Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Falando de biodiversidade…

 A propósito da biodiversidade convido-os a ler um texto de que aqui deixo excertos


"Um desenvolvimento só será sustentável se houver preservação da Biodiversidade, o que não tem vindo a acontecer em parte alguma no Globo. É isso que os governos, políticos, industriais, assim como todas as pessoas necessitam, urgentemente, de perceber.(…)

É fundamental que todos se capacitem que sem a Biodiversidade não sobreviveremos e, quanto mais elevada ela for, maior a probabilidade de sobrevivência da nossa espécie. Os outros seres vivos não são só a fonte dos nossos alimentos: como também das substâncias medicinais que utilizamos (cerca de 8o% dos medicamentos são extraídos de plantas e 90% são de origem biológica); do nosso vestuário (praticamente tudo o que vestimos é de origem animal ou vegetal); da energia que necessitamos (lenha, petróleo, ceras, resinas, etc.); da maioria dos materiais de construção e mobiliário que usufruímos; etc. Até grande parte da energia hidro-eléctrica que consumimos não seria possível sem a contribuição de outros seres vivos, pois embora a energia eléctrica possa estar a ser produzida pela água de uma albufeira esta tem de passar pela turbinas e estas precisam de óleos lubrificantes. Esses óleos são extraídos do «crude» (petróleo bruto), que é de origem biológica. No entanto, em vez de preservarmos a Biodiversidade temos vindo a diminui-la drasticamente. No passado já utilizámos cerca de 10.000 espécies de plantas na nossa alimentação, mas actualmente a base alimentar dos países industrializados baseia-se em cerca de 20 espécies de vegetais, entre os quais, 8 espécies de cereais (milho, milho-miúdo, arroz, trigo, centeio, cevada, aveia e sorgo) e em carne de apenas 5 espécies de animais (porco, frango, vaca, ovelha, cabra). Durante a minha já longa vivência (curtíssima para a idade da terra) desapareceram inúmeras espécies, quer animais, como, por exemplo, o pato-das-marianas (Anas oustaletis), dado como extínto em 1981 e a foca-monge-das-caraíbas (Monachus tropicalis), dada como extínta em 2008; quer vegetais, como, por exemplo, o azevinho-da índia (Ilex gardneriana), dado como extínto em 1998 e a Armeria arquata, do litoral Sul de Portugal, não observada há mais de um século; quer de outros filos como o cogumelo-quinino (Fomes officinalis), que não contém quinino e, que apesar de ser um dos cogumelos mais compridos e ter uma vida média de cerca de 50 anos, está extinto na Europa (actualmente só ocorre na América do Norte) por excessiva colheita devido aos seus atributos medicinais(…).
"Sem elevada Biodiversidade a Humanidade não sobreviverá."


Nas minhas visitas a escolas, foi-me mais que uma vez sugerida por professores, a escrita de textos com diálogos,  para serem trabalhados com os alunos.

Escrevi já uns tantos textos que espero publicar (não sei é quando) e um deles é sobre a biodiversidade.

É com esse texto que termino esta mensagem
O bosque frondoso e o abeto curioso

Um enorme cartaz, no bosque frondoso, deixou intrigado um abeto curioso.
Pediu à sequóia que estava a seu lado:

Abeto
Vê lá se és capaz de ler o que diz.

Sequóia
No cartaz está escrita esta frase bonita: Viva a biodiversidade.

Abeto
E o que quer isso dizer? Estou com curiosidade

Sequóia
Bio quer dizer vida; diversidade, diferença.
Da formiga ao elefante, da amiba a um insecto,
Da centopeia à baleia, do musgo, ao limo, ao abeto…

Abeto
E à sequóia gigante…


Sequóia
Somos todos diferentes com alguma parecença.
Somos seres vivos diversos, pelo planeta dispersos.

Abeto
E existe nisso algum mal?

Sequóia
Pelo contrário. É normal e também muito importante para a vida do planeta.

Abeto
É o alerta do cartaz?

Sequóia
És uma árvore esperta…
Alerta para que a vida, animal ou vegetal,  seja toda protegida.

Abeto
Mas que ideia tão feliz!

Sequóia
Muito feliz, realmente, pois espécies que existiram,
há já muito se sumiram.

Abeto
Que aconteceu afinal?

Sequóia
Por vezes foi natural a razão da extinção.
Foi assim com os dinossauros.
Mas também, infelizmente,o homem, ser imprudente,
o planeta tratou mal sem ter preocupação com a bio - preservação.

As imagens que seguem são da autoria de Fernando Gouveia. Trata-se de fotos em macro, tiradas em terrenos incultos, a minúsculas flores selvagens ( raramente ultrpassam 1 cm de diâmetro) e que fazem parte de uma colecção que o autor intitula Flores que não existem porque,  apesar de existirem,  não damos por elas.









quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Receita de Ano Novo Carlos Drumond de Andrade

Receita de Ano Novo Carlos Drumond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo


cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,


Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido


(mal vivido talvez ou sem sentido)


para você ganhar um ano


não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,


novo até no coração das coisas menos percebidas


(a começar pelo seu interior)


novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,


mas com ele se come, se passeia,


se ama, se compreende, se trabalha,


você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,


não precisa expedir nem receber mensagens


(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).


Não precisa fazer lista de boas intenções


para arquivá-las na gaveta.


Não precisa chorar de arrependido


pelas besteiras consumadas


nem parvamente acreditar


que por decreto da esperança


a partir de Janeiro as coisas mudem


e seja tudo claridade, recompensa,


justiça entre os homens e as nações,


liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,


direitos respeitados, começando


pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano-Novo que mereça este nome,


você, meu caro, tem de merecê-lo,


tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,


mas tente, experimente, consciente.


É dentro de você que o Ano Novo


cochila e espera desde sempre.

Carlos Drumond de Andrade

Achei por bem acompanhar esta receita de Ano Novo com uma doce "sobremesa": o Hino da Alegria, pela Orquestra Sinfónica e Coro de S. Diego, acompanhado, por sua vez, de algumas notas interessantes

O hino da Alegria, do 4º andamentoe da 9º Sinfonia de Beethoven, inpira-se num texto de  de Friedrich von Schiller , Ode à Alegria. Aquifica a  tradução do original, tal como se canta na nona sinfonia de Ludwig van Beethoven.


(Barítono)


Oh amigos, mudemos de tom!


Entoemos algo mais agradável


E cheio de alegria!


(Barítonos, quarteto e coro)


Alegria, mais belo fulgor divino,


Filha de Elíseo,


Ébrios de fogo entramos


Em teu santuário celeste!


Teus encantos unem novamente


O que o rigor da moda separou.


Todos os homens se irmanam


Onde pairar teu vôo suave.


A quem a boa sorte tenha favorecido


De ser amigo de um amigo,


Quem já conquistou uma doce companheira


Rejubile-se connosco!


Sim, também aquele que apenas uma alma,


possa chamar de sua sobre a Terra.


Mas quem nunca o tenha podido


Livre de seu pranto esta Aliança!


Alegria bebem todos os seres


No seio da Natureza:


Todos os bons, todos os maus,


Seguem seu rastro de rosas.


Ela nos dá beijos e as vinhas


Um amigo provado até a morte;


A volúpia foi concedida ao verme


E o Querubim está diante de Deus!


(Tenor solo e coro)


Alegres, como voam seus sóis


Através da esplêndida abóboda celeste


Sigam irmãos sua rota


Gozosos como o herói para a vitória.


(Coro)


Abracem-se milhões de seres!


Enviem este beijo para todo o mundo!


Irmãos! Sobre a abóboda estrelada


Deve morar o Pai Amado.


Vos prosternais, Multidões?


Mundo, pressentes ao Criador?


Buscais além da abóboda estrelada!


Sobre as estrelas Ele deve morar.

E porque de Ano Novo se fala, achei interessante algumas referências que encontrei em realção ao Ano Novo Chinês.

Ano-novo chinês é uma referência à data de comemoração do ano novo adoptada por diversas nações do Oriente que seguem um calendário tradicional distinto do Ocidental, o Calendário chinês.

Cada ano-novo chinês tem início, em cada ano,   em uma data diferente do calendário ocidental.
Os chineses relacionam cada novo ano a um dos doze animais que teriam atendido ao chamado de Buda para uma reunião. Apenas doze se apresentaram, Buda em agradecimento os transformou nos signos da Astrologia chinesa.
Os doze animais do Horóscopo chinês a que correspondem os anos chineses são, de acordo com a ordem com que se teriam  apresentado a Buda na lenda acima citada: rato, búfalo, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e o javali. Desta forma, se 2008 foi o ano do rato, 2009 o do Boi (búfalo), 2010 o do Tigre, e 2011 será o do coelho
Associada às comemorações de Ano Novo, existe na cidade de Gaomi, na província de Shangdong, no leste da China,uma arte com cinco séculos de história. Chama-se pintura do Ano Novo Puhui



Votos de um Feliz 2011..

O meu marido tinha duas tias solteiras de quem gostava muito, sentimentos que eu partilhava pois eram umas senhoras encantadoras. A mais velha era muito baixinha daí que o meu marido lhe chamasse carinhosamente tia pequenina. Lia muito, mas quase exclusivamente livros religiosos e místicos.


Ao aproximar-se mais um final de ano, recordo sempre as sua profecias sobre o fim do mundo no ano 2000, profecias essas em que cruzava, entre outras, as de Nostradamus e de S. João de Patmos

Cada vez estou mais certa das profecias de Nostradamus. Este mundo depravado tem que estar a chegar ao fim. Já a minha avó dizia: “A mil chegarás mas de dois mil não passarás”. Os que cá estiverem verão. O Sol vai ficar preto e a Lua vermelha como o sangue. As estrelas vão cair sobre a Terra como caem os figos da figueira e o céu desaparecerá. O terceiro segredo de Fátima, para mim, não pode ser outra coisa senão o anunciar do fim do mundo.

Para a tia pequenina o fim do mundo chegou antes. Morreu subitamente no dia 6 de Abril de 1999.

na verdade este nosso pequeno mundo irá acabar um dia, mas ainda falata muito tempo....


 Um dia


Um dia o sol há-de deixar de brilhar


E a terra – os continentes e os oceanos…


Mas não há razão para te preocupares


Ainda faltam milhões de anos

Jorge Sousa Braga in Pó de Estrelas



….Presos sem grades somos


E assim presos


vogamos pelo espaço à mercê de um braseiro,


roendo as unhas limpas, sem ferrugem.


Ontem eras tu frio; hoje são outros;


amanhã outros outros;


e assim pelo tempo fora


até que,


também ele, o tal dragão magnífico,


o indispensável centro


do carrocel celeste em que penamos,


como tu, como eu, como um qualquer de nós,


acabará em frio….

O que aquece, arrefece.


O inexorável tempo que é cego, surdo e mudo pulverizá-lo-á num formidável estrondo


sem ruído.


Entretanto, enquanto isso não vem


(nem é comigo)


enfio as mãos nos bolsos e aconchego-as
Gedeão, A. in Poema das mãos frias in Novos poemas Póstumos


….Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.


Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada


E com o desconforto da alma mal-entendendo.


Ele morrerá e eu morrereiele deixará a tabuleta, eu deixarei versos .


A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.


Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta


E a língua em que foram escritos os versos.


Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu….
Álvaro de Campos, Tabacaria



Sinfonia dissonante


Ei-lo, uma esfera de gás incandescente


plasma de matéria quente, ionizada.


Ei-lo, o astro rei de morte anunciada.


A luz que hoje nos chega,


após oito minutos de viagem,


deixou retida, na voragem


de um silêncio denso e frio,


uma sinfonia dissonante


que eclodiu e ficou refém,

no mesmo instante,


da imensidão de um cosmos feito de vazio.

Regina Gouveia


Apesar do futuro não se mostrar muito risonho, desejo a todos um Bom 2011

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Mais um Natal se passou ...

Mais um Natal se passou


Bacalhau, peru, bolo rei, rabanadas,

o bulício das crianças, as suas gargalhadas,

mais uma vez, a peça de Natal sempre diferente

mas também o pesar de tanto ausente

que a memória reacende..

Ao rebuscar nas memórias e, a propósito dos meus netos, lembrei – me de uma sucessão de fotos minhas quando tinha 18 meses.

Nada tem de especial mas a sucessão das várias fotos, lidas de cima para baixo e da esquerda para a direita, tem uma “ história” interessante.

 O fotógrafo esforçava-se para que eu sorrisse mas, ao que parece, nesse dia não estava disposta a sorrir. Já “desesperado” terá dito. Assim fica sem graça, se pelo menos chorasse... O meu pai resolveu de imediato o problema. Começou a elevar um pouso a voz fingindo que estava zangado. Comecei por tirar o laçarote da cabeça, ergui o braço e desatei a berrar.

Toda a minha vida detestei que me falassem em voz alta e me berrassem. Talvez por isso sempre falei baixo o que levava a que os alunos muitas vezes me pedissem para elevar em pouco a voz
E já agora, porque neste blogue se fala de ciência, usamos incorrectamente (e eu acabo de usar também ) a expressão som baixo ( ou som alto) quando queremos falar do nível sonoro. Deveríamos dizer fraco (pouco intenso) e forte (muito intenso). O nível sonoro, que se exprime em decibel, tem a ver com a intensidade do som mas não com a frequência, que se exprime em Hz e que é responsável pelos sons mais graves (baixos) ou mais agudos (altos).
Os sons audíveis pelos humanos situam-se entre 20 Hz e 20 kHz. Uma voz masculina do tipo baixo pode chegar a 5KHz, um tenor pode chegar a 8KHz e até mais.  Uma voz feminina do tipo soprano pode chegar a 12KHz ou até mais..
E a terminar deixo-vos com Puccini, nas vozes da soprano Maria Callas e do tenor Pavarotti

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Aniversário...

Este blogue faz hoje um ano.


 No seu primeiro aniversário, e como forma de agradecimento a todos os seguidores,  deixo o poema Aniversário de Álvaro de Campos  dito por Paulo Autran






No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,



Eu era feliz e ninguém estava morto.


Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,


E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,


Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,


De ser inteligente para entre a família,


E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.


Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.


Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.


Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,


O que fui de coração e parentesco.


O que fui de serões de meia-província,


O que fui de amarem-me e eu ser menino,


O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...


A que distância!...


(Nem o acho...)


O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!


O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,


Pondo grelado nas paredes...


O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas


lágrimas),


O que eu sou hoje é terem vendido a casa,


É terem morrido todos,


É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...


Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!


Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,


Por uma viagem metafísica e carnal,


Com uma dualidade de eu para mim...


Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...


A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,


O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,


As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...


Pára, meu coração!


Não penses! Deixa o pensar na cabeça!


Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!


Hoje já não faço anos.


Duro.


Somam-se-me dias.


Serei velho quando o for.


Mais nada.


Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...


O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Valha-nos ainda o humor (embora negro) .

Não resisto a colocar aqui um texto que podem consultar em vários sites nomeadamente aqui  e aqui

Valha-nos ainda o humor (embora negro) .




Em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer

... Que Portugal é um país livre de corrupção sabe toda a gente que tenha lido a notícia da absolvição de Domingos Névoa. O tribunal deu como provado que o arguido tinha oferecido 200 mil euros para que um titular de cargo político lhe fizesse um favor, mas absolveu-o por considerar que o político não tinha os poderes necessários para responder ao pedido. Ou seja, foi oferecido um suborno, mas a um destinatário inadequado. E, para o tribunal, quem tenta corromper a pessoa errada não é corrupto- é só parvo. A sentença, infelizmente, não esclarece se o raciocínio é válido para outros crimes: se, por exemplo, quem tenta assassinar a pessoa errada não é assassino, mas apenas incompetente; ou se quem tenta assaltar o banco errado não é ladrão, mas sim distraído. Neste último caso a prática de irregularidades é extraordinariamente difícil, uma vez que mesmo quem assalta o banco certo só é ladrão se não for administrador.


O hipotético suborno de Domingos Névoa estava ferido de irregularidade, e por isso não podia aspirar a receber o nobre título de suborno. O que se passou foi, no fundo, uma ilegalidade ilegal. O que, surpreendentemente, é legal. Significa isto que, em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer. É preciso saber fazer as coisas bem feitas e seguir a tramitação apropriada. Não é acto que se pratique à balda, caso contrário o tribunal rejeita as pretensões do candidato. "Tenha paciência", dizem os juízes. "Tente outra vez. Isto não é corrupção que se apresente."

Ricardo Araújo Pereira







terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Boas Festas

Foi no dia 23 de Dezembro de 2009 que coloquei a primeira mensagem neste blogue. Anteriormente e, durante alguns dias, tive um outro blogue. Foi através dele que desejei um Bom Natal, com vários  poemas de Natal -de Gedeão , de Vinicius de Moraes ,de David Mourão Ferreira, de Miguel Torga, de Fernando Pessoa

Este ano, e neste blogue, resolvi colocar o conteúdo do postal de Boas Festas que enviei aos amigos, com texto e pintura de minha autoria

Na fruteira, romãs entreabertas


como na natureza morta de Matisse, exibem rubros bagos.


Ao lado o prato de arroz doce


e um odor a canela a flutuar no ar, adocicado e lento.


Na terrina de faiança, sabores que evocam a infância


e que a memória retém ciosamente guardados


Abriu-se a porta do tempo. Arrumada a um canto,


a mesa de nogueira onde tudo está pousado.


(não publicado)

Votos de um Feliz Natal (2010)

Creio que já uma vez referi que, embora escrevendo poesia desde que me lembro de escrever, só em 2002 dei a conhecer poemas meus. A primeira pessoa a conhecê-los foi Drª Maria do Carmo Cruz que me incentivou muito a publicá-los.

A partir daí, os postais de Natal passaram a incluir um poema meu e uma foto. Mais tarde, quando em 2006 comecei a pintar (se é que posso ter tal pretensão), passaram a incluir uma pintura em vez da foto

Aí estão todos

A neve é um cristal com padrão hexagonal.


De origem molecular, tem átomos de hidrogénio

ligados a oxigénio de uma forma regular.

Em flocos, lembrando enxames, e com o vento a ajudar,

volteia com ademanes antes de no chão pousar.

Transforma-se em branco manto, e é motivo de espanto,

de êxtase, contemplação. É fonte de inspiração

para poetas, pintores, para amantes sonhadores.

Ela é todas as cores em uma só reunidas,

mas também é mãos doridas em gentes desprotegidas

do frio cruel, cortante, que enregela num instante.

Cobrem-se com velhos trapos, com jornais e com farrapos,

e nós fechamos os olhos a todos estes escolhos.

É cómodo ignorar. É bem mais fácil pensar

nos cristais hexagonais e na neve dos postais.

(in Reflexões e Interferências)

Votos de um Feliz Natal (2003)
                                                       
Nos enredos da memória, por entre o silêncio branco,


vão desfilando sombras de mil vozes e penumbras de mil cores,


as palavras não ditas e as reditas,


a luz que o orvalho dispersou, os murmúrios do mar,


e os sussurros do vento, o reverso do tempo


que eu tento aprisionar no búzio que a maré ali deixou


(não publicado)





Votos de um Feliz Natal (2004)

Natal



O menino sorri sobre as palhinhas,


e cintilam as luzes do pinheiro,


a mesa está repleta de iguarias


e à sua volta há muito comensal,


muitos adultos, algumas criancinhas.


Por entre a excitação o sono espreita


mas a hora de deitar não se respeita, é preciso receber o Pai Natal,


com todos os presentes.


Atravessa o ar, em galopada, um tropel de palavras fugidias


Uma boneca, um avião, uma consola, uma casinha, um helicóptero, uma bola,

um robot, um mecano, uma pistola um triciclo, uma prancha, uma viola….


Isolo-me de tanta confusão e penso com saudade nos ausentes


cuja imagem é cada vez mais desbotada.


Levanto-me num gesto sorrateiro, vou à janela e ninguém dá por nada.


É Natal.


No passeio em frente, deitado no chão, dorme um mendigo, coberto com um jornal.


(não publicado)


Votos de um Feliz Natal (2005)


Natal



Inexorável o tempo avança como um rio que flui


em direcção ao mar das memórias que sedimenta ou dilui.


Mas eis que, de novo, se repete a magia


de voltar a ser criança por um dia.


(não publicado)







Votos de um Feliz Natal (2006)
Não sabemos se a estrela de Belém



era estrela, supernova ou cometa.


Diz-se que brilhava intensamente


anunciando o nascimento dum Messias.


Que brilhe novamente este Natal,


que volte a ressurgir em nossos dias


que venha anunciar a profecia


de paz e harmonia no planeta.


(não publicado)


Votos de um Feliz Natal (2007)

É Natal


Um enxame de luzes adeja na cidade


As ruas crepitam de música e de gente


que, apressadamente,


embrulha em consumismo o normal egoísmo,


transformado em amor e em fraternidade.


Mas logo o Natal cessa e então tudo regressa


à habitual normalidade.


(não publicado)
Votos de um Feliz Natal (2008)


Pai Natal, acabo de perceber que não és imparcial


A alguns meninos deste tudo e a outros não deste nada.


Será que perdeste a morada, não estava a tundra gelada,


ou estava a rena cansada ?


No Natal que logo vem, pensa bem pois não pode ser assim.


Ou dás presentes a todos ou não os dás a ninguém.


Nem a mim.


(In Ciência para meninos em poemas pequeninos)


Votos de um Feliz Natal (2009)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

PISA versus Pisa, imperativo do verbo pisar.

 À falta de melhor, o governo bombardeou-nos com os resultados dos alunos portugueses no PISA 2009

RESULTADOS DOS ALUNOS PORTUGUESES MELHORAM NO PISA 2009

 Os resultados dos alunos portugueses no PISA 2009 revelam a mais expressiva melhoria nas três áreas avaliadas - leitura, matemática e ciências -, desde que Portugal participa no PISA
  • Entre 2006, data da última avaliação do PISA, e 2009 verificaram-se progressos consideráveis nos resultados de Portugal.
  • Portugal é o segundo país que mais progrediu em ciências e o quarto país que mais progrediu em leitura e em matemática.

 Quantos partilharão desta euforia?

 
Júlio Marques Mota, Professor Auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu uma carta aberta  ao Presidente da República cuja leitura vivamente aconselho e da qual retiro um excerto

 
Carta Aberta  ao Presidente da República
Coimbra, 15 de Dezembro de 2010

 

 (...)Escrevo em má altura, numa altura de fanfarra pelos dados da OCDE, na base de inquéritos feitos em escolas, mas faço-o nesta mesma altura em que é evidente que a maioria dos filhos intelectuais de Sócrates e de Maria de Lurdes Rodrigues que entraram nas Universidades com altas notas a matemática, há três anos, mostram uma pobreza intelectual aflitiva. Dada a identificação pretendida, quer pelo Governo quer pela OCDE, dos resultados de PISA com a política de educação do actual primeiro-ministro, seria de esperar que os alunos que há três anos chegaram às Universidades reflectissem a mesma política de ensino. Mas a ser assim, das três uma: ou a selecção das escolas deformou os resultados, ou os alunos bons foram não sei sequer para onde, pois para as engenharias também não foram, a fazer fé no jornal O Público, que nos diz que uma parcela significativa dos estudantes do IST não faz operações algébricas simples, e nas outras Faculdades ninguém os vê, ou a maioria dos "beneficiados" desta política nunca conseguiram chegar à Universidade….

 

 A leitura da carta merece-me, entre outros,  os dois comentários a seguir
 
1º Comentário

Carta aberta ao Presidente da República para quê, se o PR que afirma que a pobreza sempre foi uma das suas preocupações, nada fez de significativo para alterar a situação. Ou será que fez?
  •  Acaso dispensou alguns dos vencimentos que aufere?
  •  Acaso sensibilizou o Parlamento para se votar uma lei que proibisse vencimentos e pensões escandalosos ?
  •  Que posição tomou quanto à injecção de dinheiros no BPN ?
  • Etc, etc… 
Como diz o povo ,        
  • Bem prega Frei Tomás. Olhai para o que diz mas não para o que faz.
  • De boas intenções está o inferno cheio

 
2º Comentário

 
As dimensões dos danos que as políticas de Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues trouxeram à educação,  a longo prazo serão provavelmente mais gravosas que os caso BPN e similares.

 
E eesa políticas desatrosas começam logo por algo que é inadmissível, não só na educação mas em todo o funcionalismo público. A avaliação ser secreta.
Se o Ministério da Educação fizesse uma auditoria séria às várias escolas,  rapidamente se aperceberia que em muitas delas, os “excelentes” não são os excelentes, mas sim os “lambe botas” que emergem face à prepotência de muitos Directores Executivos ( não sei se ainda assim são designados) criados à imagem e semelhança de muitos reitores no regime salazarista. Sei de situações em que entram por uma aula fora, desautorizam professores excelentes ( não “excelentes”) e por aí fora.
Medíocres, a única solução que lhes resta é mesmo a prepotência.  Mas são por vezes os eleitos do sistema.

 
Acresce que se fosse desfiar todos os danos que políticas de Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues trouxeram à educação, não me bastariam mil postagens…

 

 

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Os telómeros e a medição do tempo

"Vamos tentar enganar os telómeros para pensarem que ainda são novos" eis o título de um texto muito interessante publicado em Ciência Hoje e de que deixo um pequeno excerto aconselhando a leitura do texto integral

Investigador do IGC vence Prémio Simbiontes com trabalho em oncobiologia

(…)na ponta dos nossos cromossomas existem umas estruturas protectoras, os telómeros, que se vão desgastando à medida que envelhecemos e que constituem um relógio molecular que indica a idade das nossas células (…)

A partir deste texto muito interessante, surgiu-me a ideia de falar sobre A medição do tempo através dos tempos

A cronologia dos homens primitivo tinha como referência o dia e a noite, os movimentos do sol, da lua e das marés.
Foram os egípcios e parte dos povos da Ásia ocidental os primeiros a dividir o dia em 24 horas. O mais antigo instrumento de marcar as horas foi o "relógio do sol" usando a sombra de uma haste vertical no centro de uma superfície circular . Crê-se que já seria usado no Egipto, 1500 anos A.C. O mais antigo relógio de sol que se conhece está exposto no Museu de Berlim. Acredita-se que terá pertencido ao faraó Tutmés III do Egito (1504-1450 A.C.).
Mas só século XVI, combinando conhecimentos de geografia, astronomia, matemática e mecânica é que este instrumento pôde ser calibrado para marcar as horas.

Entretanto foram sendo usados outros “marcadores do tempo”.
Nos castelos e palácios da Europa antiga, usou-se o "relógio de fogo", que consistia em uma corda com nós que ardiam a intervalos regulares.
A nobreza europeia usava também um sistema de seis velas de 15 cm, com espessura idêntica, divididas com uma escala e que,  no seu conjunto, demoravam 24 horas a arder
Outro sistema consistia em marcar as horas usando um recipiente regular de cristal ou vidro, com azeite (e uma mecha), cujo nível ia descendo à medida que o azeite ardia.
Nos conventos, era habitual medir o tempo através da récita de orações. Um "monge-relógio", recitava orações  a que correspondiam certos intervalos de tempo

Foi também no Egiptoque surgiu  a clepsidra (relógio de água), que consistia em um recipiente cheio de água com as paredes graduadas e um pequeno orifício para a água sair. Cada descida correspondia a um determinado intervalo de tempo. A clepsidra difundiu-se por toda a Europa e Ásia e, até ao século XVI, era o mais exacto medidor das horas em dias sem sol. Um dos exemplares mais antigos, construído em 1357, encontra-se em Marrocos, na cidade de Fez.
Outro tipo de “relógio” muito utilizado foi o de areia, ou ampulheta. Inventado também pelos egípcios, o seu funcionamento é simples.Dois reci+ientes de vidro estão ligados por um pequeno orifício que regula a passagem de areia colocada em uma das partes, para a outra. Ao esgotamento da areia corresponde um certo intervalo de tempo. Depois é só virar o instrumento e repetir o processo.

Nos meus tempo de liceu e durante as provas orais, o tempo de prova (creio que 15 min) era medido com uma ampulheta idêntica à da figura.

Alguns jogos para crianças ainda trazem uma pequena ampulheta para medição do tempo

Nas ordens religiosas havia a necessidade de regular os tempos de oração e de culto. Surgiram então uns relógios mecânicos que usavam o som para dar indicações sobre a passagem do tempo. No início eram máquinas movidas por pesos, que faziam soar uma campainha a intervalos regulares. Estes relógios de câmara, situavam-se na cela de um monge, o "guardião do relógio". O monge chamava os outros para as orações tocando o sino da torre. Mais tarde montou-se, na torre, uma máquina  que fazia soar o sino sem necessidade do monge guardião, e anunciava as horas canónicas, uniformizadas por São Benedito no século VI, em sete tempos:
1) as "Matinas" (aurora / 4 badaladas); 2) a "Hora Prima" (nascer do sol / 3 badaladas; 3) a "Hora Tertia" (meio da manhã / 2 badaladas); 4) a "Hora Sexta" ou "Meridies" (meio dia / 1 badalada); 5) a "Hora Nona" (meio da tarde / 2 badaladas); 6) as "Vésperas" (pôr do sol / 3 badaladas) e 7) as "Completas" (anoitecer / 4 badaladas). Estes relógios eram sujeitos a calibragem para acompanharem a variação dos dias ao longo do ano, e as diferentes horas do nascer e do pôr do sol. A palavra inglesa "clock" (relógio não portátil), deriva do holandês "clojk" que quer dizer sino, que por sua vez em alemão se denomina "glocke".
A história refere que o califa árabe Harun Al Rashid teria presenteado Carlos Magno com um relógio de bronze que batia as horas. Mas foi na Europa que o relógio mecânico se desenvolveu.
O primeiro relógio mecânico conhecido (que marcava o tempo),  encontra-se  no Museu de Ciência, em Londres e teria sido encomendado ,  em 1386, pelo rei da França ao fabricante Henry de Vicky. Entretanto,  foi instalado na Catedral de Salisbury, na Inglaterra. Era formado por duas engrenagens movidas por cordas e pesava cerca de 200 quilos.
A partir dos grandes relógios mecânicos foram criados os menores para uso doméstico. As torres e vigias das igrejas tornaram-se torres de relógio, de onde soavam horas iguais para os serviços religiosos. . O relógio foi um serviço público anterior ao abastecimento de água..
Em 1582Galileu (1564-1642), ao observar a oscilação de um candeeiro na Catedral de Pisa, apercebeu-se  do isocronismo das oscilações pendulares  O holandês Christian Huygens  utilizou esse conhecimento na  consttrução  do primeiro relógio de pêndulo.

O relógio de pêndulo que herdei dos meus avós paternos


A substituição do pêndulo por uma peça oscilante, o volante, permitiu a redução do tamanho até ao relógio de bolso que surgiur em 1504. O relógio de pulso só foi criado e patenteado no século XX. O inglês John Harwood registou a invenção em 1924, e logo o novo modelo superou o relógio de bolso.
Entre as marcas mais famosas de relógios encontra-se a Patek Philippe

Primeiro relógio de pulso  e um relógio de bolso da referida marca

Entretanto,  em finais do século XIX foi descoberta a piezoelectricidade. Em certos cristais, quando submetidos a deformações, cria-se uma diferença de potencial, necessariamente um campo eléctrico. Pierre Curie (marido da Madame Curie) e um seu irmão verificaram ainda que, submetidos a uma diferença de potencial, esses cristais se contraíam ou se expandiam, conforme o campo eléctrico aplicado
Em 1920, esta propriedade começou a ser utilizada na fabricação de relógios, os famosos relógios de quartzo, usando a ressonância entre a frequência do campo eléctrico aplicado ao cristal e sua frequência própria
Se cada um dos avanços anteriormente referido veio permitir um rigor cada vez maior na medição do tempo, o maior avanço foi conseguido com os relógios atómicos
O princípio de funcionamento dos relógios é sempre o mesmo. É necessário um oscilador que vibre regularmente: mecânico como num pêndulo, electromecânico, como um cristal de quartzo.
Os relógios atómicos não são excepção ; possuem um oscilador que vibra regularmente e um contador que converte o número de oscilações em segundos.
Como um pêndulo de relógio, o átomo pode ser estimulado externamente (no caso por ondas electromagnéticas) para que sua energia oscile de forma regula. Por exemplo, a cada 9.192.631.770 oscilações do átomo de césio-133 o relógio entende que se passou um segundo.

O tempo foi tido como absoluto até à teoria da relatividade.
Hoje sabemos que o tempo pode decorrer de forma distinta para dois observadores em referenciais diferentes.
E essa nova noção de tempo que nos deu Einstein, pode ser verificada não só nos aceleradores de partículas,  como o foi numa experiência muito mais simples, realizada por dois cientistas
Em 1971, os físicos Joe Hafele e Richard Keating colocaram relógios atómicos precisos em aviões, viajaram com eles em volta do mundo e compararam as suas indicações com as de relógios idênticos deixados em terra. Os resultados foram conclusivos: o tempo passava mais devagar no avião do que no laboratório e, assim, quando terminou a experiência, os relógios voadores estavam 59 nanossegundos atrasados relativamente aos que tinham ficado em terra — exactamente o valor previsto pela teoria de Einstein

O tempo emerge em alguns dos meus poemas. Deixo alguns , para diversas idades...

Era uma vez…o tempo


O João é um petiz que ontem tinha 5 anos


Tem um irmão, o Luís, já mais velho, com sete anos.


Hoje o João fez seis anos Disse feliz para a mamã :


Para o ano apanho o Luís..


A mamã esclareceu: em breve o Luís faz anos;


estará quase a fazer nove quando tu fizeres sete anos.


Sempre a mesma diferença.


Quando para ti passa um ano, passa para o mano igualmente


O tempo sempre a correr, corre igual para toda a gente.


O que é o tempo mamã?


Eu vou falar-te do tempo,


vou contar-te a sua história.


O tempo é muito velhinho já tem idade avançada


sobre a qual diz quase nada.


Desde o nascer ao sol pôr e deste ao sol nascer


está sempre, sempre a correr em segundos, em minutos,


em horas, dias e anos, em séculos e milénios,


em milhares de milhões de anos.


E os relógios a marcar o tempo sempre a passar.

Podem ser eles solares, pela sombra dão a hora,


não funcionam de noite, quando o sol já foi embora.


Há os de areia (ampulhetas são chamados)


Têm dois bolbos ligados entre os quais a areia escorre.

Há os de água, atómicos, há os de quartzo, de mola

e também os pendulares, como muitos de parede.

O físico Galileu, homem de muito talento,


quando numa catedral viu os lustres oscilar de uma forma regular


(para cada oscilação sempre a mesma duração)


concluiu que com um pêndulo, podia medir o tempo.


O tempo corre veloz, nunca interrompe a viagem.


Parece um rio a correr da nascente até à foz,


sempre, sempre ,sem paragem. Mas é um pouco matreiro…


Por vezes parece lento e outras vezes ligeiro,


São coisas da nossa mente.


Quando estás entusiasmado com uma coisa interessante


passa o tempo num instante


Mas se a tarefa é enfadonha, monótona, sem qualquer graça,


parece que o tempo não passa.


No entanto, realmente, e comprova-o a ciência,

o tempo pode correr mais depressa ou devagar,


sem se tratar de ilusão.


É notória a diferença a grande velocidade, parecida com a da luz.


Para tu teres uma ideia de como a luz é veloz eu vou exemplificar:


A luz que a lua difunde, ou seja a luz do luar leva cerca de 1s até à terra chegar


e percorre nesse tempo quatrocentos mil quilómetros.


Mas que grande correria…


O mais veloz foguetão comparado com a luz é um grande molengão.


Para ir da terra à lua não leva menos de um dia.


Se depressa como a luz conseguíssemos viajar


o tempo iria passar por certo mais devagar.


Foi um físico genial quem tudo isto explicou.


O seu nome era Einstein e muito famoso ficou(...).


Tempo


Para os físicos, o tempo é uma grandeza,


não por ser grande, com toda a certeza.


É grandeza porque é mensurável


e é esta ideia que eu acho contestável.


Usando raciocínios, em geral profundos,


os físicos, a contratempo,


em horas, minutos e segundos, tentam dividir o tempo.


E ainda usam múltiplos, outras vezes submúltiplos,


como nano, pico, fento.


Ora há minutos que duram como vidas


e há vidas que nem segundos duram,


como há imagens que ficam esquecidas


enquanto outras para sempre perduram.


O tempo do calendário e da agenda


é simplesmente um tempo por encomenda.


Que saudades eu tenho do tempo de criança,


tempo da ilusão, do sonho, da esperança, tempo de quimera,


em que o tempo não era tempo,


porque o tempo, simplesmente não era.


Mas voa o meu pensamento para as crianças da rua,


que embaladas pelo vento,,  tendo a velá-las a lua,


dormem no chão ao relento,enquanto passa, alheio, o tempo.



Enigma


Donde vem o tempo que não tem reverso,


e se escoa nos meandros da memória ?


Para onde vai o tempo onde pulsa imerso


o passado, mas também o futuro e presente


que são amalgamados pela história?


Enigma profundo, o tempo.


Será um ser imponderável ou será um não ser,


pura invenção da mente?


Tudo isso, que importa?


Beija-me o sol que entra pela vidraça,


com certeza alheio ao tempo que passa.


Fresta


Qual rio, desliza o tempo. Avança a contratempo


até desaguar num ignoto vazio onde nada mais resta


senão, impassível, álgido, o frio.


Assim a luz, quase imperceptível entra pela fresta,


e agoniza quando o dia se finar.


Desintegração da persistência da memória - Salvador Dali

Para Dalí, esta imagem foi simbólica da nova física quântica, o mundo que existe como partículas e ondas . A imagem original da Persistência da Memória " pode ser lido como uma representação da Teoria da Relatividade de Einstein, simbolizando a curvatura do espaço-tempo pela gravidade

domingo, 12 de dezembro de 2010

“ Como será estar contente?

“ Como será estar contente?


Lançar os olhos em volta,


moderado e complacente,


e tratar com toda a gente


sem tristeza nem revolta?


Sentir-se um homem feliz,


satisfeito com o que sente,


com o que pensa e com o que diz?


Como será estar contente?(...)


Hoje recebi um e-mail que me deixou contente. Diziam-me para consultar um  site http://www.ecoliteracia.iec.uminho.pt/recensao_044.htm

Trata-se de uma recensão ao meu livro Ciência para meninos em poemas pequeninos

Perdoem-me a imodéstia, não resisti a partilhá-la convosco

Coletânea de trinta poemas destinados a crianças, este livro é percorrido, como o próprio título indicia, pelos topoï da ciência e da Natureza, recriando fenómenos naturais e propondo a reflexão sobre o mundo que nos rodeia. Apostados em chamar a atenção dos leitores para a realidade circundante, os textos dão conta do ciclo da água, explicam o que é a trovoada, como se forma a neve ou como funcionam fenómenos como a reflexão, a refração da luz, as fases da lua ou os balões de ar quente - tudo de forma minimal e acessível. Os pequenos e grandes mistérios da Natureza, capazes de surpreenderem e espantarem as crianças, transformam-se em mote poético para a literatura, mas também para o conhecimento. Motivando o questionamento e a reflexão, sem caírem no didatismo mais óbvio, os poemas são sobretudo pontos de partida para a descoberta da diversidade e da complexidade do mundo que nos rodeia, da vida e das suas múltiplas formas, dos elementos da Natureza, do caráter cíclico dos fenómenos e das consequências de alguns dos nossos atos, potenciando a criação de uma literacia ecológica. Alguns destes poemas apresentam os estados de coisas de modo muito indireto, como aquele em que se refere as duas bonecas de uma menina, uma deles de pasta de papel e a outra de porcelana, e a consequência de se ter dado banho à primeira, ou o risco de deixar cair a segunda. E não se furtam a alguma dimensão social crítica, como a que se manifesta no poema em que um sujeito de enunciação reclama com o Pai Natal por este ser parcial, não distribuindo os presentes de forma igualitária entre todos os meninos.


O olhar do sujeito poético, quase sempre próximo do da criança, carateriza-se pelo deslumbramento perante a variedade e a complexidade, mas também perante outras dimensões, como a beleza. É igualmente percetível uma certa ternura na forma delicada e sensível como os temas, personagens e motivos são recriados. A linguagem simples e acessível e a opção pela aproximação ao universo narrativo transformam cada texto numa história que pode continuar a ser contada depois de terminada a leitura. A formação científica da autora e a sua dinamização de oficinas que juntam a poesia e a ciência com crianças explicará a centralidade do tema.


As ilustrações, muito simples, procuram recriar as personagens ou os motivos centrais do texto, apoiando a descodificação dos mesmos. O volume inclui ainda um endereço online com sugestões de atividades a realizar a partir da leitura dos poemas.
Ramos, A. M. & Ramos, R., 2010


Regresso ao belíssimo poema de António Gedeão.

Deve haver qualquer mecânica,


qualquer retesada mola


que se solta e desenrola


no próprio instante preciso,


para que um homem de carne,


de olhos pregados no rosto,


posso olhar e rir com gosto


sem estranhar o som do riso.


Na minha tosca engrenagem,


de ferrugenta sucata,


há qualquer mola de lata


que não se distende bem,


qualquer dessorada glândula


ou nervo que não se enfeixa,


qualquer coisa que não deixa


deflagrar essa girândola


de timbres que o riso tem.


Não ter riso e não ter casa,


nem dinheiro nem saúde,


não se conta por virtude


que a miséria é ferro em brasa.


Mas ter casa, ter dinheiro,


ter saúde e não ter riso,


flagelar-se o dia inteiro


como se o sangrar primeiro


fosse um tormento preciso,


tê-lo sempre forte e vivo,


espantado a todo o momento,


isso sim, será motivo


de grande contentamento.”


(António Gadeão)


Falar em contentamento sugeriu-me outros estados de alma, como alegria e felicidade.
A  terminar incluo  um poema meu "Alegria",   a obra "Alegria de Viver" de Matisse e um vídeo sobre a obra de Henri Rousseau a quem se atribui  a frase

Nada me põe tão feliz como contemplar a natureza e pintá-la. Imagine que, quando vou para o campo e vejo o Sol por todo o lado, e verde e flores, digo para mim: tudo isto é realmente meu!

Alegria



Estou em crer que a alegria nos rodeia, dia a dia, sob a forma de vapor.


Se encontra núcleos de amor onde possa condensar


surge na forma dum riso, no cintilar de um sorriso ou no brilho de um olhar.


Mas, se por falta de amor, não consegue condensar


acaba por cristalizar em sofrimento e em dor.



A alegria de Viver (Matisse)

Obra de Rousseau

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Somos feitos de pó de estrelas….

A minha mãe teria feito  hoje 90 anos se a vida não lhe tivesse pregado uma terrível partida: aos 58 anos foi-lhe diagnosticada a doença de Alzheimer, que durante treze anos a foi destruindo dia a dia .
Eu, com os meus pais em 1955

Mãe


Como eu me lembro bem, mãe.


Catorze anos seria talvez a minha idade, uma colega do liceu


disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade


E eu fiquei toda cheia de vaidade.


Lembro-me de tanta outra coisa mãe


Do linho esticado dentro do bastidor


e dos teus bordados em ponto pé-de flor,


em matiz, ponto de sombra ou de grilhão,


ao sabor da imaginação, como o vestido da minha comunhão.
No dia da minha comunhão, com o vestido que foi bordado pela minha mãe (na foto, à esquerda)


Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão;


chamavas-lhe quitutes, mãe.


Receita portuguesa, brasileira, italiana,


ainda hoje os teus quitutes têm fama


entre os amigos que os saborearam.


Ainda há dias alguns os recordaram.


Lembro-me ainda que não era só o sabor, era o aspecto.


Em tudo colocavas muito afecto


e sempre a tua a sensibilidade infinda.


Além de sensível eras tolerante, corajosa,


lutadora, criativa, generosa.


Como eu recordo, mãe, tantas histórias inventadas por ti,


em que o sabiá e a surucucu contracenavam com o colibri,


com a jibóia e o bicho tatu.


Como eu recordo, mãe, a tua lindíssima voz de soprano


cantando árias de Verdi, de Puccini,


(da Madame Butterfly, da Traviata),


do barbeiro de Sevilha de Rossini,


ou ainda Shubert, a serenata,


tentando eu acompanhar-te no piano


que, por falta de talento, mal tocava,


o que algum desgosto te causava.


Um dia, já a tua mente muito vária,


apercebi-me de que não gravara a tua voz


Tentei então que cantasses uma ária


para ficar com os registos entre nós


Tarde demais


De reconhecer a música tu foste incapaz


Tinhas apenas cinquenta e oito anos.


E a partir daí a doença, tão voraz,


foi-te destruindo dia a dia a mente,


dia após dia causando mais danos


e eu, recusando-me a aceitar tais desenganos,


era contigo que me revoltava, mãe.


Que foi feito de ti mãe  outrora tão sensata, inteligente?


Que foi feito da tua sensibilidade,


da tua coragem e força de vontade?


Porque te deixaste assim destruir, mãe?


Ficaram as fotos, a recordação, tanto vazio no meu coração,


tantas lembranças, algumas em bocados.


Como herança deixaste o bastidor,


as partituras, as receitas, os bordados.


Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.


Por dizer ficou ainda tanto amor.



O olhar da minha neta mais velha recorda-me o seu ,e disso dou conta num outro poema, escrito quando ela tinha cerca de um ano

Mensagem


Mãe, talvez neste momento de uma longínqua estrela me estejas a olhar.


Quando olho o céu procuro vê-la mas não a sei distinguir entre as demais.


Podias mandar alguns sinais, talvez por infravermelho ou por radar.


Manda uma mensagem para o Monte Palomar,


quem sabe, algum telescópio consegue captar.


Entretanto eu vou continuar a olhar o céu.


De mim pouco ou nada há a dizer, mas talvez gostes de saber


que dei em escrever, escrevo poesias


porém, muito aquém daquilo a que, por certo, aspirarias.


Tenho, no entanto, uma notícia fabulosa para te dar,


és bisavó de uma menina cujo olhar


tem um encanto tal, tem tal magia, que nele eu vejo o teu
 
É provável que tendo nós nascido do pó de estrelas, um dia voltemos às origens



Poeira cósmica

Todos os elementos


que constituem a vida


tiveram, à partida,


há muitos milhões de anos,


origem nas estrelas.


Foi da poeira cósmica


que a espécie humana nasceu


e com ela, a poesia e a lira de Orfeu.



E porque falo de estrelas termino com excertos de um texto publicado em Ciência Hoje
Um enxame de estrelas antigas
Conhecemos pelo menos 150 enxames globulares, verdadeiras colecções de estrelas velhas, que orbitam a nossa Galáxia, a Via Láctea. Uma imagem de Messier 107, obtida com o instrumento Wide Field Imager, montado no telescópio do Observatório de La Silla, no Chile, mostra a estrutura de uma destas formações de forma extremamente detalhada. O estudo destes enxames revela novos avanços sobre a história da nossa Galáxia e de como as estrelas evoluem.

 
O Messier 107, também conhecido como NGC 6171, é uma antiga e compacta família de estrelas situada a 21 mil anos-luz. É ainda uma metrópole bastante activa: milhares de estrelas em enxames globulares como este estão concentradas num espaço que é apenas vinte vezes a distância entre o nosso Sol e a nossa vizinha estelar mais próxima, Alfa Centauro. Um número significativo destas evoluíram já para a fase de gigante vermelha, um dos últimos estádios da vida das estrelas, apresentando uma cor amarelada (....)


Os enxames globulares encontram-se entre os objectos mais antigos do Universo e como as estrelas no seu interior se formaram a partir da mesma nuvem de matéria interstelar e aproximadamente ao mesmo tempo – tipicamente há dez mil milhões de anos – são todas estrelas de pequena massa, uma vez que as leves queimam o seu combustível de hidrogénio muito mais lentamente do que as de grande massa. Os enxames globulares formaram-se durante as fases iniciais das suas galáxias hospedeiras e, por isso, o estudo destes objectos fornece-nos informação importante(...).



domingo, 5 de dezembro de 2010

Apresentações...

Como referi numa  mensagem anterior, e tendo em conta  sugestões de alguns amigos, tentei uma segunda apresentação do livro,  em dia e hora mais conveniente para alguns. Assim, vão ser feitas duas apresentações:
  • no dia 9 pelas 17 h no espaço criativo Vivacidade (Rua Alves Redol, 364 B ( a entrada é feita pela parte traseira do prédio).- ver convite na mensagem anterior
  • no dia 11, pelas 18 h no Clube Literário do Porto (convite anexo)

CONVITE


O Clube Literário do Porto (Rua Nova da Alfândega, n.º 22) convida para o lançamento do livro "Pelo sistema solar vamos todos viajar" da autoria de Regina Gouveia, ilustrado por Nuno Gouveia.

Editado pela GATAfunho, será apresentado pela Drª Paula Miguel no dia 11 de Dezembro, pelas 18h00, na Galeria do piso 2 do referido Clube, e contará com as presenças da autora e do ilustrador.





Este é o terceiro livro da autora destinado ao público mais jovem e os dois primeiros são recomendados no âmbito do PNL

sábado, 4 de dezembro de 2010

Pelo sistema solar vamos todos viajar..

Pelo sistema solar vamos todos viajar.. é o título do meu novo livro para crianças, editado mais uma vez pela GATAfunho.O lançamento será feito no próximo dia 9, no espaço criativo Vivacidade, Rua Alves Redol, 364 B ( a entrada é feita pela parte traseira do prédio). As ilustrações, como nos dois livros anteriores (ambos recomendados pelo Plano Nacional de Leitura), são do meu filho Nuno.



 
Como várias pessoas já me contactaram lamentando não poder estar presentes, atendendo ao dia e à hora, estou em diligências para agendar uma nova apresentação num sábado ou domingo à tarde. Quando tiver novidades colocá-las-ei no Blog
 
Deixo-vos com um excerto de um dos textos do livro
 
(...)Também a gata Fofinha gosta da lua cheiinha.


Deve até imaginar que é um novelo de lã

e mexe a sua patinha como se o fosse apanhar.

Num aquário redondo, um peixinho, é o Titã,

nada, nada com afã e gosta de olhar a lua.

Pensará que é um aquário com peixinhos a nadar?

Ambos estão enganados já que a Lua, como a Terra,

não é lá muito fofinha e peixinhos, nem pensar,

pois a lua não tem rios, não tem lagos, não tem mar.

Talvez por essa razão, com a água quer brincar

e brinca com o mar da Terra, fazendo as marés subir,

fazendo as marés baixar(...)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mais palavras para quê?

in http://ww1.rtp.pt/noticias/?t=Reformas-na-Suica-com-tecto-maximo-de-1700-euros.rtp&headline=20&visual=9&article=390426&tm pode ler-se


Reformas na Suíça com tecto máximo de 1700 euros (2010-11-10 )
NA SUÍÇA, AO CONTRÁRIO DE PORTUGAL, NÃO HÁ REFORMAS DE LUXO. PARA EVITAR A RUÍNA DA SEGURANÇA SOCIAL, O GOVERNO HELVÉTICO FIXOU QUE O MÁXIMO QUE UM SUÍÇO PODE RECEBER DE REFORMA SÃO 1700 EUROS. E ASSIM, SOBRA DINHEIRO PARA DISTRIBUIR PELAS PENSÕES MAIS BAIXAS.



 In  HTTP://DERERUMMUNDI.BLOGSPOT.COM/ ( 2010-11-29) pode ler-se:

A profissão de professor desaparece...
Segue-se um extracto duma entrevista de Mário Crespo a José Gil, que passou na Sic Notícias. São palavras absolutamente sinceras e verdadeiras as do filósofo e professor, tão sinceras e verdadeiras que deviam fazer parar o país para pensar no rumo que tomará, ou que está a tomar, pelo facto de os bons professores serem obrigados a desistir de ensinar: por abandono da profissão, por fadiga, por desnorte...
Mário Crespo: Uma estratégia seguida por este Ministério (…) é exigir ao professor uma ocupação total na sua tarefa, total, para lá das horas do humanamente aceitável (…) para lá das 35 horas obrigatórias, para dentro das pausas lectivas – expressão nova –, o trabalho do professor deve integrar e devorar o tempo de vida privada, de lazer (…), professor só pode ser professor (…) deixa de ser homem, deixa de ser mulher...
José Gil: Isso é quase um homicídio da profissão. A profissão de professor desaparece. Desaparece, porque é impossível fazer isso (…). Estou a lembrar-me de Paul Lenoir, um poeta, que dizia que para fazer boa poesia é preciso não fazer nada (…). É preciso que haja pausa, desafio, reflexão ruminação (….). Eu sou professor, sei que estou a defender a minha causa, mas há vocações extraordinárias, muito maiores que a minha, muito mais admiráveis que eu vejo em professores do secundário, por exemplo (...) pessoas que gostam de ensinar, que adoravam fazer o que estavam a fazer e essas pessoas vão-se embora, foram-se embora (…) sobretudo (…) porque ficam tão desgostosas por elas mesmas, por terem que fazer qualquer coisa que não gostam, que lhes destrói uma missão...

POSTED BY HELENA DAMIÃO

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O 1º de Dezembro em anos que já lá vão...

Numa mensagem que escrevi em Agosto, a propósito da peça que fui ver no castelo de Bragança, encenada pelo meu amigo de infância António Afonso, prometi que um dia falaria do tempo em que em Bragança havia necessariamente teatro no 1º de Dezembro


Não sei se os jovens de hoje sabem a razão da celebração do 1º de Dezembro. Para eles aqui fica uma breve informação

A Restauração da Independência é a designação dada à revolta iniciada em 1 de Dezembro de 1640 contra a tentativa de anulação da independência do Reino de Portugal por parte da dinastia filipina, e que vem a culminar com a instauração da Dinastia Portuguesa da casa de Bragança. É comemorada anualmente em Portugal por um feriado no dia 1 de Dezembro.


A ideia de recuperar a independência era cada vez mais poderosa e a ela começaram a aderir todos os grupos sociais. Os burgueses estavam muito desiludidos e empobrecidos com os ataques aos territórios portugueses e aos navios que transportavam os produtos que vinham dessas regiões. A concorrência dos Holandeses, Ingleses e Franceses diminuía-lhes o negócio e os lucros.


Os nobres descontentes viam os seus cargos ocupados pelos espanhóis, tinham perdido privilégios, eram obrigados a alistar-se no exército espanhol e a suportar todas as despesas. Também eles empobreciam e era quase sempre desvalorizada a sua qualidade ou capacidade! A corte estava em Madrid e mesmo a principal gestão da governação do reino de Portugal, que era obrigatoriamente exigida de ser realizada "in loco", era entregue a nobres castelhanos e não a portugueses. Estes últimos viram-se afastados da vida da corte e acabaram por se retirar para a província, onde viviam nos seus palácios ou casas senhoriais, para poderem sobreviver com alguma dignidade imposta pela sua classe social.


Portugal, na prática, era como se fosse uma província espanhola, governada de longe, sem qualquer preocupação com os interesses e necessidades das pessoas que cá viviam... Estas serviam para pagar impostos que ajudavam a custear as despesas do Império Espanhol que também já estava em declínio!


Foi então que um grupo de nobres - cerca de 40 (conjurados)- se começou a reunir, secretamente, procurando analisar a melhor forma de organizar uma revolta contra Filipe IV de Espanha. Uma revolta que pudesse ter êxito....


Em Bragança, a tradição académica tinha como celebração máxima , o 1º de Dezembro.
O teatro era uma das actividades que decorriam nas festividades . Além da apresentação de uma peça de teatro, ensaiada no meu tempo pelo Dr. Subtil ou pelo Dr. Carvalho, havia danças (folclore e não só) e pequenas rábulas.

A par destas representações havia o cortejo e o baile.

Fui encontrar num site a referência a essas festividades. A tradição foi extinta, por um lado porque hoje existe em Bragança Ensino Superior com os rituais da Queima e da recepção aos caloiros , por outro, no pós de 25 de Abril tentou colar-se o 1º de Dezembro a uma manifestação fascista.
Nada mais falso, pelo menos para a maioria, senão a totalidade dos alunos e professores envolvidos.  Por exemplo, em 1961, eu fiz de Princesa das Águas e contracenava com o Gigante Adamastor, Luís Salazar, hoje advogado que tal como o seu pai era,  já  na altura, um fero opositor ao regime do outro Salazar...
Deixo aqui excertos do que encontrei no referido site

Na altura não havia ensino superior em Bragança e o Liceu, a propósito das comemorações do 1 de Dezembro, fazia uma espécie de imitação de Coimbra. (Passadas mais de três décadas o modelo seguido pelas instituições superiores de ensino, criadas num movimento de tentativa de democratização do acesso ao saber, mima, sistematicamente, a velha universidade, como forma de manifestação social da garantia de acesso ao conhecimento, dessincronizada como o movimento criador da instituição, ou de qualquer criação).
Inédito em Bragança era o ritual de roubar galinhas; uma transgressão que, passadas tantas décadas, poucos assumem. Esta não confissão é cristalizada na frase: “Eu nunca roubei galinhas. Alguma vez ia confessar uma coisa dessas!”. Mais fácil é dizer que as comeram, que sabem de alguém que as roubou e ia na Praça da Sé, com uma mala enorme, cheia delas, com outro rapaz. Mandados parar pela polícia e, numa cena tirada de um filme da época, um dos moços larga a mala e foge, com a polícia atrás dele, enquanto e outro agarra a mala e segue caminho, até à taberna, onde estaria já preparada a combinação de matar, depenar e cozinhar, em segredo, as ditas galinhas da mala. Esta história passou-se com alguém das relações de Teófilo Vaz, que, apesar de ter chegado a Bragança numa altura em que a tradição já estava em declínio, em 1972, ainda participou em algumas comemorações do 1 de Dezembro. Segundo nos conta, tudo começava com os ensaios da peça, que haviam de apresentar depois. Teófilo Vaz refere que, durante muito tempo, o professor responsável pelos ensaios foi Fernando Subtil, que, numa noite verdadeiramente épica, apresentou Macbeth de Shakespeare. “Ele quis levar aquilo de uma forma muito realista e durou até às quatro ou cinco da manhã, com perús inteiros e jantares autênticos”.
A representação terá durado tanto que o público acabou por debandar e o secretário do Governador Civil, que tinha a função de Inspector da Direcção Geral de Espectáculos, encarregado de acompanhar as representações para ver se cumpriam o que a censura determinava, o “Dr. Carmona, acabou por “pedir ao Dr. Subtil para acelerar a representação"
Além de Fernando Subtil, há, ainda, a memória de que Graça Morais elaborou, durante um certo período, os cenários de algumas apresentações teatrais do 1 de Dezembro. “Fala-se muito nos cenários que elaborou para várias peças. Na altura tinha 16 ou 17 anos, ainda não era conhecida”, refere Teófilo Vaz.
A apresentação da peça tinha lugar no dia 1 de Dezembro. Octávio conta-nos que as comemorações começavam no dia anterior, à noite, com as serenatas. Primeiro os músicos iam a casa do Reitor do liceu. Depois, faziam serenatas às professoras ou professores que mais gostavam, em seguida, às raparigas, muitas das quais, não podiam aparecer. Essas, que não podiam abrir janela sequer, para dizer que tinham gostado, acendiam e apagavam a luz, três vezes.
No dia um de manhã, tinha lugar o cortejo(...)


Termino com imagens do 1º de Dezembro de 1961:
  • da abertura das festividades com o Dr. Carvalho, encenador nesse ano,
  • do cortejo com a presença do Reitor e do Vice-reitor bem como de individualidades da cidade,
  • do teatro em que a Princesa das Águas (eu) contracena com o Gigante Adamastor (Luís Salazar),
  • dançando uma “cota “ sendo meu par o Francisco Almeida,
  • do baile em que danço com o Fernando (hoje meu marido) e à mesa com várias pessoas, entre elas colegas e professores, um deles o Dr. Carvalho, encenador.



terça-feira, 30 de novembro de 2010

As fotos prometidas

 Tal como prometi numa das últimas mensagens, vou colocar hoje as fotos dos encontros com jovens nos Agrupamentos de Escolas  de  Alfândega da Fé e de  Arouca

                                                              Em Alfândega da Fé






Em Arouca na representação de "Era uma vez um ecoponto"





Em Arouca, sessões com diferentes grupos de alunos


 




Renovo o meu agradecimento a alunos, professores bibliotecários, professores em geral, membros dos conselhos executivos, funcionários com que contactei, pela forma extremamente carinhosa com que fui recebida em ambos os lados