Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 17 de janeiro de 2010

Ainda a propósito do infinito…

Fui ontem ao lançamento de um livro infantil, Livros dos Medos de Adélia Carvalho, ilustrado por Marta Madureira (edições Trampolim). Adélia Carvalho mantém um espaço muito interessante, a Livraria Papa Livros, na Rua D. Manuel II, quase em frente ao Museu Soares dos Reis
E que relação existe entre o livro dos Medos e o infinito?

Em dada altura do texto, a Carolina diz à mãe: Vou gostar sempre de ti até ao infinito.

Que ideia farão do infinito a Carolina e as demais crianças do mundo? O certo é que o infinito aparece muitas vezes para exprimir relações de afecto. Também o meu filho mais novo (hoje ilustrador dos meus trabalhos),  me dizia que gostava de mim até ao infinito. Transportei essa frase para o poema que segue (in Reflexões e Interferências, 2002)

Afectos

Hoje eu decidi escrever um poema com os afectos por tema.

Podia ser sobre a buganvília, sobre a família,

sobre o gosto do mel, sobre o bolero de Ravel,

sobre o meu filho Miguel , que em pequenino,

os olhos a cintilar de amor, aplaudia ao ver qualquer flor

a que chamava tanta,

sobre os livros de Florbela Espanca, Pessoa, Saramago, Aquilino

Manuel Alegre, Gedeão, Quental.

Podia ser sobre o Natal com a família reunida à mesa

e as chaminés a expelir fumo

Podia ser sobre a Teresa sobre o meu filho Nuno

que me dizia, em pequenito,

gosto de ti até ao infinito.

Podia ser sobre o cheiro do tomilho,

o sabor da pamonha de milho, sobre o meu gato andarilho,

sobre a minha mãe, que cantava tão bem

de Verdi, a Traviata, de Schubert, a serenata.

Podia ser sobre o alecrim que, aos molhos,

faz chorar os olhos, como cantava o meu pai.

Podia ser sobre o meu bonsai

Podia ser sobre as cadeiras que herdei da avó,

tal como do avô a caixa do rapé,

podia ser sobre as colchas em filé, rede de nó,

rendadas, bordadas, feitas por várias tias.

Podia ser sobre as tristezas e as alegrias que partilho, por inteiro

com o marido, amante e companheiro.

Podia ser sobre os chapéus da mãe e as suas luvas,

podia ser sobre o gosto das uvas nas vindimas, em Setembro.

Podia ser sobre Paris, sobre Veneza, sobre as conversas à mesa

ou sobre as histórias ao serão, em Dezembro.

sobre Mozart, Chopin, sobre Gauguin, Renoir,

sobre o sol, sobre a lua, sobre o mar,

sobre a areia quente no verão, sobre a neve a cobrir o chão,

sobre a amizade, sobre a saudade.

Mas eu decidi que ia escrever um poema tendo os afectos por tema.

E o poema que escrevi fala de afectos

Fala de afectos nas linhas, e nas entrelinhas,

fala de afectos através de imagens e de viagens pelo espaço e pelo tempo

Os afectos estão dispersos, implícitos nos vários versos.

Com afectos povoei meu pensamento.

3 comentários:

  1. Este poema é ...um Poema, Regina!

    Ritmo, sentimentos, recordações, memórias, gestos, relações, retratos, família e TU, no centro dessa esfera de afectos, como aquelas crianças que giram á sua volta, tantas vezes, tantas que até caem de tontura para o chão.

    És uma felizarda, sabes? Porque não basta sentir, é tão bom saber expressá-lo.

    ResponderEliminar
  2. Não faço comentários ao seu poema. Já o conhecia e a Regina sabe como eu aprecio a sua poesia. Mas acho mesmo muito difícil conciliar, como a Regina, a sua qualidade de personalidade ligada à ciência com o sentido artístico que tão bem exprime na sua poesia e pintura. Um abraço.

    ResponderEliminar
  3. Obrigada às duas.
    O meu pai tinha 52 anos quando em nasci; não conheci os meus avós mas para os meus tios paternos eu era simultaneamente sobrinha e neta(era da idade dos respectivos netos...)
    Da parte da minha mãe era filha única
    Isto para concluir que tive uma infância muito privilegiada no que toca aos afectos( não mimos, mas afectos). Creio que o poema é um pouco reflexo dessa infância. Ao longo da vida também tenho tentado distribuir afectos, possivelmente muito menos do que gostaria.
    A Teresa Pinto de Almeida "utilizou" o poema uma vez (com o meu aval)numa sesão que fez no Carolina, salvo erro, ligada ao Instituto Britânico mas eu não pude assistir porque tive de ir a Trás-os-Montes.

    ResponderEliminar