alguns não queiram, mas os professores empenhados (que serão provavelmente uma grande maioria) querem com toda a certeza uma avaliação que venha permitir separar o trigo do joio.

Pois meus caros leitores, os resultados da avaliação proposta por MLR estão aí. E em muitos dos casos que conheço, são  pura e simplesmente uma burla.

Sei de escolas em que o critério foi este, os professores foram classificados em dois grupos:

• com muito bom todos os que aceitaram observação de aulas independentemente de ser excelente ou mau o seu desempenho

• com bom, todos os que não aceitaram ser observados.

Tendo sido orientadora de estágios durante 22 anos, tendo durante vários anos dado aulas de Didáctica da Física no Mestrado em Física para o Ensino (FCUP) conheço muito professores de Física e Química.

Quando vejo os resultados da avaliação sinto uma profunda tristeza.

O trigo e o joio, tudo misturado num saco só.

É contra esta avaliação, que existe apenas para cumprir uma determinação ministerial demagógica e irresponsável, que estão os professores.

Outra ideia que se propalou por aí é que os professores nunca tinham sido avaliados ao longo da carreira. Nada mais falso. Até 1974, era vulgar um professor estar a dar aula, e sem qualquer aviso prévio, entrava um inspector na sala. As minhas aulas e as dos meus colegas foram várias vezes observadas pelo Inspector Túlio Tomaz. Não sei como essas observações eram depois tratadas mas nunca me preocuparam, antes pelo contrário, gostava de ouvir o parecer do Inspector no fim da observação.

Em 1974 e como é normal em qualquer processo revolucionário, houve de início alguma perturbação no sistema. Sei também que, nos anos que se seguiram, houve vários especialistas envolvidos em processos de formação e avaliação contínua, entre eles e para dar apenas dois exemplos, Albano Estrela e António Nóvoa. Tomaram-se algumas medidas para controlar a progressão na carreira ( por exemplo a prova de acesso ao 8º escalão no E. Secundário).

É verdade que, apesar de muitos esforços e contributos, não se conseguiu chegar a um sistema eficaz. Mas o sistema proposto por MLR foi sem dúvida um absurdo, que revela a falta de uma reflexão
séria sobre um problema da maior importância.

Muito provavelmente a actual Ministra da Educação não irá ler este texto mas,  apesar de tudo,  lanço um apelo.

É urgente criar um sistema de avaliação dos professores que tanto quanto possível seja:

1. Isento (dificilmente o será entre professores da mesma escola),

2. Objectivo (dificilmente o será enquanto a observação de aulas puder ser feita por colegas de outras áreas),

3. Eficaz (dificilmente o será enquanto assentar essencialmente no preencher de um amontoado de papéis palavrosos mas que pouco querem dizer),

4. Sério (dificilmente o será enquanto tiver por base essencialmente um “show off “ vazio de conteúdo)

5. Justo, permitindo distinguir o trigo do joio

3 comentários:

  1. Concordo inteiramente consigo mas julgo que houve um acordo que minoriza alguns dos problemas mais gravosos.Um beijo.

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  2. Subscrevo praticamente tudo o que escreves acima, acrescentando que é extremamente difícil avaliar colegas da mesma escola, dado o ambiente que se cria e a competição para as vagas de acesso aos escalões mais elevados. Já era difícil avaliar estagiários , também o fiz durante 16 anos, avaliar colegas é quase impossível, tanto da parte de quem avalia, como de quem é avaliado, embora saibamos que há professores excelentes para ambas as coisas.
    O exame de acesso que "inventaram" depois de 1974 era ao 8º escalão e consistia numa defesa do currículo e discussão de temas propostos por um juri. Fi-lo e embora não concordasse com o sistema, fiquei satisfeita porque reconheceram o meu esforço , dando-me M.Bom, que não era tão frequente quanto isso. Pela primeira vez depois do Estágio, achei que alguém tinha sido justo para comigo e reconhecido o emu esforço.
    Depois disso houve a farsa dos cursos para aquisição de créditos, com que nunca concordei, a ponto de perder um ano de vencimentos por não os ter. Os cursos eram meio de ganhar verbas extras para os formadores e nulos para os formandos, pois versavam temas que nada tinham a ver com a nossa formação específica, em geral.
    Penso que a avaliação deveria ser feita por comissões alheias a própria escola e sem necessidade de burocracia inútil, como a que é exigida hoje em dia para esse fim. Também não acho que se deva processar todos os anos, mas só quando há possibilidade de subida de escalão.
    Felizmente já estou "livre" desse colete de forças porque sempre adorei dar aulas, sempre me motivei para elas, mesmo em periodos difíceis da minha vida, mas sempre fui muito independente e detesto obrigatoriedades. Fazia tudo por gosto, com gosto e porque era opcional.

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  3. Virgínia
    Começo por agradecer a correcção. De facto a prova de acesso era para o 8º escalão e não para o 7º, como por lapso referi. Quanto à aquisição de créditos, o "princípio" pareceu-me correcto. Mas houve de imediato oportunismos de parte a parte.
    -Da parte de alguns formadores que fizeram dos cursos verdadeiras árvores das patacas(lembro-me de ter visto anunciados cursos de power point com 160 h, de Internet com 300, etc, etc, etc).
    -Da parte de alguns formandos que faziam um curso, não importava sobre o quê, importava apenas que fosse fácil,pois o único objectivo era adquirir os créditos.
    Obviamente que houve óptimos formadores e óptimos formandos. Se o sistema tivesse sido
    convenientemente supervisionado os desmandos não se teriam sucedido e o ensino teria ganho, por certo
    Um abraço
    Regina

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