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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ainda O Estrangulador de Bonecos de Neve...

Tal como anunciei na mensagem anterior, ontem o escritor Carlos Vaz esteve no Clube Literário do Porto, para nos falar do livro de microcontos: O Estrangulador de Bonecos de Neve.


Estávamos muito poucos e foi pena porque, para além da conversa  acerca  do livro,  emergiram outros temas  pela tarde dentro. Mas falemos um pouco da obra de Carlos Vaz, particularmente de O Estrangulador de Bonecos de Neve, com quarenta e sete microcontos que, no dizer de Maria Augusta Silva  nos confronta com múltiplas emoções (…) Desses microcontos ressaltam metáforas da violência (violência compulsiva)e da impunidade (…)O Estrangulador de Bonecos de Neve é um livro intenso num movimento circular, de modo a que a alegoria organize a reflexão plena (caso do primeiro e último textos à volta de livros e leitores). Num misto de sonho e de angústia, Carlos Vaz satiriza a «insuportável leveza das coisas». E da inquietação nasce uma luminosa busca interior e um distinto sentido crítico"

E agora, para “aguçar o apetite” aqui ficam alguns microcontos


Quero um doce –pediu o menino ao deitar-se, o pai tirou do bolso um chocolate, devidamente encenado para a ocasião, mas o menino não o quis.
Quero um doce -repetiu esfomeado, o pai foi buscar uma bolacha que o menino se aprontou a rejeitar.
Quero um doce- disse, e o pai contou-lhe a graciosa história de Hansel &Gretel e o menino acabou por adormecer de barriga cheia


Daqui a alguns anos, creio que não muitos, quando o “escrever- à- mão” se dissipar para sempre, os lápis e as canetas dsaparecerem e as palavras forem trocadas por imagens digitalizadas, o homem perderá o seu nome, bem como a sua história. Terá um enorme olho circular no meio da testa , e viverá sozinho na sua gruta tecnológica, configurando-se como um ciclope gigante, rodeado de ovelhas digitalizadas


Primeiro e último textos à volta de livros e leitores

Era uma vez um coleccionador de introduções. Mal entrava numa livraria, coria logo para as páginas iniciais dos livros e arrancava-as com toda a avidez. Um dia, enquanto este coleccionador de introduções se mantinha entretido a rasgar as ditas primeiras páginas, na famosa livraria onde várias vezes fora proibido de entrar, tropeçou numa leitora que, ao contrário dele, coleccionava os mais belos desenlaces.
Segundo a história, o coleccionador de introduções e a leitor dos ditos desenlaces apaixonaram-se quase de imediato e ao fim de alguns anos, não muitos, tiveram um filho traquina que avançava sempre as primeiras páginas e nunca chegava ao fim de um livro


Mas a obra de Carlos Vaz não se esgota aqui, bem pelo contrário. Para além de Diários de um Real- Não- Existente (Prémio Vergílio Ferreira 2005) e de outros títulos,  é autor da Trilogia da Experiência constituída por “ A casa de Al´isse", "Seres de Rã "e "Capricho 43" (Prémio Paulouro, 2006).

Ando às voltas com o fim deste minúsculo diário, pautado pelo sono que me arrasata para uma metade que ainda não há em mim. O sono toma conta do meu telescópio, e leva-me, como astronauta, às voltas pelo texto: giro giro giro, e penso, enquanto giro até ficar completamente estonteado: quando tudo parar, para que lado estarei virado (in Capricho 43)


o que é a magia que circula nas páginas/

não é um diário apesar de ser dia/ não é um conto/ não é poesia/

talvez uma implosão onde dois palpáveis se reúnem na entropia das palavras/ talvez pertença a fragmentos

[.]. Por vezes a sensação de real nada tem de real, outras até tem. O que escrevo é e não é/ não sei
(in A Casa de Al´isse)

Os livros de Carlos Vaz são livros para "saborear". Deliciem-se.

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